SOL
Invictus
05 February 10 10:00 AM

Li a autoBIOGRAFIA de Nelson Mandela quando ela chegou aos escaparates em português. Lembro-me de a ter lido de um fôlego e de ter chegado ao fim a abanar a cabeça em concordância com a ideia que o pai da nação sul-africana tinha de si próprio – um homem simplesmente normal que viveu em circunstâncias excepcionais. Se calhar, são assim os heróis e gostei da ideia. Uma pessoa deve desconfiar dos heróis, pelo menos tanto quanto precisa deles. Mas depois de ver Invictus, o ultimo filme de Clint Eastwood, fiquei roído de dúvidas.

 

A história do filme é muito simples. Numa África do Sul que ainda lambia as feridas do apartheid, a equipa nacional de râguebi era um resquício do passado. Amada pelos brancos e detestada pela maioria negra, estava de rastos a um ano do Mundial que se realizaria naquele país. A partir daqui, o realizador constrói a narrativa de uma transfiguração que simboliza o nascimento de uma pátria multirracial. Claro que Nelson Mandela não andou aqueles 365 dias apenas a pensar no râguebi, mas foi aí que o filme se concentrou. O ângulo escolhido da acção parece trivial, mesmo risível, ante a dramaticidade do passado e a persistência das promessas por cumprir. Mas Clint Eastwood é um mago e do ‘nada’ mostra como nasce e de que massa se faz uma grande nação. Não parece, mas Invictus é um épico, um épico suave. Foi de certeza por isso que me vieram as lágrimas aos olhos por mais de uma vez. A certa altura, o capitão da equipa interroga-se, revisitando mentalmente a cela de 2 por 2 em que o líder africano estivera encarcerado: «Como é possível que um homem viva 30 anos desta forma e não queira, agora, a sua desforra»? A pergunta resume a mensagem do filme: houve alguém que foi capaz de enfrentar as monumentais razões dos seus – a comunidade negra – para fazer nascer um país em que a minoria branca e privilegiada acabasse a cantar o hino na língua dos oprimidos.

 

Regresso aos heróis. O Mandela que nos é apresentado pelo realizador é um homem na idade da sabedoria, um anti-herói sem mácula, mas de escala humana, que se entristece com a filha, que seduz um par de dança sem pecar, que ensaia poesia e conhece o segurança pelo seu nome. Mas é, ao mesmo tempo, um homem que sa- be o peso que carrega nos ombros e que não o aligeira. Eu não sei se ele foi mesmo um ‘homem normal’. Sei é que figuras destas não surgem todos os di- as. No tempo das estrelas políticas de plástico, inven- tadas por medida, este filme vale por uma promessa.

Levante-se e vá ao cinema. Sairá de lá a acreditar no género humano ou, pelo menos, a pensar que vale sempre a pena tentar.

 

Publicadopor MiguelPortas | 0 Comentário(s)    
Candura ou humor?
29 January 10 10:00 AM

O problema do país, garante um editorial, é o da «impotência para atacar as causas profundas do desvario das contas». Camilo Lourenço concorda: «Não se foi suficientemente longe na contenção da despesa pública». Pedro Santos Guerreiro, do mesmo jornal, insiste: «Os funcionários públicos não se deviam queixar deste ano», mas sim dos «aumentos sumptuosos do ano passado». Um a um, todos os analistas se repetem. Por sua vontade, teríamos «aumentos negativos», algo que os políticos da direita não podem, evidentemente, sussurrar em público. É por isso que nos encontramos ante o curioso paradoxo ilustrado por José Castro Caldas no blogue Ladrões de Bicicletas: afinal, «o défice vai ficar igual. E a direita, contra tudo o que tem dito, cala e consente». Estamos conversados – em matéria de OE, a consigna de PSD e CDS é «não faças o que te digo».

Por acaso, a do PS também.

 

Apassagem do investimento público de ‘monstro’ a ‘virtuoso’ durou, nas palavras de José Sócrates, ano e meio. Quantas vezes ele se ouviu a si próprio explicando que «ainda não é tempo de retirar os estímulos à economia»? E, no entanto... chegou a prova dos nove: em 2010, o OE prevê uma queda do investimento em 10 pontos. Percebe-se agora melhor porque o viabiliza a direita. Com o rendimento das famílias a cair, com a iniciativa privada bloqueada, com as exportações estagnadas e o investimento público a cair, qual é o motor do relançamento da economia? A resposta é a grande mentira da multiplicação das parcerias público-privadas que atiram para as gerações futuras as despesas que agora se fazem. Eis porque a direita ampara este OE.

 

Então e a taxa sobre os bónus dos executivos do sistema bancário? De Obama a Sarkozi, passando por Brown, é coisa pacífica. Porque não, também, Sócrates ou Ferreira Leite? Na verdade, os líderes políticos têm boas razões para a sua irritação: andaram a vida a proteger o sistema e este pregou-lhes uma partida. Por causa dela, injectaram rios de dinheiro nos mercados interbancários, chegaram mesmo às malfadadas nacionalizações e os executivos fizeram-lhes nova finta, regressando, sem período de nojo, aos antigos vícios. Esta taxa não é de esquerda nem de direita – é uma absolvição da inconsciência.

Pelo seu lado, os banqueiros sentiram-se discriminados, coitados, e pediram aos analistas palavras de conforto. Diz Ricardo Reis que «castigar bancos e banqueiros é populista e perigoso». Porquê? A pena de Martim Avillez explica: «A banca e os gestores que criam emprego e valor sem roubar ou enganar não são cancros, mas vida na economia». Cândidos ou humoristas?

Publicadopor MiguelPortas | 1 Comentário(s)    
Coisas da vida
22 January 10 10:00 AM

São sete da manhã, passo os jornais em revista e deparo-me, no Figaro, com uma pequena crónica do dia escrita pelo seu correspondente em Roma. Diz ele que 72,8 por cento dos italianos vivem em casa dos pais... até aos 39 anos de idade. Tenho dificuldade em acreditar, talvez porque a manhã ainda não tenha nascido e o tempo, do lado de lá da janela, se afigure enevoado.

Depois, penso melhor, algo que nem sempre sucede, e lembro-me de conversas sobre o facto de os jovens nos países nórdicos serem ‘despachados’ pela família mal chega a idade da Universidade. Vão para residências, partilham os quartos e recebem dinheiro para estudar. É assim que saem pela segunda vez da barriga da mãe. Recordo-me, também, dos meus tempos de jovem. Saía-se bem mais cedo de casa, ou porque se começava a trabalhar antes da idade de trabalhar ou porque os mais amparados podiam experimentar o que a vida tinha para dar. Muitas vezes, a família não gostava porque nunca se sabe onde pára a viagem, mas não tinha como a impedir. Acabava por ficar para o que desse e viesse, como almofada da ousadia.

 

Uns bons anos mais tarde, numa das primeiras campanhas eleitorais do Bloco de Esquerda, andei de escola em escola em pequenas sessões, armado com uma pergunta de repetição provocatória: querem mesmo ser adolescentes até aos 30?

Nessa altura, não conhecia as estatísticas italianas, que, aliás, não deviam ser muito diferentes das nossas. Só tinha percebido que o que estava a mudar, mais do que os pais ou os filhos, era o emprego.

 

A crónica do Figaro acrescentava histórias bizarras para apimentar os números. Escolho uma: em Bergamo, uma jovem de 32 anos (como eu gostaria de ter sido tratado assim com essa idade) levou o pai a tribunal por este lhe ter deixado de pagar os estudos de Filosofia. Consigo imaginá-_-lo, desesperado, explicando ao juiz que a filha mal agradecida deixara de estudar ia para oito anos e que não percebia porque lhe havia de pagar agora a Universidade. A crónica não dava conta da sentença, nem a creio relevante. Apenas me interessa a sua reacção: imagino-a do lado do pai se conservar a íntima convicção de que a melhor herança que podemos deixar aos filhos é a da conquista da liberdade. O problema é que sem emprego não há casamento e sem este não se sai de casa. Pior ainda, dizem-nos que no futuro o emprego será uma ‘ocupação’ alternada com formação ao longo da vida. Se assim for e se o Estado continuar a desertar em face do mercado, então a ‘jovem’ de Bergamo tem mais razão do que se poderia supor – ela apenas trouxe para o presente o tempo que aí vem.

Publicadopor MiguelPortas | 3 Comentário(s)    
A questão moral
15 January 10 10:00 AM

Em economês, a frase tem o seu quê de enigmática – é previsível «uma destruição de emprego em termos líquidos muito superior à registada nos dois episódios recessivos anteriores [crises de 1993 e 2003]». Ela não deixa, contudo, margem para dúvidas. O que o Banco de Portugal nos diz é que, em 2010, o desemprego vai continuar a crescer.

As dúvidas residem na medida desse aumento.

Porque uma coisa é as empresas fecharem porque se afundam; outra, bem distinta, é despedirem com lucros, tomando a crise como pretexto para reestruturações à custa do trabalho. Se esta continua a ser a lógica dominante, o desemprego tem muito para escalar.

Um caso exemplar deste segundo tipo de comportamento empresarial é o que envolve os casinos. A sociedade Estoril Sol quer eliminar 130 postos de trabalho, depois de já se ter livrado de 681. O argumento invocado junto dos trabalhadores é o da queda das receitas – 18,5 milhões de euros no do Estoril (10 por cento face a 2008). Contudo, o lucro estimado é de 10 milhões de euros…

Não é sociavelmente aceitável o despedimento nestas condições.

 

Primeiro, esta sociedade tem uma estratégia de vendas inteligente: ‘suaviza’ a visita aos seus casinos através da promoção regular de espectáculos, captando deste modo novos clientes para as suas máquinas, o ‘core’ do negócio. As vantagens, do ponto de vista da imagem, também não são negligenciáveis: a Estoril Sol exibe com orgulho o seu papel de promotor cultural.

Tudo bem. Mas pode a cultura cobrir a irresponsabilidade social? Lá poder, pode, mas não deve. A vida das pessoas cujo salário depende do jogo não fazem parte do bluff  à mesa do poker nem são números na roleta que fica ao lado. Se as empresas não compreendem a responsabilidade social que lhes incumbe, é indispensável que a lei a imponha.

 

Segundo, a tentativa de despedimento carece de fundamento económico. O sector não está exposto à concorrência internacional e a quebra nas receitas do ano passado tem uma explicação simples – as pessoas pouparam e arriscaram menos – que não se repetirá, pelo menos nos mesmos moldes, em 2010. É o que nos dizem, também, as previsões do Banco de Portugal. Quem mantenha o seu emprego vai ver o salário perder poder de compra mas – e aqui está o paradoxo – gastará mais do que em 2010. Tiro e queda: os que não prescindem do jogar regressarão à roleta.

Como se justifica, então, a posição da administração do casino? Segundo a Comissão de Trabalhadores, a ameaça de despedimento é «uma pressão para tentar obter vantagens junto do poder político numa pretendida revisão das condições do contrato de exploração da zona de jogos». Cappisci, Governo? Trata-se de pura chantagem com a vida das pessoas. Só compra quem quiser.

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Casamentos
08 January 10 10:00 AM

Quando esta crónica lhe chegar às mãos já o casamento entre pessoas do mesmo sexo estará a ser aprovado na Assembleia da República. Pelo caminho ficou uma petição solicitando um referendo sobre a matéria. Ainda bem. O direito dos homossexuais ao casamento foi objecto de larga discussão no último trimestre de 2008; em 2009, foi anunciada a posição de José Sócrates que foi, mais tarde, plasmada no seu programa eleitoral. As posições do BE e do PCP também eram conhecidas e o assunto teve razoável relevância nas últimas eleições. A AR não legislou, portanto, ‘nas costas do povo’. Mesmo a tardia posição do PSD, sugerindo uma nova figura jurídica em tudo idêntica à do contrato de casamento, salvo no nome, acaba por confirmar a evidência: existe uma maioria larga no país que não aceita mais a diminuição de direitos civis por razões de escolha na orientação sexual.

 

Na oposição a esta medida houve texto e subtexto. O texto exigia o referendo para que o assunto pudesse ser largamente debatido. Mas, curiosamente, quem invocou este argumento, esgrimiu, ao mesmo tempo, contra o casamento entre homossexuais porque existiriam assuntos bem mais importantes para o Parlamento decidir... O que explica esta evidente contradição é a perenidade de um subtexto impronunciável, mas que existe, difuso, nos sectores mais conservadores da sociedade portuguesa: o homossexual como ‘homem pouco homem’ e a lésbica como ‘mulher que não entende a razão que a trouxe ao mundo’. Dêem-se as voltas que se derem, não é por acaso que a grande maioria dos que criticam a nova legislação já antes se tinha manifestado contra a despenalização do aborto.

 

O que está em causa é, evidentemente, uma lei sem significado pa- ra a maioria da população, embora importante para a minoria que a possa vir a usar. Contudo, esta pequena mudança conta, e muito, para o modo como a nossa sociedade se olha ao espelho. Assim como a existência do contrato de casamento não obriga os heterossexuais ao dito cujo, também a  nova lei não ‘casa’ os gays e as lésbicas – apenas lhes dá a possibilidade de o fazerem.

Sinceramente, é assim tão complicado?  Só para quem pense que esta escolha é um ‘pecado’, um ‘problema de saúde’ ou, vá lá, uma grande tristeza.

Este dossiê só não fica inteiramente encerrado porque o projecto aprovado exclui a possibilidade de adopção. Nesta, o que deve contar é o interesse da criança. Por isso é que os critérios que orientam a selecção dos candidatos a novos pais são as condições de estabilidade e amor que possam oferecer face à frieza do crescimento em instituições. Pergunto-vos: o que é que isto tem a ver com o casal ser hetero ou homossexual? A felicidade é hetero?

Publicadopor MiguelPortas | 10 Comentário(s)    
Exaustão I
31 December 09 10:00 AM

No plano mundial, a nota mais saliente de 2009 é o rápido esvaziamento das expectativas geradas por Barack Obama. O novo Presidente dos EUA tinha quase tudo a seu favor e nem se pode dizer que tenha começado mal. Suspendeu o programa de defesa antimíssil na Europa, distanciou-se das teses neoconservadoras sobre o choque de civilizações, no discurso que proferiu no Cairo, e mudou a atitude norte-americana face ao Irão, com a realização de negociações directas sobre o programa nuclear deste país.

Mas, para lá destes sinais, vingou a herança de G.W. Bush. No Afeganistão e no Iraque, Obama seguiu a estratégia delineada pelos militares da última fase do anterior mandato presidencial. A Casa Branca é refém de um princípio de escalada na guerra e nem o abandono do projecto neoconservador de um ‘novo Oriente Médio’ deu lugar a qualquer nova abordagem que explorasse os caminhos da paz no conflito israelo-palestiniano. Inicialmente, Washington ainda pressionou Telavive. Depois, Hillary Clinton liquidou quaisquer expectativas que pudessem existir no campo palestiniano.

Mutatis mutandis, o mesmo se passou com as conversações internacionais em matéria de crise financeira e de alterações climáticas. A reserva norte-_-americana bloqueia todas as iniciativas mais prometedoras ao nível da moralização do capitalismo financeiro – nem reforma do sistema monetário, nem fim dos offshores, nem taxação sobre as transacções financeiras. O mesmo se passou na conferência de Copenhaga: nem metas ambiciosas, nem acordo vinculativo, nem compromissos claros de apoio financeiro ao combate às alterações climáticas.

 

As prioridades externas dos EUA obedecem, em primeiro e em último lugar, a objectivos de ordem interna. A Casa Branca responde apenas pela sobrevivência e supremacia dos EUA na economia mundial e não por quaisquer desígnios que a todos possam interessar. Obama encontra-se à frente de um sistema imperial em declínio, mas que detém, ainda, inegável superioridade em termos militares, tecnológicos, económicos e financeiros. A novidade da sua acção é, afinal, um retorno à renacionalização da política norte-americana. Mesmo quando pede tropas frescas aos seus aliados europeus na NATO.

 

Com a União Europeia não é muito diferente. Ironia da história, o Tratado de Lisboa entra em vigor num momento em que o ‘espírito de Nice’ voltou a ditar as regras entre os 27. O ano europeu terminou com nomeações que apenas confirmam a persistência da Europa do Directório, assente na teia de compromissos entre os principais governos. O Reino Unido ficou com o controlo da projecção externa, a França com o mercado interno e a Alemanha com o Banco Central Europeu e a energia.

Nada de novo por aqui. Ao novo presidente do Conselho, ‘um facilitador’, competirá a tarefa de responder, com Durão Barroso, pela estabilidade deste sistema coxo e desconfiado de poderes interdependentes. Não é brilhante nem augura grande 2010.

Publicadopor MiguelPortas | 5 Comentário(s)    
Avatar
24 December 09 10:00 AM

A estrada era larga e de terra batida. A espaços, putos chegavam à berma para aplaudir a passagem do jipe como se vissem uma raridade. Na verdade, estavam mesmo a observar uma, que o normal por ali eram vacas e criaturas a pé.

Nessa viagem, lembrei-me das imagens de filmes mudos mostrando outros miúdos, igualmente felizes e embasbacados, assistindo à passagem dos primeiros automóveis, à chegada do cavalo de ferro ou à descolagem saltitante dos primitivos aeroplanos. A diferença era simplesmente temporal: este episódio tem 10 e não 100 anos.

Mais ou menos a meio caminho, perto de umas cabanas, vimos um homem trabalhando num tear de pés e parámos. Não foi preciso muito tempo para que vários miúdos se aproximassem, vindos do nada. Um deles tinha uma ferida com mau aspecto e alguém decidiu abrir a caixa dos medicamentos para a desinfectar. Dois ou três minutos depois, crianças e mães disputavam ferozmente o remédio. Quem presenciou a cena ficou com ela na memória para sempre. Na mais absoluta miséria, não há partilha ou solidariedade. Apenas luta desalmada pela sobrevivência. Nós não nascemos bonitos, isso é um conto de Natal.

 

Esta história passou-_-se na Etiópia, onde o dia do menino é objecto de uma interminável cerimónia em Lalibela, a cidade-santuário que se julga uma réplica de Jerusalém até no fio de água que a atravessa e que dá pelo nome de Iordanus. Pelas estradas, há peregrinos que se esvaem, sem que alguém se incomode ou acuda. Pergunto-me muitas vezes onde é possível observar indiferença equiparável e a resposta é sempre a mesma – em Wall Street. O mais absoluto dos poderes, o do dinheiro, não é melhor do que a maior das misérias. Ainda por cima, sem desculpa. Não, não nascemos bonitos e o pai natal não é um tipo porreiro.

... E no entanto, há quem se faça bonito. No Natal, vale a pena lembrar isso mesmo e por isso transito do relato de viagem para a sala de cinema: levem a família a ver Avatar.

 

Avatar tem tudo o que o cinema de animação das últimas décadas nos tem oferecido – encantamentos, efeitos especiais e, principalmente, narrativas inteligentes. A história é muito simples: os terráqueos – americanos, claro – exploram as matérias-primas de um planeta habitado por indígenas tecnologicamente inferiores. Até aqui é uma narrativa colonial galáctica vulgar. O interesse começa quando se percebe que os ‘bárbaros’ dispõem, apesar do seu défice tecnológico, de uma civilização bem mais estimável do que a nossa. Os raros terráqueos com uma pinga de humanidade no corpo percebem e passam-se para o ‘outro lado’, ou seja, traem os seus.

Dir-me-ão que o herói, mesmo traidor, é americano. Responderei que, no tempo dos westerns, o melhor que se podia arranjar era um cowboy amigo dos índios. O que o filme de James Cameron nos diz é que não nascemos bonitos, mas podemos lá chegar. Com esforço, imaginação e efeitos especiais...

 

Publicadopor MiguelPortas | 3 Comentário(s)    
Pequenez
18 December 09 12:00 AM

No momento em que escrevo, não são ainda conhecidos os resultados de Copenhaga, mas é possível, desde já, avaliar a peça de gosto duvidoso encenada pela União Europeia.

Primeiro acto: a UE chega ao reino da Dinamarca imbuída de um sentimento de ‘liderança’. A União tinha as propostas mais ‘robustas’ e arrastaria para elas o resto do mundo. Era, além disso, a única, entre os do primeiro mundo, a colocar o seu porta-moedas em cima da mesa  para  auxiliar  os  países em vias de desenvolvimento. Os líderes avançaram mesmo os números do seu compromisso: 2,4 mil milhões de euros por ano até 2012, entre 5 e 7 mil milhões anuais até 2020 e a partir daí a fartura de 30 mil milhões/ano até 2050, de modo a garantir uma redução global de 85 a 90 por cento das emissões de carbono face a 1990.

Pano de fundo: os ‘outros’ é que constituem o problema. O Canadá, a Austrália, o Japão e os EUA, do lado dos ricos; o grupo dos pobres, apenas interessado em manter o Protocolo de Quioto, porque nada de substancial têm a perder com ele e porque desconfiam dos ricos; e, claro, a China, que deveria ser bem mais ambiciosa. A ‘liderança’ estava, portanto, mais do que justificada.

 

Segundo acto: já em Copenhaga, a União desliza suavemente da ‘liderança’ para a ‘mediação’. Mas não deveria ser essa a função das Nações Unidas, a instância organizadora da Conferência? Lá dever devia, mas, pelos vistos, Bruxelas achou por bem intrometer-se. Resultado: foi-se a ‘liderança’. A União deixou de puxar pela brasa à sua sardinha e entrou na lógica da negociação em banda baixa de exigência. Foi-se a pretensão principal – um acordo ‘vinculativo’ para todos os Estados; voaram também as metas mais ambiciosas de redução de emissões e tudo regressou à fórmula antiga, se não acabar ainda pior, porque os EUA não querem reportar os seus compromissos ao ano base de 1990, mas apenas ao de 2005, o que de caminho trama a China; e, como se não bastasse, tudo indica que os transportes aéreos e marítimos e as florestas ficarão de fora de qualquer acordo. Quanto a dinheiros, o porta-moedas foi recolhido à espera que outros encontrem o seu, algo que, na melhor das hipóteses, ocorrerá lá para o meio de 2010.

 

Terceiro acto: poderá assistir a ele na televisão com esta crónica na mão. «Todos ganhámos», será anunciado. «Os líderes estiveram à altura do que o planeta deles esperava», dir-se-á com pompa e circunstância. E quanto ao que conta – o diabo, em política, mora nos detalhes – isso ficará para Bona e México, em Junho, ou lá mais para o fim do próximo ano.

Passa-se com o clima o que está a suceder com a reforma do sistema financeiro mundial: os europeus falam alto enquanto voam baixinho, porque «só se pode agir globalmente». Sinceramente, esta conversa já cansa. Tínhamos direito a uma prenda de Natal, mas até este foi adiado.

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Robustez
11 December 09 01:14 PM

Por vezes, acontece aos cronistas não saberem por onde começar e esta é uma delas. Para quem não saiba, acabei de usar uma ‘bengala’. Pronto, isto começou. Pelas palavras-chave.

Há uma de que ouvireis falar insistentemente ao longo da próxima semana: ‘robusto’. Robusto se quer o acordo de Copenhaga. ‘Robusta’ é a palavra quando se lhe não conhece o exacto significado. Os líderes do mundo, dos piores aos menos maus, sabem que não podem falhar e renovam o léxico. ‘Robusto’ é assim mais do que nada, mas não chega a ‘forte’ ou ‘decidido’.

‘Forte’ é a greve de fome de Aminetu Haidar em Lanzarote porque ‘decidida’ é a sua ‘vontade’. Com dez gramas dela, não duvide, teríamos mais do que um ‘robusto’ em Copenhaga. Mas Aminetu não está na capital dinamarquesa, resiste em Lanzarote, quase tão longe do mundo quanto os campos de refugiados em que vive boa parte do seu povo, há mais de 40 anos, algures no deserto de Tinduf.

 

Dir-se-ia que a ‘força’ é proporcional à necessidade e que esse é o valor da mulher que ergue do esquecimento a mais escondida das lutas de libertação. Por exemplo, duvido que algum líder mundial entrasse hoje em greve de fome pela sua terra. Gandhi fê-lo, os tempos eram outros. Mas apostaria que o Rei de Marrocos, comandante dos crentes, passará por Copenhaga. Também ele tem ‘força’ e talvez ela se faça de ‘convicção’, embora duvide. Talvez a sua força seja a de uma arrogância, ou esta em forma de força, que o Estado não admira adversários nem respeita quem o conteste. Principalmente se do outro lado estiver apenas uma mulher. Bem, do outro lado não está apenas ela. Como em Copenhaga não estão apenas os líderes e seus assessores, armados de computadores e máquinas de calcular para não se enganarem no preço da coragem.

A incógnita da equação, a que a deixa incerta, é a contra-cimeira que decorre ao lado e o impacto que lhe derem. Os do lado de cá determinam algo do que se passa no lado de lá. Não são os únicos, bem entendido. Lá dentro também existe quem tenha consciência clara do preço do ‘não agir’ – de quanto ele nos custa. Mais coisa menos coisa, é nessa comparação de custos – entre o fazer e o não fazer – que se joga a decisão. Aminetu decidiu ‘fazer’ e ‘fazer’ é acontecer. O Cop15, para já, só sabe que ‘algo tem de fazer’ e que ninguém lhe perdoará o ‘não fazer’. Mas não conhece a medida do acontecer. Dessa sabem os da vontade mais do que os contabilistas. Como sabem que os precisam de influenciar, que o planeta não se adia em nome dos amanhãs que cantam. Tal como Aminetu sabe que só regressará se o seu gesto e os de todos os outros forçarem o robusto Governo espanhol a um rebate de consciência ou o Rei a ganhar em humildade o que exibe em nobreza. É assim a ‘luta’. Bela palavra esta.

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Minaretes
04 December 09 12:00 PM

O tema é incómodo, pois é. Até o Público online decidiu abrir uma votação sobre se em Portugal deveria ser legal erguer minaretes. Claro está, no momento em que votei, existia uma maioria de pessoas que achava que não, que minaretes só para Sul do Atlântico e para Leste, para longe, muito longe de preferência. Passo adiante o absurdo de se abrir um inquérito com essa pergunta, que melhor seria perguntar «sabe o que é um minarete?», mas adiante.

O súbito interesse pela arquitectura religiosa teve pretexto suíço. No país das vacas, do queijo, do chocolate, dos vales e montanhas verdes e brancas e do segredo bancário, existiam quatro-minaretes-quatro, que não piavam, mas mexiam na paisagem, algo em que obviamente os suíços não tocam para não prejudicar a indústria dos postais. Foi quanto bastou para que o partido da extrema-direita, que já tinha corrido em cartazes com os imigrantes a pontapé, bradasse aos céus e convocasse um referendo. Estes estetas não gostam de pretos, de amarelos ou de tisnados, nem de torres magricelas sem cruzes e campanários. Seria o assunto ridículo se não fosse trágico.

 

É que, diferentemente de Hitler, esta gente não afirma a superioridade da raça ariana. Não, eles são apenas gente de bem que quer continuar a ser livre e liberal, algo que não se pode esperar dos pretos, dos amarelos e principalmente dos tisnados que erguem minaretes nas suas terras. Se assim é, que os façam por lá e que para lá voltem, que tratem aí do paraíso do obscurantismo, mas que não nos contaminem nem façam filhos nas nossas mulheres.

Não, eles não são racistas, mas estetas e libertários que defendem a paz social e o convívio com a natureza. Não, eles não são arrogantes, apenas querem defender a liberdade das mulheres, ameaçada pela pesada sombra dos quatro minaretes que serão muitos mais se os deixarmos. Não, eles não são fascistas, é um insulto insinuá-lo, porque convocaram um referendo e não um ditador para impor a vontade da maioria. Ou não é a Suíça o mais democrático dos países, aquele onde o povo governa directamente por consulta em vez de delegar as decisões no Parlamento e no Governo? Afinal, somos ou não somos bons, se não os melhores dos melhores?

Não, não são. Os povos não são melhores nem piores, apenas são capazes do melhor e do pior se tiverem a oportunidade. Na Europa do pós 11 de Setembro e na Europa da crise, ela está criada. O referendo suíço é mais um episódio de uma série de tipo B onde os ricos e anafados convocam o voto dos tristes de espírito para erguerem taças às guerras de civilização. 

 

Mas... e então a democracia não é a vontade da maioria? Não, não é. A democracia qualifica-se pelo modo como respeita (não é tolera, não) e protege as minorias e faz das diferenças a riqueza da nação. Um dia, os suíços perceberão que a única coisa boa dos muçulmanos não são as contas bancárias dos que não autorizam igrejas nas areias regadas a petróleo... se entretanto não for tarde demais.

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Carta aberta
27 November 09 12:00 PM

Dirijo esta carta em primeiro lugar à nova embaixadora do reino de Marrocos. Só a urgência da circunstância me leva a torná-la pública. No aeroporto de Lanzarote encontra-se uma mulher que hoje entrará no seu 14.º dia de greve de fome. Conheci-a em Bruxelas e acompanhei-a durante a semana que esteve em Portugal. Essa mulher chama-se Aminetu Haidar. Vive em El Ayoun com a sua mãe, dois filhos e um irmão. Vive? Vivia. Até ter sido deportada no passado dia 12 de Novembro.

Eu sei que o Rei de Marrocos declarou recentemente que não renunciaria a um grão de areia do Sahara e que considera a sua parte ocidental como território do reino. Não é sobre isso que pretendo argumentar. O meu ponto é outro: sei que Aminetu Haidar levará o seu gesto até às últimas consequências e quero fazer o que puder para o evitar.

Como sabe, Aminetu Haidar foi detida pelas autoridades no aeroporto de El Ayoun porque no formulário de entrada escreveu ‘Sahara ocidental’ onde se esperava que escrevesse ‘Marrocos’. Saiba, senhora embaixadora, que ela sempre assim procedeu antes. Mas mesmo que assim não tivesse sido, tal atitude não justifica detenção, confisco de passaporte marroquino e deportação. O que as autoridades do seu país, de que tanto gosto, fizeram, foi usar de um pretexto administrativo para impedir esta activista de regressar à sua cidade e à sua família sem terem que a prender de novo. Nem liberdade nem prisão, deportação. Porque Aminetu preencheu indevidamente os formulários de entrada...

 

Sem discutir a questão Sahara ocidental, reconhecerá que a causa de Aminetu Haidar – acreditar que os sarauís têm direito ao seu Estado – é pelo menos tão respeitável quanto a sua. Acresce que o activismo deste rosto da resistência saharauí é pacífico e decorre num contexto em que o diferendo se procura resolver pela via do diálogo mediado por instâncias internacionais. Invocar um procedimento administrativo para expulsar o símbolo de um povo da sua própria terra é algo que não honra quem o pratica. Por isso apelo. A morte de Aminetu Haidar pode ser evitada desde que ela possa regressar a sua casa.

 

Dirijo-me agora ao embaixador espanhol em Lisboa. Não é razoável que um país que não reconheceu a ocupação do Sahara ocidental pelo reino de Marrocos aceite a entrada contrariada de Aminetu Haidar em Lanzarote e lhe ofereça a condição de refugiada – porque ela não quer tal estatuto, mas ser cidadã na sua própria terra; e porque não é compreensível que Espanha aceite o papel que o reino de Marrocos lhe destinou – resolver o problema que ele próprio criou.

As linhas finais desta carta dirigem-se ao primeiro-ministro português e a Luís Amado: o que nos idos de 74 ocorreu nas areias do Sahara – a entrada de Marrocos após a saída dos espanhóis – lembra demasiadamente os acontecimentos de Timor Leste. Portugal só pode ter uma posição pró-activa neste caso porque nenhum negócio justifica o silêncio em matéria de Direitos Humanos. A realpolitik tem limites.

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668 mil
20 November 09 12:00 PM

Eis o número que mede as consequências sociais da crise económica e financeira em Portugal. Há outros, mas nenhum elucida tanto como o número de desempregados.

Oficialmente, são menos: 548 mil. Mas, se a estes adicionarmos os que não se deslocaram aos centros de emprego por alturas do inquérito e que, por isso, foram catalogados como inactivos, obtemos a medida real da crise de emprego na sociedade portuguesa. Podemos decliná-la em termos percentuais: 11,7 por cento. Já estamos nos dois dígitos.

O pior deste filme negro chama-se, contudo, futuro. É consensual entre os economistas que o desemprego vai continuar a subir, pelo menos, por mais dois anos. Suspeito que existe alguma comiseração nas suas estimativas. Com efeito, a economia destrói mais empregos dos que os que cria se não crescer, pelo menos, 1,5 a 2 por cento ao ano. Não acredito que a Europa, e Portugal por arrasto, possam sair de taxas de crescimento medíocres enquanto se mantiverem as orientações económicas dominantes.

 

Com efeito, o outro lado das más notícias vem de Bruxelas. A Comissão Europeia é a ‘guardiã dos Tratados’ e o de Lisboa consagra a institucionalização do Pacto de Estabilidade e Crescimento, que obriga os orçamentos nacionais ao défice zero. Se tivessem aprendido alguma coisa com a crise, os governos teriam, entretanto, mexido no que assinaram.

Teriam, também, tido o cuidado de repartir o endividamento entre os Estados nacionais e o Orçamento comunitário, ampliando as possibilidades de financiamento deste com recurso a obrigações europeias. Como não o quiseram fazer, têm até 2013 para porem as contas em dia. Este programa de ajustamento é draconiano. Em rigor, é impossível, a não ser que os governos sonhem em ganhar eleições com índices de desemprego superiores a 15 por cento...

 

Neste quadro há filhos e enteados. O ajustamento tem consequências sociais muito diferentes de país para país. No nosso caso, uma parcela significativa dos desempregados não tem subsídio de desemprego. Como será amanhã? Pôr as contas em ordem em 3 anos, a partir de 2011, significa diminuir o investimento público, o poder de compra de salários e subsídios e atacar sem dó nem piedade o salário indirecto, aquele que se mede em serviços públicos.

Há um ditado popular que ilustra muito bem o dilema: não é possível ter ‘sol na eira e chuva no nabal’. O próprio Governo o reconhece implicitamente quando se sabe condenado a aumentar o défice do Orçamento para 2010, em nome da retoma económica. A sua hipótese é simples: se aquela adquirir balanço, a seguir vêm as contas. O problema é que esta escolha não passa de uma fezada. Na verdade, esta equação, que nunca é fácil, só tem um princípio de solução: redistribuir os rendimentos com maior justiça. Mas quem é que, em contexto de crise, quer ouvir falar disto?

 

 
Publicadopor MiguelPortas | 2 Comentário(s)    
Reincidir
13 November 09 12:00 AM

«A diferença entre um cleptocrata e um homem de Estado judicioso, entre um barão do roubo e um benfeitor público, é apenas de grau: uma questão relativa à percentagem do tributo que é retida e à que é redistribuída». (1)

Foi sempre assim que a questão da justiça e da injustiça do poder se colocou aos olhos do povo. Um bom governante era o que não se esquecia de fazer pontes ou estradas mesmo que tratasse da riqueza da sua linhagem. Entre os seus e os súbditos, repartia com algum bom senso, nem que fosse para manter a ordem. A democracia introduziu um curto-circuito neste esquema milenar ao institucionalizar o povo como actor e ao introduzir o princípio da escolha na governação.

É por isso que a democracia ataca o fundamento da discricionariedade do poder e o torna permeável à contradição e ao conflito. Mas, de per si, a democracia não evita que o antigamente se renove para se perpetuar. Na democracia, o que antes era ’normal’ passou a ser ‘abuso’. Mas nem sempre aquela vence este.

 

Em Bruxelas, ouvi esta semana uma economista da CMVM da City londrina sustentar que o excesso de titularização dos mercados financeiros se estava a revelar positivo para a retoma económica. Pela mesma ordem de razão, a senhora também deve aplaudir que os três principais bancos dos EUA se preparem para distribuir 30 mil milhões de dólares em prémios – mais do que em 2007 e muito mais do que em 2008. Ou que os 119 mil funcionários das 23 principais instituições financeiras norte-americanas recebam, em remunerações e prémios, 140 mil milhões de dólares, tanto quanto vale o Orçamento europeu. Afinal, tudo isto são montantes que contribuem para o PIB, não é? Permitam que vos encante com um conto de fadas: em 2009, as remunerações de Lloyd Blankfein, o PDG da Goldman Sachs, atingirão 12 milhões de dólares e o rendimento médio dos seus 30 mil funcionários rondará os 700 mil. Estão a ver o que isto dá em iates, propriedades e imobiliário de luxo? O emprego que cria? É, portanto, pelas melhores razões que Lloyd Blankfein se recusa a «restringir as ambições» dos seus quadros. Magnânimo, até admite que«o sistema financeiro talvez nos tenha trazido à crise». Mas, confiante, afirma que «será ele a tirar-nos dela». Depois das injecções de liquidez que recebeu dos poderes públicos, convenhamos que não é difícil...

 

Esta gente identifica os seus próprios interesses com o interesse geral. Nada mais normal. Extraordinário é que ainda exista quem pense que tudo o que se passou não passou de um ‘excesso’.

Com efeito, o que estas informações revelam é que o abuso é a norma dos que sempre mandaram e continuam a mandar. É congénito. Sistémico, como agora se diz. Só falta acrescentar um pormenor: o pior da doença é a sua sequela, a que regressa quando não se curou devidamente a primeira e o paciente se julga a salvo da reincidência. Apesar das evidências.

 

(1) Jared Diamond, in Armas, Germes e Aço, página 298, Relógio d’água, 2002.

Publicadopor MiguelPortas | 2 Comentário(s)    
Moçambique
06 November 09 12:00 AM

Há 10 anos, visitei em Moçambique a cidade da Beira, quase um fantasma. Agora, são visíveis as mudanças. Não tanto porque os edifícios tenham sido recuperados ou as avenidas perdido os seus buracos, mas porque a vida renasceu nos pequenos mercados, nas crianças que fre- quentam as escolas e no coração das pessoas. Claro que continua pobre e sofrida para a grande maioria. A ideia de emprego é mais do que precária. Trabalhar nas obras rende 50 euros por mês e um professor de liceu fica-se pelos 180. A maioria das pessoas sobrevive de expedientes e depende do que aparece.

Apesar disso, a Beira mexe e está na origem de uma mudança política que se confirmou nas recentes eleições. Daviz Simango, o presidente do município, eleito como independente, está na origem de uma nova formação, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que tem condições para romper o monopólio da política pela Frelimo e pela Renamo. Na Beira, Simango disputou voto a voto com o líder da Frelimo a Presidência do país. A antiga praça-forte de Afonso Dlhakama virou as costas ao senhor da guerra. Este, mal se começaram a conhecer os resultados, ameaçou o regresso às armas.

 

As eleições deram à Frelimo a sua maior maioria de sempre. A vitória de Armando Guebuza era previsível e não carecia de chapeladas ou de violência para se confirmar nas urnas.

Os moçambicanos sabem que partiram quase do zero e associam as melhorias ao partido-Estado que os dirige. Nova é a dimensão do trambolhão da Renamo e promissores os resultados obtidos por Daviz Simango nas principais capitais provinciais e nos centros urbanos. O MDM consegue, num par de meses, catalisar boa parte do voto jovem, das classes médias em formação e insinuar-se nos eleitores urbanos mais pobres. Na cidade do Maputo, em Quelimane ou no Chimoio, Simango alcança votações na casa dos 16 por cento. O seu calcanhar de Aquiles é o mundo rural, onde continua a viver a maioria da população. Mas, se mantiver uma oposição que insista na distribuição mais justa dos escassos recursos do país e na transparência da administração, poderá, nos próximos anos, afirmar-se como verdadeira alternativa à Frelimo. E como esta precisa de uma oposição credível!

 

Enquanto observador eleitoral posso confirmar que o dia do voto foi exemplar. Os eleitores tinham por onde escolher e escolheram Frelimo. As leis eleitorais são filhas das nossas. Moçambique tem tempos de antena, distribuição equitativa de fundos públicos para as campanhas e pluralismo nos media. A grande desigualdade é a que decorre da ausência de quaisquer limites e verificações ao financiamento privado dos partidos. Sinal dos tempos, o partido da libertação tem hoje à sua frente um grupo fundamentalmente interessado nos seus próprios negócios. Consolidar-se-á como em Angola? Não é certo. A Frelimo ainda não é o MPLA. Apenas para lá caminha.

Publicadopor MiguelPortas | 2 Comentário(s)    
Balanço II
23 October 09 12:00 AM

Concluo hoje a análise iniciada na semana passada.

Tão ou mais importante do que a nova relação de forças que surgiu no país, é ‘ler’ os movimentos profundos que se estão a operar na sociedade política. Um é antigo e já sobre ele aqui escrevi – a diminuição, lenta mas consolidada, da participação eleitoral mesmo quando o acto suscita paixões, como foi o caso das últimas legislativas. Este movimento lento é, entretanto, compatível com outro que aparentemente se lhe opõe e se manifestou na passagem das legislativas para as autárquicas – nestas, o total de votantes, longe de diminuir como seria plausível, fixou-se em níveis próximos dos das legislativas. Interpreto estes dois movimentos contraditórios com uma hipótese que os unifica: a sociedade portuguesa está a polarizar-se entre os que se interessam pela política e os que dela se passaram a desinteressar ou nunca se interessaram. Um muro invisível, mas mensurável, está erguer-se e não é de areia. Se isto continua, abre-_-se espaço à formação de partidos populistas de um tipo não conhecido em Portugal.

 

A segunda vaga de fundo que atravessa o país político é a do crescimento da ‘liberdade de voto’. Esta atitude – «em cada eleição escolho o voto que mais me interessa» – opõe-se à do voto no partido de simpatia. A escolha contra o hábito não é, em si mesma, uma novidade. Desde 1974, emergiu pontualmente em disputas, nomeadamente nas presidenciais.

A hipótese que agora coloco é a de que a excepção se possa estar a transformar numa regra usada por boa parte dos eleitores. Confesso a minha simpatia por este fenómeno. Ele coloca os partidos à prova e sujeita-os a uma relação mais exigente com a sociedade. Laiciza a política. Mas não há bela sem senão.

 

Esta liberdade não se compreende sem a hiperfulanizacão da própria política. O que explica o aumento e o emagrecimento do CDS e do BE em 15 dias é, em última instância, isto mesmo. O centrão encolhe em Setembro porque, à sua esquerda e à sua direita, as ideias fortes foram suportadas por protagonistas que as souberam propagar.

Esta realidade não se podia reproduzir nas autárquicas porque, aí, os protagonistas eram os gerontes do poder local. Ao contrário do que se pensa, a dificuldade do BE não é tanto a do seu enraizamento local, mas o de ter poucas figuras com experiência nas câmaras municipais. Não é por acaso que é muito mais difícil derrotar um presidente de câmara do que um primeiro-ministro. A liberdade que favoreceu a radicalidade nas legislativas é a mesma que se reflectiu no conservadorismo do voto local. O PCP, por exemplo, tem raízes e aparelho. Mas basta que afaste o seu autarca e este se recandidate, para o partido ser levado na voragem. De facto, não são tanto os partidos que escolhem quem querem para presidente, mas este que decide o veículo em que quer viajar. Disto se têm que tirar ilações políticas. Um dia destes.

Publicadopor MiguelPortas | 3 Comentário(s)    
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