E se fosse hoje?
“Nasceu” ontem um novo blogue colectivo, que promete.
Trata-se do Albergue Espanhol.
Conotado como sendo de direita, dados alguns dos nomes que integra neste seu
arranque, antevê-se qualidade e seriedade nos escritos.
Seguí-lo-ei com alguma atenção, pois escreverá ali gente a que
reputo uma honestidade intelectual a toda a prova, independentemente das
preferências ideológicas estarem longe das minhas na maioria dos casos.
Pedro Múrias,
estreou-se no Albergue, com uma espécie de declaração de
interesses muito sui generis. Desde logo, pela evocação da memória de
seu pai, Manuel Beça Múrias, um dos Jornalistas que ficará para sempre
na história da comunicação social em Portugal. Depois porque evoca um episódio
real desconhecido, penso, até hoje da maioria do grande público. E fá-lo
projectando no momento presente a repetição do mesmo e os efeitos que causaria,
com ironia e imaginação. Pelo meio, com subtil mordacidade, uma crítica a alguns
comportamentos da sua classe profissional...
Reproduzo na íntegra este “Processo nádega
oculta” de Pedro Múrias e permitir-me-ei a uma ousadia
posterior, pela qual desde já apresento ao autor o meu pedido de desculpas...
Processo nádega
oculta
(a
apresentação de Pedro Múrias, no Albergue Espanhol)

«A maior parte dos meus colegas de "Blog" não me conhece.
Assim sendo, passo a descrever-me, na esperança de que corram comigo
do "Albergue" à paulada, e me poupem à trabalheira de escrever aqui
todos os dias. É que estou de "baixa", e adoro estar de
"baixa". E daqui vou transitar para o "subsídio de
desemprego", o que ainda me vai dar mais um bons cem euros por mês.
Bem, por isso, para que a boa vida continue, aqui vai uma pista
sobre o meu passado:
Sou o único jornalista português - vivo - que já esteve todo nu no
quintal de um Primeiro-Ministro (o outro jornalista que poderia reclamar o
mesmo feito, era o meu pai, Manuel Beça Múrias, falecido em 1987).
Refiro-me ao então chefe do governo, e mais tarde Presidente da
República, Dr. Mário Soares.
Nunca fiz reportagens no Iraque, usando coletes do Coronel Tapioca.
Nunca fui convidado da SIC Notícias, TVI24 ou RTP N para fazer os comentários
às primeiras páginas dos jornais. Nunca fui ao programa Clube de Jornalistas
falar da profissão. Não sou comentador político e de futebol ao mesmo tempo.
Não pertenço a nenhuma tertúlia de má língua produzida pelas Produções
Fictícias ou outras empresa de conteúdos (mas tenho pena porque devem pagar
bem!), e já não vou ao bar SNOB cheirar aquela carpete perfumada por anos de
angústia, má língua, tabaco e Jameson, desde o dia do primeiro concerto dos
Rolling Stones, em Alvalade.
Mas já estive todo nu na casa da Praia do Vau e as minhas cuecas
estiveram por segundos em cima tejadilho do mítico Renault 16 vermelho de Mário
Soares. As cuecas do meu pai, que por acaso eram minhas, pois ele tinha esse
péssimo hábito de me gamar roupa interior do cesto de roupa para engomar,
decoraram por igual espaço de tempo, o igualmente mítico Citroen CX Prestige,
estacionado ao lado.
Vínhamos da Praia, onde demos um longo passeio quase até à
Meia-Praia com Mário Soares (atenção General Ramalho Eanes, o seu nome foi falado
algumas vezes!), e trocámos de roupa à pressa para continuarmos o nosso
trabalho já em casa do ex-PM e ex-PR.
Outros tempos, dizem bem, os meus amigos e outros ressabiados e
saudosistas como eu.
Bem, mas imagino o que seria hoje estar nu no quintal de José
Sócrates. No mínimo mais um processo, o processo Nádega Oculta, nascido depois
de uma escuta ao actual PM, gravada por um magistrado de Aveiro, onde Sócrates,
alegadamente (importante não esquecer de escrever alegadamente) diria a Armando
Vara:
- Vê lá tu que tenho dois
jornalistas nus na garagem cá de casa!»
E lá vai o meu atrevimento: acredito que Pedro Múrias não terá
terminado o seu texto, talvez de forma propositada, para estimular a imaginação
de cada leitor relativamente a este eventual “processo nádega oculta”. Se não
foi esta a intenção do autor, a mim estimulou-me a pouca imaginação que tenho!
Ao ponto de antever mais efeitos da ocorrência descrita:
Imagino:
- A 1ª página do Sol, com um título a toda a largura com
fonte tamanho XXL: “NÁDEGA OCULTA: DESCOBERTOS DOCUMENTOS QUE COMPROMETEM
JOSÉ SÓCRATES”. Mais abaixo, em fonte menor (XL): “ENCONTRADOS EM MOITAS
DOS JARDINS DE S. BENTO”
- O regresso de Manuela Moura Guedes às pantalhas
televisivas, com a abertura de um serviço noticioso a ser dedicada ao assunto:
“A TVI sabe que José Sócrates tem o hábito de promover reuniões com
jornalistas nus. Uma fonte próxima do primeiro ministro garantiu-nos que o
método faz parte da estratégia de Sócrates de intimidação dos jornalistas.
Temos um DVD que comprova várias destas reuniões secretas, com imagens
verdadeiramente chocantes que passaremos mais à frente neste serviço noticioso.
Tivemos acesso ao processo e sabemos que vários Ministros deste Governo constam
do mesmo como alegados cúmplices desta estratégia. Revelaremos também hoje,
novos dados: temos uma escuta de um telefonema onde um assessor de um
ex-subsecretário de Estado, incita um jornalista a cometer o crime da prática
de nudismo fora de uma das praias onde o mesmo é permitido! De imediato, vamos
ouvir o depoimento de um sobrinho, por afinidade, do primeiro ministro,
ex-aluno da Casa Pia, que estudou Direito ambiental na Universidade
Independente e que é empregado de mesa num dos restaurantes do Freeport, onde
Armando Vara já foi visto várias vezes a almoçar... robalo assado, que nos faz
revelações bombásticas acerca desta tendência que o tio tem, para condicionar
as pessoas com quem se reúne, levando-as a despirem-se...”
- os partidos da oposição parlamentar, a exigirem de imediato, a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, tendente a apurar o que faziam
dois jornalistas nus nos jardins de José Sócrates. Os deputados proponentes
pretenderiam ouvir, entre outros, os próprios fabricantes das cuecas dos
jornalistas.
- Cavaco Silva, instado a pronunciar-se sobre o caso, a
declarar que “como sabem, o presidente da república não deve emitir opiniões
sobre essa matéria, que é da exclusiva competência da Justiça” para
prosseguir de imediato “a minha atenção está nas preocupações com a
possibilidade de o crescimento económico ser prejudicado, de o endividamento
externo ser agravado, de o desemprego aumentar, se as pessoas começarem a
habituar-se a não usar roupa nas reuniões com o governo! E essas são as
verdadeiras preocupações dos portugueses e tudo farei para evitar que hajam
consequências para o país, resultantes de alguma conduta menos própria de
qualquer entidade pública! Mas como disse, do caso não devo falar, pelo que
jamais ouvirão algum comentário meu sobre o assunto!”.
- Enquanto isso, Fernando Lima, o conselheiro-que-Cavaco-deixou-pensar-se-que-teria-sido-demitido-enquanto-lhe-preparava-a-promoção, esgotava o stock de café de uma conhecida pastelaria da Av. de Roma, desmultiplicando-se em encontros conspirativos com jornalistas "amigos", a quem tentava convencer de que o caso nádega oculta era uma forma de Sócrates conseguir que enquanto os jornalistas se encontravam despojados das suas roupas intímas,alguns assessores do PM dissimulassem nas suas cuecas, potentes microfones, permitirindo assim que o PM escutasse as conversas em off, que Cavaco tivesse quando esses mesmos jornalistas o fossem entrevistar...
- Manuela Ferreira Leite, a garantir aos portugueses que, “fosse
eu primeira ministra, este episódio seria impossível de acontecer!”
explicando de um fôlego com um ar algo contristado: ”Alguém imaginará um
jornalista com vontade de se despir à minha frente!?”
- Jerónimo Sousa, a dizer que “as políticas de direita
deste governo, conduzem a estas situações. E é contra as políticas de direita
deste governo e do PS, que o PCP se bate e continuará a bater.”.
- Francisco Louçã, a afirmar com veemência “a frontal e
total abertura do Bloco, face à evolução dos hábitos e costumes dos
portugueses, sem deixarmos de estar atentos a todas as envolventes que possam
rodear o assunto e que a investigação judicial em curso deverá apurar.”.
- Paulo Portas, a pronunciar-se em defesa dos “valores
das famílias dos jornalistas envolvidos no caso” para de imediato lembrar
que “se a reunião fosse com representantes da lavoura, esta situação não
aconteceria! Os agricultores, estão habituados a proteger os seus tomates e
restantes produtos hortícolas das agruras atmosféricas, pelo que nunca
despiriam as cuecas em qualquer espaço exterior, ‘tá a ver?”.
- Os comentários de Santana Lopes e os textos que publicaria na imprensa e no seu blogue, lembrando qiue "mais uma vez tive razão antes de tempo, mas ninguém me quis ouvir... quando há mais ou menos 5 anos, na campanha eleitoral, levantei dúvidas sobre as orientações sexuais do meu opositor! Homens nus a conviverem no jardim!? Mas está tudo doido? Quer dizer, no meu tempo, não me lembro de lá ter andado alguém nu... a não ser... duas amigas minhas de Cascais... já com algumas rugas... mas isso agora não vem ao caso! E é completamente diferente! Foi até um gesto de caridade da minha parte!"
- Medina Carreira, virando-se para Mário Crespo, a dizer que "isto é uma palhaçada! Então os tipos vão ao PM com uns boxer's feitos na China!? Assim o país vai para o abismo!!!", ou então: "o que é que interessa as cuecas serem feita em Vila do Conde? Então toda a gente não sabe já que a industria têxtil está falida e que o país caminha para o abismo!? Isto é uma palhaçada!", conforme a origem das cuecas dos jornalistas...
- O Arquitecto Saraiva, director do Sol, a denunciar que "alguém próximo de Sócrates o ameaçara uma vez de não lhe devolver as cuecas caso não prometesse que punha a Felícia Cabrita a investigar os mistérios da migração das andorinhas, em vez de passar o tempo em conversas com procuradores do MP e investigadores da PJ para obter mais fugas de informação de outros processos incómodos para o PM" Saraiva concluiria de seguida que "na altura até me pareceu agradável a proposta, pois só em despesas de representação, em jantares nos melhores restaurantes de Lisboa, a coisa saía-me cara. Especialmente depois de o desastrado Lima ter "queimado" aquela pastelaria da Av. de Roma, que nos ficava tão em conta, para estes contactos!".
- José Castelo Branco, a prestar declarações à Lux: “Quero
lá saber disso! Que horror! Ainda por cima, as pirosas vestiam
boxer’s Chiavano! Eu é que lá hei-de ir a S. Bento e com umas cuequinhas
Versace de renda, fio dental, que a minha Lady me ofereceu! E verão o
sucesso... mesmo sem as despir! Huuuu!!!!”.
- E por fim, passadas 3 ou 4 semanas de o caso vir a público,
saber-se que afinal não fora nos jardins de S. Bento que acontecera o caso, mas
sim num jardim público ao lado do muro do Palácio. E que Sócrates não estivera
lá, nem sequer qualquer jornalista... tratara-se apenas de dois rapazolas
embriagados que decidiram aliviar as bexigas de encontro a duas árvores!
Após esta divagação, deixo os votos de longa vida a este novo Blogue! Que, acredito, citarei aqui com alguma frequência.