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Confesso a minha falta de coragem: estava há muitos meses para escrever sobre a gripe A, mas recuei sempre no último momento. E recuei porquê? Porque a minha ideia era desvalorizar a doença – mas temia as eventuais consequências que isso pudesse ter.
É sempre muito delicado falar sobre a saúde. Uma pessoa dá conselhos com a melhor das intenções, ‘Olha faz isto e aquilo’, ‘Deixa estar, não te rales’, mas se as coisas correm mal as consequências podem ser graves. Assim, na dúvida, o melhor é estar calado. E foi isso que fiz.
Todos sabemos que qualquer gripe pode degenerar em pneumonia e provocar a morte. Qualquer gripe, repito. Mas se uma pessoa falecer em consequência da gripe A lá vêm as autoridades dizer que aquela morte poderia ter sido evitada se a vítima se tivesse vacinado.
Na semana passada o SOL informou que a ministra Ana Jorge reuniu com o laboratório que fornece as vacinas para tentar renegociar a encomenda de seis milhões de unidades feita pelo Governo português. E, nesse próprio dia, a ministra veio à televisão aconselhando mais uma vez as pessoas a vacinar-se. Não tenho dúvidas de que a intenção de Ana Jorge era boa. Mas, sabendo nós que há vacinas a mais, quando a ministra vem incitar as pessoas a vacinar-se fica sempre aquela ideia de que está a tentar despachar o stock.
Adiante.
Escrevo hoje sobre a gripe A porque as dúvidas acerca da doença já são públicas a nível nacional e internacional.
Talvez por espírito de contradição, desconfio dos temas apresentados com grande aparato mediático. Quem não se lembra do alarme lançado com a doença das vacas loucas ou com a gripe das aves?
Ora, quantas pessoas morreram em Portugal em consequência dessas doenças? Poucas ou nenhuma, que eu saiba. Mas milhares ou milhões de animais foram abatidos. Houve prejuízos incalculáveis, empresas falidas, trabalhadores que ficaram sem emprego, famílias que caíram na desgraça.
Os assuntos de saúde, hoje, são sagrados. Ninguém se atreve a contestá-_-los. Ninguém se atreve a invocar o dinheiro gasto quando está em causa a saúde. O Governo faz cortes em tudo – mas, quando se trata da saúde, o caso fia mais fino. Quem quer ficar como responsável por uma morte que, em teoria, poderia ter sido evitada?
Assim, gastam-se milhões e milhões em exames médicos que, em muitos casos, eram desnecessários. Mas ninguém quer assumir a responsabilidade de os negar. A saúde deve ser a área onde há maior desperdício de meios.
Também por isso ninguém se indignou com as vacas, porcos e frangos abatidos aos milhões, empilhados em montes e queimados. Ninguém se interrogou: justificar-se-ia? Ninguém questionou: valeu a pena? E os animais não protestam...
Conheci um velho casal em que ambos tinham mais de 85 anos e deixaram de comer carne de vaca quando se detectou a doença das vacas loucas. Como se sabe, a BSE leva vários anos até se manifestar nos humanos. Esse casal esperaria viver até que idade? Até aos 110? Até aos 120?
Não sei se alguém morreu em Portugal inequivocamente vitimado por esta doença. Diz-se que houve uma morte por estes dias. Mas será que a perigosidade da doença justificou todo o alarmismo à sua volta?
Ou, pelo contrário, houve exagero a todos os níveis?
Exagero dos media, que se alimentam de histórias, de notícias – e as vacas loucas proporcionaram inúmeras aberturas de telejornais, noticiários de rádio, páginas de jornais.
Depois, exagero dos governos – que, temendo ser acusados de incúria, implementaram medidas porventura exageradas, cuja única justificação era o impacto político.
Finalmente, exagero das autoridades sanitárias – temendo, também, ser acusadas de negligência ou falta de empenhamento.
Quem pagou foram os produtores, que tiveram de abater rezes em série, num desperdício de meter dó.
Com a gripe das aves passou-se mais ou menos o mesmo. Penso que nunca se apurou se a doença era transmissível aos humanos. Mas a simples possibilidade de o ser desencadeou uma gigantesca campanha a nível mundial que levou muitos aviários à falência. Lembro-me de ir jantar ao Bonjardim na altura em que os media lançaram as primeiras notícias sobre essa gripe.
O Bonjardim é um restaurante célebre pelo frango assado, situado na Rua Jardim do Regedor, a dois passos do Coliseu de Lisboa, que em regra está a abarrotar de gente. Pois bem: naquele dia estava totalmente vazio. Nos dois enormes andares, repletos de mesas, eu e o meu filho mais novo éramos os únicos clientes. Nunca mais esqueci essa refeição comida num Bonjardim vazio e silencioso.
Agora é a vez da gripe A, ou H1N1 – sigla que lhe dá um ar científico e portanto indiscutível. Dizia-me um médico que este vírus é semelhante ao da gripe normal, porventura até mais benigno: com um mortalidade e uma morbilidade inferiores. Será mais contagioso – e daí a sua principal perigosidade. É óbvio que, quanto maior for o número de casos, maior será o número de vítimas mortais. Mas, para cada pessoa, esta gripe será até menos agressiva do que a gripe ‘normal’.
No entanto, os media fizeram disto um prato forte, as notícias choveram, as pessoas alarmaram-se, o Ministério da Saúde tomou medidas (para não poder ser acusado de incúria), os hospitais cumpriram os preceitos estipulados, os gastos foram de muitos milhões.
Para se ter uma ideia, nos hospitais os suspeitos de gripe A eram consultados numa sala isolada, o médico e o enfermeiro que os observavam iam equipados com kits que incluíam barrete, óculos, máscara e luvas, que eram a seguir destruídos, as salas eram depois esterilizadas, bem como toda a roupa do médico e do enfermeiro.
Aos hospitais, ao país, isto custou muitos milhões. Com que eficácia? Por cada dez ou vinte suspeitos havia apenas um doente: os outros eram levados ao hospital pelo pânico gerado pelo eco mediático.
Poder-se-á sempre dizer que, se não fossem estes cuidados, teria havido mais mortes. É provável. Mas esse argumento não é absoluto: todos os dias morre gente em desastres rodoviários – e as pessoas não deixam, por isso, de andar de carro. A vida implica riscos. Como dizia Guimarães Rosa, «viver é muito perigoso». Não podemos ter a ilusão de que conseguimos eliminar todos os perigos.
Como em tudo, é necessário haver um equilíbrio. Mas nas alturas em que se criam estas ondas assustadoras – seja pelas vacas, pelas aves ou pelos porcos – instala-se o pânico e desaparece o bom senso.
Este tipo de fenómenos será, entretanto, cada vez mais frequente. É uma das consequências da globalização. Os media noticiam, as pessoas alarmam-se, os Governos não querem arriscar, as multinacionais da área movimentam-se: nunca se deve ter vendido tanto desinfectante para as mãos, tantas máscaras, tanto Tamiflu, como agora.
Claro que a factura vem depois. Quando o défice sobe terrivelmente, como aconteceu este ano, todos protestam. Todos criticam: não se devia ter feito isto ou aquilo. Ninguém se lembra dos gastos disparatados, dos milhões e milhões deitados à rua em consequência de pragas como estas doenças-fantasma.
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Entedamo-nos: o PS deve perceber que José Sócrates está à beira de deixar de ter condições para ser primeiro-ministro.
Escrevi por diversas vezes que ele tem muito jeito para o lugar.
Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada: a que tem que ver com o respeito pela dignidade do cargo.
Ora Sócrates já a violou.
Ainda esta semana, ao atacar um jornalista em voz alta num local público, numa conversa chocarreira à hora do almoço com dois dos seus ministros, Sócrates mostrou que lhe faltam algumas condições essenciais para exercer o lugar que ocupa.
Um chefe do Governo não pode comportar-se assim.
Criticou-se o Presidente da República por alegadas diligências feitas por um seu assessor para publicar uma notícia num jornal.
Um ministro (Manuel Pinho) demitiu-se por, com alguma ingenuidade, fazer uns chifres para comentar o discurso de um opositor no Parlamento.
Outro ministro (Carlos Borrego) foi demitido há uns anos por contar uma anedota de mau gosto numa estação de rádio.
Pedro Santana Lopes caiu em desgraça após críticas do seu ministro Rui Gomes da Silva aos comentários de Marcelo Rebelo de Sousa na TVI.
Ora Sócrates já fez muito pior do que tudo isto junto – e continua no Governo.
Atacou publicamente a TVI, o Jornal Nacional de sexta-feira e o director do Público – e, na sequência dessas críticas, verificar-se-ia a saída do director-geral da TVI, José Eduardo Moniz, o fim do Jornal Nacional e o afastamento da sua apresentadora, Manuela Moura Guedes, e a substituição de José Manuel Fernandes na direcção do Público.
Foi apanhado nas escutas do processo ‘Face Oculta’, discutindo com alguns dos seus homens de mão o modo de atingir aqueles objectivos.
E esses homens de mão – Armando Vara, Paulo Penedos, Rui Pedro Soares, – foram apanhados em escabrosos diálogos onde descaradamente discutiam tudo: os afastamentos de Moniz e Moura Guedes, o silenciamento do Público, o condicionamento do Correio da Manhã, a instrumentalização do grupo Controlinvest, e ainda a troca de favores com jornalistas, cujos nomes não tinham pejo em enumerar.
E isto – como o SOL descreve hoje em pormenor – contava com o envolvimento e a conivência de empresas públicas, que deveriam servir o bem comum e eram instrumentalizadas para participar neste ‘esquema’.
O poder bateu no fundo.
O primeiro-ministro já mostrou a sua face oculta e a sua entourage revela uma baixeza aterradora.
Depois dos casos da Universidade Independente, do Freeport, das escutas de Aveiro, das pressões de Lopes da Mota, ainda há quem tenha dúvidas?
José Sócrates tem jeito para o cargo – volto a dizê-lo.
Mas tem um problema de carácter que já não consegue esconder e que começa a envergonhar o lugar.
Não acredito que no PS todas as pessoas aprovem os seus métodos.
Não acredito que no PS não haja gente séria que comece a sentir-se incomodada.
Não acredito que sejam todos como Lello, Lacão ou Santos Silva – que, com frases apatetadas e grande descaramento, tentam esconder as evidências.
Mário Soares, que lutou na rua contra a ocupação do República, não se sentirá mal com a limpeza feita na TVI, com o uso de empresas do Estado para fazer golpes nos media, com os ataques a directores de jornais, com lamentáveis conversas sobre jornalistas feitas em voz alta em restaurantes?
Por muito que Soares veja em Sócrates um aliado na luta contra o PSD e Cavaco, não achará que ele começa a ser um aliado incómodo?
Soares gostaria de se sentar à mesa com Vara, com Penedos, com Rui Pedro Soares, com Silva Pereira, com Santos Silva, para discutirem a próxima golpada política e o próximo alvo da cruzada contra a imprensa que não se acobarda perante o poder?
Não acredito.
José Sócrates tem jeito para o cargo.
Mas está à vista de todos que a dignidade do cargo já convive muito mal com ele.
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Nos últimos 25 anos, a política portuguesa foi dominada por duas figuras: Mário Soares e Cavaco Silva.
Os seus nomes têm ambos 11 letras, e os ‘nomes de guerra’ – Soares e Cavaco – têm ambos seis.
Mas aí acabam as semelhanças.
Soares é redondo e bon vivant, Cavaco é anguloso e austero.
Soares é um homem típico da cidade, Cavaco é um produto da província.
Soares é mais dado às letras e tropeça nos números, Cavaco lida bem com os números e baralha as letras.
Soares dá importância à ideologia e agrada ao país republicano, socialista e maçónico, Cavaco nunca foi dado a idelogias e tem o apoio do Portugal pragmático e empreendedor.
Neste aspecto, a frase «Deixem-nos trabalhar», dita por Cavaco quando era primeiro-ministro, a propósito das constantes dificuldades levantadas por Soares, é particularmente expressiva.
Com estas características dissonantes, estes dois homens dividiram o país ao meio.
Eles representam dois Portugais, dois países muito diferentes no modo de pensar e de agir, mas que se equivalem em termos numéricos.
Assim, Cavaco conseguiu 51% nas eleições legislativas de 1991, em que obteve a segunda maioria absoluta, Soares atingiu 51% na segunda volta das presidenciais, em que bateu Freitas do Amaral.
Desde 1985, estes dois homens têm travado um combate em vários rounds.
O primeiro round correspondeu ao período em que Cavaco foi primeiro-ministro e Soares era Presidente da República.
Soares fez tudo para roubar o protagonismo ao Governo e para diminuir Cavaco.
Organizou dois congressos, sob o signo da frase ‘Portugal, Que Futuro?’, para definir uma alternativa política ao Governo.
Fez uma Presidência Aberta em Lisboa para combater a ideia do ‘Portugal de Sucesso’ lançada por Cavaco.
Caucionou o bloqueio da ponte 25 de Abril, dizendo tratar-se de um legítimo «direito à indignação».
Este round terminou com a desistência de Cavaco, que declarou não se recandidatar à chefia do Governo.
E depois concorreu contrafeito às presidenciais, sendo vencido por Jorge Sampaio.
Apesar desta derrota, Cavaco largou a política rodeado de uma aura de eficácia na liderança do Executivo, que lhe garantia um lugar no futuro.
E assim efectivamente aconteceu.
Nas presidenciais de 2006 apareceu como possível candidato – o que levou Soares a sair-lhe ao caminho, tentando barrar-lhe o acesso a Belém.
Este segundo round entre Soares e Cavaco seria muito mais curto do que o primeiro e acabaria por ter um desfecho inverso: terminou com uma expressiva derrota de Soares, por 51% contra 14%.
Mas Mário Soares, naturalmente, também não se conformou.
Um velho leão da política, um combatente da democracia de longa data, um líder internacionalmente reconhecido, não podia terminar a carreira com uma derrota humilhante perante o filho de um gasolineiro de Boliqueime, que nunca fez nada no antigo regime e só apareceu na política anos depois do 25 de Abril, pela mão de um Governo de direita.
Assim, apesar de já ter 81 anos quando aconteceu este desaire presidencial, Soares não se deu por vencido.
Perseverou.
E eis que agora ressurge, empenhado no objectivo de derrotar Cavaco no terceiro round do combate: as próximas presidenciais.
Claro que já não é ele o candidato: já não está em idade de o ser.
Mas conta com a cumplicidade do líder do PS que, enfraquecido por sucessivos escândalos, vê na luta contra Cavaco um objectivo mobilizador – e a quem a companhia de Soares agrada, na medida em que representa uma certa caução do PS histórico.
O que aqui estraga um bocadinho as contas é Manuel Alegre.
Alegre não era o candidato desejado por nenhum deles.
Não era o candidato desejado por Soares, que também foi ultrapassado por ele nas últimas presidenciais (e ao qual gostaria ainda de dar uma lição).
E não era o candidato preferido por Sócrates, porque Alegre vai dividir o PS, desenterrando os fantasmas da velha esquerda, do passado, que Sócrates quis exorcizar ao construir um partido mais moderno e voltado para a frente.
Mas as coisas são como são.
E, neste terceiro round contra Cavaco, Mário Soares tem como aliados um líder do PS com quem não se identifica e que chegou a criticar (José Sócrates), e um velho companheiro com quem cortou relações e que o bateu na última disputa presidencial (Manuel Alegre).
Em política, os nossos inimigos de ontem são, por vezes, os aliados de hoje.
Uma coisa é certa: assim ou assado, com estas ou aquelas alianças, Soares e Cavaco continuam, 25 anos depois, a dividir o país ao meio e a dominar a cena política portuguesa.
Veremos como corre este terceiro – e provavelmente último – round que agora mesmo começou.
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Uma das primeiras vezes que vi Jorge Lacão foi em casa de Mário Soares, a quem ia entrevistar. Nessa época (1981 ou 82), eu estava a fazer entrevistas aos líderes dos principais partidos políticos – Francisco Pinto Balsemão (que era também primeiro-ministro), Mário Soares, Freitas do Amaral e Álvaro Cunhal – e cada uma destas entrevistas teve uma história.
A entrevista com Soares foi marcada para as 10h00 ou 10h30, na sua casa no Campo Grande. Quando cheguei ao prédio, a primeira coisa que estranhei foi estar à porta um polícia fardado. Pensava que só os governantes tinham direito a protecção policial. Mas não: os ex-governantes (ou os líderes partidários) também tinham.
O edifício onde Soares vivia (e vive) é uma daquelas construções típicas dos anos 50, de três andares (os prédios de três andares tinham a prerrogativa legal de poderem dispensar o elevador), de boa construção e alguma qualidade arquitectónica. Soares ocupava um dos andares.
Toquei à campainha, a porta abriu--se – e para meu espanto, quando esperava ver à minha frente uma empregada, surgiu Jorge Lacão. Foi ele quem veio abrir-me a porta. Reconheci-o de imediato porque, sendo Lacão ainda muito jovem, já era relativamente conhecido. Cumprimentou-me com algum formalismo e disse-me para esperar um pouco numa saleta à entrada. Era uma divisão relativamente pequena, com as paredes repletas de quadros e desenhos. Nalguns havia dedicatórias. Percebi que eram ofertas de amigos políticos a Mário Soares.
No tempo do Estado Novo, era muito frequente esta forma de manifestar a solidariedade política. Pintores, escultores, músicos, poetas, políticos, escritores – que regra geral eram ‘da oposição’ – trocavam entre si presentes e cumplicidades.
Nesse dia fiquei com a sensação de que Lacão era uma espécie de ‘impedido’ de Mário Soares. Eu explico o significado da palavra. Na tropa, os oficiais a partir de certa patente tinham direito a ter ‘impedidos’, isto é, soldados que lhes estavam atribuídos e funcionavam como uma espécie de criados. Faziam recados, tratavam disto e daquilo, iam buscar os filhos à escola, chegavam a trabalhar em casa, executando tarefas domésticas.
O Estado Novo tinha muitas coisas destas: ganhava-se pouco, mas certas classes (como os militares) tinham direito a algumas mordomias que lhes davam um estatuto privilegiado.
Pois eu pensei que Lacão era ‘impedido’ de Soares. Este não tinha na altura nenhum cargo oficial, era apenas líder do partido, não dispunha de gabinete, nem de pessoal à volta, nem de ajudantes de campo – e o PS, para o ajudar, pusera aquele jovem à sua disposição.
Esta entrevista com Mário Soares foi muito curiosa e deu para o conhecer melhor. A certa altura ele começou a falar disto e daquilo, de coisas que eu não lhe tinha perguntado, e interrompi-o.
– Senhor doutor, desculpe, mas sou eu o entrevistador...
E ele respondeu-me, candidamente:
– Ó Saraiva, eu sei, mas deixe-me vender o meu peixe!
Outra coisa que me impressionou foi o excesso de informalidade da empregada, sobretudo tendo em conta a presença de um estranho. A certa altura, Soares pediu-lhe para fazer outro café, porque aqueles que nos trouxera tinham arrefecido. A empregada veio com modos enfastiados, pegou nas chávenas e enquanto se afastava foi dizendo:
– Outro café? Vou aquecer este!...
Passados uns anos voltei a encontrar Jorge Lacão numa circunstância muito diferente. Penso que ele era candidato a uma Câmara ou coordenador de uma campanha autárquica do PS. Almoçámos no Pabe, um restaurante de luxo na Rua Duque de Palmela que servia de ‘cantina’ à administração do Expresso e onde eu também ia com alguma frequência quando tinha um convidado para almoçar.
Os políticos gostavam de ir ao Pabe porque eram vistos: o restaurante funcionava um pouco para eles como uma passerelle. Lá se realizaram durante anos os célebres almoços do Expresso com figuras públicas. Lá iam, com mais ou menos frequência, Dias Loureiro, António Guterres, Marques Mendes, Ferreira do Amaral, Freitas do Amaral, Henrique Granadeiro, Manuel Monteiro, Paulo Portas, Deus Pinheiro, Mira Amaral, Fernando Nogueira, além de Balsemão, que tinha uma mesa sempre reservada e lá almoçava quase todos os dias. Lembro-me ainda que foi no Pabe que tive o primeiro e único encontro com Mota Pinto.
Nesse almoço com Jorge Lacão falámos de autarquias – e ele defendeu a ideia de que os executivos camarários deveriam ser monocolores. Tal como acontecia nos governos, o partido que ganhava as eleições deveria poder formar executivo – sendo absurdo que as vereações integrassem pessoas de vários partidos, segundo as percentagens eleitorais obtidas. Que sentido faria um Governo nacional com ministros do PSD, PS, PCP e CDS? Seria isso exequível?
Eu achei que ele estava cheio de razão.
Depois estive muito tempo sem o ver. Ouvi falar dele através de Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes, aquando da revisão constitucional de 1997, em que ele era o representante do PS. Nessa altura o partido acusou-o de ceder demasiado ao PSD. Mas tempo depois vi muita gente de diferentes partidos a elogiar o seu trabalho nesse processo.
Dado este percurso, pode dizer-_-se que Jorge Lacão é um homem esforçado, dedicado ao partido, que aceita tarefas difíceis e sem grande visibilidade por espírito de militância. Terá mais qualidades do que muitos políticos com muito maior presença na ribalta. Mas é essa a sua forma de estar.
Parecendo às vezes um mal amado dentro do PS, tão depressa aparece como desaparece. Na legislatura anterior apareceu à luz do dia, como secretário de Estado da Presidência. E no novo Governo foi promovido a ministro, o que me pareceu justo em função da sua idade, dedicação ao partido e méritos pessoais.
Dito isto, não posso deixar de sublinhar que muitas pessoas chegam hoje a ministros sem qualquer experiência de vida, tendo sido sempre funcionários partidários, não tendo ligação à vida real, não passando por empresas, não dispondo de uma visão alargada da sociedade, limitando a sua perspectiva às quatro paredes do partido onde militam.
Sem pôr em causa a promoção de Jorge Lacão a ministro, não posso deixar de dizer que a ele e outros faltam experiências diversificadas.
E não digo isto pelo facto de o continuar a ver como o ‘impedido’ de Mário Soares, como o soldado às ordens do general Soares, como o jovem que me abriu a porta da sua casa do Campo Grande, já lá vão quase 30 anos!
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Numa altura em que tanto se discute o futuro do Partido Social Democrata, é indispensável colocar a seguinte questão: como entender que, nos últimos anos, os empresários e os banqueiros tenham sempre preferido um governo do PS a um governo do PSD?
Por que razão preferiram claramente Sócrates a Ferreira Leite – e não só por razões pessoais?
Por que apoiaram tanto o PS e deixaram cair o PSD, no qual antes apostavam?
É que, nos tempos recentes, os dois principais partidos parecem ter trocado de papéis.
Quem ultimamente tem defendido o risco é o PS – enquanto o PSD se mostra adepto de cautelas e caldos de galinha.
Quem tem defendido o investimento como meio de combater a crise é o PS – enquanto o PSD defende uma política restritiva e preocupada em auxiliar os mais afectados pela crise.
Não é fácil perceber a posição actual do PSD.
Para um partido liberal, a receita para superar as crises será sempre o crescimento económico.
E, para haver crescimento, é preciso haver investimento.
Daqui não há que fugir.
Claro que se pode discutir o tipo de investimento.
Se se deve optar por grandes obras promovidas pelo Estado ou se é preferível outro caminho.
Acontece que não foram apresentadas alternativas consistentes.
O que o PSD tem proposto – apoio a pequenas e médias empresas, pequenos trabalhos de reabilitação urbana, investimentos sociais – é muito vago, de resultados incertos e pouco mobilizador em termos de atracção de capitais.
Sucede ainda que, em tempo de crise e num país centralizado como Portugal, ninguém investe se o Governo não der exemplos claros e visíveis.
Se o Estado não mostrar iniciativa e vontade de investir, como esperar que os privados o façam?
Ora as grandes obras – como o TGV, o aeroporto ou a nova ponte de Lisboa – têm a vantagem de ter uma grande visibilidade, constituindo marcos.
E, além disso, embora quase tudo seja importado, há sempre o envolvimento de empresas nacionais em subempreitadas ou como fornecedoras disto ou daquilo.
Não é pois de estranhar que os empresários defendam o PS e torçam o nariz ao PSD.
Há anos, a propósito de outro assunto, um ex-_-primeiro-ministro dizia-me: «Um dos papéis mais importantes do Governo é dar à sociedade os sinais certos».
Assim, se o Governo não transmitir neste momento à sociedade sinais de confiança, os investidores privados não investirão, o país definhará e os impostos terão de aumentar, havendo ainda menos capital disponível para o investimento.
Obviamente o ideal seria fazer estas obras sem recorrer ao endividamento externo.
Mas isso é totalmente impossível: os portugueses estão a viver muito acima das suas possibilidades e não há capitais disponíveis.
E o país não pode parar à espera que a situação se inverta.
Os portugueses têm de entrar na linha e reduzir drasticamente o consumo.
Ninguém pode viver muito tempo a gastar mais do que ganha.
Mas se até lá não investirmos, se não agitarmos a economia, se não dinamizarmos as empresas, o rendimento não crescerá – e a situação será cada vez mais difícil.
Voltando ao assunto que hoje tratamos, é curioso ver como o PS evoluiu num sentido liberal – e o PSD, por desnorte ideológico mas também por demagogia, se enredou em propostas que não têm que ver com a sua matriz.
Quando os investidores estão ao lado do Partido Socialista, o PSD não pode deixar de se interrogar.
Sendo um partido de matriz liberal (que só por acaso se chama Social Democrata), o PSD tem de ter o apoio dos elementos mais dinâmicos, empreendedores e representativos da sociedade civil.
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A Civilização melhora-nos ou piora-nos?
A Civilização educa-nos, lima-nos as arestas, refreia os nossos impulsos primários, dá-nos sofisticação, apura-nos, numa palavra, torna-nos seres sociáveis, passíveis de convivermos agradavelmente uns com os outros?
Ou, pelo contrário, a Civilização castra-nos, retira-nos autenticidade, torna-_-nos iguais uns aos outros, apaga as diferenças, mata o que é genuíno, dilui o individual, promove o cinismo, a falsidade, os comportamentos de conveniência?
Nunca obteremos resposta a estas perguntas, pela simplicíssima razão de que ambas as ideias são verdadeiras.
É óbvio que a Civilização nos torna menos genuínos; mas não é menos óbvio que, sem Civilização, a vida em sociedade se tornaria insuportável.
Entretanto, o ‘excesso de Civilização’, de que alguns sectores das sociedades europeias padecem (e que Eça tão bem retratou há mais de um século n’ A Cidade e as Serras), impede-nos por vezes de ver as coisas simples.
Assim, de vez em quando é necessário e refrescante regressar ao básico.
Por exemplo: por que é que as pessoas sentem fome – e esta, a partir de certos limites, se torna insuportável? Porque, se não comermos, morremos. Porque a alimentação é indispensável à vida. Se não sentissem fome, provavelmente os homens não se tinham aventurado na caça e na pesca, nem afadigado a cultivar a terra. E à míngua de alimentos tinham definhado e morrido.
E o mesmo se passa com a sede.
O nosso organismo está constantemente a emitir sinais. Quando nos dói um órgão, é sintoma de que algo ali não está bem. É um aviso.
E qual a razão por que os doentes perdem o apetite? Porque os alimentos também ‘alimentam’ a doença, contribuindo para a propagação do mal. Perante uma doença, o organismo retrai-_-se, tem o mínimo de actividade possível – exactamente para se defender, para evitar que a doença se espalhe.
O nosso corpo é, pois, superiormente inteligente – e por isso devemos aprender a escutar os seus sinais. Através deles perceberemos aquilo que nos faz mal e nos faz bem. O que necessitamos para manter o equilíbrio e o que nos desequilibra.
Devemos seguir os apetites – porque eles correspondem a necessidades: apetece-nos laranjas se precisamos de vitamina C ou queremos um bolo para repor o açúcar, do mesmo modo que rejeitamos o café quando estamos mal do fígado.
Sobre a inteligência do organismo humano, um médico disse-me um dia uma coisa muito curiosa. Estávamos em Bruges e fazia um frio de rachar. Ele perguntou-me:
– Sabe por que é que, quando está frio, as pessoas urinam mais vezes?
-- Talvez porque a bexiga está contraída… – respondi sem grande convicção.
-- Nada disso! É porque o organismo tem de manter a urina quente e isso representa dispêndio de energia. Ora, no tempo frio, o organismo quer gastar o mínimo de energia possível.
Outra prova curiosa da inteligência do organismo está no posicionamento dos testículos, dentro de um saco exterior. A explicação é que os espermatozóides morreriam à temperatura do interior do corpo.
Todas as manifestações de inteligência do organismo vão no sentido da sobrevivência do seu proprietário – e, por extensão, da sobrevivência da espécie.
Neste quadro se integra a atracção sexual. Se a atracção sexual desaparecesse, a espécie humana extinguia-se. Se não houvesse desejo, a espécie humana não existiria.
Portanto, a atracção entre homens e mulheres é normal, natural, indispensável. Inversamente, a atracção por indivíduos do mesmo sexo deve considerar-se um desvio da natureza. Não uma opção – porque ninguém opta por sentir desejo por um indivíduo do seu sexo. Ninguém diz: «Vou ser homossexual». Como não diz: «Vou ser heterossexual» ou «Vou ser bissexual». Ninguém ‘opta’ nessa matéria. A atracção sexual sente-se ou não se sente. Daí que a expressão ‘opção sexual’ seja um tremendo disparate.
Há um desejo básico que é responsável pela conservação da espécie – e depois há desvios a esse instinto, que vão da atracção sexual por indivíduos do mesmo sexo à atracção por crianças, por velhos, etc.
É a isto que se chama ‘diferença’. Há um comportamento-padrão – e comportamentos que fogem ao padrão. Estou muito à vontade para falar disto porque sempre defendi a diferença – e o direito à diferença – nas mais diversas áreas.
Mas atenção: o facto de defendermos o direito à diferença (que é uma conquista da Civilização) não significa que não entendamos o porquê do combate à diferença.
O combate à diferença está na matriz das sociedades humanas, porque é um meio de defesa.
Por razões de sobrevivência, todos os grupos rejeitam instintivamente o que é diferente. Se, em qualquer meio, o que é diferente começasse a espalhar-se, o grupo ficaria em perigo.
O mesmo se passa, de resto, no nosso organismo: ele combate as células diferentes. E quando isso deixa de acontecer, quando os organismos deixam de resistir à diferença, essas células multiplicam-se sem controlo, a doença alastra e o organismo fica ameaçado de morte.
As sociedades estão sujeitas aos mesmos perigos: quando perdem a capacidade de luta, também ficam entregues ao declínio e à morte.
É isso que caracteriza os períodos de decadência. Nessas alturas, a tolerância, potenciada pela Civilização, torna-se tão grande que a sociedade fica ameaçada. Todos os comportamentos são admissíveis, tudo é possível, tudo é aceitável, deixa de haver regras, a matriz dilui-se.
Daí que, sendo eu por natureza tolerante, percebo que a tolerância não pode ir além de certos limites. A tolerância não pode ir ao ponto de destruir o instinto de sobrevivência.
A Civilização permite a vida em sociedade – mas o excesso de Civilização mata. E penso que podemos já ter atingido esse ponto. A tolerância em relação aos homossexuais é um sinal de Civilização. A repressão e a discriminação da homossexualidade não são aceitáveis. Mas a equiparação dos casamentos entre indivíduos do mesmo sexo ao casamento entre pessoas de sexos diferentes também não é nada saudável.
Há que ter noção do que é natural e do que é desviante. Ora, tendo o Estado a obrigação de dar à sociedade os sinais certos, ao legitimar o casamento entre pessoas do mesmo sexo está a dar aos cidadãos um sinal errado. Está a dizer que é ‘tudo a mesma coisa’. Que tanto faz um homem casar-se com uma mulher como com outro homem – e vice-versa. Ora isso não é verdade – como atrás ficou demonstrado.
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Há dois meses, quando o PSD e muitos comentadores gritavam pela necessidade de o Partido Social Democrata eleger urgentemente um novo líder, escrevi que não havia pressa nenhuma.
Sem eleições à vista, com um Governo recém-eleito, que vantagem tinha o PSD em escolher um líder à lufa-lufa, sem ponderar bem o assunto, sem deixar assentar a poeira levantada por três eleições seguidas, sem uma pausa para reflexão?
Nos dias que correm, faz-se muita coisa sem pensar.
Muitos dos chamados líderes de opinião, à força de falarem tanto e tão frequentemente, falam mais do que pensam.
Um diz uma coisa e muitos vão atrás, com medo de perderem o comboio.
Parece uma parada de tolos.
Mas o bom senso prevaleceu – e o PSD acalmou.
Um dirigente até veio repetir uma frase que eu escrevi nesse artigo: «Desta vez o PSD não pode falhar».
E não pode mesmo.
O próximo líder não pode ser mais um para queimar.
A escolha do novo presidente tem de ser séria, ponderada – feita com a convicção de que ‘agora é que é’.
Santana Lopes veio (aqui, na sua crónica no SOL) dar um bom contributo neste sentido, propondo um Congresso extraordinário antes das ‘directas’.
Acusado muitas vezes de ser irreflectido, Santana deu uma boa ajuda ao partido: é óbvio que um Congresso aprofundará a reflexão sobre a escolha do futuro líder, evitando novas precipitações.
E até poderá proporcionar surpresas.
Seja como for, o tempo que mediou entre as eleições de 11 de Outubro e o dia de hoje já deu alguns frutos.
Quando se começou a falar do assunto, só havia dois candidatos à sucessão de Ferreira Leite: um assumido (Pedro Passos Coelho), outro não assumido mas ‘presente’ (Marcelo Rebelo de Sousa).
Ora, dois meses e meio depois, há muito mais alternativas: Paulo Rangel, José Pedro Aguiar-Branco, até mesmo Marques Mendes, que reapareceu.
Creio que o PSD faria mal em escolher um antigo líder: essa solução raramente funciona e, na actual encruzilhada, o partido tem de dar a ideia de que está projectado para a frente e não debruçado sobre o passado.
A opção por um ex-líder surgiria como um déjà-vu.
Ora isso afasta a hipótese Marques Mendes – como afasta as hipóteses Marcelo, Santana ou Menezes.
O que não significa que os quatro não venham a ter um importante papel no futuro do partido.
Mas nenhum deles pode ser o rosto da mudança.
Daqueles quatro nomes, Marcelo Rebelo de Sousa seria, ainda assim, o mais viável.
Só que, para lá da sua condição de ex-líder, tem outra limitação: é alguém que o país vê como um comentador, como uma pessoa que faz análises, que escalpeliza os comportamentos dos outros – e, de um dia para o outro, ver essa pessoa no lugar daqueles que antes analisava, sendo vítima das críticas que antes era ele a fazer, não é nada fácil.
Excluindo os ex-líderes, sobram três nomes: Pedro Passos Coelho, Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-_-Branco.
Pedro Passos Coelho também tem um estigma: é sempre olhado como um eterno jovem.
Por mais que faça, as pessoas vêem--no como um júnior, ainda sem estaleca nem experiência para se ocupar dos assuntos dos adultos.
Não sei se alguma vez o país deixará o ver assim, mas por enquanto vê – e, também por isso, é difícil imaginá-lo no papel de líder do PSD nacional.
O problema de Paulo Rangel é de outra natureza.
É olhado como uma espécie de ‘delfim’ de Manuela Ferreira Leite – e o partido, neste futuro próximo, vai querer cortar com a herança de Ferreira Leite.
Paulo Rangel seria como que um prolongamento do ‘consulado ferreirista’, com outro rosto e calças no lugar das saias.
Daí não ser ainda um bom candidato.
Deixem-no estar no Parlamento Europeu – e daqui a uns anos poderá aparecer como um D. Sebastiãozinho laranja.
Sobra, assim, José Pedro Aguiar-_-Branco.
Não o conheço nem é pessoa com cujo estilo simpatize.
Acho-o um pouco peru – e a fugaz passagem pelo Governo de Santana Lopes também não o beneficiou.
Mas o seu mergulho mais recente – e insistente – na política fez-me mudar de opinião.
É um homem seguro, que diz com alguma frontalidade o que pensa, e que nestes tempos de desvario e loucura tem mostrado moderação e sensatez.
Além disso, tem a vantagem de não ter andado envolvido nas lutas intestinas pela liderança do PSD, dispondo de uma imagem mais fresca, passível de despertar alguma expectativa.
Last but not least, é um homem do Norte.
É um homem com pronúncia do Norte.
Um advogado do Porto.
E isso poderá levar o PSD a um reencontro com as suas raízes.
Não é bem o ressuscitar do mito Sá Carneiro – é qualquer coisa anterior a isso, de que o próprio Sá Carneiro já era expressão.
É um certo espírito liberal, identificado com a livre iniciativa, com o empreendedorismo, com a não dependência do Estado – que o Porto mal ou bem corporiza.
Enquanto os políticos de Lisboa são associados aos corredores do poder, às politiquices, às refeições à mesa do Orçamento, ao peso opressivo do Terreiro do Paço, os políticos do Norte não carregam consigo esse rótulo, estão mais identificados com o país não político, com a população activa e o empresariado que aceita o risco.
Por tudo isto, admito que Aguiar-_-Branco pode ser o líder de que o PSD precisa.
E sendo este palpite naturalmente falível – até porque só o conheço da televisão – o passado diz-me que, de uma forma geral, a intuição não me engana.
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Rui Santos é um jornalista desportivo que subiu na vida a pulso. Depois de ser despedido de A Bola, ao que se diz por criticar em demasia Luís Filipe Vieira, entrou na SIC pela porta baixa, falando aos domingos cinco ou dez minutos na SIC Notícias sobre a jornada futebolística.
Mas a conversa começou a dar – ou seja, a ter boas audiências – e o tempo do programa foi esticando, esticando, chegou aos 15 minutos, depois aos 30, depois aos 45, e agora suponho que vai numa hora de monólogo.
– Ainda está esse a falar? – indigna-se a minha mulher.
É verdade. O programa não tem fim. Percebe-se que o jornalista já não tem nada para dizer mas prolonga o discurso artificialmente, penosamente, para atingir os tais 60 minutos estipulados. As audiências a isso obrigam.
A mesma ideia é repetida várias vezes. Temos a sensação de estar perante aqueles professores de ginástica que ordenavam: «Flecte, insiste, insiste, insiste, insiste…» – e quando já estávamos derreados, ansiosos por nos endireitarmos, ele continuava: «… insiste, insiste, insiste…».
Rui Santos também insiste, insiste.
Vem isto a propósito de uma petição que entregou esta semana na Assembleia da República, no meio de grande aparato mediático, a favor da ‘Verdade desportiva’. A petição está assinada por Portugal inteiro, inclusive por pessoas que nunca viram um jogo de futebol. Até lá vem o meu tio José Hermano Saraiva, que só deve ter entrado num estádio quando era ministro da Educação e que seguramente não sabe o que é um fora de jogo.
E, pelos nomes que vi – Mário Soares, Aníbal Cavaco Silva, Margarida Pinto Correia –, há lá muito mais figuras destas.
Claro que, quando perguntam a uma pessoa se é pela ‘verdade desportiva’, toda a gente diz que sim. Ninguém responde: «Não! Eu sou contra a verdade desportiva!».
E assim a petição foi acumulando assinaturas.
O problema é o modo de alcançar essa ‘verdade desportiva’. E, aí, tenho as maiores reservas sobre o conteúdo da petição.
O jornalista acha que a verdade desportiva se consegue através da introdução de novas tecnologias no futebol. E eu penso que por esse caminho se matará o futebol.
O futebol é um desporto tão popular e tão universal porque é simples: basta uma bola, balizas, um terreno e onze de cada lado. Tudo o que seja complicar será mau para o futebol. Ora as novas tecnologias trarão imensas complicações. Para lá de exigirem enormes investimentos, numa época em que a palavra de ordem tem de ser a poupança.
Depois há a questão da igualdade. Hoje, um jogo entre equipas da 3.ª divisão portuguesa ou da Liga dos Campeões obedece às mesmas regras. Os jogadores são outros, mas tudo se passa do mesmo modo. Mas, se forem introduzidas novas tecnologias, começará a haver enormes diferenças. Porque não será possível equipar todos os campos de todos os campeonatos com meios tecnológicos. E assim passará a haver jogos de primeira, de segunda, de terceira, etc., de acordo com a sofisticação tecnológica utilizada.
E, depois, quer-se apurar o quê? Se uma bola entrou ou não entrou na baliza? Por junto, só me lembro de um lance polémico deste tipo – que ocorreu há cinco anos, quando Vítor Baía defendeu uma bola dentro da baliza, que daria golo ao Benfica. Não me recordo de outro lance decisivo deste género. Ora, para evitar lances tão raros, vale a pena gastar milhões de euros em meios tecnológicos junto à linha de baliza? Não será o investimento demasiado grande para um retorno limitado?
Passemos aos fora-de-jogo. Aqui toda a gente reconhece que o uso de tecnologia é praticamente impossível, porque exigiria paragens constantes para analisar os lances duvidosos – e são muitos, ao longo do jogo.
E com os penáltis o caso é ainda mais bicudo. Primeiro, porque há situações em que a localização das câmaras favorece a visão dos lances e outras em que não. Segundo, porque a polémica relativamente aos penáltis verificar--se-á sempre, quaisquer que sejam os meios ao dispor e as decisões dos árbitros. Basta ver o que hoje acontece: perante as mesmas imagens televisivas, os comentadores desportivos discutem horas e horas a fio sobre se houve ou não penálti num dado lance, sem chegarem a qualquer conclusão.
Portanto, com ou sem meios tecnológicos, os penáltis serão sempre objecto de discussão, até porque dependem muito da ‘intenção’ do jogador – cuja apreciação é, por natureza, subjectiva.
E depois como é que, na prática, se faria? Sempre que houvesse um lance confuso o árbitro interromperia o jogo para analisar as imagens? E, quando não interrompesse, o que sucederia? Os jogadores da equipa que se considerasse prejudicada pressioná-lo-iam certamente para visionar a jogada. Enfim, seria um inferno.
Esta luta a favor da introdução de novas tecnologias é um engano. Faz-me impressão ver algumas pessoas que considero inteligentes envolvidas nesta cruzada. Talvez nunca tenham pensado a sério no assunto. Gastar-se-iam fortunas a introduzir os meios tecnológicos e o futebol não ganharia nada – pelo contrário, perderia. Só ganhariam as empresas que vendessem o material electrónico, que ainda por cima estaria obsoleto ao fim de pouco tempo.
O caminho para a diminuição dos erros no futebol não é esse. Se há situações que proporcionam muitos erros (como os offsides e os penáltis), aperfeiçoem-se as respectivas leis. Simplifiquem-se as coisas – em vez de se complicarem. Limite-se, por exemplo, a marcação de penáltis (o que reduzirá o número de decisões polémicas) ou regule-se a lei do fora de jogo no sentido de tornar a sua apreciação mais fácil.
Uma vez houve um problema num terraço de que fiz o projecto. O pavimento era muito irregular, pelo que o empreiteiro regularizou-o com uma camada de cimento. Com o peso do cimento, a placa começou a abaular – e o empreiteiro resolveu construir um pilar que não estava previsto no projecto. E, com o novo pilar, o terreno começou a dar de si.
Informado do problema, decidi o seguinte: retirem a camada de cimento que puseram em cima da placa, depois removam o pilar que foi acrescentado, finalmente regularizem o terraço com um material muito leve. Assim se fez. Com a remoção do cimento, a placa ficou aliviada, perdeu a curvatura e retomou a forma original. O pilar deixou de ser necessário. O terraço regularizou-se depois com um material ligeiro, que quase não sobrecarregou o peso. E tudo se resolveu.
Quando as coisas começam a complicar-se, o caminho não é acrescentar mais complicações, que por sua vez vão trazer novos problemas.
Quando as coisas começam a complicar-se, o caminho é voltar atrás e simplificá-las.
Não se carregue o futebol com tralha tecnológica. Se há leis difíceis de aplicar, simplifiquem-se as leis.
E, no fim de tudo, aceitem-se os erros dos árbitros como parte integrante do futebol.
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O Diário de Notícias de 31 de Dezembro titulava a toda a largura da 1.ª página: Presidente do Supremo iliba Sócrates e arrasa juiz de Aveiro.
Invocando a lei segundo a qual as conversas do primeiro-ministro (e do PR e do presidente da AR) só podem ser interceptadas e gravadas com autorização do Supremo, Noronha Nascimento declarou nulas as escutas a José Sócrates e criticou o juiz que as validou.
Com isto, a questão estava aparentemente encerrada.
Sucede que as leis são muitas vezes mal feitas, quando não contraditórias.
A lei atrás referida, sendo bem-intencionada, é pura e simplesmente inexequível, como irei demonstrar.
A partir do momento em que uma pessoa está sob escuta, o mecanismo de gravação das suas conversas telefónicas é accionado automaticamente.
Estando Armando Vara a ser escutado, todas as chamadas que fazia eram gravadas.
Essas horas e horas de gravação eram depois objecto de um auto enviado ao procurador responsável pelo processo, que por sua vez as remetia ao juiz de instrução.
As conversas entre Vara e Sócrates foram, pois, gravadas automaticamente como todas as outras, sendo objecto de um auto entregue ao procurador – e depois enviadas por este ao juiz responsável.
Que só tinha duas hipóteses: ou as validava ou ordenava a sua destruição.
Penso que o juiz de Aveiro tomou a decisão mais sensata: tratando-se de conversas do primeiro-ministro, sobre as quais não tinha competência, enviou-as ao responsável máximo pelo processo, Pinto Monteiro, para decisão superior.
Pergunta-se, então: que mal fez o juiz de Aveiro?
Atrasou-se a dar conhecimento aos superiores? Mas Noronha Nascimento e Pinto Monteiro não andaram também meses ‘enrolados’ com o caso?
Pronunciou-se sobre o conteúdo das escutas ao PM? Mas, encontrando ele nas conversas indícios de crime, deveria ignorá-los?
Por que foi então ‘arrasado’ pelo presidente do Supremo, como disse o DN?
Sempre defendi que não devem misturar-se as questões políticas com as questões judiciais.
Sempre disse que o primeiro-ministro ou outros responsáveis políticos não têm de se demitir em consequência de notícias de jornais: a regra deve ser sempre esperar pela clarificação dos processos em que surgem envolvidos, agindo-se depois em conformidade.
Nunca afirmei que Sócrates se devia demitir na sequência das notícias sobre o ‘Freeport’ ou o ‘Face Oculta’.
Mas esta separação entre política e Justiça também supõe que exista efectiva independência dos respectivos protagonistas.
O país tem de sentir que os responsáveis políticos não pressionam os responsáveis da Justiça; e que estes não temem o Governo nem ninguém.
Ora essa sensação, neste momento, não existe.
Este episódio das críticas ao juiz de Aveiro, o caso das pressões feitas por Lopes da Mota a mando de Alberto Costa, a penalização do juiz do caso Casa Pia, Rui Teixeira, a actuação de Pinto Monteiro e Noronha Nascimento no ‘Freeport’ e na ‘Face Oculta’, têm revelado a existência de pressões políticas sobre a cúpula da Justiça e alguma subserviência da cúpula da Justiça em relação ao poder político.
Ora, se os cidadãos perdem a confiança na Justiça, começam a acreditar mais nas notícias da imprensa do que nas decisões da magistratura – ou, o que é pior, começam a fazer fé nas especulações e nos rumores.
Se queremos acabar com isto, como todos dizem, a Justiça tem de:
1. Ser muito mais rápida: é preciso fazer uma revolução a este nível;
2. Ser muito mais conclusiva: não pode ficar nas meias tintas em que muitas vezes terminam os processos;
3. Mostrar coragem para cortar a direito, mesmo quando estão envolvidas importantes figuras do Estado.
A Justiça não pode ser receosa perante o poder político – porque, desse modo, desacredita-se.
Por muito que custe afirmá-lo, há hoje cada vez mais portugueses a desconfiar do que dizem Pinto Monteiro ou Noronha Nascimento.
E isso tem duas consequências negativas – para a Justiça e para os políticos, que continuam sob suspeita mesmo quando a Justiça os iliba.
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Na noite de fim de ano, no meu bairro, aproximaram-se de mim dois cachorros mais ou menos do mesmo tamanho – nem grandes nem pequenos –, um escuro, malhado, outro claro. Tinham uma expressão triste e pareciam acompanhar-se um ao outro na desgraça. Seriam cães vadios? Nada disso! Eram cães abandonados.
Por isso se aproximaram de mim: estão habituados à presença dos humanos. Mais: têm necessidade do calor humano. É sempre assim nas férias – de Verão, do Natal ou da Páscoa. Não percebo como se abandona um cão. Para quem não sabe, os cães são animais que confiam incondicionalmente nos donos, que se lhes entregam sem reservas, que saltam de contentamento quando eles chegam a casa e que aceitam docilmente os castigos que eles lhes infligem – porque acham que os donos têm sempre razão.
Como escrevi um dia, os cães vêem nos donos os seus deuses.
Na sociedade americana o cão é um membro da família – não digo como qualquer outro, mas imprescindível e com direitos. O Presidente dos Estados Unidos tem protocolarmente mulher, filhos… e um cão. Um cão que figura sempre na fotografia oficial. Recorde-se a grande expectativa que se gerou quando chegou a altura de Obama escolher a raça do cão que iria integrar a família presidencial – escolha que acabou por recair num cão de água português (embora o cão não seja português mas americano, oferecido pelo entretanto falecido Ted Kennedy).
Diz-se ainda que, quando Bill e Hillary Clinton não se falavam, após as revelações sobre práticas menos ortodoxas ocorridas na Casa Branca envolvendo o Presidente, a filha Chelsea tomou o partido da mãe e também deixou de falar ao pai. Assim, o ambiente na residência presidencial tornou-se irrespirável. Com excepção de mãe e filha, ninguém falava com ninguém naquela casa. O silêncio era tumular.
Ora, o único ser que continuou sempre a relacionar-se normalmente com todos os membros da família foi o cão – Buddy. O animal tornou-se o único elo de união entre aquelas pessoas que, vivendo na mesma casa, mal se olhavam de frente.
Como é possível abandonar um ser com estas qualidades? Um ser que gosta incondicionalmente de todos os membros da família – embora tenha com cada um deles uma relação diferente, o que ainda torna essa ligação mais especial. De facto, um cão nunca se relaciona do mesmo modo com duas pessoas. E sabe até onde pode ir com cada uma e o que pode esperar dela. Sabe quem brinca com ele e quem não brinca, quem lhe faz festas (e portanto vale a pena ele deitar-se a seus pés ou sentar-se a seu lado) e quem geralmente o ignora. Um cão conhece bem as visitas habituais da casa. Gosta de crianças e adora brincar com elas, percebendo as suas fragilidades. É fantástico ver um cão grande brincar com uma criança pequena, usando de mil cuidados para não a magoar.
Ora – insisto – como é possível abandonar um ser com estas características? Como pode alguém atirar para a rua um animal que confia nele de modo absoluto e incondicional? Como pode trair essa confiança? Como consegue escorraçar um cão com quem brincou, que o adorou, que o recebia aos saltos e de rabo a abanar de alegria?
É terrível votar-se uma pessoa ao abandono. Mas no caso das pessoas ainda é possível perceber muitas vezes as razões. Nas relações entre os humanos existem ofensas, ódios acumulados, ciúmes, invejas, incompreensões, incompatibilidades de feitios, problemas de carácter. Mas na relação com um cão não pode haver nada disto. Os cães não nos ofendem – pelo contrário, adoram-nos. A amizade de um cão pelo dono não depende de nada – e a sua fidelidade é total. Não existe nenhuma razão que justifique tratar mal um cão, quanto mais abandoná-lo.
Mas há quem o faça. E por isso, em muitos casos, o réveillon dos cães é muito diferente do das pessoas: enquanto estas se juntam em família, os cães arriscam-se a ser postos fora de casa. Porque os donos querem ir de férias descansados, para a neve ou para um desses destinos exóticos onde nesta época do ano é Verão e não Inverno, e que as agências de viagens vendem ao desbarato.
Os destinos exóticos são frequentemente praias do Nordeste brasileiro. Areais que não conheço mas que certamente valem a pena. Praias pelas quais as pessoas perdem a cabeça (e às vezes a vida, como agora em Angra dos Reis), a ponto de porem os seus próprios cães na rua.
Mas será que depois não têm remorsos? Não pensarão no mal que fizeram para terem uns dias a escorregar na neve ou de barriga para o ar a apanhar sol? Não pensarão que atiraram o seu cão para a morte – apanhado na rua pela camioneta dos cães, metido no canil camarário à espera de ser abatido?
Vivemos um tempo em que as pessoas procuram o prazer imediato, como se o mundo estivesse para acabar. Vive-se o momento, suga-se o efémero. Não se troca nada por isso. Recusam-se os sacrifícios – porque não valem a pena. Cada um concentra-se em si próprio, não quer maçadas nem compromissos. Não quer ter filhos porque não abdica da saída à noite ou da ida ao cinema ao fim-de-semana – ou ainda porque antes disso está a compra do computador, do telemóvel de última geração, do plasma que acabou de sair e é irresistível… Ou a tal viagem à neve ou à praia no Inverno.
Há alguma coisa que valha isto? Valerá a pena abdicar de tudo isto por um filho? E a satisfação de um capricho não valerá bem o abandono de um cão?
É difícil explicar a quem pensa deste modo que assim não encontrará a felicidade. Que por este caminho nunca será feliz. A felicidade não se alcança através do prazer imediato, do telemóvel de última geração, das férias na Serra Nevada, no Brasil ou nas Maldivas.
A prova está no gigantesco consumo de Prozacs e quejandos nas sociedades mais ricas e que mais consomem.
A felicidade consegue-se doutro modo: constrói-se como uma casa. E, como acontece com quem quer construir uma casa, há que fazer renúncias, abdicar de alguns prazeres, não ir atrás do instante, ser capaz de resistir ao impulso imediato.
Nessa construção podem não entrar o telemóvel de última geração ou a roupa de marca ou o plasma – mas entra certamente a família, entram os filhos e os sobrinhos, entram as relações sólidas que fomos estabelecendo, entra uma obra que conseguimos concretizar e que nos orgulha... – e entra muitas vezes o cão que alguns põem fora de casa nesta época do ano.
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Os principais acontecimentos do ano que agora finda dividem-se em três categorias: acontecimentos políticos, casos de Justiça e fraudes bancárias.
Na primeira categoria, figuram obviamente as eleições: europeias (em Junho), legislativas_(em Setembro) e autárquicas (em Outubro).
Na segunda, agrupam-se os casos ´Freeport’, ‘Face Oculta’, ‘Submarinos’, ‘CTT’ e ainda ‘Escutas a Belém’.
Na terceira, os escândalos do BPN e do BPP.
E tudo isto aconteceu num cenário de conflito entre o primeiro-ministro e o Presidente da República.
Mas por que razão dei a este texto o insólito título que o encima?
Porque se tratou de um ano substancial, de difícil digestão, com uma grande misturada de acontecimentos divididos por grandes grupos.
Neste ‘cozido’, as ‘carnes’ são os escândalos bancários, os ‘legumes’ são as questões políticas e os ´enchidos’ são os casos de corrupção.
E tudo isto foi servido numa ‘bandeja’ especial: o conflito entre José Sócrates e Cavaco Silva.
Só falta falar dos ‘talheres’ – que aqui são os meios de comunicação social, em torno dos quais também houve acesa polémica.
1. As carnes: os escândalos bancários
O escândalo do BPN, que levou José Oliveira Costa à prisão e envolveu outras figuras
ligadas ao PSD como Dias Loureiro e Arlindo Carvalho, foi por esta razão usado politicamente como contraponto do ‘Freeport’, que envolvia pessoas do PS.
Notícia que saísse sobre o ‘Freeport’ suscitava de imediato um contra-ataque relativo ao BPN, numa lógica de ‘olho por olho, dente por dente’. E, como o ‘Freeport’ comprometia aparentemente o primeiro-_-ministro, o BPN ‘teve’ de comprometer o Presidente da República, noticiando-se, por exemplo, que tivera depósitos naquele banco.
Mas o principal protagonista deste caso, a seguir a Oliveira Costa, foi Dias Loureiro, conselheiro de Estado escolhido por Cavaco. Quanta tinta fez correr a presença de Loureiro naquele órgão, como se isso fosse uma coisa importantíssima para o país!
Para lá do pingue-pongue político, o caso BPN teve verdadeira importância, mas por outras razões. Primeiro, porque gerou desconfiança não só no sistema bancário mas nas instituições, assustando as pessoas e agravando o temor provocado pela crise; segundo, porque acarretou custos brutais para o Estado, na sequência da nacionalização; terceiro, pela situação desesperada em que colocou muitos depositantes, que viram congeladas as suas poupanças.
O outro caso no sector bancário – envolvendo o BPP – teve contornos bem diferentes, porque não foi passível de aproveitamentos políticos. Foi apenas a falência de um banco – com as consequências desgraçadas que isso tem para muitas pessoas, mas sem provocar ondas de choque.
Diga-se que, quer num caso quer noutro, o ministro das Finanças actuou com rapidez, firmeza e serenidade, atenuando os danos. Aliás, Teixeira dos Santos foi sempre um bom pára-choques contra a crise, só se tornando vulnerável quando entrou na luta política, para a qual não está fadado.
2. Os enchidos: ‘Freeport’, ‘Face Oculta’, ‘Submarinos’, etc.
Os casos ‘Freeport’ e ‘Face Oculta’ afectaram gravemente a imagem de José Sócrates porque, independentemente da sua intervenção directa neles, envolveram serviços dele dependentes ou pessoas que lhe são muito próximas: tios, primos, amigos chegados, etc. ‘Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’. Ora as companhias de Sócrates não se revelaram propriamente as mais recomendáveis. E algumas são mesmo suspeitas de uma prática odiosa: corrupção.
Para equilibrar as mossas provocadas pelo ‘Freeport’, a contrapropaganda socialista procurou, como se disse, envolver Cavaco no escândalo do BPN. E mais tarde foi lançado o caso das ‘Escutas a Belém’.
É óbvio que se trata de casos que não são comparáveis. Nas ‘Escutas’ estava envolvido um assessor do PR (Fernando Lima) que terá procurado influenciar um jornalista. Ora episódios destes são o pão-nosso-de-cada-dia: quantos assessores de ministros, autarcas, banqueiros, empresários, etc. falam diariamente com jornalistas tentando vender-lhes as suas ‘histórias’, as suas versões dos acontecimentos, as suas intrigas?
Todos os jornalistas sabem que é assim.
Só que aqui apanhou-se um e-mail do jornalista contactado pelo assessor do PR e um jornal prestou-se a escarrapachá-lo na primeira página – propiciando uma polémica que foi esticada artificialmente no tempo para tentar influenciar as eleições legislativas.
Os casos ‘Freeport’ e ‘Face Oculta’ são em tudo distintos daquele. São casos graves que estão a ser investigados pela Polícia, em que já há arguidos suspeitos de prejudicar o Estado para daí retirarem benefícios pessoais.
São casos de corrupção tirando partido do exercício de funções públicas ou de relações privilegiadas no aparelho do Estado.
A deriva da Justiça
O ‘FREEPORT’ ficou ainda tristemente célebre por outra razão: o rocambolesco episódio
das pressões feitas pelo procurador Lopes da Mota sobre os magistrados que investigam o caso, ameaçando-os de represálias se não arquivassem o processo relativo ao primeiro-ministro. Foi um acto ilegítimo e despropositado, que ainda adensou mais as suspeitas: por que razão se queria evitar que a investigação fosse até ao fim? O que se pretendia esconder?
O caso ‘Face Oculta’ lançou mais achas para a fogueira em que se transformou a Justiça. O procurador-geral da República, Pinto Monteiro, enredou-se em palavras e explicações públicas contraditórias, o presidente do Supremo também se embrulhou em argumentos pouco convincentes, e ambos deram ideia de um temor em relação ao poder político que não dignifica a Justiça.
A actuação de Pinto Monteiro na questão das conversas entre José Sócrates e Armando Vara roçou o ridículo: disse uma coisa, depois outra, fez desabafos despropositados e acabou por decidir aquilo que desde o início era óbvio que iria fazer: não dar quaisquer informações sobre as conversas ou sobre a decisão de as arquivar. Enfim, uma anedota.
Isto tudo com um acólito que, apesar de ser bastonário de todos os advogados, pareceu mais ser um advogado contratado por Sócrates: António Marinho Pinto.
Repito: a cúpula da Justiça não saiu dos casos ‘Freeport’ e ‘Face Oculta’ nada prestigiada nem com uma imagem de independência. E a tentativa de penalização do juiz Rui Teixeira pelas decisões que tomou no caso Casa Pia foi a cereja no bolo.
Neste ano concluiu-se ainda a primeira fase do processo dos submarinos, que salpicou o ex--ministro da Defesa Paulo Portas – e no qual existem suspeitas de financiamento ilegal do CDS. Mais recentemente foi produzida a acusação do ‘caso dos CTT’, em que a empresa foi lesada deliberada e premeditadamente por um conjunto de pessoas – e em que o próprio presidente, Carlos Horta e Costa, é arguido.
3. Os legumes: as três eleições
Houve quem comparasse os resultados das europeias, das legislativas e das autárquicas, como se estas eleições tivessem alguma relação entre si. É preciso perceber de uma vez por todas que não é possível extrair conclusões de umas eleições para outras.
Difundiu-se, por exemplo, a ideia de que, depois de vencer as europeias, o PSD ‘tinha a obrigação’ de vencer as legislativas. Ora não há nada mais disparatado. As europeias serviram, designadamente, para mostrar o desagrado de muitas classes profissionais em relação a actos do Governo: por isso o PS foi castigado. A maioria votou no PSD, não tanto pela positiva, mas para penalizar a teimosia e a arrogância de Sócrates.
Nas legislativas, a questão que se colocava era outra: era escolher o Governo. O voto já não era pela negativa mas pela positiva. As pessoas não iam votar para penalizar ninguém mas para escolher entre um Governo do PS e um Governo do PSD, entre um primeiro-ministro chamado José Sócrates e um primeiro-_-ministro chamado Manuela Ferreira Leite. E o eleitorado votou previsivelmente no PS e em Sócrates.
Quanto às autárquicas, serviram para escolher presidentes de Câmara – e tiveram uma lógica local. A questão partidária passou para segundo ou terceiro plano. Por isso, os resultados em cada um dos concelhos não coincidiram minimamente com os das europeias ou das legislativas.
Tudo o resto que se diga sobre isto são patacoadas – e fizeram-se imensas análises sem o menor sentido. Cada eleição tem a sua lógica. Aplicar a todas o mesmo método leva a conclusões abstrusas.
Os dois temas que dominaram a campanha foram as grandes obras públicas e o chamado ‘défice democrático’. Ambos foram lançados pelo PSD e acabaram por se virar contra ele. O encarniçamento contra as grandes obras deu do PSD uma imagem pouco ousada, pouco moderna e um tanto rezingona. O ‘défice democrático’ é uma questão que não colhe eleitoralmente, como repetidamente se tem visto nas eleições na Madeira.
4. Os talheres: TVI, Público e SOL
Outros casos que agitaram o ano foram a luta em torno da TVI e as alegadas pressões sobre o Público e o SOL. O primeiro-ministro, ao falar várias vezes em público da TVI e especificamente de um programa – o telejornal de 6ª-feira, coordenado e apresentado por Manuela Moura Guedes –, tornou-se moralmente responsável por eventuais mudanças que viessem a ter lugar.
Tal como aconteceu no tempo do Governo de Santana Lopes, quando Rui Gomes da Silva se queixou de Marcelo Rebelo de Sousa – e este foi instado por Pais do Amaral a moderar as suas críticas, acabando por se afastar. Esse facto, como nos recordamos, teve um peso enorme no que se seguiu – e que acabou na demissão de Santana pelo PR. Ora aqui passou-se pior: Sócrates criticou a TVI, a PT tentou sem êxito comprá-la, veio a seguir a Ongoing concretizar o negócio – e finalmente Moniz deixou a liderança da estação e, pouco depois, o telejornal de 6.ª-feira acabou por ordem da administração. Exemplar.
No Público, também citado criticamente pelo primeiro-ministro, José Manuel Fernandes foi afastado da direcção – facto que, podendo perfeitamente ser uma coincidência, beliscou a fama de independência de Belmiro de Azevedo.
Quanto ao SOL, houve uma tentativa de estrangulamento financeiro por parte de um dos accionistas – o BCP –, acção essa orientada por Armando Vara.
Sócrates nunca escondeu o que pensa sobre este tema: para controlar os media não interessa comprar jornalistas, mas sim controlar os patrões. É esse o método que aplica. E, com as gigantescas dívidas que os grupos de comunicação social estão a acumular, nem será muito difícil domesticá-los.
5. A travessa: a guerrilha S. Bento-Belém
Deixei para o fim a verdadeira guerrilha que opõe o primeiro-ministro e o Presidente da República – e que assume aspectos graves. Deve dizer-se que o chamado ‘conflito institucional’ está inscrito na matriz do sistema. Existiu desde o princípio: desde as guerras de Sá Carneiro com o general Eanes. E daí em diante foi sempre assim, com mais ou menos intensidade.

É um problema do sistema, que um dia terá de ser resolvido, mas que não tem solução no actual contexto.
O nosso sistema é semi-presidencialista, como o francês – só que, enquanto este evoluiu no sentido presidencialista, facilitando a governação, o nosso evoluiu no sentido parlamentar, favorecendo as querelas entre Governo e Presidente.
No modelo francês, a superior capacidade de intervenção do PR dá maior eficácia e maior estabilidade ao sistema político – até porque o chefe do Estado dispõe sempre, por definição, de maioria absoluta.
Mas o problema em Portugal não tem solução à vista porque os partidos nunca votarão o aumento dos poderes presidenciais. Só com um golpe de Estado isso seria possível.
Assim, lá vamos vivendo com este sistema coxo.
Entretanto, mesmo considerando a inevitabilidade do conflito institucional, é forçoso reconhecer que José Sócrates tem passado as marcas. Não é pedir-lhe que esconda o que pensa ou que seja subserviente. É evitar provocações gratuitas (como aquela de dizer a Louçã que poderia ter-se candidatado a assessor de imprensa do PR, lugar que «há dois meses estava vago») ou não esticar demasiado a corda, como sucedeu no caso das ‘Escutas’. Sente-se em Sócrates uma vertigem provocadora e conflitual que não augura nada de bom.
Note-se que Cavaco não fez a Sócrates um centésimo do que Soares lhe fez a ele próprio – organizando Congressos e Presidências Abertas com o objectivo explícito de atacar o Governo ou falando do «direito à indignação» no caso da Ponte 25 de Abril em que a autoridade do Estado foi ameaçada.
Claro que a hostilidade actual de Sócrates em relação ao PR pode ser uma fuga para a frente: sentindo-se acossado, o primeiro-ministro investe contra Cavaco – sabendo que nesse conflito terá o apoio de Mário Soares (que nunca engoliu a derrota presidencial de 2005) e de Manuel Alegre (que conseguiu afirmar-se como candidato do PS à Presidência, pese embora as tentativas desesperadas para lançar Jaime Gama, e que sonha agora com o ‘milagre de Belém’).
Claro que, se Alegre for eleito PR, Sócrates iniciará um calvário – mas isso serão contas de outro rosário.
O primeiro-ministro parece estar naquela fase em que o que conta é ‘salvar a pele’; depois se verá.
‘Enquanto o pau vai e vem folgam as costas’ – diz amiúde a minha mãe. Sócrates pensa o mesmo. Neste momento o que é preciso é ter ao seu lado Mário Soares e Manuel Alegre – e através deles a maioria dos socialistas ilustres. Isso dá-lhe uma certa garantia de sobrevivência. E o futuro a Deus pertence.
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As pessoas não têm a menor consciência da quantidade gigantesca de coisas que acumulam dentro da casa onde habitam. Só quando fazem obras (e são obrigadas a desarrumar armários e estantes) ou na altura em que decidem mudar de casa é que têm noção da tralha que juntaram. E descobrem sempre objectos que já nem se lembravam que tinham.
Em todas as casas, no meio de artigos bons e com valor, há muito lixo. Móveis que deixaram de se usar mas não se deitaram fora, roupa que nunca mais se vestirá, montes de papéis inúteis, jornais e revistas atacados pela humidade ou roídos pela traça, trapos velhos, sapatos cambados, louça rachada, tachos e panelas esburacados ou sem asas à espera do funileiro que virá no dia de São Nunca À Tarde, bibelôs horríveis, electrodomésticos avariados, material electrónico obsoleto.
São coisas que na maior parte dos casos sabemos que nunca voltarão a ter uso – mas das quais não temos coragem de nos desfazer.
E assim vamos enchendo a casa, os objectos vão-nos estorvando os movimentos e acumulando pó, complicando-nos progressivamente a vida.
E isto acontece, além do mais, por um fenómeno matemático que ninguém pode contrariar: em qualquer casa de habitação, entram todos os dias mais coisas do que saem.
Repare-se.
Todos os dias fazemos compras. A maior parte dessas compras são consumíveis. Mas, mesmo aí, há sempre alguma coisa que fica: um boião de compota ao qual se achou graça, uma garrafa fora do vulgar, um cestinho de verga que trazia fruta cristalizada, um boneco que acompanhava um gelado ou um copo que vinha numa promoção de uma marca de whisky.
E depois há os livros. Ninguém deita um livro fora, por pior que seja. Os livros vão, portanto, aumentando sempre. Em relação aos jornais, a atitude é normalmente diferente: servem para forrar o caixote do lixo ou vão parar ao contentor dos recicláveis. Mas já com as revistas não se passa o mesmo: muitas vezes guardam-se. E se se trata de revistas especiais – de moda ou decoração, por exemplo – acumulam-se na estante ou em cima das mesinhas em frente dos sofás.
Há ainda os objectos de decoração – os que compramos (uma peça de artesanato, uma jarra, um castiçal de vidro, um cinzeiro) e os que nos dão no Natal ou nos aniversários (e que, mesmo que sejam horríveis, não deitamos fora).
Relativamente à roupa também há que se lhe diga. Compramos regularmente peças de roupa, até para acompanharmos minimamente a moda. E desfazemo-nos regularmente de algumas, dando-as a alguém, encaminhando-as para instituições de caridade ou deitando-as fora: camisas coçadas nos colarinhos, meias rotas, cuecas com o elástico lasso. Mas há sempre alguma roupa que vai ficando. Ninguém deita fora casacos de peles, nem sequer sobretudos – a menos que estejam muito, mesmo muito gastos. Ou blusões de cabedal.
E com os sapatos passa-se mais ou menos o mesmo. Há sempre um par que se guarda: umas botas de cano alto, um calçado de Inverno que se usa pouco e está como novo, uns sapatos de estimação.
Depois, à medida que as inutilidades se vão acumulando dentro de casa, há que arranjar sítio para as meter. Assim, vai-se comprando mais uma cómoda, mais uma estante, mais um sideboard, mais uma arca. E estes móveis também vão ocupar o seu volume e ajudar a atravancar a casa.
Claro que há pessoas que conseguem manter esta constante acumulação de coisas dentro de limites razoáveis – fazendo periódicas limpezas, esvaziando de vez em quando a arrecadação, adoptando medidas drásticas; mas a maioria não consegue. E, assim, muita gente é hoje positivamente submersa pelo lixo que tem dentro de casa.
O meu pai dizia que a vida é uma luta permanente contra a desarrumação. E tinha alguma razão. Em Paris viveu durante muito tempo sozinho – e sentiu na pele essa dificuldade de lutar contra o caos caseiro e a acumulação de objectos desnecessários. Ainda por cima, as casas em que habitou eram pequenas – pelo que, se as deixasse desarrumar para lá de certos limites, tornar-se-iam inabitáveis.
Uma coisa é certa: aquilo que todos os dias nos entra pela porta é sempre mais do que o que sai. O saldo é todos os dias positivo – há sempre algo que fica em casa. É bom que tenhamos noção disso. Ora já pensaram o que isto significa ao fim de, por exemplo, 50 anos de vida na mesma morada? Já pensaram na enorme montanha que isto representa? E alguma coisa do que ali está será indispensável, sem dúvida; mas outra parte será apenas útil; e a maior parte será completamente dispensável. Enche-nos a casa e não serve para nada.
À medida que vamos acumulando bens, temos inevitavelmente necessidade de aumentar o espaço que habitamos. Ora, como as paredes não são elásticas, começamos a ocupar as garagens, a levantar barracões no quintal, a transformar as varandas em arrecadações.
Este é um dos aspectos mais chocantes do problema.
Milhares de famílias fecham as varandas com caixilharia de alumínio, formando as célebres marquises e dando lugar a um dos fenómenos arquitectónicos mais lamentáveis do nosso tempo. Por um lado, desfeiam as fachadas dos edifícios. Por outro lado, alteram as condições dentro das casas e não resolvem problema nenhum.
Fechar as varandas para aumentar o espaço útil de uma casa é pura ilusão. Porque ao fim de pouco tempo as varandas estarão transformadas em simples arrecadações – onde se vai acumulando tralha que nunca mais se usará.
Além disso, com o encerramento das varandas, as casas são imensamente prejudicadas. Cria-se uma barreira à entrada do sol, tornando os interiores mais sombrios e húmidos. Além disso, dá-se um efeito de estufa, que provoca um sobreaquecimento das divisões, que se tornam abafadas. Para já não dizer que as marquises cheias de lixo são um paraíso para o pó e a bicharada.
Numa habitação, as varandas abertas são elementos essenciais – porque são espaços de transição entre o interior e o exterior, lugares onde o morador pode contactar com o ambiente exterior (temperatura, cheiros, ruídos) sem sair de casa.
Por tudo isto, o encerramento das varandas é absolutamente de evitar.
Creio que já dei uma pequena ideia de como é grave este problema. E, ou aprendemos a livrar-nos do que não presta, ou o que não presta acabará por tomar conta de nós. Chegaremos ao fim da vida atafulhados em objectos que não servem para nada, submersos em lixo.
Neste dia, que é o último do ano, sugiro que o leitor tome uma decisão que lhe aliviará a vida: livre-se do lixo caseiro!
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Sérgio Sousa Pinto é um jovem militante socialista de 37 anos, que foi presidente da JS, fez um livro a meias com Mário Soares, esteve no Parlamento Europeu (andando dez anos desaparecido) e agora regressou à Assembleia da República.
Numa insólita declaração no passado fim-de-semana, Sousa Pinto acusou o Presidente da República de «se intrometer na agenda do Partido Socialista» por ter dito que não se pronunciava sobre o casamento gay, estando antes preocupado com o desemprego, a falta de oportunidades dos jovens ou a baixa competitividade da economia portuguesa.
Para Sérgio Sousa Pinto, esta declaração de Cavaco representava – repita-se – uma inaceitável intromissão na agenda do PS.
É verdade que Sousa Pinto é um jovem.
Mas não tão jovem que não se lembre dos congressos organizados pelo então Presidente Mário Soares no tempo em que Cavaco Silva era primeiro-ministro.
Congressos com o objectivo explícito de discutir o futuro do país e apresentar uma agenda política para Portugal.
É impossível Sousa Pinto não se lembrar disto.
Ora isso não o impediu de ser um dos grandes admiradores e apoiantes do ex-Presidente da República.
O que lhe terá dado, então, para atacar agora Cavaco por fazer uma inócua declaração de circunstância?
Ainda por cima, Cavaco Silva estava cheio de _razão.
Pense-se o que se pensar do casamento gay, é obviamente inoportuno aprová-lo neste momento.
Primeiro, por estarmos em vésperas de discussão do Orçamento e devermos centrar aí a atenção, até porque o país atravessa uma situação económica e social muito difícil; segundo, porque o Governo minoritário está a dar os primeiros passos e deve procurar consensos parlamentares e não forçar rupturas; terceiro, por estarmos a atravessar um período de luta política muito acesa e este assunto dividir Belém e S. Bento; quarto, por ser Natal.
Não era este, portanto, o timing certo para avançar com o casamento gay.
Além do mais, não há condições para discutir o assunto com um mínimo de ponderação.
A ideia que passa é que o tema foi metido à socapa e aprovado à pressa.
A menos que o objectivo de Sócrates fosse mesmo esse: provocar aquilo que, em teoria, deveria querer evitar.
Isto é, descentrar a atenção do Orçamento, forçar rupturas parlamentares, agudizar a luta política, agravar a tensão com Belém.
E, bem vistas as coisas, todos estes objectivos interessam ao primeiro-ministro.
Numa altura em que o partido começa a dar sinais de algum nervosismo (em virtude dos sucessivos casos em que se tem visto envolvido), a luta parlamentar e a guerrilha com Belém poderia ajudar a manter as hostes unidas.
E, mais do que isso, contribuiria para promover a unidade entre as principais figuras da área socialista.
Veja-se quem saiu a atacar o Presidente da República: Sérgio Sousa Pinto, um afilhado de Mário Soares.
Será coincidência?
Talvez não.
Soares ainda tem atravessada a derrota de há quatro anos – e sonha com um desaire de Cavaco nas próximas presidenciais.
É isso, aliás, que o liga hoje a Sócrates: a luta comum contra Belém.
E Manuel Alegre também terá obviamente a lucrar com ela.
Quanto mais o Governo e o PS conseguirem desgastar Cavaco, maiores serão as suas possibilidades de chegar à Presidência.
Sócrates é um político pragmático e que não olha a meios para atingir os fins.
Nesta época em que surge pessoalmente desgastado, sabe que precisa de ‘causas’ que aproximem os notáveis socialistas e os ponham a falar a uma voz só.
Ora a luta contra o PR é uma dessas ‘causas’: ela tem potencial para unir os socratistas, os soaristas e os alegristas em torno de um mesmo objectivo.
Na cruzada contra o Presidente, Sócrates, Soares e Alegre estão unidos.
Resta saber se as bases do PS e o seu eleitorado aprovarão do mesmo modo os ataques ao chefe de Estado.
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Um destes dias cruzei-me com o António Mega Ferreira no Centro Cultural de Belém, a cuja administração ele preside. O António, para mim, faz parte de um outro tempo. Ao longo da vida vamos frequentando locais diferentes, conhecendo pessoas diferentes, fazendo amizades diferentes – e, embora as memórias desses encontros perdurem pela vida fora, e os amigos continuem a ser amigos, não deixa de ser verdade que o tempo faz as suas mossas e os sentimentos se diluem. Dito de um modo mais cru, as amizades – regra geral – correspondem a épocas da nossa vida e vão perdendo significado.
Os amigos têm um espaço e um tempo. Poucos amigos são eternos.

Voltando ao António Mega Ferreira, encontrei-o num concerto em honra do músico António Fragoso, tio do Eduardo Martins Soares. O Eduardo é um homem das Arábias, e um dia destes escreverei uma crónica sobre ele e a mulher, Fátima – crónica que, estou certo, terá enorme repercussão. Para já, direi apenas que foi o meu primeiro editor. Publicou o meu primeiro livro, logo a seguir à revolução, em fins de 1974. Como ele próprio diz, foi ele que me descobriu. E tem uma história de vida que merecia não uma crónica de jornal mas uma série de televisão.
O Eduardo Martins Soares e o António Mega Ferreira pertencem ao mesmo período da minha vida. Conheci o António através do Vicente Jorge Silva, na época de ouro do Comércio do Funchal – um jornal com uma certa influência na esquerda portuguesa nos finais dos anos 60 e princípios de 70. Era publicado na Madeira e, apesar do nome, nada tinha que ver com negócios.
Era um semanário político, independente, da esquerda não alinhada, sendo também conhecido como ‘o jornal cor-de-rosa’ – não por qualquer ligação ao lóbi gay mas por ser impresso em papel dessa cor, dado ser originalmente uma publicação dedicada à economia. Talvez tenha sido um dos primeiros jornais do país a assumir essa característica, hoje comum à maioria da imprensa económica, de usar o papel cor-_-de-rosa (ou salmão) como factor distintivo.
O principal responsável do Comércio do Funchal era o Vicente Jorge Silva, que reuniu muita gente para escrever lá: além do António Mega Ferreira, o Fernando Dacosta, o José António Barreiros, o José Manuel Barroso, o Júlio Henriques, a par de jovens do arquipélago cheios de talento e ansiosos por publicar o que escreviam, como o Luís Manuel Angélica, o Ricardo França Jardim ou o José Maria Amador, além de pesos-pesados no exílio como Eduardo Lourenço ou o meu pai.
Mas, datando o nosso conhecimento desta altura (fase final do antigo regime), não foi nesta época que eu e o Vicente nos demos mais. Foi mais tarde, depois do 25 de Abril e da vinda dele para Lisboa.
O caso é que, após a revolução, o Comércio do Funchal foi ocupado por um grupo de extrema-esquerda que saneou o Vicente da direcção (talvez por falta de ardor revolucionário), acelerando a sua vinda para a capital.
Pouco depois entrou para o Expresso, onde rapidamente se destacou. Primeiro foi (penso eu) responsável pela parte sindical, na altura muito importante, e depois coordenador da secção nacional. Nesta altura estreitámos relações. Ele dava-se muito com outros dois colaboradores do jornal – o António Mega Ferreira e a Helena Vaz da Silva – e eu juntei-me ao grupo. Encontrávamo-nos com frequência, fazíamos planos, discutíamos bastante.
Depois apareceram outras pessoas, como o Júlio Henriques, o Luís Matias ou o Manuel Sertório, antigo companheiro de Humberto Delgado, e imaginámos novas publicações, novos grupos de reflexão e até novos partidos. Era um período fervilhante.
Tínhamos todos em comum o facto de não pertencermos nem querermos pertencer a qualquer dos partidos existentes. Éramos todos de esquerda, mas de uma esquerda que rejeitava o controleirismo, a opacidade, a burocracia do PCP e as suas ligações à União Soviética, mas também a loucura e irresponsabilidade da extrema-_-esquerda, além do seu primarismo ideológico. Quanto ao PS, nem se falava: para nós, Mário Soares estava feito com os poderes instalados (aqui e lá fora), que odiávamos visceralmente.
Este período de convívio, apesar de muito intenso, foi efémero. Apesar disso deu frutos. Eu e o Vicente fizemos um livro em comum – O 25 de Abril Visto da História – e, quando Marcelo Rebelo de Sousa saiu do Expresso para o Governo, em 1981, o Vicente (na altura já chefe de redacção) convidou-me para escrever a principal coluna política do jornal. Depois de muito resistir, lá abracei a ideia – e assim nasceu a Política à Portuguesa, que ainda hoje continua aqui no SOL, embora com outro nome (Política a Sério).
Por esta época, o António Mega Ferreira dizia que a sua ambição era ser director de um jornal, e eu achava que ele tinha uma ambição limitada: naquela idade deveria ambicionar ser Presidente da República. Eu, pelo menos, tinha essa pretensão…
Profissionalmente, eu estava em minoria no grupo: o António, o Vicente e a Helena eram jornalistas, enquanto eu exercia arquitectura, trabalhando num ateliê. E achava que um jornal era uma coisa demasiado efémera: um dia depois de ser feito ia para o lixo (ou servia para forrar os caixotes). Assim – acrescentava eu –, as pessoas deveriam empregar o seu tempo a fazer coisas mais sólidas, mais duráveis. Eu amava a arquitectura e desvalorizava a actividade deles.
Quem me diria a mim que haveria de ser director não de um mas de dois jornais, por um período tão longo: já vai em 26 anos! E o António Mega Ferreira, pelo contrário, seguiria uma carreira mais institucional, ligada à gestão, tendo sido várias vezes apontado como eventual ministro da Cultura. Para lá de – imagine-se – ter estado ligado a obras de arquitectura como administrador da Parque Expo! O destino prega muitas partidas.
Dos outros elementos do grupo, a Helena Vaz da Silva também se afastou do jornalismo e dedicou-se ao Centro Nacional de Cultura, do qual durante anos foi a alma, a mola impulsionadora, tornando-se mais tarde deputada europeia. Acabaria por desaparecer prematuramente.
O Vicente Jorge Silva foi o único que continuou no jornalismo e com quem fui mantendo relações. Com altos e baixos. Depois de ter sido meu director no tempo do Comércio do Funchal, fui eu director dele no Expresso. Ora estas inversões de papéis não são nada fáceis e deixam marcas. Conservámos uma boa relação – mas nunca mais voltou a ser a mesma coisa.
Depois ele saiu para fundar o Público e ainda nos encontrámos. Só que na prática liderávamos projectos concorrentes, depois mantivemos uma polémica na praça pública, e o destino acabou por nos separar.
Até há pouco.
Há um ano o Vicente passou a ser colunista do SOL. Veio aqui ao jornal e abraçámo-nos espontaneamente. Essa colaboração continua – e dá-me um especial prazer lembrá-lo nesta época do Natal.
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OS CASOS sucedem-se._ Sucedem-se a um ritmo tão frequente que as pessoas começam a achá-los naturais.
Ninguém já se preocupa muito com o facto de um político ser ou não ser sério.
Não é verdade que Isaltino Morais foi reeleito com maioria absoluta depois de ser condenado em tribunal?
Não é verdade que Valentim Loureiro continua a ser presidente de uma Câmara apesar de todas as trapalhadas em que andou metido?
O que basicamente hoje conta, na política, é a capacidade de realização.
O resto é conversa.
DURANTE muito tempo o poder central esteve imune ao fenómeno da corrupção.
Falava-se abertamente de corrupção nas autarquias, mas não se falava de corrupção no Governo.
Subitamente, porém, com o caso Freeport, a suspeita surgiu.
E o caso Face Oculta veio mostrar que o fenómeno da corrupção está instalado no coração do sistema: empresas públicas ou com participação estatal, ex-ministros e ex-secretários de Estado, são arguidos num processo que envolve uma verdadeira rede dedicada a negócios fraudulentos.
E na semana passada a imprensa deu conta de um outro caso, passado desta vez nos CTT, em que é arguido o próprio presidente da instituição à época, Carlos Horta e Costa.
O ASPECTO mais importante a tratar no que respeita à corrupção tem que ver com os partidos.
É preciso ter em conta que a corrupção começa muitas vezes nos financiamentos partidários.
Quem não se lembra dos escândalos de Macau e dos nomes citados a esse respeito: Emaudio, Rui Mateus, Carlos Melancia, Rosado Correia (o arquitecto que correu pela pista do aeroporto com malas cheias de notas)?
Na altura, Mário Soares deu-lhes cobertura, porquê?
Porque, independentemente dos dinheiros que escorriam para os bolsos dos ‘correios’, havia avultadas quantias que entravam nos cofres do PS.
A investigação nunca tocou no fundo das coisas – mas ninguém tem hoje dúvidas de que o PS beneficiou muito da árvore das patacas.
NO TEMPO do cavaquismo também se falou de financiamentos partidários fraudulentos.
Uma empresa – a Severo de Carvalho – terá ajudado ilegalmente o PSD, referindo-se Dias Loureiro como intermediário e também beneficiário, embora nunca se tenha provado nada.
Mas a Severo de Carvalho terá sido uma gota no oceano.
Com o louco volume de obras realizadas nessa época, desde auto-estradas e estradas a pontes, escolas e hospitais, é impossível que o PSD não tenha encaixado respeitáveis somas e os intermediários dos negócios não tenham recebido ofertas chorudas.
MAIS recentemente, o caso Portucale e a compra dos submarinos pode ter envolvido ‘luvas’ ao CDS e o caso Freeport financiamentos ao PS.
É essa, pelo menos, a suspeita dos investigadores.
Mas vai ser difícil prová-la.
Mais fácil de fazer prova será o Face Oculta, por via dos novos métodos de investigação, que envolvem escutas telefónicas.
E porque, integrando esta rede muita gente, o cruzamento dos interrogatórios permitirá apurar abundantes factos.
A propósito, fiquei impressionado com a entrevista de Armando Vara a Judite de Sousa.
Porque o ouvi desmentir, com a maior naturalidade, coisas que sei serem verdadeiras – e que ele sabe que várias pessoas conhecem.
Fiquei com a ideia de que perdeu as referências, já não sabe bem distinguir a ‘verdade’ da ‘mentira’, tudo o que lhe interessa é safar-se.
MAS, se os partidos políticos estão no âmago da corrupção – pelo menos de boa parte dela –, como combatê-la?
A verdade é que partidos ávidos de dinheiro haverá sempre; empresas interessadas em dar dinheiro aos partidos em troca de favores haverá sempre; militantes especializados em intermediar estes negócios haverá sempre (até porque de caminho metem uns dinheiros ao bolso).
Como combater então este fenómeno?
É preciso ver que quem deu o dinheiro não quer que se saiba; quem recebeu o dinheiro também não quer que se saiba; e, se o intermediário desviou algum dinheiro para si, também nunca denunciará o caso.
Acrescente-se que, como nessas operações não há recibos, o partido receptor não sabe exactamente quanto o dador entregou; e, portanto, desconhece-se a percentagem ‘cobrada’ pelo intermediário.
TENDO em conta o que fica dito, julgo que em democracia a corrupção é inevitável.
Claro que, se nas cúpulas dos partidos houver gente pouco séria, o fenómeno assumirá muito maiores proporções.