SOL

BARBA A 10 EUROS E OUTRAS INTIMIDAÇÕES ILEGAIS!

Savinor: um caso a merecer a atenção da ASAE


 

"Quem trabalha na Savinor tem que ter disponibilidade e ser flexível. Caso contrário, não anda aqui a fazer nada. Se alguém mais tiver pouca vontade de trabalhar e ajudar a empresa, é favor falar comigo para ver se vos posso ajudar a serem mais felizes" (excerto de Comunicação de Serviço Interno da Savinor)

 

Parece anedota, mas não é! Em pleno século XXI, em Portugal, é possível uma empresa multar um seu trabalhador caso este vá trabalhar com a barba por fazer? A resposta é “SIM”, por mais absurdo que isso possa parecer.

 

A história foi denunciada pelo PCP a semana passada e respeita a uma empresa localizada na Trofa que dá pelo nome de Savinor (Sociedade Avícola do Norte). Ao que parece esta empresa que começou por se dedicar à actividade industrial do abate e comercialização de aves, actualmente tem o ponto forte da sua actividade na transformação de subprodutos animais.

 

E parece centrar a sua política de recursos humanos, nas mais diversas e reprováveis ilegalidades para com os seus trabalhadores (perdão: agora, é moda dizer-se “colaboradores”...).

 

«O clima na firma é "abafado", descreveu, ao JN, um trabalhador. "As pessoas são muito intimidadas, sujeitas a pressões e coacções se não cumprirem determinadas ordens. Vive-se com medo" (...)

De entre várias comunicações de serviço interno, a que o JN teve acesso, destaque-se uma, de 3 de Setembro passado, em que "Barba por fazer" é o assunto eleito. O documento tem como destinatários os motoristas que fazem as entregas de carnes aos clientes, e nele se lê que estes "todos os dias devem andar devidamente barbeados e apresentáveis". Mais: "De hoje em diante, cada vez que trouxerem a barba por fazer, serão multados em 10 euros, que serão descontados no salário de cada mês", indicando-se, em seguida, as pessoas encarregues de avaliar o estado da penugem facial dos trabalhadores. (...)

Há mais: denuncia-se, ainda, a alegada falta de pagamento de horas extraordinárias. "Temos uma escala suplementar [para entregas] a seguir ao horário de trabalho, com horas extras que não são pagas. Mas é só um motorista por dia", revelou o funcionário da Savinor, sublinhando que essa escala passou a ser aleatória. "Tramam um de cada vez e sem pagar. Até estava a correr bem. A gente fazia isso de graça, mas chegou a um ponto em que nem isso era suficiente. Agora, é quando querem, à hora que querem" (...)

num outro comunicado interno, de 30 de Outubro último, em que se acusa um empregado - nomeando-o - de não querer trabalhar, dado este ter declarado não poder alterar os horários antes estabelecidos. Lê-se, ainda: "Quem trabalha na Savinor tem que ter disponibilidade e ser flexível. Caso contrário, não anda aqui a fazer nada. Se alguém mais tiver pouca vontade de trabalhar e ajudar a empresa, é favor falar comigo [elemento da direcção comercial] para ver se vos posso ajudar a serem mais felizes".

O tom intimidatório tem continuidade noutras circulares, em que se diz que alegadas falhas dos trabalhadores, como o uso de líquido de lavagem de carros sem doseador ou a falta de assinatura numa nota de débito/crédito de tabuleiros de carne, serão cobradas aos mesmos, em forma de pagamento dos materiais em causa. "Qualquer coisinha que se passe, eles ameaçam que descontam. Se formos a assumir tudo isso, a gente não ganha para viver. Mas há quem tenha receio de perder o posto de trabalho e se cale", alerta o mesmo colaborador.» (em Jornal de Notícias).

 

Um conjunto das “Comunicações de Serviço Interno” com as intimidações descritas na notícia do JN, podem ser consultadas aqui.

 

Nem de propósito, no mesmo dia, outro jornal – o i – publicava uma outra notícia (que merece ser “cruzada” com a anterior, pois poderá ser explicação para parte do sucedido), na qual se dava conta de um debate sobre desemprego e desigualdade, que reuniu alguns investigadores universitários e empresários de vários sectores de actividade. As conclusões sobre a falta de qualificação de grande parte dos “piquenos” e médios empresários Portugueses, não é novidade nenhuma. O que é novo, é o desassombro e a frontalidade, com que isto é afirmado publicamente, num país tão habituado como o nosso a apontar o dedo aos “malandros, que não querem fazer nenhum” e a vitimizar os “empreendedores que criam emprego”...

 

«"Se calhar era útil pensar numa iniciativa do tipo Novas Oportunidades para os nossos empresários", ironizou Renato Carmo, investigador do ISCTE (...) um diagnóstico arrasador ao mercado de trabalho nacional, "onde parte da culpa estará também na qualidade dos empresários", argumentaram vários especialistas num debate sobre desemprego e desigualdade. (...) Em Portugal, mostram os dados do Ministério do Trabalho do final de 2007 (os últimos disponíveis), quase 23% dos empresários tem apenas a primeira classe. Mais de 20% dos empregadores tem, no máximo, o terceiro ciclo do ensino básico (o antigo 9º ano, actualmente a escolaridade obrigatória). Este perfil é mais ou menos semelhante quando se olha para o resto da população activa, para os trabalhadores. Destes, cerca de 22% tem a primeira classe e apenas 22% acabou a escolaridade obrigatória. (...) Será que as baixas qualificações e habilitações dos empresários - supostamente, a elite empreendedora que puxa pela economia - são uma causa relevante para o insucesso dos seus negócios e consequente subida do desemprego, como hoje acontece? (...) A questão incendiária foi levantada por Alfredo Bruto da Costa, presidente do Conselho Económico e Social, que acolhe as negociações laborais entre governo, sindicatos e patrões. "Como é que queremos mais produtividade e emprego com as qualificações que temos ao nível dos empresários?" (...) Paulo Nunes de Almeida é dono de uma PME do sector do têxtil e vestuário, a TRL. O empresário alerta que "é sempre perigoso fazer generalizações", mas "obviamente que o nível de habilitações das pessoas é importante para a capacidade de inovação, sobretudo nas empresas mais pequenas" (...) Na opinião de Carlos Pimenta, director-geral da SIIF Énergies, "o país é o que é e a maioria dos empresários reflecte isso"» (em Jornal i)

Voltando à Savinor, refira-se que a sua Administração veio em comunicado esclarecer «que desconhecia o conteúdo das referidas circulares e que "repudia completamente o tipo de linguagem utilizada". A Savinor adianta que lamenta o tom e estilo de algumas comunicações referidas, não o considerando aceitável. A Savinor não aplicou a nenhum dos seus trabalhadores qualquer sanção pecuniária em virtude do uso de líquido de lavagem de carros sem doseador ou em virtude da falta de assinatura de notas de débito/crédito de tabuleiros", pode ler-se no comunicado da empresa. Esclarecendo que "esta forma de actuação não faz parte do tipo de comportamento nem da Savinor, nem de qualquer empresa do Grupo em que a Savinor se insere", a administração informa que "a situação já foi alvo de nota interna".» (em Notícias da Trofa) negando ainda segundo o mesmo jornal, qualquer incumprimento do pagamento de horas extraordinárias: «são escrupulosamente cumpridas as regras referentes ao pagamento do trabalho suplementar». Tudo isto é estranho pois uma administração que desconhece uma série de documentos internos com conteúdos tão pouco ortodoxos como os citados, andará muito distraída e, por certo, controla muito pouco a actividade dos seus responsáveis subalternos que os teriam produzido e publicado...

 

Acresce que esta é uma empresa com um triste historial a nível ambiental, como pode o leitor verificar aqui e aqui, onde são referidos casos recentes. de 2008, que apenas são réplicas de outros idênticos de um passado mais distante...

 

Este caso é apenas mais uma evidência de que a legislação aplicável ao sector laboral, não pode colocar em pé de igualdade os empregadores e os empregados pois de facto o “peso” de ambas as partes é absolutamente distinto: na maioria das vezes, os primeiros se valem (quando a ausência de escrúpulos o permite) da situação de dependência – pode ler-se “sobrevivência” – dos segundos do seu “posto de trabalho”... Algo que não foi tido em conta na elaboração do chamado “Código Bagão Félix”. Nem na revisão de que o mesmo foi objecto por parte do anterior Governo, este aspecto foi atenuado da forma que se impunha! Resta esperar que exemplos como este sejam cabalmente esclarecidos pelas entidades competentes e que as responsabilidades sejam assacadas à Empresa, pois não me parece lógico (e muito menos, justo) que uma Administração possa argumentar desconhecimento de tão gritantes arbitrariedades conseguindo assim, ficar impune... E o caso não é único. Longe disso. E não só de PME’s, se vão ouvindo histórias aqui e ali de tentativas de instituir os chamados dress codes e outras normas de “apresentação” que só são justificáveis em determinadas funções (como as do atendimento público, por exemplo) e que, nesses casos, devem ser sempre claras rigorosas e contratualizadas. O que nem sempre sucede.

 

Pergunto pois, onde pára a ASAE, que ainda não actuou neste caso? E no caso da Corticeira Amorim, já agora? Vários dias já decorreram depois de se ter conhecido a insinuação de falsas dificuldades para justificar 200 despedimentos, sem que nada tenha sucedido... Estranho também que quem passou meses em campanhas eleitorais de cariz populista, dizendo-se defensora das “piquenas” e médias empresas, perante estas arbitrariedades, tenha mantido o silêncio sobre o assunto. Ficava-lhe bem uma crítica a esta lamentável actuação empresarial. Até para a diferenciar dos empresários honestos que actuam de forma diferente...

 

A finalizar, não posso deixar de me interrogar se a preocupação em ter alguém que diariamente inspeccione o tamanho capilar das faces dos cavalheiros desta empresa, será também extensível às damas suas colegas... é que não vi nenhuma das tais comunicações de serviço a ameaçarem as senhoras que fossem trabalhar com as axilas sem estarem devidamente depiladas... Um lapso grave de higiene, senhores metrossexuais da Savinor! E uma falha na coerência da “coisa”: sovaco de moça, peludo, devia dar multa da grossa!!!


Publicação: Sunday, November 22, 2009 4:50 AM por xadrezismo

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