SOL
Paris Review
20 November 09 12:00 PM

NUMA atractiva edição da Tinta da China (o que não é surpresa), Carlos Vaz Marques (que é, provavelmente, o melhor entrevistador da rádio portuguesa), editou uma antologia (espera-se que seja apenas a primeira de uma série) do que considerou as melhores entrevistas da famosa Paris Review. A opção levou-o a incluir apenas autores já desaparecidos (o que aumenta o interesse pelas entrevistas, uma vez que ninguém pode voltar a ouvi-los) e a editá-los numa ordem relativa de antiguidade (o volume começa com E.M. Forster e acaba com Jack Kerouac).

 

Pode contestar-se o critério de algumas escolhas, sobretudo depois de ler algumas menos interessantes (Graham Greene, por exemplo) e poder imaginar outras que ficaram de fora (Nabokov é o primeiro que me ocorre). Mas, seja como for, o livro oferece-nos momentos fantásticos de convívio com a pessoa dos entrevistados e com as suas ideias. Os prefácios às entrevistas encarregam-se de nos situar o escritor no seu habitat e nos seus hábitos e de nos descrever o modo como encararam as entrevistas: no caso de Pasternak, por exemplo, é mais o personagem que emerge, no caso de Durrell (uma das mais brilhantes), é o fulgor das suas considerações sobre a arte do romance e sobre o seu trabalho que ressalta e impressiona. «Acho a arte fácil. Acho a vida difícil» – diz ele a rematar a entrevista.

 

SAUL Bellow, por sua vez, ao exigir uma atenta e meticulosa revisão do que disse (e é talvez por isso que é o menos bem servido pela tradução), revela um aspecto da sua personalidade, controlado e preocupado com a imagem que transmite de si, mas deixa-nos reflexões luminosas sobre o papel do romance de ideias e o romance de comportamentos (a propósito da tentação niilista e da atracção pelo absurdo do romance moderno, Bellow termina a entrevista, também ele, com uma frase lapidar: «Talvez haja certas verdades no Universo que, afinal, sejam nossas amigas»).

 

AS ENTREVISTAS com os mais americanos dos entrevistados (Faulkner, Hemingway e Kerouac) são, por outro lado, as mais espontâneas, e aperfeiçoam o retrato que temos deles: o discurso de Faulkner é bíblico («A consciência moral do homem foi a maldição que ele teve de aceitar dos deuses, de modo a obter deles o direito a sonhar»), o de Hemingway, impertinente (a propósito da últimas página de O Adeus às Armas, que ele reescreveu 39 vezes, George Plimpton pergunta-lhe se teve algum problema técnico, e Dom Ernesto responde-lhe: «colocar as palavras como deve ser!»), o de Kerouac, delirante e cabotino.

 

MAS, se eu tivesse que eleger uma entrevista, era a de Borges que escolhia, uma pérola que se lê e relê com um prazer infinito, onde ressalta a inteligência, a curiosidade, a juventude de espírito e a agilidade mental de um homem cego e gasto, mas capaz de dizer coisas como esta: «A epopeia, estranhamente, foi salva para nós pelo western».

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Das duas, uma - 13 de Novembro 2009
13 November 09 12:00 AM

PREPARAVA-ME para escrever sobre uma antologia de entrevistas com grandes escritores, publicadas na Paris Review, que acaba de sair, quando um amigo me chamou a atenção para uma entrevista no i, em que, a propósito do seu último filme, o meu velho amigo Fernando Lopes (FL) me acusa de ter uma opinião incoerente sobre a ‘política de subsídios’ ao cinema. Não vi ainda o seu último filme, e faço questão de lhe responder antes de o ver. De que me acusa FL? De atacar a ‘política de subsídios’, segundo ele inevitável dada a exiguidade do nosso mercado que não permite que haja uma indústria, e de, ao mesmo tempo, beneficiar de subsídios, sem os quais, como adianta, é praticamente impossível filmar em Portugal. Ou seja, eu como ele, somos dois ‘subsídio-dependentes’, com a diferença de que ele não se queixa e eu sim.

 

COMO não imagino que FL esteja de má fé, só posso atribuir a sua diatribe à incapacidade de ultrapassar a lógica do controlo do cinema pelo Estado, criada por Marcelo Caetano e que se perpetuou até hoje, e de imaginar que é possível outro sistema que, sem dispensar a intervenção do Estado (que é indispensável), nos liberte de uma ‘política do gosto’, que é aquilo que resulta dessa espécie de Jogos Florais, que são os concursos do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA). De facto, o Estado delega em cinco criaturas, que compõem os júris dos concursos, a decisão sobre o cinema que o país deve ter, os filmes que o público merece ver e os cineastas que são dignos de filmar. Não falo sequer dos critérios da escolha dos jurados que se prestam ao exercício de julgar os guiões e as aptidões dos realizadores, nem dos critérios de avaliação, sujeitos a toda a espécie de batota. O que eu condeno é o princípio de remeter para o Estado esse papel.

 

HOJE, na lei, já existe o princípio, justo, de obrigar os vários agentes da comercialização (distribuidores, cadeias de salas, editores de vídeo, plataformas de TV, canais generalistas e especializados) a reinvestir uma parte do volume de negócios na produção cinematográfica e audiovisual. Isso seria o bastante para criar uma indústria e um mercado para os nossos filmes, desde que se interrompesse a lógica perversa de fazer reverter para o ICA e para o novo fundo (o FICA) as verbas que daí se obtêm, deixando que fossem os próprios a decidir em que filmes querem investir o seu dinheiro. Ao Estado cabem outras tarefas: legislar, regular, fiscalizar, incentivar, financiar, através de instrumentos como o capital de risco e incentivos fiscais, permitindo assim que surja finalmente uma rede de produtores independentes com margem para arriscar no talento. Agora que temos uma nova ministra da Cultura era bom que se desfizesse esta nuvem de fumo com que se quer desacreditar quem combate o iníquo e perverso sistema dos subsídios, que só subsiste por inércia, má fé, estultícia ou comodismo.

 

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Das duas, uma - 6 de Novembro 2009
06 November 09 12:00 AM

UMA das coisas que me atrai nas grandes cidades como Paris ou Nova Iorque são as livrarias. Desde adolescente que a descoberta dos livros – sobretudo dos romances – é a minha grande paixão. Passear numa livraria e descobrir um autor ou um livro que suspeitamos nos vai abrir as portas para o mistério e para o deslumbramento, pôr-nos em contacto com personagens extraordinários cujo destino não resistimos a partilhar, a descrição de uma paisagem ou de um sentimento, o lado encantatório da prosa, a magia de um adjectivo, são prazeres inefáveis que me moldaram para sempre o carácter, a memória e o destino.

 

EM Portugal, as livrarias são, quase sempre, desoladoras. É raro encontrar um livro que se procura, ou porque não foi editado ou porque está esgotado ou, simplesmente, porque o espaço a que tinha direito foi sacrificado a uma novidade. 48 anos de ditadura ajudaram a agravar a situação: o analfabetismo e uma censura feroz contra tudo o que pudesse abalar os pilares do regime – Deus, Pátria, Família e Autoridade – fecharam as portas do conhecimento a várias gerações. Tive a sorte de ter vivido em Paris na  juventude, o que me permitiu saciar a minha curiosidade pela leitura e superar o défice de edições que havia em Portugal. Foi isso que me permitiu, em poucos anos, ler todos os autores importantes franceses, de Stendhal e Molière a Malraux e Céline, mas também tudo o que de importante havia sido escrito noutras línguas, de Emilie Bronté e Melville a Hemingway e Musil, em traduções impecáveis e edições prefaciadas e anotadas. Desde as edições de poche, acessíveis à minha bolsa, às edições da Pléyade, que eu cobiçava e a que muitas vezes sacrifiquei um bom bife, havia tudo nas livrarias. Depois, os prefácios remetiam-nos para outros autores e foi assim que eu, autodidacta, criei a minha biblioteca imaginária.

 

HÁ dias, tirei umas horas para ir ver as últimas novidades editoriais e descobri, por exemplo, que um dos romances mais importantes do século XX, A consciência de Zeno, de Italo Svevo, esse escritor raro e precioso, que eu lera, como o resto da sua obra, aos vinte e poucos anos, na tradução francesa, só agora chegava ao público português. Como a maioria dos clássicos (e Svevo já é um clássico) não há edições portuguesas e muito menos edições críticas de quase nada. O que faz uma cultura não é apenas a capacidade de produzir literatura de referência; é também a capacidade de absorver outras culturas. E isso passa pela tradução. Tenho para mim que uma das razões do nosso atraso deve-se a isso: à ignorância sistemática dos clássicos. Agora que temos novas ministras da Cultura e da Educação, porque não porem-se de acordo para lançar um programa de apoio à edição sistemática dos livros que constituem o património universal da ficção, em edições cuidadas e acessíveis a todos?

 

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Das duas, uma - 30 de Outubro 2009
30 October 09 12:00 AM

Novo Governo, novo ministro da Cultura (MC). O que será a política da nova habitante do Palácio da Ajuda é uma incógnita. Como já tive ocasião de escrever, os programas dos partidos (com excepção do CDS) são vagos sobre a matéria. E os ministros que sucessivamente ocuparam a pasta, mesmo quando são do mesmo partido, agiram sempre por conta própria, não em obediência a qualquer programa ou estratégia do partido ou do Governo. Nos governos Guterres, sucederam-se três ministros, com políticas (melhor seria dizer, práticas) diferentes: Carrilho (que mudou de estratégia a meio do mandato), Sasportes e Santos Silva. Depois, com Durão Barroso, foi a vez de Pedro Roseta; e, no breve reinado de Santana Lopes, Maria João Bustorff. Com Sócrates, sucederam-se Isabel Pires de Lima e Pinto Ribeiro. Ninguém sequer percebeu o que queriam. E, como Sísifo, a cada nova nomeação, recomeçou tudo de novo.

 

Com um governo minoritário, a tarefa, neste como noutros ministérios, torna-se mais delicada: a indecisão sobre o futuro do executivo paira sobre a cabeça dos ministros. Mas, para um ministro com ideias claras, esta incerteza obriga a agir depressa: é importante dar sinais inequívocos, em áreas sensíveis como as artes vivas (teatro e cinema, sobretudo), se se quer mudar ou apenas gerir a rotina. Pelo que leio, Gabriela Canavilhas parece ser uma mulher decidida a deixar obra – ou, pelo menos, marcas de um desígnio.

HÁ dias, no programa Sociedade Civil, da RTP2, tive ocasião de discutir com o vice-presidente interino da Cinemateca/ANIM, Pedro Mexia, e com a jovem actriz Catarina Wallenstein, a situação do cinema. E pude reforçar algumas convicções sobre o que é preciso mudar, e que deixo aqui à consideração da MC. A primeira é que era necessário que ela se entendesse com o ministro Mariano Gago para fazerem uma reforma total da Escola de Teatro e Cinema, o organismo público responsável pela formação dos novos actores e dos novos cineastas, e que, no caso do cinema, pelo absurdo divórcio entre as duas Escolas e pelo seu autismo, tem sido um instrumento de perpetuação de uma ideia da 7ª Arte que parou nos anos 70.

 

Quanto à Cinemateca, a ministra vai ter que nomear um substituto para o anterior director, João Bénard da Costa. É uma decisão importante pelo sinal que vai dar sobre o que se espera da instituição: se uma continuação da ênfase na difusão de uma cinefilia militante ou na preservação e activação do património nacional, sem sectarismos nem parti-pris.

 

E, para falar apenas do cinema, é urgente repor a funcionar o que está em vigor – no ICA e no FICA – sem prejuízo de repensar e alterar radicalmente o papel do Estado no sector. Para começar, porque não repor o Conselho de Cinema do ICA, onde tinham assento todos os agentes da actividade, e não apenas os ‘criadores’, e dar-lhe, desta vez, poderes vinculativos?

apvasconcelos@gmail.com

 

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Das duas, uma - 23 de Outubro 2009
23 October 09 12:00 AM

Nós, portugueses, temos um estranho problema com a memória: dir-se-ia que preferimos esquecer as coisas boas que tivemos, porque isso nos obrigava a ser dignos do passado e nos responsabilizava com o presente. Por isso, devemos saudar estas comemorações dos dez anos sobre o desaparecimento de Amália, sobretudo porque não são uma romaria nostálgica ao passado, mas uma oportunidade para lançar novas edições, publicar novos textos, descobrir novos documentos e produzir outros a propósito da sua vida e da sua obra.

 

Faltava um filme que fizesse jus a um personagem decisivo na viragem da carreira de Amália: Alain Oulman, o Pitou, para os mais íntimos. Quis o destino que tivéssemos um neto em comum, mesmo se Pitou morreu praticamente quando ele nasceu. Talvez isso me tenha ajudado a apreciar o fantástico trabalho que o seu filho, Nicholas Oulman (N.O.), lhe dedicou – Com que voz – e que foi exibido no DocLisboa. É certo que o facto de ser feito pelo filho facilitou o acesso aos testemunhos da família e a documentos íntimos, mas isso só torna o documentário mais rico e mais emotivo. E é de aplaudir o pudor de N.O. em se apagar, mesmo se percebemos que o filme é uma espécie de viagem à descoberta do pai, muito tempo ausente e precocemente desaparecido.

 

Uma das coisas admiráveis, além do minucioso, exaustivo e amoroso trabalho de pesquisa, é que N.O. não tenha hesitado em se alongar (o filme tem cerca de 110 minutos), ignorando as apertadas exigências dos formatos de TV. Ficamos-lhe a dever isso, que nos permite ver e ouvir calmamente os testemunhos de pessoas que o conheceram e admiraram (o de Amoz Oz é admirável), percorrer todas as fases da sua vida, percebê-lo melhor nas suas múltiplas facetas profissionais e pessoais. O testemunho de Tich é um documento de uma grande dignidade, o testemunho da mulher e da mãe que acabou por sofrer com o seu apego ao trabalho, com a prisão e o exílio, e sobretudo com o seu obsessivo investimento na carreira da Amália. Os grandes artistas fazem vítimas, mas o mundo agradece-lhes.

 

N.O. deixou para o fim o extraordinário documento, filmado por Fonseca e Costa, que nos mostra o pai ao piano, a ensaiar com Amália um novo fado. Vê-lo na íntegra, no final da viagem, torna-o um momento luminoso, comovente e único. Amália era uma cantora sublime e uma mulher de uma beleza e de uma inteligência raras, e o seu encontro com Alain foi um dos grandes encontros da História da música do século XX.

 

Desde que comecei a fazer filmes, nunca mais critiquei o trabalho de um colega de que não gostasse (com uma excepção, de que me arrependo). Mas não resisto a dizer, agora que o filme Amália já fez a sua carreira, que, entre outros méritos, este trabalho de N.O., repõe a verdade e a dignidade sobre Alain, tão mediocremente tratadas no filme: nem sempre a ficção ajuda a lenda.

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 16 de Outubro 2009
16 October 09 12:00 AM

Corria o ano de 2005 quando o António Lobato Faria, na altura director da Oficina do Livro, me convidou para apresentar a edição portuguesa de Entre ossos e a escrita, que a Maitê Proença acabara de publicar. Como achei o livro divertido e inteligente, revelando uma mulher que, a caminho dos 50 anos, aliava a uma rara beleza, uma sensualidade e uma elegância de espírito admiráveis, que tratava os homens com amorosa admiração e sem ressentimentos feministas, foi fácil dizer que sim. Daí nasceu uma simpatia, que reforçou a minha admiração pela mulher e pela actriz.

 

É difícil perceber, conhecendo-a, o que a levou a fazer um vídeo em Lisboa, em 2007, para um programa em que participa no Brasil, Saia Justa, e que, dois anos depois, alguém descobriu, pôs a correr na net, e ameaça mesmo criar um incidente diplomático entre Portugal e o Brasil. Filmado por uma equipa portuguesa (para cúmulo), Maitê andou por Sintra e por Belém e aproveitou para gozar com os portugueses e com a nossa História. O tom do vídeo é infeliz e revela uma alegre ignorância e um despropositado desdém por Sintra, pelos Jerónimos e pelos nossos hábitos, caricaturados no relato jocoso de um incidente com um computador, no hotel onde estava instalada, e que, para gáudio das quatro mulheres que a acompanham no programa, pretendia ilustrar o nosso atraso, a nossa boçalidade e o nosso provincianismo.

Está por fazer um estudo sobre as relações entre os nossos dois povos, que explique essa espécie de complexo de Édipo do ex-colonizado, em que a mãe e o pai se confundem respectivamente com a língua e com o imperador. O que alguns brasileiros parece não nos terem nunca perdoado foi todo o processo da colonização: o achamento, o povoamento, a cristianização, a unificação e, mais do que tudo, suspeito eu, o paternalismo da independência. Mas devemos-lhes a relação amorosa que criaram com a língua materna, a que eles deram a música que nos faltava, a cor e a vivacidade que perdemos; devemos-lhes a bossa nova como réplica ao nosso fado, o génio de Machado de Assis e de Drummond de Andrade, de Caetano Veloso e de Chico Buarque.

 

Maitê foi infeliz e já pediu desculpa, invocando o direito ao humor, quando se tratava apenas de mau gosto. É natural que os portugueses se sintam ofendidos por alguém que, ainda por cima, acarinham e admiram. Mas reagir como estão alguns a fazer, com comentários grosseiros na net e com ridículos abaixo-assinados, é arriscarmo-nos a dar-lhe razão. Como toda a gente sabe, no Brasil, os portugueses são tratados como os alentejanos das nossas anedotas. Neste triste episódio, em vez de petições e insultos, melhor seria respondermos com humor, como aquele alentejano que tinha uma tasca e um dia recebeu a visita de um lisboeta que lhe perguntou se ali também serviam cachorros: «Ó amigo, a gente aqui serve toda a gente!»

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 9 de Outubro 2009
09 October 09 12:00 AM

Dentro de dias saberemos quem é o novo ministro da Cultura. Por isso, e para encerrar, pelo menos por agora, o tema da política para o sector, deixo aqui algumas notas avulsas e necessariamente breves sobre o que entendo serem as tarefas do futuro titular da pasta. A transformação da secretaria de Estado em Ministério da Cultura (MC) acentuou a tendência para nomear um intelectual a quem, depois, se deixa as mãos livres para fazer o que quiser. Normalmente, produz umas proclamações solenes sobre a importância da política da língua, vazias e inócuas, sem substância nem programa, cita a frase passe-partout de Pessoa «a minha Pátria é a língua portuguesa», e o resto são acções pontuais, subsídios e inaugurações.

 

Quando De Gaulle criou o MC para o seu amigo Malraux, não só este era o intelectual mais prestigiado de França, como este era ainda um país com uma irradiação cultural que ofuscava os seus rivais. O que não é o caso com Portugal, onde é preciso começar pela base e onde teremos que esperar várias gerações para termos um país culto e instruído. Por isso tenho insistido em que é preciso, antes de mais, rever a forma de intervenção do Estado na cultura e, em consequência, redefinir a orgânica das tutelas para a área do património e das artes e espectáculos. Com um governo condenado a governar por pouco tempo, com um Presidente da República desprestigiado, pouco se pode esperar do novo MC, a não ser, precisamente, que proponha um novo ordenamento das estruturas de intervenção pública no terreno das artes.

 

Na área do património, é necessária uma nova e atraente Lei do Mecenato (que é também importante para as artes vivas) e uma articulação com o Turismo, como propõe, e bem, o CDS. Quanto ao resto, é necessário prever como vai funcionar a tão proclamada articulação com a Educação, a Televisão ou os Negócios Estrangeiros, coisa que, até hoje, também nunca passou de proclamações virtuosas e sem efeitos práticos. E, como prioridade, é imperativo rever a forma de financiamento ao Teatro e ao Cinema: o sistema dos subsídios, dos concursos e dos júris tem sido, desde o 25 de Abril, um cancro na vida artística portuguesa, uma forma de corrupção subtil e eficaz que leva os MC a demitir-se de ter qualquer política de fundo no sentido de dar a estas duas actividades uma vida autónoma, escrutinada pela sociedade, e que lhes devolva a sua vocação de artes do espectáculo. Quem tiver dúvidas sobre o que digo, veja o decreto-Lei 227/2006 e a portaria 1204A/2008, que regem respectivamente os subsídios ao cinema e ao teatro, e confronte-as com as actas dos júris e os resultados das decisões, para perceber como estes diplomas são uma fonte de iniquidade e de arbítrio, que paralisa qualquer esforço sério e em profundidade para revitalizar uma actividade que, para ser relevante, exige um diálogo permanente com a sociedade e com o público.

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 2 de Outubro 2009
02 October 09 12:00 AM

Todos conhecem a frase de Churchill: «A democracia é o pior dos regimes com excepção de todos os outros». A alternância dos governos e dos ministros (por vezes dentro da mesma legislatura) dificulta as reformas de fundo nas áreas sensíveis para a modernização do país: justiça, educação, fiscalidade. Por sua vez, a cultura, tal como é encarada, conta pouco no orçamento e nas preocupações dos PMs. Basta trazer os artistas calados e, se possível, satisfeitos.

 

Isso explica que, desde o PREC, nenhuma reforma de fundo se tenha feito no sentido de criar condições para alargar e melhorar o acesso aos bens culturais dos cidadãos e para aliviar a escandalosa carga de subjectividade nos apoios às artes do espectáculo (onde se inclui o cinema). A esquerda tem consigo, por razões óbvias, a maioria esmagadora dos criadores, dos artistas e dos críticos. O PS capitalizou nesse campo, o que, ao mesmo tempo, embaraça os seus governos, que hesitam em tocar nos bonzos instalados. Hoje, muito dessa elite eleitoral desviou-se para o BE. A direita não tem peso e tem complexos. Mesmo um crítico inteligente e culto como Pedro Mexia, por exemplo, que é um homem de direita, alinha na ortodoxia de esquerda quando se trata de escrever sobre as actividades artísticas do burgo.

 

O resultado das eleições de domingo, aliado com a fragilidade crescente do PR, vai criar um clima de instabilidade governativa que é impossível iludir. Faltaram dois deputados ao PS ou ao BE para o país poder ser governado com justiça, moderação e equilíbrio. Em Portugal, os únicos partidos que têm orientações ideológicas claras são os partidos das franjas, que não aspiram a ser governo. E entre o PS e o PSD, as críticas às iniciativas legislativas são apenas e sempre motivadas por estratégias de poder, o que não facilita a clareza do debate, a eficácia das políticas e a paz social. Um bloco central seria o passo fatal para uma crise sem precedentes, em que PC, BE e CDS iriam capitalizar o inevitável descontentamento à esquerda e à direita. O PS sabe isso. Restava-lhe, portanto, um cenário ideal: o de poder governar com apoios ora no BE ora no CDS, conforme os dossiers. No BE, para as questões fracturantes e para a justiça das políticas económicas. E no CDS, um partido duma direita tradicional, fiel ao slogan: ‘Deus, Pátria e Família’, mas, também por isso, com preocupações em relação à agricultura, às pescas, às pequenas actividades e às empresas nacionais que poderiam, equilibrar as políticas públicas do PS.

 

Apoiando-se apenas no CDS, o Governo de Sócrates vai desiludir muito do eleitorado que, à última hora, conquistou ao BE e arrisca-se a agravar a agitação social. E o Ministério da Cultura vai continuar a ser um monstro de imobilismo, cuja política concreta vai depender exclusivamente do gosto e da vontade reformista do ministro que sair da cabeça de Sócrates.

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 25 de Setembro 2009
25 September 09 12:00 AM

Antes de mais, uma declaração de interesses: considero-_-me de esquerda e voto no PS. Nunca votaria no CDS, mesmo se, ao ler o seu programa, me parece um partido mais coerente do que o PSD e, nalgumas áreas, mais próximo do centro. Esta advertência impõe-se porque, como escrevi, considero o programa do CDS para a Cultura, de todos, o mais claro, o mais comprometido e o único que poderia ajudar a alterar a forma como PS e PSD, por inércia e por receio dos lobbies, têm encarado a intervenção do Estado na Cultura.

 

O programa divide-se em três partes: 1. As críticas à acção do Governo; 2. As respostas; 3. O caderno de encargos. Por razões de espaço, vou concentrar-me, sucintamente, nas duas últimas. A abrir, afirma-se que, além de «factor de desenvolvimento e um eixo de afirmação da nossa identidade […], a Cultura é um motor de crescimento económico e um sector gerador de emprego». Verdade do senhor de La Palisse, mas que apenas o PC, de outro modo, aflorava no seu programa. Como quase todos os outros, também o programa do CDS enfatiza a transversalidade entre a Cultura e outros sectores, como são a Educação, a Economia, o Turismo (e este é um ponto essencial que os outros partidos descuram) e os Negócios Estrangeiros. Mais adiante, assume que a «afirmação cultural de Portugal e da língua portuguesa no Mundo depende de uma definição, tão clara quanto possível, sobre o papel do Estado». Dir-me-ão que o CDS não se compromete com essa definição, mas ter identificado o problema é um largo passo em frente. Gostaria de imaginar que acabaria com o modelo actual de um super-Ministério da Cultura (MC), onde cabem as políticas do património e das artes vivas, e que privilegia o apoio directo aos artistas, deixando para segundo plano a necessidade da formação de públicos, aquilo a que eu chamo o investimento nos ‘utentes da cultura’. É o que se pode depreender do compromisso em criar «currículos escolares e actividades extra-curriculares que valorizem efectivamente a formação artística dos jovens».

 

Vou ficar por aqui. E acrescento um voto: desde o 25 de Abril, e especialmente desde que Guterres criou o MC, os sucessivos ministros não mexeram nas políticas para o teatro e o cinema, que ficaram limitadas à distribuição de subsídios aos artistas, a maior parte das vezes obedecendo a uma ortodoxia crítica que a esquerda impôs nos jornais de referência e que nenhum ministro ousa enfrentar. Só isso permitiu que passassem impunes os consulados de Salgado Matos/Miguel Lobo Antunes, por exemplo, de Zita Seabra ou de Ana Costa Almeida, à frente do Instituto de Cinema.

Parece não haver dúvidas que Sócrates irá ganhar as eleições de domingo, como é improvável que obtenha uma nova maioria absoluta. Se assim for, o CDS pode ter um importante papel na fiscalização da política da Cultura, se quiser ser coerente com o seu programa.

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Política da Cultura II
18 September 09 12:00 PM

Como dizia na passada semana, nenhum dos partidos com representação parlamentar apresenta, no seu programa eleitoral, qualquer proposta de alteração da forma de intervenção do Estado no sector da Cultura. Mesmo quando reconhecem a transversalidade das áreas do património e das artes vivas, e mesmo a necessidade de políticas integradas para o sector, nenhum deles apresenta propostas de alteração orgânica das respectivas tutelas. E, sem questionar a pertinência do modelo actual que concentra num ministério todas as decisões na área da Cultura, dificilmente aqueles generosos desígnios serão atingidos.

De todos os programas, o do PSD é o mais confrangedor. É um amontoado de ideias vagas e de promessas gratuitas: «visão integrada e transversal das políticas culturais», «igualdade de oportunidades no acesso aos bens culturais», «modelos de financiamento público criteriosos», «preservação e expansão da língua portuguesa nos países da CLP», etc., etc., sem que alguma vez se diga como é que isso vai ser posto em prática.

 

O PS, por sua vez, além de prometer reforçar o orçamento da Cultura, propõe-se estabelecer uma ligação mais orgânica entre a criação artística e a criação de públicos, «consolidando o acesso das crianças e jovens à educação artística e favorecendo o conhecimento do património cultural, designadamente através de programas plurianuais de visitas de estudo». É um pequeno passo e um primeiro compromisso para a qualificação das novas gerações e para o desenvolvimento da sua capacidade de fruição dos chamados ‘bens culturais’. Mas, apesar de algumas promessas concretas («aquisição e depósito dos espólios e acervos de grandes escritores da Língua Portuguesa pela Biblioteca Nacional», «criação de redes de bibliotecas de cultura em língua portuguesa e de redes de escolas, no quadro de uma agenda solidária de apoio ao desenvolvimento e à alfabetização, criando programas de deslocação plurianual de professores, especialmente jovens, para os países e comunidades da Língua Portuguesa») e do compromisso de aperfeiçoar o estatuto das carreiras docentes e defender a revisão da lei da cópia privada, o programa deixa, à semelhança do programa do PSD, uma larga margem à discricionariedade da sua aplicação. Só isso explica, de resto, que as políticas da Cultura tenham dependido, até hoje, no caso dos dois grandes partidos, exclusivamente da personalidade de quem é escolhido para ocupar a pasta. De facto, que coerência existe entre a acção de Santana Lopes e de Pedro Roseta, de Carrilho e de Santos Silva, de Isabel Pires de Lima e de José António Ribeiro?

Resta falar do programa do CDS, para minha surpresa, o mais consistente, o mais concreto e o que vai mais longe nas propostas, nas rupturas e nos compromissos. Vale a pena, por isso, que lhe dediquemos, para a semana, uma atenção especial nesta coluna.

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Política da Cultura
11 September 09 12:01 PM

EM vésperas de eleições, achei útil ler o que os programas dos partidos propõem relativamente às políticas da Cultura. Não que eu tenha grandes ilusões sobre a futura coerência entre as propostas e a sua aplicação, se forem governo, ou mesmo na oposição. Quando Guterres inventou os Estados Gerais com o objectivo de atrair intelectuais e artistas do centro e da esquerda, para poder derrotar o derrotado Cavaco, as ilusões, se as tinha, dissiparam-se: no dia seguinte às eleições o programa do PS já tinha sido esquecido. É certo que Guterres não é exemplo para ninguém: com a sua tibieza congénita, a sua incapacidade de tomar partido, as políticas para a cultura variaram ao sabor das idiossincrasias dos três ministros que passaram pelo Palácio da Ajuda. Seja como for, os programas dos partidos, mais ideológicos ou mais pragmáticos, mais vagos ou mais pormenorizados, reflectem necessariamente uma ideia mestra e estabelecem um compromisso. Vejamos então o que propõe cada um.

 

TAMBÉM aqui é possível detectar duas posições extremas entre alguns partidos da esquerda e da direita: a esquerda ‘diaboliza’ o mercado, a direita o Estado. Na esquerda, é sobretudo o Bloco, o que mostra maior aversão ao papel do mercado em matéria de cultura: subjaz, em todas as propostas, a ideia de que os artistas têm de ser protegidos do mercado, ou seja, do público – aquilo a que chama a «subtracção à esfera do mercantilismo». Mas, como o Bloco preza o povo, o programa é obrigado a dizer que vai proteger as criações populares e respeitar os seus gostos. É o que se chama ‘dar uma no cravo e outra na ferradura’, coisa que tenta solucionar, estabelecendo uma distinção teórica, hábil mas evasiva, entre a ‘democratização cultural’ e a ‘democracia cultural’. Por outro lado, como não tem no seu horizonte imediato ser poder, o Bloco, como a CDU, promete adjudicar 1% para a Cultura. Um ponto, no entanto, a favor da CDU: a chamada de atenção para o facto, sempre ignorado, de que, nos países europeus, a Cultura contribui com 2,6% para o PIB, enquanto em Portugal esse valor é cerca de metade (1,4%), para justificar a necessidade de aumentar o orçamento da Cultura. Aliás, os programas dos dois partidos à esquerda do PS não diferem muito, a não ser na forma: onde o Bloco tece exaustivas considerações sobre os fundamentos das suas políticas, o programa da CDU é lacónico, sintético e lapidar.

 

CURIOSAMENTE, nenhum dos programas dos cinco partidos se pronuncia sobre a forma de administração das políticas para a Cultura no organograma do governo. Mesmo se muitos deles enfatizam, e bem, a necessidade de articulação entre vários ministérios, aparentemente todos dão como boa a fórmula actual de um Ministério da Cultura, solene e majestático, que se ocupa do Património e das Artes Vivas. Para a semana, falaremos dos programas dos outros partidos.

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Das duas, uma - 04 de Setembro 2009
04 September 09 12:00 PM

 

Estas férias li, finalmente, o romance de Roberto Bolaño Os Detectives Selvagens, publicado em 1998, que o consagrou como a mais importante voz das letras latino-americanas da sua geração. Mal terminei as 506 páginas ao longo das quais Bolaño nos descreve a deambulação dos personagens por vários continentes entre 1975 e 1996, decidi voltar à primeira página e relê-lo do princípio ao fim. E, mal voltei de férias, corri a comprar Estrela Distante, de 1986, que li de um fôlego e confirmou as qualidades romanescas deste chileno desaparecido aos 50 anos, em plena força criadora. Anuncia-se para finais deste mês a saída da tradução portuguesa de 2666, um dos últimos livros que escreveu, mas a impaciência levou-me a encomendar, entretanto, o resto da sua vasta obra (abençoada internet), no original castelhano.

 

A teorema, que editou ambos, está de parabéns. Louvem-se, porque é justo – e raro! –, as traduções, sobretudo a de Detectives Selvagens, de Miranda das Neves que, mesmo se não pude confrontá-la com o original, me pareceu competente, sensível e aplicada (a de Estrela Distante, de Jorge Fallorca, tem algumas falhas, tal como traduzir plata, que quer dizer grana ou taco, ou seja, dinheiro, por prata ou chamar a Rosemary’s Baby, o filme de Polanski, O Bebé de Rosemary, e não A semente do Diabo).

                                         

Bolaño é a voz inspirada da geração que era adolescente quando o golpe militar de Pinochet derrubou Allende, e que viveu depois dispersa no exílio, entre a realidade e o pesadelo, entre a militância e o desespero, uma espécie de lost generation da América Latina dos finais do século, uma geração de poetas e revolucionários que um dia acordou no inferno e que, depois, se debateu entre a fidelidade ao sonho e a distância irónica, entre a apostasia e o heroísmo, entre a pose poética e a necessidade de sobreviver.

 

Bolaño é um mestre na transcrição da linguagem coloquial (o II capítulo de Detectives Selvagens é uma série de entrevistas imaginárias a personagens dispersos pelo mundo inteiro, feitas sob a forma de inquérito e montadas como um documentário) e um retratista consumado. Mas, por baixo dessa aparência jornalística, é a questão do Mal, que é a marca dos grandes escritores (Shakespeare, Dostoievski, Melville, Conrad), que o move e que o leva a tentar decifrar o sentido do mundo e das acções dos homens.

Como diz um dos personagens de Detectives Selvagens (e a melhor maneira de falar de um grande escritor é devolver-lhe a palavra), «o cerne da questão, é saber se o mal (ou o delito, ou o crime, como lhe quiser chamar) é casual ou causal. Se é causal, podemos lutar contra ele, é difícil de derrotar mas há uma possibilidade, mais ou menos como dois boxeadores do mesmo peso. Se é casual, pelo contrário, estamos fodidos. Que Deus se existe nos encontre confessados».

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 28 de Agosto 2009
28 August 09 12:00 PM

Terminadas as filmagens, e enquanto o Pedro Ribeiro alinhava o material filmado para uma primeira versão, tirei quinze dias de férias. É sempre bom ganhar distância em relação ao nosso trabalho, deixando-o nas mãos de um observador imparcial (o montador), depois de várias semanas em que vivemos completamente absorvidos pelo filme. Como faço todos os anos nesta altura, a escolha dos livros é a que me exige mais tempo, ponderação e espaço. Já uma vez disse que a mala de livros que levo para férias é o meu harém: gosto de ter à mão, a qualquer hora, uma vasta escolha de livros de que espero uma grande variedade de prazeres. O segredo do harém é a variedade: romance, poesia e ensaios, livros que já li, livros inéditos, clássicos e novidades, livros em francês, inglês, espanhol ou italiano, livros portugueses ou traduções.

                        

Quase sempre incluo as Obras Completas de um escritor que já li e me apetece reler ou cuja leitura adiei. Em relação aos clássicos, este ano, levei as Obras Completas de Dante e as de Tchékov, autores que nunca li completamente (ambos na fabulosa edição da Pléiade), todo o Tocqueville e uma selecção dos poemas de Yeats. No caso de Dante, levei também uma edição da obra original; e, no caso do poeta irlandês, uma edição bilingue inglês/francês. Além disso, amontoavam-se na mala, espreitando uma oportunidade, obras de muitos outros autores, a que não pude dedicar um minuto de atenção.

Mas levei também alguns livros que, pelas boas e as más razões, marcaram as minhas férias este ano. Três boas descobertas: El Audaz, de Benito Pérez Galdóz, The Conversations – Walter Murch and the Art of Editing Film, de Michel Ondaatje, e Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño. Galdóz faz parte da fabulosa geração de Unamuno, Valle Inclán, Bio Baroja e Azorin, que ombreia com as grandes literaturas do seu tempo. Como Balzac ou Dickens, Galdóz é um observador activo do seu tempo, senhor de um fôlego, de uma pertinência e de uma imaginação que fazem dos romances deste mestre da língua castelhana o melhor espelho da sociedade do princípio do século XX e um verdadeiro breviário para conhecer as grandes paixões políticas, os dilemas morais e as convulsões sociais que agitaram a Espanha do seu tempo.

Noutro registo, o livro de entrevistas com Murch – montador, entre muitos outros, do som dos Padrinhos, da imagem e do som das duas versões de Apocalypse Now e da remontagem de A Sede do Mal, segundo as notas do próprio Welles –, é um dos dez livros indispensáveis a quem ande neste ofício e pense que deve continuar a vida toda a aprender com os outros. Mas a grande surpresa foi Os Detectives Selvagens, de Bolaño, um escritor chileno falecido há pouco, com apenas 50 anos, um livro prodigioso que merece que lhe dediquemos, para a semana, um comentário mais longo nesta coluna.

apvasconcelos@gmail.com

 

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Das duas, uma - 21 de Agosto 2009
21 August 09 12:00 PM

 

As últimas duas semanas filmámos na casa dos amigos. Como disse na semana passada, filmar vários dias num único décor (o ideal é mesmo filmar em estúdio), dá uma grande segurança e, se for necessário, permite ganhar tempo. Como queria filmar ainda uns planos para completar aquilo a que chamei o videoclip (uma série de flashes do João e Mariana a fazerem de turistas em Lisboa, ao som duma canção composta pelo Jorge Palma), consegui ganhar um dia no plano de trabalho, sem sacrificar nada de importante.

No dia 24, uma equipa reduzida foi convocada para filmar alguns exteriores: a Expo, a Sé, o Parque Eduardo VII, o bus que passeia os turistas por Lisboa. Mas, como aconteceu quase sempre que se programaram filmagens em exteriores, o dia acordou enevoado e com ameaças de chuva. Definitivamente, o S. Pedro não é o meu melhor aliado. Propus à equipa que voltássemos à casa para filmar dois ou três planos que me podiam dar jeito para a montagem. E assim, com um dia mais leve, que deu tempo para nos divertirmos e contar anedotas, chegou-se ao fim das filmagens.

Agora, começa a fase da montagem, da concepção e composição da música, das misturas de som, da étalonnage (correcção de cor) e da tiragem das cópias, que devem estar prontas no dia 10 de Dezembro.

O mais difícil neste filme foi encontrar o equilíbrio – em cada cena, mas, sobretudo, no conjunto – entre o tom da comédia e o romantismo da história de amor: terei conseguido o ritmo certo, sobretudo em cenas com acções paralelas? As opções sobre a escala dos planos, por exemplo: terei acertado sempre na opção pelo découpage (divisão da cena em planos) ou pelo plano sequência nas cenas cómicas e nas cenas românticas? Estou confiante que sim, até porque tive um apoio precioso no José António Loureiro, o director de fotografia, com quem voltei a filmar e que é um grande apoio devido à sua enorme experiência.

Mas, para mim, o mais importante é ter um bom script – e também aqui, foi a segunda vez que trabalhei com o Tiago R. Santos, que fez de A Bela e o Paparazzo uma comédia divertida e oportuna; e depois, com a ajuda do responsável pelo casting (a minha filha Patrícia), escolher os actores certos e, sobretudo, os actores que combinam bem uns com os outros. A escolha dos três amigos era perfeita; mas, antes deles, a escolha do par Soraia/ Marco foi abençoada. Com eles, sempre que se dizia: «Motor! Acção!», era como se um mundo que não existia antes nascesse à nossa frente. Procuramos sempre encontrar no que estamos a filmar aquilo com que sonhávamos quando escrevemos a cena. Mas o supremo prazer do realizador é quando os actores o surpreendem e lhe dão qualquer coisa a mais: uma inflexão, um olhar, um gesto, uma pausa, que ele não tinha imaginado, mas que fazem com que a cena, de repente, seja tão emocionante como um recém-nascido.

apvasconcelos@gmail.com

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Das duas, uma - 14 de Agosto 2009
14 August 09 12:00 PM

No plano de trabalho, as cenas na casa onde vivem os três amigos ficaram para o fim. É sempre bom filmar vários dias seguidos no mesmo décor. O trabalho rende mais, por duas razões. Primeiro, porque se poupa o tempo diário de transporte e instalação do material de iluminação sempre que se muda de décor. Depois, porque o tempo é mais elástico: se num dia uma cena leva mais tempo do que o previsto, podemos recuperar no dia seguinte; se, pelo contrário, ganhamos tempo, no dia seguinte podemos estar mais descontraídos.

As filmagens foram uma festa. Os três amigos eram: João, o paparazzo (Marco d’Almeida); Tiago (Nuno Markl), um lunático que, inspirado pelo Fernando Pessoa, que declarou a independência do Bugio, um dia acorda e decide declarar a independência do prédio; e o Hugo, o Pedro Laginha, que é chef num restaurante japonês e tem uma fixação por japonesas. A que se vêm juntar a Mariana (Soraia) e ‘3.ª-feira’ (um cachorro Labrador que o João e a Mariana adoptam e levam para casa).

Logo no primeiro dia percebeu-se que os três pareciam ser amigos de longa data. O Nuno Markl acrescentou ao personagem do Tiago a sua verve imparável e o seu humor afinado. Pedi-lhe para usar t-shirts com frases divertidas e dei-lhe espaço para improvisar dentro do desenho muito claro do personagem. O Laginha, graças a pequenas invenções em que fomos cúmplices, conseguiu fazer de um personagem secundário um parceiro importante do grupo. O Marco d’Almeida, que devia ter oscilações de humor dentro da mesma cena, provou-me exuberantemente o que eu já sabia: que é um actor com uma capacidade de perceber as subtilezas e as contradições do personagem, e de encontrar o tom e os gestos adequados para nos fazer acreditar nas cenas que estamos a filmar.

              

O que é importante é que todos eles ‘brincaram’ com os personagens, que é uma coisa que eu peço sempre aos actores. Em português chama-se ‘interpretar’ ou ‘representar’ ao trabalho dos actores, o que são expressões absurdas, que traduzem uma ideia errada do seu papel. Em inglês o verbo to play (como em francês o termo jeu), ilustra ao mesmo tempo o trabalho do actor, o do músico que toca um instrumento ou as brincadeiras das crianças. É qualquer coisa que está interiorizada nos actores: a ideia de que devem ‘brincar’ com o papel. Digo-lhes sempre: não trates o teu papel como se fosse uma peça de porcelana, mas como o barro de que vai ser feita: molda-o ao teu temperamento, inventa, dá forma ao personagem, brinca com ele. É o que sabem naturalmente os actores de comédia, especialmente os que passaram pelo Parque Mayer, como o Nico ou o Raul (que nos deixou esta semana), aos quais se pode sempre pedir tudo. Eles sabem que ‘interpretar’ um personagem é ‘brincar’ com ele, descobrir-lhe as contradições, enriquecer os seus contornos, fazer dele um ser vivo e não uma marioneta.

 

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