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Telmo sai da prisão e descobre quem o denunciou. E percebe que está rodeado de inimigos
KINGODI olha-me. – Habari za leo? – pergunta-me em suaíli como vai o meu dia.
Respondo-lhe que podia ir melhor.
Retoma as perguntas que os seus subordinados me tinham feito e acrescenta:
– Nós temos leis. Quando muda o director do Boma, a Trade Aid tem de nos avisar. Afinal, é um edifício histórico, feito por vocês, os mzungus [brancos], mas também nosso.
Depois diz-me que Brian, durante a minha detenção, não tinha estado inactivo: ligou ao comissário regional do Governo e ameaçou, caso eu não fosse solto de imediato, encerrar as operações da Trade Aid em Mikindani – o que, sendo o Boma a única fonte de emprego numa aldeia de 19.000 pessoas, não era despiciendo. Também contratou um par de advogados em Dar-es-Salam e despachou-_-os de avião para Mtwara.
Kingodi achou que eu não merecia tanta maçada.
– Vou deixar-te ir com um conselho: haraka, haraka haina baraka! [devagar, devagar se vai ao longe]. Começaste agora mas já tens muitos inimigos no Boma, por isso estás aqui. Um homem não deve ter pressa em criar inimigos!
MAL SAIO, Brian liga-me. Desfaz-se em desculpas: alguém em Londres tinha feito asneira, tinha-se esquecido de avisar as autoridades e de tratar atempadamente da nossa legalização. Se, por causa disto, nós quiséssemos partir, ele percebia, mas tinha esperança que não o fizéssemos. E não tinha dúvidas de que estávamos a fazer a coisa certa e que a minha detenção era a mais eloquente prova disso.
Asseguro-lhe que não desistiremos. Depois faz-me a pergunta crucial:
– Alguém do Boma chamou a Migração e denunciou-te. Quem poderá ter sido? Denis?

DENIS, o suspeito do costume. Afinal era quem mais perdia com as mudanças anunciadas para o Boma.
E aqui está ele, à porta da Migração, no jipe do Boma, esperando que eu fosse libertado para me transportar de volta. Viajámos em silêncio até ao forte, eu obcecado a pensar se me teria enganado quando decidi confiar nele.
À chegada, os chefes de departamento esperam-nos à porta. Um deles tinha-me mandado prender. Mas qual? Reúno-me com Kate, a contabilista escocesa, mas ela não tem mais pistas do que eu e também suspeita de Denis. A meio da conversa, o fiel do armazém, Maomé (a quem chamamos ‘o pequeno’, para o distinguir do outro Maomé, que é empregado do bar), pede para me falar:
– O dia está muito bonito porque chove desde ontem à noite. Dormi fresco e acordei muito contente. Hoje não entrou água na minha casa, mas ontem sim. A minha mulher e os meus filhos também estão felizes e de boa saúde, graças a Alá.
Um suaíli nunca aborda directamente o assunto principal da conversa, é má educação. Confesso que muitas vezes é exasperante.
– Também estou feliz porque o Boma está a ficar muito bonito. Gosto das flores que mandaste pôr e gosto da música. Arrumei o meu armazém como mandaste e agora já consigo entrar lá dentro. A minha mulher disse-me que esta camisa que a Mama Telmo [referia-se à Filipa] mandou fazer para mim é mais bonita do que a t-shirt que eu usava. Isso é bom. Por isso acho que a Mdo [uma das chefes de departamento] fez mal em ter chamado a Polícia para te levar. Acho que é melhor que fiquem, para o Boma continuar bonito.
E foi-se.
DEMOREI alguns momentos a perceber o sentido do que me havia dito, tão inusual fora a denúncia.
Kate chama Denis sem demora e pergunta-lhe se é verdade o que Maomé dissera. Ele confirma e acrescenta que Mdo tem uma cunhada que trabalha na Polícia da Migração – a mulher que me havia interrogado assanhadamente. Todos sabiam, portanto, mas naturalmente ninguém me tinha avisado.
– Despedimo-la? – pergunta-_-me Kate.
– Despede-a! – aconselhou Brian, tão aliviado como eu por não ter sido Denis.
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Acordei condenado.
Devia ter-me apercebido, devia te visto a coisa chegar, mas não dei por nada. Caí como um pateta, um amador.
Comecei o dia a tentar lutar contra a tradição. Ora a tradição é uma espécie de dogma não escrito nesta zona de África. Reverenciada pelos africanos e intocável para os europeus que por aqui andam a labutar nas ONGs.
Sempre que abordo o assunto com eles a discussão termina com acusações sobre o meu pensamento neo-colonial.
Não sei se sou neo - colonial ou outra coisa qualquer – mas é certo que não me sinto obrigado a aceitar as tradições só por que o são, ou aceite que não tenho o direito de as discutir devido ao passado colonial do povo a que pertenço.
Não encaro a História da Expansão como matéria de julgamento, nem carrego pecados ancestrais. Não aceito ser limitado nos meus direitos de opinião e de crítica só por ser branco e português.
Por isso se vou dirigir este local não me inibo de impor mudanças, nem de por em causa o que me parece censurável, tradição ou não.
Não sinto aquele fascínio antropológico e laboratorial pelas práticas das populações indígenas, que nos quer convencer a tudo compreender e aceitar em nome do respeito pelas culturas africanas originais.
E francamente não me fascina que se queimem pessoas suspeitas de algum crime, que se corte o clítoris a crianças ou que se enfiem folhas de palmeira no canal da uretra dos homens suspeitos de terem levado uma mulher da tribo a ser infiel. Mesmo que me acusem de arrogância eurocêntrica.
Aqui no Boma está tudo empestado de terríveis tradições:
-“Denis, por que é que isto se faz assim?”
-“É tradição!”
Tradição, tradição! A tradição diz que os chefes de departamento chegam mais tarde do que os restantes funcionários; que estes para terem direito a dias de folga têm de pagar aos chefes, que os chefes folgam dois dias e todos os outros um ou nenhum, dependendo do humor do seu chefe. Que os funcionários de base estão proibidos de me dirigirem a palavra sem apresentarem antes o assunto ao seu chefe directo.
Eu conheço esta tradição, mas na Europa costumava chamar-lhe pouca vergonha.
O Boma vive, com a cumplicidade de sucessivas direcções britânicas, num regime feudal, em que cada pequeno chefe tem a sua coutada, põe e dispõe das pessoas sem controle de ninguém.
Questiono David – um jovem de trinta e poucos anos, formado em finanças em Cambridge, que um dia se cansou da City londrina e optou por vir para Mikindani – sobre esta prática e a sua explicação surpreende-me:
-“Nós sempre achámos que era melhor deixá-los ter as suas formas de organização interna, que reflectem a organização comunal. Os directores nunca quiseram interferir nisso, é a cultura deles, a sua tradição e esta é a sua terra.”
David não gosta de nós. Acha que faria todo o sentido ter sido ele nomeado director do Boma e não eu que caí aqui por acaso. Aliás é essa a opinião de todos os voluntários. Nunca perdoarão a Brian o acto.
-‘Pois bem – digo-lhe – no Boma essa tradição acabou.
Levanta-se indignado e abandona o Boma vociferando contra o colonialismo.
Durante o nosso convívio produzirá dezenas de relatórios denunciando a Brian o meu comportamento colonialista. Por cada um que recebia Brian mandava-me uma curta sms: - ‘Continua, acho que estás a ir bem porque recebi outro relatório do David.’
Digo a Denis que convoque uma reunião com os seis chefes de departamento para o dia seguinte às 7h, avisou-o que o objectivo da reunião é acabar com os privilégios de que ele também usufruía.
Na reunião vocifero contra as práticas ‘tradicionais’ de gestão do Boma, contra o papel que eles desempenhavam nelas. Troco-os de pelouros, faço-os responsáveis por futuros roubos de material, instituo a regra que qualquer funcionário poderá falar directamente comigo sem passar por eles. Termino com a ameaça solene de que despedirei sem contemplações quem voltar às práticas tradicionais. Indignam-se, ameaçam mas, sem outro remédio, acatam. Denis não abre a boca.
Termino a reunião à 8.15H. Às 8.30h quatro homens entram de rompante no escritório e vão directos ao assunto:
-‘ És tu o novo director do Boma? ’
-‘ Sim...’
-‘Estás preso.- identificam-se fugazmente – tens dois minutos para ires buscar o teu passaporte e vires connosco, não nos obrigues a algemar-te.
-‘Preso?! Mas...
-‘Não viemos aqui conversar. Saberás o resto na esquadra.’
Vou ao quarto buscar o passaporte. Filipa e Ra dormem.
Levam-me para Mtwara, a capital da província. Pelo caminho sem que se apercebam consigo mandar uma breve mensagem para Brian – ‘Brian, fui preso. Socorro!’
Na esquadra fecham-me numa sala e mandam-me sentar numa cadeira que puseram no meio. À minha frente, atrás de uma secretária, sentam-se três homens e uma mulher, estão a menos de meio metro de mim. São da policia da migração e querem saber que faço aqui e que ordens ando a dar no Boma. Respondo à primeira pergunta mas recuso-me a falar sobre o Boma. Gritam-me, ameaçam-me, gesticulam contra a minha cara, insinuam disparates, dizem que ‘sabem tudo!’. Sinto-me num filme série B. Eles agem como estereótipos dos actores dos policiais americanos e eu não sei o que hei-de fazer, nem sequer posso pedir para falar à Embaixada por que não há. A mulher era a mais encarniçada. O meu telemóvel toca sem cessar, é Brian mas não me autorizam a responder e por fim confiscam-mo. O calor na sala fechada é tremendo. Ao fim de quatro horas começam a perder energia, ficam cansados de repetir as mesmas perguntas e ouvir as mesmas respostas.
Decidem levar-me ao chefe. É uma esperança.
Empurram-me contra uma cadeira. Sento-me. À minha frente o chefe, Kingodi, ignora-me; compulsa documentos, faz telefonemas, recebe outros. Fala sempre em Suaíli. Eu entretenho-me a observar o placar que estava por trás dele: Um diploma de um curso feito na URSS, uma foto com Kingody a apertar a mão a Nyerere, outra em que cumprimenta um obscuro chinês e, impressas numa folha A3, as palavras –‘Com a morte da esperança, chega a esperança na morte! - Nietzsche.’
Kingodi olha-me.
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Acendo uma vela e queimo incenso, escrevo. Enceno o momento mas a verdade é que sempre escrevi. Sem saber bem porquê ou para quê.
Na viagem escrevo em todo o lado, perante uma paisagem deslumbrante ou na casa de banho, sentada na areia ou no chão da mesquita.
Viajamos de jipe, aqui na zona de Mtwara. Passamos as cabanas de lama, os longos coqueirais, as bananeiras de verde quase eléctrico. As mangueiras estão carregadas, os cajueiros sem fruto. Abrandamos para vencer os buracos do caminho, as crianças vêm a correr, gritam:
- Mzungu! Mzungo!. Chamam-me branca. Brincam, cabrilolam, riem, apontam-me o dedo. Seguem o jipe a correr, depois desistem, ficam a observar, no meio do caminho de terra vermelha.
O tempo passou. Quanto tempo passou desde que colhia figos nas figueiras do senhor Manel, desde que esfolava os joelhos na brita, desde que fugia da escola nos intervalos da manhã, desde que brincava aos namoros na areia do parque, desde que trocava papelinhos da “melhor amiga” desde que…? Não sei, em viagem parece que o tempo fica distorcido…
Passamos as aldeias, as cabanas, as escolas:
- O que são estas construções de cimento abandonadas?
- Como assim abandonadas? São escolas.
Estou de visita numa delas, acompanho os voluntários britânicos. Eles falam com o director, eu sento-me debaixo de uma árvore, tiro da bolsa um caderno e começo a escrever. E parece que comecei uma aula, as crianças correm para mim e amontoam-se para ver o que estou a fazer. Algumas tiram das pastas os seus cadernos, e mostram-mos com orgulho. Eu recebo-os. Os caderninhos estão estimados e limpos, alguns têm na capa o rosto do presidente. Uma das meninas pequeninas põe em cima de todos os outros o seu caderno, impecável. Está cheio de exercícios feitos em letra redonda e desenhada, está corrigido com caneta vermelha e todas as páginas estão aprovadas, excepto uma, eu levanto a cabeça do caderno:
– Ai, aqui fizeste um erro! – Digo assim mesmo, em português, ela baixa a cabeça,
envergonhada, e depois olha na minha mão o meu próprio caderno. Olha para uma página, roda a cabeça ligeiramente à esquerda e à direita, olha-me nos olhos um momento, e no rosto começa a nascer-lhe um sorriso, desata a rir, e afastando os colegas sai a fazer pinotes. Algumas ficaram por detrás de mim, e por cima do meu ombro tentam ver. Eu olho o meu caderno à procura da anedota e… e envergonho-me… da minha caligrafia, ilegível. Envergonho-me das tantas vezes que eu mesma rodo a cabeça, aproximo e afasto as páginas dos olhos, giro o caderno para cima e para baixo, intrigada com a mensagem que eu - eu mesma! - escrevi ali. Todas as crianças acompanham a menina, em risos e pinos. E outras mais aproximam-se e riem. Mas se nem falaram entre elas, riem de quê? Bem sei que nesta fase, e no recreio, tudo é contagioso, mas desconfio…
Quanto tempo passou desde aquele dia na escola em que decidi desafiar o meu grupo de amigos, que era o mesmo desde os meus quatro anos de idade?
Quanto tempo passou desde que escolhi para companhia as minorias, e para amigos os elementos mais problemáticos da escola? As órfãs, os negros, as ciganas, as repetentes, as mais velhas, as que cheiravam mal, os que faltavam às aulas, as que fumavam cigarros às escondidas e roubavam chocolates nos supermercados, as que pediam beijos aos rapazes e dobravam na cintura as saias para as subir acima dos joelhos, os que mentiam, as que batiam. Era com esses que eu me dava melhor.
O meu grupo não aceitou, fui excluída. Mas não desisti, e durante algum tempo, não sei se um mês, uma estação, um trimestre – o passar do tempo é misterioso para mim – defendi as emigrantes, os que eram castigados, os que vestiam sempre a mesma roupa, as adoptadas, as feias, as más. E acompanhava-os nas suas lutas, do almoço roubado, dos castigos da professora que usava a cana, das caneladas nos jogos de futebol, dos vexames nos recreios, dos pais que bebiam, das mães que batiam.
E corria os riscos dos castigos porque as acompanhava até casa para contar das reguadas e ia até ao orfanato para relatar as injustiças. Tudo para provar da minha liberdade, da minha dedicação à causa. E lá em casa falava mesmo com a mãe, com o pai, e no orfanato cumprimentava a directora obesa e má subia mesmo até ao refeitório e provava mesmo a sopa de gordura e água. E nos minimercados também punha no bolso os doces e quando era apanhada olhava de soslaio e se as amigas já tinham fugido – o que acontecia quase invariavelmente – eu olhava o dono com um olhar que dizia “não é para mim, é que eu tenho de me integrar neste grupo, percebe? Não é por mim, é… luta pelas minorias…” mas o dono não acreditava, e a minha mãe também não. E ficava de castigo, mas não desistia, nas aulas passava de carteira em carteira as revistas obscenas, nos intervalos guardava a porta da casa de banho para os disparates das novas amigas.
Porquê? Não sei. Já passou muito tempo, mas não sei… Por teimosia, por rebeldia, por obstinação, por entusiasmo desenfreado, por paixão.
As razões… os porquês… como é que acontece esse momento de clareza ou obscuro impulso, que nos faz escolher, decidir. Não sei. E quase invariavelmente quando decido não se ouve o agradável aplauso de um quórum mas antes a hesitação de um grupo, seguida de um bichanar colectivo, mais tarde interrompido por um “mas”, um “vejamos” ou uma pergunta difícil…
É comum ouvir esta pergunta: porque fiz esta viagem? E só tenho uma resposta: por paixão.
Quanto tempo passou desde que sei que este é o meu caminho eu não sei. Mas quando é necessário para os outros que eu justifique as decisões da minha vida esta é a minha irracional razão, e lamenta a minha mãe: “Mas filha, tu dizes sempre isso!” mas é a verdade, sigo as paixões.
Escrevo, o Ra descansa a meus pés, descansa apenas do cansaço que nos dá o calor e a humidade do ar, Telmo abre a porta:
- Filipa?
- Sim paixão? – ele sorri.
- São cinco horas, vamos tomar chá? – e mesmo sem saber quando nos tornámos tão britânicos sigo-o.
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Em Mikindani não há televisão.
Também não há luz que não venha do Sol ou das fogueiras que os Makonde, tribo maioritária na província de Mtwara, ateiam à porta das cabanas.
Há muita água. Quando chove as inclinadas colinas que envolvem a aldeia vêem os seus carreiros transformarem-se, sem transição, em ribeiros torrenciais que correm livremente, ansiosos por se salgarem no Índico. No caminho divertem as crianças que se lavam da monotonia de dias mais secos.
-‘Porque se chama assim?’
-‘Não sei bem, parece que quer dizer que o Miki, que estava metido em trabalhos, para se furtar a brigas fugiu para dentro de casa. Daí recebemos o nome de aldeia do Miki que fugiu para casa...está lá dentro: Miki-ndani.
Explica-me, compenetrado, Maomé um respeitável ancião com cerca de 60 anos, o que o transforma, nesta região de curta esperança de vida, num Matusalem.
O orgulho de Maomé é, chapéu tradicional na cabeça, ciceronar os brancos pela sua aldeia e mostrar-lhes como é respeitado e conhecido.
Tão muçulmano quanto o nome, Maomé, elucida-nos sobre as mesquitas e crenças da aldeia.
‘Há três crenças muçulmanas: Sunita, Xiita e Waabita. Eu sou Sunita por que é a mesquita da minha rua. Uma pessoa não deve ir a uma mesquita que fica longe da casa onde nasceu.’ Assim, simples, explica-nos como resolver as guerras religiosas.
Estamos mesmo no cantinho Sudeste da Tanzânia e ninguém, lá longíssimo em Dar-es-Salam, quer saber destes territórios perdidos entre o mato os rios e o Índico. A Sul fica o isolado Norte de Moçambique de onde vêm outros que fogem de uma região muitíssimo pobre e procuram ganhar a vida numa outra que é só muito pobre. O superlativo dita-lhes a fuga para Norte em busca de sobrevivência. Atravessam o Ruvuma em canoas talhadas na casca de mangueiras e anonimam-se entre irmãos de tribo e de língua.
De vez em quando o chefe da migração, que tem a incumbência de manter a província livre de clandestinos que venham perturbar o desiquilibrio da região, afadiga-se numa caça aos moçambicanos. Arrebanha um grupo mete-os numa canoa e envia-os para a província de Cabo Delgado. Os deserdados bem tentam objectar:
-‘Tenho pai tanzaniano’, reclamam.
-‘Isso é o que dizem todos’, afirma implacável enquanto os recambia.
Eles voltam passado semanas garantindo-lhe o emprego.
As cabanas de Mikindani espalham-se entre o mato numa desordem de paus e de lama com forma de abrigo.
A Europa deixou memórias. O lugar foi ocupado por Alemães e depois por Ingleses, que aproveitavam a bem defendida baía para as suas incursões ao interior de África.
Ruínas de antigas casas coloniais espalham as suas paredes de coral pelas ruas de lama e servem de abrigo a lagartos, cobras, cabras e circunstanciais viajantes sem abrigo.
Existe mesmo a casa onde Livingstone teria pernoitado no início da sua última e fatal viagem em busca da nascente do Nilo; e não é o pormenor da construção datar dos anos cinquenta do século passado que inibe as autoridades provinciais de inaugurar placas onde se pormenoriza o número de noites que o explorador lá dormiu.
Vivem muitas histórias na aldeia.
Há tempos, dos EUA, chegou um jovem. Arqueólogo! Anunciava-se aos locais e aos brancos.
Ingénuo, eu, pergunto-lhe :
-‘E que período da história investigas?’
-‘De 500 a 1500! Dizia sem corar.
Ainda pensei que se referia a dólares, mas não, ele queria mesmo que acreditássemos que a sua pesquisa tinha um milénio de ambição. Muitos suados buracos depois os locais explicam tudo. Ele procura é o ouro de Bismarck. Um tesouro que na precipitada fuga os alemães teriam abandonado, em 1917, sem mapa nem X que marcasse o local, enterrado em misteriosa colina e que os ocupantes britânicos nunca encontraram.
O padre católico Augustin Fernandez assegura que sim que o tesouro jaz por aqui. Mas ele tambem garante que só apanha malária quem sair de casa depois da meia noite, hora em que o mosquito fatal começará o seu pernicioso trabalho- ‘antes disso não há perigo’. Assegura.
O missionário vive na sua missão no topo de uma colina ligeiramente afastada de Mikindani de onde desce esporadicamente em busca de fiéis e de um repasto mais substancial, que normalmente lhe é oferecido por algum dos brancos endinheirados que, de quando em vez, aqui andam. É normalmente entre a segunda e a terceira garrafa de vinho sul africano que desenvolve, sério, a tese sobre os mosquitos.
Magro, desorbitado e de discurso torrencial vive um pouco desesperado entre uma comunidade esmagadoramente muçulmana; e não consegue convencer os brancos, maioritariamente anglicanos, das virtudes da sua igreja.
‘Eu sou um bocadinho português, porque o meu pai era de Goa!’ Explica ele esperançado no nosso catolicismo, enquanto se debate com a galinha.
À aldeia afluem regularmente novas fornadas de jovens que trazem na vontade o desejo de, nos três meses que dura a sua missão de voluntariado, mudar África, resolver o problema da pobreza e acabar com o SIDA. A tarefa é grande e o calor também por isso costumam arrefecer os últimos dois meses e meio no bar que um inglês abriu numa das ruas, que dessedenta os expatriados e lhes afoga os sonhos.
Um velho sábio de origem indiana a quem todos chamam Babu (avô) tem por hábito ouvir pacientemente estes jovens e, quando eles terminam de lhe relatar o seu inovador e revolucionário plano com o qual resolverão de uma assentada todos os problemas da região, vaticina-lhes: ‘Muito bem, daqui a duas semanas falamos de novo’, e sorri.
E depois diverte-se a vê-los à noite, bêbados de frustração, no tal bar.
Ele sabe de tudo e não acredita em nada. Sabe da terrível certeza que vive no coração de todos os que aqui nasceram, a certeza que por aqui nada nunca muda ou melhora, que o tempo só trará mais ruína e maior abandono. Por isso encara com divertido cepticismo estes jovens que se esforçam por aprender os hábitos e compreender as gentes. Cedo voltam à Europa com a consciência lavada.
‘Não percebem nada de África’, segreda-me desesperançado.
Mikindani fica e ele também.
E nada mudou.
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- Um homem está sentado à porta da cabana a tocar tambor. A mulher cozinha nas traseiras. É surpreendida pelo grito: “O leão!” – tira do fogo um pau em chamas e corre para a porta, atira-o para o leão que larga o homem e foge. A mulher leva-o para dentro da cabana, mas está muito ferido, morre minutos mais tarde. O leão volta e arranha a porta, a mulher foge para a aldeia, o leão abocanha o corpo e arrasta-o para o mato. Desaparece.

Não são sonhos criativos da profilaxia da malária, desde hà uma semana que deixei de tomar as drogas – não se deita nada fora mas o Mephaquin foi para o fundo da caixa dos medicamentos!
- E este mesmo leão voltou, comeu crianças que brincavam fora das cabanas, matou raparigas carregadas com água na cabeça.
E a população tentou seguir o leão, fazer armadilhas para o matar, nada. Esta estória é muito conhecida, nunca ouviu?
- Não…
- Lá na Etiópia também acontece assim, à luz do dia, atacam pessoas a trabalhar nos campos!
- Mas não dizem que os leões têm medo do Homem? E que preferem comer as suas presas…
- Dizem? Eu não sei. Sei que no Quénia dois leões mataram mais de 100 trabalhadores de uma ponte em Tsavo.
Foram lá, não viram leões?
- Não sei… Tsavo? – o Telmo responde com um sinal vago, os conhecimentos de História a impacientar-se com o “desrigor” do relato,
- Lá no Quénia mataram muitas pessoas, eu sei. Parece que dizem que nós, os homens, somos muitos, vivemos no lugar dos bichos, eles não têm espaço, nós caçamos as gazelas e as zebras, os búfalos morrem com as secas, destruímos a vegetação e as nossas culturas atraem os javalis e outros animais que os leões caçam e… os leões comem-nos, é assim que acontece.
As pessoas fogem das casas, aldeias inteiras atacadas. Outros lugares as pessoas caçam os bichos, mas aqui não é permitido.
- Porquê?
- Eu não sei, que temos de proteger, não sei quem nos protege a nós se o governo pensa nos leões! E mesmos se matamos qualquer animal selvagem, é a polícia que vem levar.
- Porquê?
- Madam, eu sou mais velho, sei muitas coisas, mas essas leis não sei.
Sei que aqui na África oriental é casa dos leões que comem homens, esta também é minha casa. Temos de respeitar. Na minha família nós não matamos, não falamos a ninguém de como matar. Se animal nos atacar nós fazemos o necessário…
Mesmo em Moçambique, eu tenho um irmão lá, dizem que na época das chuvas ainda é pior, a erva alta dificulta a caça e os leões procuram as pessoas, nós não estamos à espera, somos apanhados e comidos vivos! Pessoas a ser comidas nas pernas, ainda vivas, por dois leões?! Eu sei, já me contaram muitas vezes. Mesmo meu primo contou.
Bwana (senhor) parece duvidar, mas é verdade. – Telmo sorri.
Contam de um leão que atacou tantas vezes que chamaram dois caçadores assim, mzungus (brancos). Os caçadores foram atacados, o tiro de um é que salvou o outro. Leões aproximam-se das cabanas e esperam, ficam assim, a primeira pessoa que sai eles apanham, como fazem nas tocas dos outros animais.
Famílias inteiras de leões atacam, as mães com as crias, ficam a observá-los a saltar no pescoço das nossas mulheres! Como se os treinassem. É terrível senhora, muito terrível.
- Sim…
- Sorry madam, quer mesmo saber? Os leões que comem pessoas não são leões normais, têm um cheiro muito forte, e resistem a todas as armadilhas, a armas, e até ao fogo! Comem todo o corpo do homem, deixando só a cabeça e os pés. Só isso fica.
Um leão comeu um homem, o irmão dele quis vingar-se, chamou o espírito do morto para si e foi procurá-lo, encontrou-o e trespassou-o com a lança - os homens são capazes, mesmo os Massai fazem - o leão morreu, o espírito do irmão sentiu-se vingado e de certeza abandonou-o, uma leoa estava perto, matou-o. – Maomé baixa a voz.
Desculpe, mas na nossa cultura, na nossa tradição… - interrompe-se e continua - Leões vão de casa em casa à procura de comida, nós não temos nada para nos defender, a catana? Nada mais.
Em Kima, no Quénia, na construção da estrada de ferro, a mesma coisa! Um leão que entrava dentro dos vagões para apanhar uma pessoa? Não são leões normais madam.
Em Makimbu, em Sima madam, os leões comem pessoas.
Madam, num cemitério vosso, de brancos, em Nairobi, muitos túmulos dizem o mesmo, o que dizem madam?
- Não sei Maomé…
- “Ele foi atacado e morto por um leão comedor de homens enquanto dormia em Kima”
- Isso é verdade?
- É verdade madam. Ofereceram-se recompensas a quem matasse este leão, mataram mais de 20 leões, e continuou. Fizeram armadilhas com bezerros e outros animais, e ali não havia falta dessas presas que a senhora diz que os leões preferem, não! Este? Matava pessoas. Cheirava mal. Os homens estavam a construir um caminho-de-ferro, só isso. Mas dizem que as pessoas que morriam não eram enterradas, que os leões conheceram assim o sabor da nossa carne…
- Sim! Eu vi um filme sobre esses leões! Era o… A Sombra e a Escuridão! Viste? – o Telmo não viu, ou não gostou, fuma o cachimbo... Sim, como pode suportar isto? Já mete filmes de Hollywood!
- Talvez Madam, eu de filmes não sei. Mas aqui… sabe? Este caminho-de-ferro atravessava muitas terras, muita floresta e savana, mesmo águas, lugares com estórias, muitas pessoas caminham nestas terras, animais bebem nesta água, as árvores guardam estes lugares talvez… e os mzungus avançam sem saber… sabe madam, às vezes é bom parar, pedir se podemos continuar. Caminho-de-ferro? A terra está protegida, estes não são leões normais, são espíritos... – o Telmo com ar de quem se cansou, está a ser hora do chá e graças à minha conversa – e ao ritmo natural dele – Maomé ainda nem o almoço começou a servir -
- E essas estórias contam-se desde há muito tempo?
- Sim, na aldeia todos contam, minha mãe, minha avó, todos antepassados.
- Pois, estórias antigas…
- Sim bwana… há muito tempo, última vez que ouvi falar de coisas assim foi… - hesita - há uns 20…, não, talvez 30 dias.
Mas desde há uma semana que voltei a ser eu e agora, embora saiba que os leões estão por perto já não choro:
- Então quer dizer que podemos ver leões aqui?!
-
Aí na Europa nós vivemos com os mestres.
Como dizia o meu mestre “vivemos com as ideias dos mortos, eles governam-nos”.
Thomas Bernhard tem um texto assim intitulado–os mestres antigos. Os que, vivendo no museu, moldam a nossa vida.
Ideias, pensamentos, obras, sons, prodígios arquitectónicos e êxtases pictóricos, tudo nos aguarda, para nos moldar e nos estimular.
O bem e o belo estão dissecados até ao tutano. Vigiam silenciosamente a nossa saída do útero materno para se manifestarem quando abrimos os olhos e descobrimos o que é escutar.
Não sei se somos aquilo em que nos tornamos, ou se nos tornamos naquilo que somos, nunca o percebi.
Aqui em Mikindani, na Tanzânia eu só posso ser o que sou. E quando me dizem - “ os directores ingleses desistem ao fim de duas semanas”–fico logo entusiasmado. Não posso evitá-lo, devo-o ao meu mestre, que me ensinou que vencer é, antes de mais, isso–não desistir. Sobretudo não desistir de nós.
Eu não sei nada deste mundo. Estas pessoas não tiveram os meus mestres, nem eu conheço os seus. Nem encontramos justiça nos mesmos actos ou reconhecemos o belo nas mesmas coisas. Nem sequer partilhamos a mesma noção de tempo ou de espaço.
De que me valem então aqui os antigos mestres?
“O sítio é indirigível” diz Nigel–“os directores de departamento não trabalham, o contabilista rouba dinheiro, os electricistas roubam diesel do gerador, os pintores roubam tinta e as cozinheiras comida. Os empregados do bar bebem as bebidas e as mulheres da limpeza dormem nas camas dos quartos. O edifício cai um pouco todos os dias e Denis, o arquitecto, é o principal e o mais inteligente dos patifes, um energúmeno que todos os anteriores directores tentaram despedir. Ah, e todos têm malária de três em três dias. O Brian...
Toca o telefone, é ele: Brian.
Brian Currie, o ‘boss’. Brian é o fundador e presidente da Trade Aid, o homem que aprovou, pelo telefone, a nossa contratação, com base numa decisão prática: quando Nigel lhe ligou a perguntar se achava bem a nossa contratação, Brian disse-lhe: “Bem, tu jantas com esses tipos há uma semana, é mais do que as entrevistas de quinze minutos que faço aos candidatos aqui. Avança!”

Brian é, no mínimo, uma personalidade polémica. Todos falam dele. O staff teme-o e os voluntários odeiam-no. Nigel, amigo de vinte anos, diz que ele - “Is a bit tricky”.
Brian é um “self made fortune”. Oficial do exército britânico, dedicou-se à pesquisa electrónica no campo da defesa. Fundou a “Larisian” empresa que, entre outras coisas, produz os circuitos electrónicos para a indústria espacial europeia; hoje tem empresas de Nova Iorque a Hong Kong. Dizem que é intratável, excêntrico, petulante. Os voluntários britânicos acusam-no de esbanjamento...Tornar-se-ia um bom amigo.
Nigel passa-me o telefone.
-“Olá sou o Brian. Lamento não estar aí para vos conhecer. Diz-me o Nigel que ia gostar...talvez. Bom façam o que acharem melhor. O Boma foi sempre a casa do governador, transformem-no na vossa casa. Daqui a uns tempos apareço aí. Boa sorte.”
- “Mas Brian –apresso-me a dizer – o Boma está maltratado, precisa de obras. Há dinheiro para isso?
Silêncio prolongado, depois -
“Toma nota - dita-me o seu número de telemóvel - li a lista com as 150 coisas que querem mudar. Parece-me bem. Quando precisares de dinheiro diz-me.”
E desligou.
“Quando precisares de dinheiro...” ora aqui está uma coisa que nunca tinha ouvido.
-“ Bem, bem - diz-me Nigel - Estou muito satisfeito que tenham aceite, muito aliviado. Eu já não sabia o que havia de fazer aqui. Agora o problema já não é meu, óptimo! É simbólico, é o renovar da velha aliança (referia se ao tratado de Windsor de 1386). Hoje apresento-te ao staff e passo-te as pastas. Amanhã regresso a casa!”
Durante as duas horas seguintes Nigel esclarece-me sobre os elementos do staff, funções e características de cada um e alerta-me para o problema a que tinha dedicado as duas últimas semanas: o Boma estava a ruir.
Quando, no final do século XIX os alemães quiseram erguer uma fortaleza depararam-se com a inexistência de material, de pedras, com que a construir. Foram-se então à barreira de coral da baía, dinamitaram-na e, com o coral vivo, levantaram o Boma a meio da alta colina que domina a baía.
Mas o coral vinga-se. As águas da chuva escorrem pela colina, infiltram-se no terreno sob o Boma de onde são avidamente chupadas pela estrutura coralina; o forte cai um pouco todos os dias.
Nigel, engenheiro de formação, imaginou uma solução militar – na colina, ligeiramente acima, mandou escavar uma trincheira a toda a largura do edifício. A trincheira faria divergir as águas e salvaria o Boma. Nigel está orgulhoso.
- “Anda, vamos inspeccionar os trabalhos devem estar prontos em um dia ou dois.”
Na obra trabalham doze homens supervisionados por Denis. Quase todos estão a dormir, quatro jogam uma espécie de damas com pedras, Denis está um pouco à parte a dormitar também. Os tijolos, que muravam a fenda, estão espalhados por todo o lado e a terra voltou a encher o buraco. A obra não tinha resistido às chuvadas da noite, o trabalho de duas semanas estava perdido.
Nigel solta um indignado -“Oh, imaginem, desmoronou-se! Bem, bem apetece-te almoçar?” E durante os dois dias que ainda esteve connosco no Boma não voltou a falar da ‘sua’ trincheira.
No final do dia pergunta-me:
- “Então já tens ideia por onde começar?”
- “Sim, quero aumentar num terço o ordenado de Denis e fazê-lo oficialmente meu adjunto.”
-“Aumentar e promover o escroque? Mas que ideia tão bizarra e invulgar!
-“Mesmo assim é o que pretendo fazer amanhã mesmo.”
-“Bem, bem...pensando bem Churchill também se aliou a Estaline durante a guerra, sim é bem verdade, é bem verdade.”
Denis é obviamente o mais capaz e preparado membro do staff, tem inegável ascendente sobre todos. Preparo-me para dirigir uma equipa em que a maior parte dos seus elementos não fala outra língua além de suaíli, que eu ainda não falo. Prefiro ter Denis do meu lado do que contra mim.
Pergunto-me o que aconselhariam os mestres?
-
Ainda há pouco o céu estava limpo, azul, agora chove.
Está calor. Desde manhã que a humidade carrega o ar, é difícil respirar, as nuvens que apareceram pareciam prometer alívio… esperança vã.
Está calor, e aqui chove de repente, uma chuva vertical, quente, doce.
A chuva não refresca, só molha. Eu e o Ra estamos no jardim e aqui ficamos.
Os pingos são grossos, cansado de não conseguir manter os olhos abertos o Ra foge para dentro do hotel, saímos da chuva.
Eu fico parada na porta da entrada, a sentir os cheiros que a água revela, a ver as cores a mudar.
Do lado direito do jardim aparece uma pessoa, um homem baixo e magro, de óculos de aros finos – invulgares nesta zona – a protege-lo um chapéu-de-chuva claro, tem uma camisa azul e umas calças de vinco, castanhas, curtas, bem engomadas, os pés descalços. O homem caminha de costas direitas, e parece que mal toca o chão, mas no cimento do passeio do jardim pisa a água. Pisa num toque suave, sensível, ritmado. Caminha nobre, a cabeça completamente alinhada com a coluna, os olhos em frente. Sobe os degraus da entrada e pára por um momento no último degrau, já protegido da chuva, pousa com cuidado no chão os chinelos tipo havaianas e calça-os, avança para a recepção:
- Hello, I am looking for a Job.
Eu acompanhei toda a cena e olho de imediato o Telmo:
- Viste o que aconteceu? Não foi lindo?! – e ele enquanto se levanta,
- Sim, sim, vou ver quem é, se falar bem inglês, estamos a precisar de pessoas.
Para mim tudo acontece nos encontros.
Hoje choro.
O movimento faz-nos ver as coisas desfocadas, sim, todos sabemos que é verdade, e basta olhar para as minhas fotografias! Fico frustrada mas a verdade é que estas imagens são fiéis. Não à realidade – que também não sabemos bem o que é - mas ao momento, ao meu olhar, eu vi mesmo desfocado. Eu vi as formas a alongarem-se horizontalmente, as cores a misturarem-se, as pessoas a mutarem-se em árvores, as árvores em manchas. E nalgumas, no meio do desfoque, vemos a que está à volta de cada um, o que se destaca no gesto, no olhar, no desenho do corpo na paisagem.
No norte da Tanzânia tirei uma foto. Eu, já o disse aqui, tenho pudor em fotografar pessoas, não quero roubar a imagem, as formas, as cores, a expressão, ou mesmo - acreditam alguns - a alma - dos que se cruzam comigo. Dos que não o desejaram, não me conheceram, não escolheram revelar nada, nem na revelação de uma fotografia.
Mas tirei muitas fotos, fiz pedidos, recebi as poses, as negas, as fugas e os insultos. E tirei uma foto, dessas em movimento, em que apanhei o momento da acusação das que não autorizavam o meu gesto. Depois, a imagem foi para mim tão forte que a apaguei. Mas pela mesma razão de seguida recuperei-a, fiz o mesmo duas vezes no ficheiro do computador, roubei, e está aqui a prova.
E mudo sempre de lugar, para mim é refrescante, os primeiros tempos num espaço, num contexto, com um pessoa, dão-nos aquilo que a convivência, a rotina, o hábito nos tiram. E eu caminho assim, fugindo da imagem focada da permanência, da repetição, da constância.
Agora vou parar aqui.
E o que me parecia aceitável, interessante, até bom, quando o decidi, parece-me agora cheio de falhas, sem brilho, fraco. Ficar aqui porquê? Para quê? Não sei nada.
Mas estou cansada, durmo.
O movimento, o movimento faz-nos ver as coisas desfocadas e às vezes isso é bom. Tudo debaixo da cor suave, do sfumattum romântico de uma pintura de Leonardo.
Assim, de passagem, não vemos as imperfeições. Os cheiros desaparecem, como no cinema, e os contactos humanos têm a superficialidade de uma fotografia, aliada ao mistério das possibilidades. Nada acontece, mas o que poderia acontecer…
O movimento embalou meus tempos, e agora… chegam as dúvidas.
O Telmo reúne com o Nigel, entusiasma-se com a gestão de pessoas, do espaço, agora ele tem um projecto e isso muda-lhe a atitude e os humores. E não é pessoa de brincar, tipo “assumo isto por um mês por isso não é preciso fazer muito”. Não, ele vive o trabalho.
E eu? Eu não.
O trabalho dignifica o homem? Não, o prazer!!
Sim, devia ter vergonha, e se todos fizessem como eu?
Envergonho-me? Não. Sinto.
Mas, eu já suspeitava a alguns quilómetros, e agora tenho a certeza…
Já é tarde, não há luz, subo o mosquiteiro e deito-me na enorme cama de madeira esculpida, Telmo já dorme, por alguma razão os nossos horários afastam-se aqui…
Eu pego no diário de viagem e começo: “Ela está de volta, Telmo alonga-se no conforto que lhe trás, finalmente suspira e eu… a mim mina-me os dias... A rotina chegou.”
Viajamos juntos, sim, no mesmo jipe, na companhia do mesmo cão, na mesma rota… Mas não damos os mesmos passos, não nos incomodam os mesmos cheiros, não nos deliciam as mesmas comidas e não nos deslumbram as mesmas cenas. Não ficamos nervosos ou serenos, excitados ou com medo nos mesmos momentos.
Por vezes mostro um texto e ele espantado pergunta:
- Quando é que aconteceu isso? Foi assim mesmo? O que é que estava a fazer que não vi? –
E hoje não tenho coragem para lho dizer, mas sei… nós não viajamos juntos…
E os passeios diários, pela colina, com o Ra, faço-os sozinha.
Subo aos cajueiros e fico a ver a baía, deslumbrante, sem um sorriso. Não brinco com o Ra – ele senta-se a meu lado e suspira. A mim apetece-me chorar, e choro.
E à noite, ao jantar, a conversa perdeu o interesse, hoje há convidados e contamos a nossa estória, Nigel conta as dele. Parece-me tudo tão banal.
A comida não tem paladar… não tenho apetite, não como.
Ao Telmo peço atenção, e quando não a tenho choro como uma criança pequena.
Aqui tudo é de uma beleza deslumbrante, a paisagem é maravilhosa, o clima perfeito, as pessoas interessantes, o hotel belíssimo, o quarto confortável… tudo está bem. A ideia de trabalhar aqui é inesperada, exótica, enriquecedora, um desafio! - até lucrativo, equilibrando suavemente nosso orçamento…
Eu estou cansada, durmo. E choro.
Não sou eu, não pareço eu. Já não sei se é desfoque do olhar - o chão não mexe debaixo dos meus pés, e isso assusta-me.
Amanhã? Amanhã deixo de tomar as drogas!
-
‘Acordem! Acordem!
Sai da cama homem preguiçoso!
O que fazes na cama com essa mulher? Tira a mão, tira a mão, tira a mão!
Acordem, venham rezar!
Allahu Akbar! A shado Alla illa, illa-la’ (Deus é grande! Não há outro Deus além de Alá).
Sai da cama! Sai da cama!
São quatro e meia da manhã, é assim que acordamos todas as madrugadas desde há uma semana, aqui em Mikindani.
A aldeia é pequena, há três mesquitas cada qual com o seu rito–sunita, xiita e waabita - todas empenhadas em ter o maior número de fiéis na primeira oração.
Ora este Muezzin acha que não é suficiente chamar os fiéis só com a fórmula que Maomé ensinou aos crentes, não, há que incentivá-los com insultos, apelos dramáticos, ameaças e condenação eterna caso não compareçam à primeira oração.
A fim de dar mais força à convocatória usa um megafone a pilhas–daqueles que se usam nas feiras portuguesas para vender cobertores–e, durante uns dez minutos, toca a despertar toda a gente sem distinção de cor ou credo.
Como não estão de acordo sobre a hora exacta da primeira oração, a este seguem-se outros dois Muezzin, mais discretos mas que ainda assim me impedem de voltar a dormir.
O calvário termina por volta das cinco e meia, ao romper da aurora, com os sinos que tocam ao longe na missão católica, que fica numa colina próxima da aldeia.
Todos juntos põem à prova a tolerância religiosa do mais ecuménico dos mortais.
Saio do quarto, já está quente e muito húmido.
-‘Bom dia, vai uma banhoca?’
Saúda-me Nigel – o administrador da Trade Aid – já ofegante de tanto nadar. Junto-me a ele na piscina.
Nigel está aqui vai para duas semanas, veio de urgência do Reino Unido para substituir o director que a ONG tinha contratado e que, apesar de ter um contrato de dois anos, desapareceu sem rasto ao fim de duas semanas no cargo.
-‘O problema é este: nós recrutamos os directores em Londres, são sempre óptimos profissionais e com boas referências, mas nunca duram mais de dois meses no cargo, não suportam trabalhar aqui’.
Explica-me já durante o pequeno-almoço inglês que entretanto começamos a tomar.
Aparentemente os directores ingleses não toleram o isolamento e a dureza do local, nem a dificuldade de comunicação e o fosso cultural entre eles e os trabalhadores suaílis da ONG
-‘ Se calhar não suportam as orações! ‘ Arrisco eu.
- Ah, ainda te incomoda? A mim não, lembra-me a Malásia.’
Nigel explica-me que foi oficial superior do exército e que fez várias comissões de serviço em vários pontos do desmantelado Império Britânico. Antes de se reformar para se dedicar aos netos e à Trade Aid, trabalhava no serviço de contra-espionagem britânico. Aliás grande parte do núcleo duro desta ONG é constituída por gente ligada à indústria de defesa do Reino Unido.
Durante esta última semana Nigel contou-nos por três vezes a história de como conheceu e foi feito cavaleiro por Isabel II. De todas as vezes ouvimos educadamente a história sem nunca poupar um polido ‘fascinating’ no final. Simpatizou connosco desde o primeiro momento.
Da aldeia sobem até nós sons de grande agitação, correrias, berros, logo seguidos de um vigoroso toque de tambores.
-‘Que se passará Maomé, casamento?’ Pergunta Nigel ao empregado de mesa que nos servia o pequeno almoço.
Maomé sorri, hesita e começa a explicar :
-‘ Well I remember...’ - aprendi depois que Maomé começa sempre as frases por -“ bem eu lembro-me”-como forma discreta de chamar a atenção para a sua provecta idade.
- ‘...Que estes tambores não são de casamento, não. São sinal que vão queimar alguém.”
Eu suspendo a ingestão do meu ovo estrelado e Nigel deixa escapar um
-‘Oh, I see.’
O método é simples: Quando a aldeia decide que alguém é culpado de crime grave, manda a tradição que seja queimado. Uma vez apanhado amarram-no, enfiam-lhe um ou dois pneus pelo pescoço e pegam-lhe fogo.
O cheiro é inesquecível.
A prática é conhecida das autoridades que, por falta de meios para se opor ou por outra razão qualquer, a toleram.
Não tardou muito que um fumo negro e espesso se elevasse no ar. Veríamos este fumo muitas vezes durante a nossa estadia em Mikindani.
-“Mudando de assunto”–prossegue Nigel–que notícias têm do Ruvuma? Já sabem quando poderão seguir viagem?
-“Tudo na mesma. As águas continuam altas, vamos ter de ficar aqui mais tempo. Aliás queria mesmo pedir um desconto no preço do quarto, com uma estadia tão prolongada creio que é justo.
-“Bem, bem, é algo a estudar, sem dúvida. Mas digam-me que pensam - Filipa entretanto juntara-se a nós-do Boma?“
Ao fim de uma semana já tínhamos observado bem o local: era agradável mas claramente mal dirigido. O edifício, feito de coral, denunciava aqui e além falta de manutenção, as luzes eram inapropriadas, o pessoal andava vestido com t-shirts, se chovia em vez de aproveitarem a belíssima varanda sobre a baía serviam as refeições no hall –o que dava a sensação que estávamos a comer no balcão da recepção- havia informações em folhas de papel coladas com fita cola nas paredes. Apesar de ter muito que fazer o numeroso pessoal arrasta-se sem qualquer actividade...dizemos-lhe isto mesmo.
-“Que interessante, por que não me fazem uma lista com tudo isso?”
Por que não, de facto? Já estávamos cansados da espera, sempre seria uma maneira de ocupar o tempo.
Andamos o dia inteiro atarefados a vasculhar os cantos do Boma e a questionar o pessoal sobre o que faziam, ao fim do dia tínhamos uma lista de 150 coisas a mudar.
Levei-lhe a lista, leu-a demoradamente e depois disse-me:
“Bem, bem é mesmo de pessoas assim que nós estamos à procura. E se em vez de um desconto eu os convidasse para vocês ficarem uns tempos a dirigir isto?”
Conhecemos este homem há uma semana e ele está a propor-nos que fiquemos a dirigir um edifício histórico e 32 trabalhadores entre suaílis, um arquitecto formado no Dubai e uma contabilista britânica. Olhei-o sem saber que responder. Pedi para consultar Filipa.
E, por que nunca foi a prudência a guiar as nossas decisões, Filipa diz-me:
-‘OK’.
À noite, ao jantar comunicamos-lhe a decisão.
‘Fascinating!’ -responde
-
Desta é que é!
Na outro lado do rio Ruvuma, apesar da névoa, distingo vários pontos onde é possível a jangada encostar e colocar o jipe em terra seca.
A margem onde nos encontramos é muito íngreme e o jipe escorrega por ela até que o detenho, para apontar bem as rodas e o fazer subir para os frágeis troncos, que se afastam assustadoramente uns dos outros quando sentem o peso da viatura.
Estranho, que estranho...todas as pessoas que há minutos se amontoavam na margem desapareceram subitamente. E, reparo agora, não há ninguém nesta embarcação, estamos só nós. E também não há remos nem outro qualquer meio de impulsionar a jangada, como vamos atravessar?
Que aconteceu? Subitamente já estamos no meio do rio, mas não vejo a margem moçambicana; e que faz o Ra todo inclinado para a água?
-Filipa cuidado!
Ela não diz nada, olha-me apenas e sorri. Da água sai uma enorme boca, engole o Ra e desaparece, Filipa continua a sorrir.
Sei que devo fazer alguma coisa, mas não sei o quê. Sinto os pés molhados. A jangada desaparece, desfaz-se sob os meus pés, troncos soltos a divergirem em todas as direcções; mas por alguma razão flutuamos ainda, nós e o jipe, não nos afundamos.
A água agita-se de novo e sei que chegou a nossa vez, a bocarra avança escancarada para nos engolir. Sustenho a respiração antecipando o mergulho forçado e depois é a confusão total - água, corpos na água, pancadas por todo o lado – estico os braços tentando vir à tona e a minha mão direita toca algo familiar: uma rede mosquiteiro. Agarro-a com ambas as mãos como se esse frágil tecido me pudesse salvar.
Estou ainda agarrado a ela e de respiração sustida quando abro os olhos e, aos poucos, compreendo que sonhava
Agitado soergo-me na cama afastando a rede, olhos ansiosos em busca de Ra, que, deitado no chão entre a cama e a porta do quarto, me olha levemente surpreendido pela urgência que lê no meu olhar.
Outro maldito pesadelo!
É assim quase todas as noites. Realidade e fantasia delirantemente enroladas no meu cérebro, que começa a sucumbir a demasiados meses de pílulas anti-malária.
O efeito vem criteriosamente descrito nas contra-indicações : “O uso prolongado deste medicamento pode causar vertigens, alucinações, pesadelos e depressão. Caso se verifiquem estes sintomas deve consultar o seu médico assistente”.
Consultar o médico assistente...pois.
É suposto parar de tomar as malditas pílulas quando o corpo se habitua a um certo lugar mas, como não paramos em lugar algum, há já mais de quatro meses que tomamos semanalmente a droga.
Chegará a altura em que teremos de optar: ou correr o risco de apanhar malária, ou enlouquecer.
São cinco e meia da manhã. O céu começa a clarear por sobre o mar – ainda acho milagroso isto de ver o Sol nascer do mar em vez de aí se pôr como acontece em casa.
Inútil tentar dormir de novo. A ventoinha do tecto não consegue disfarçar o calor e não há nada que nos livre da terrível humidade equatorial que se torna insuportável durante os meses de Verão, aqui apenas dez graus a Sul do Equador.
Há três dias que aqui estamos – em Mikindani, no sudeste da Tanzânia – à espera que as chuvas abrandem e que as águas recuem na margem Sul do Ruvuma, e nos permitam entrar em Moçambique.
Todos os dias uma inclemente chuvada nos rouba a esperança.
Estamos alojados no Boma um forte alemão de 1893, transformado em hotel por uma ONG britânica, a Trade Aide.
O edifício, não estando num estado óptimo de conservação, destaca-se no entanto numa aldeia toda ela de cabanas de lama e, a seu modo, continua a ostentar um certo brilho colonial.
A ONG é basicamente uma associação de britânicos abastados, com sede em Salisbury no Reino Unido, mais concretamente em New Forest -a floresta situada a cerca de 150Km de Londres, antigo domínio de caça da realeza britânica e que hoje alberga, nos seus solares e antigas mansões, algumas famílias fortemente endinheiradas.
Estas pessoas dedicam algum do seu tempo e muito do seu dinheiro a tentar melhorar a vida das populações, aqui no antigo protectorado britânico, bem como a recuperar dois edifícios históricos – o Boma e a casa onde Livingstone (o conhecido explorador escocês) teria pernoitado na sua última viagem em busca da nascente do Nilo.
Os voluntários, maioritariamente jovens, passam aqui um período de três meses e a sua principal função é a criação de pequenos negócios– financiamento de redes de pesca, plantação de cajueiros – além de leccionarem aulas de inglês.
Aliás não estão sozinhos na tarefa. Mikindani reúne um surpreendente número de ONG europeias – britânicas, alemãs, dinamarquesas, norueguesas, finlandesas e ainda o Peace Corps norte americano – sendo, ao que nos foi dito, um dos locais de África com maior número de ONG por metro quadrado. O esforço é evidente, já a eficácia das suas acções é discutível.
Entramos no hall do Boma fustigados por uma chuva que parece cair em cascata dos céus e sob uma trovoada que faz o Ra ganir baixinho, e nos obriga a encolhermo-nos instintivamente de cada vez que um trovão estrondeia.
O hall é aberto em parte do seu interior de forma que a água entra abundantemente por todo o lado.
No seu interior três ingleses , os voluntários Natacha e David e ainda Nigel Parry -que, soubemo-lo depois era da administração da ONG - tomam um sossegado chá indiferentes à intempérie.
- ‘Karibu’- convida-nos a entrar Mdo a recepcionista tanzaniana. Alertados os ingleses viram-se e olham-nos:
-‘Ora, ora, parecem um tanto molhados’. - diz Nigel que se nos dirige sorridente.
- ‘Sim. Somos dois e temos um cão, aceitam cães?’
- ‘Um cão? Que inusual...não creio que tenhamos uma politica sobre a permanência de cães no Boma? Olha para os outros que encolhem os ombros em jeito de resposta.
- ‘Bem aceitamos, ao fim e ao cabo são os únicos hospedes. O cão que come?
‘Os Ingleses são feitos para existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir’
Entramos por 405 dias!
Mas isso não o sabemos ainda e quem não sabe...
-
Na Tanzânia, a tentar chegar a Moçambique, à mercê de um tempo que se vive de outra forma, estamos a chegar a casa
QUANDO eu era pequena fazia um jogo, daqueles em que se colocam perguntas, escrevem respostas e se desvendam no final coisas da nossa vida, do passado, do futuro. É um jogo de caminhos, de florestas, de animais, de escolhas – e nesse jogo há uma casa. E quando era pequena intrigavam-me as casas.
Na casa da minha mãe tinha medo do escuro que tomava o corredor, que me fazia caminhar nele sempre com frio. Perdia-me à noite, só por não haver luz no meu quarto.
E nas casas das avós as cozinhas, de lareiras enormes (daquelas onde toda a família se senta, onde o café se faz na cafeteira preta de tanta fuligem, onde com o fogo quase se queimam as canelas e se descolam as solas dos ténis, onde se fumam os enchidos e se cozem as morcelas), davam-me conforto. Perdia-me nas casas com arcas onde se guardam as carnes a salgar, onde se estendem as uvas a secar, nas casas onde o bafo dos animais aquece os currais, onde o pêlo, o estrume, a palha perfumam o ar.
SONHAVA nas casas ruinosas da família, e ficava mesmo com nervoso miudinho quando se cortavam e afastavam as heras e as ervas daninhas que fecham as entradas. Com os amigos de infância forjava entrada nas casas da vila onde estudava. Casas abandonadas de portas fechadas, com vidros através dos quais se podiam ver os sacos de livros, de roupas, de pertences de alguém...
E, já o disse aqui, desde a minha adolescência que não vivo numa casa por muito tempo seguido. Ainda é para mim um mistério.
A GORA estou em África. E na nossa imaginação, aqui o clima é quente, as cores são fortes, os cheiros são intensos, os tempos ritmados.
Aqui vive-se perto da natureza, da origem do mundo, e nesse viver simples encontra--se algo perto da libertação, da felicidade.
Aqui é o lugar dos encontros, das viagens para o interior de nós. Das mudanças de vida, de consciência, de destino.
Aqui há pessoas genuínas. De olhos e corações bons, puros. Aqui os corpos são musculados, desenhados, belos. E o seu movimentar é voluptuoso. Aqui transpira-se. E do suor vem o cheiro forte e sexual das energias telúricas.
As músicas aqui estão sempre presentes, e são feitas com as coisas da natureza – com as mãos, com os pés, com as línguas. São feitas com as madeiras das árvores e as peles curtidas dos animais, com as frutas secas a as sementes – e dança-_-se todo o dia e toda a noite.
AQUI as mulheres são os seres da lua. Trabalham, parem, tratam da terra e dela tiram as coisas que misturam com a magia do fogo, e que servem à noite nas mesas, ou no chão, coberto pelas cores vibrantes dos tecidos de algodão pintados de padrões e frases.
Aqui as crianças são muitas, são bonitas, sorriem e, apesar da vida difícil que levam, são felizes.
Aqui a comida tem sabores doces e picantes misturados, as frutas são frescas, os mariscos saborosos, a carne firme e tenra.
Aqui os animais são belos e poderosos, mas não são ameaça, vivem em harmonia com o homem.
Aqui o oceano é azul cristalino, calmo e morno. A areia é fina e branca.
Aqui as noites são quentes.
O pôr do sol é vermelho e a lua cheia.
O céu tem mais estrelas e mais brilhantes. As paisagens são secas como a savana, ou luxuriantes como a selva, mas sempre enormes, a perder de vista.
Aqui sentimos verdadeiramente a natureza, e nela estão equilibrados os desafios e as facilidades, as vantagens e as desvantagens, o quente e o frio, o alto e o baixo, as energias positivas e as negativas. Tudo em equilíbrio.
E nós viajámos até aqui, e sentimos que no regresso a casa tudo isto vai connosco – muda-nos a maneira de olhar o mundo e viver a vida.
Aqui alargamos os nossos horizontes, os olhos rasgam-se e sentimo-nos «como nunca nos sentimos antes» e vemos coisas «que nunca vamos esquecer».
Estamos no campo da imaginação. Agora que estou aqui, não é bem assim. Estamos na Tanzânia, 10 graus abaixo da linha do Equador. Está calor, e o clima é muito húmido. Transpiro. O ar é pesado. Canso-me mais facilmente aqui.
ESTAMOS na Tanzânia e seguimos para Moçambique. A fronteira é natural e chama-se Ruvuma, o rio. Na natureza é assim, o rio está lá para nós, e nós para ele. Para quem viaja por terra, quando há um rio há um desafio. Neste caso há uma canoa para fazer a travessia, que não serve para o nosso jipe, claro, e um ferry. Mas no Norte de Moçambique chove demasiado, as estradas estão alagadas e o caudal do rio é muito grande. O ferry não navega.
E aqui, como todos sabemos na nossa imaginação, a relação da vida com o Tempo, o Sol e a Terra é especial. Por isso aguardamos que parem as chuvas.
No estacionamento a placa anuncia Karibu (bem-vindo).
O edifício é um antigo forte alemão, com paredes feitas de coral, muito bonito. Aqui, nesta aldeia feita de lama – é a terra que faz a colina, que se avermelha mais e mais com a chuva que cai todos os dias, é a terra que faz as casas, que se desfazem com a mesma água… –, é a Casa. Só há esta. Encima a colina, olha a baía e é imponente.
Alguém escolheu este edifício, alguém o recuperou, o transformou num hotel, o decorou, mas esse alguém não está presente há algum tempo.
Aqui o tempo é lento, muito lento. Mas tenho quase a certeza de que, talvez mercê da mesma energia que faz a água no ralo rodar para outro lado, o mundo também gira mais devagar.
Não há energia eléctrica senão seis horas por dia. Não há água corrente na maioria das casas. A esperança de vida não é mais de 40 anos.
Aqui é preciso viver de outra forma o tempo. Não se demora mais tempo a fazer as coisas, não. A verdade é que nos pede mais atenção, o tempo.
ACABÁMOS de chegar à casa, há uma porta de madeira esculpida, escura, pesada, como as da tradição de Zanzibar. E, todos sabemos, as casas têm presenças, seres, histórias e a porta da casa é a sua alma, é por aí que entra a fortuna.
Entro.
No lobby a luz é fluorescente, como a que se usa nas cozinhas, e a pintura das paredes está caída no chão, como uma casca, de fruta, de árvore, como a casca da casa.
E naquele meu jogo de infância a casa é o conforto, o afecto, a família.
Aqui, em África, estou a entrar na Casa, e vai ser a minha. Muito mais do que imagino.
-
-‘Prestem atenção este que vai entrar agora é o policia português.’
Entra.
É façanhudo e de aspecto bilioso. Tem umas bochechas descomunais, nariz anguloso. É reconhecível pelo boné.
Dirige-se para o centro da clareira de onde convida, formal, a rainha Isabel II, de Inglaterra–que a coroa identifica - para dançar, ela aceita.
Ao par junta-se o marinheiro americano.
Todos aplaudem entusiasmados, nós também.
Dançam durante uma eternidade, a luz da fogueira a bruxulear as formas e a tornar levemente sinistro o improvável trio.
A um sinal do ancião que parecia dirigir a cerimónia, o polícia e o marinheiro correm na direcção da assistência que, entrando no jogo, simula a fuga, espantando as cabras que fogem, genuinamente assustadas, em todas as direcções.
A rainha Isabel II tira a máscara e ri-se muito.
Cansados da perseguição o policia e o marinheiro tiram também as máscaras, olhos sorridentes, recuperando as suas identidades de jovens maconde. Há muitas gargalhadas e abraços. As crianças brincam ainda.
-‘Então gostaram?’ Pergunta-nos John, o maconde-suaíli, católico na fé e de nome anglo-saxónico.
Não sabemos bem o que responder.
-‘É... surpreendente!’
-Eu sabia que iam adorar.’
Já tínhamos ouvido falar nas máscaras maconde, mas não era bem disto que estávamos à espera.
A dança, ritualmente repetida várias vezes ao ano, segundo John, retrata ou exorciza os contactos da cultura maconde com a civilização europeia.
quando o pai de John era pequeno o terceiro elemento era um soldado alemão, mas que acabou por cair em desuso sendo substituído pelo americano.
O ancião fala agora, John traduz a história que sabe de cor :
“No principio havia apenas um ser, não era ainda um homem. Vivia sozinho num local selvagem e sentia-se só. Um dia pegou num pedaço de madeira e, com uma pedra, esculpi-o até lhe dar forma humana.
Depois colocou a imagem ao sol, à porta da sua cabana. A noite caiu e, quando o sol nasceu, a figura tinha-se transformado em mulher e o ser em homem; tornaram-se marido e mulher.
Conceberam e uma criança nasceu, mas morreu ao terceiro dia.
‘Vamos atravessar o rio e procurar um sítio mais alto, na outra margem, lá onde crescem as acácias’ – disse a mulher. E isto fizeram.
De novo ela concebeu e uma criança nasceu. Mas, de novo, ao terceiro dia, morreu.
‘Vamos para um sítio ainda mais alto onde os arbustos crescem’. Sugeriu uma vez mais a mulher.
Uma terceira vez concebeu e uma criança nasceu.
Foi o primeiro maconde.
Estamos na província de Mtwara, Tanzânia, muito perto do rio Ruvuma. É este o rio da história e à terra de onde partiram chama-se hoje província de Cabo Delgado, Moçambique.
Estamos no planalto maconde.
Os macondes da margem Norte conviveram brevemente com os alemães, depois com os ingleses. Desde há cinquenta anos os navios americanos são presença familiar no porto de Mtwara.
Os macondes, poucos, que ficaram na margem Sul convivem há mais de quinhentos anos connosco- os portugueses.
O polícia, a rainha e o marinheiro são a expressão folclórica destes contactos.
A região é isolada e paupérrima. Estamos a dias de viagem da capital tanzaniana e não existe qualquer sinal da presença de um Estado. Ninguém se interessa pelo que se passa aqui. O país vive voltado para Leste- para o Indico por onde se desenvolve o comércio com a India- e para o Norte, para o vizinho Quénia.
Os macondes vivem tão isolados como sempre viveram, nas pequenas aldeias de cabanas de lama, cozinhando na rua em fogueiras que as mulheres acendem.
Pequenas bombas de água manuais– instaladas pelos Britânicos nos anos sessenta – são das raras comodidades que estas populações usufruem.
Mtwara, cidade capital de província, é um pequeníssimo povoado com bomba de gasolina, uma igreja, três mesquitas, uma mercearia e meia dúzia de lojas daquelas que vendem de tudo, propriedade de indianos.
É esta a nossa última paragem antes de atravessar o rio e entrar no Norte de Moçambique que, dizem-nos aqui, é ainda mais pobre e isolado que esta região.
Parece não haver maconde que não seja um escultor de madeira. Por todo o lado, sentados no chão, homens dedicam-se a esculpir, no ébano macio, máscaras, figuras humanas e animais.
-‘São portugueses?’
Interpela-nos, em português, um velho que estava na bomba de gasolina e que nos ouviu a falar.
-‘Eu sou de Cabo Delgado, mas vivo aqui por que lá não tenho trabalho. Comprem-me uma peça.
Escolhemos uma figura de mulher grávida.
- Fiquem a saber que foi graças a estas máscaras que vos combatemos lá na minha terra !
-Com o poder espiritual delas?
-Não! Qual poder espiritual? Mandavamo-las para Dar e lá vendiam-nas aos turistas; depois entregávamos os dólares aos do Nyerere – referia-se ao primeiro presidente da Tanzânia - que em troca nos mandava as espingardas que comprava aos russos. Foi assim que começou.
Irónico destino teve a máscara do policia português.
Não mais de trinta quilómetros nos separam do Ruvuma, apesar disso não há quem nos saiba informar se o batelão, que normalmente liga as duas margens do rio, está ou não a funcionar e se será possível atravessar.
Não foi difícil encontrar o trilho que saía de Mtwara para sudeste e que havia de nos levar até lá.
Uma hora depois chegamos à margem. Há uma pequena e azafamada multidão que bloqueia o trilho.
Saímos do jipe para obter informações sobre a travessia, alguém acaba por nos indicar o homem certo, o piloto do batelão. O Sol ainda vai alto, temos esperança de atravessar ainda hoje.
-‘Bom dia, o batelão está a funcionar?’
-‘ O batelão? Sim, está.’
- ‘ Óptimo queremos atravessar para Moçambique, somos dois e temos este jipe. Quanto nos cobra?’
- Atravessar? Não podem atravessar.’
-Mas se nos disse que o batelão funciona?
-‘O problema não é o batelão. Venham, vejam.’
Arrasta-me pelo braço através dos grupos de pessoas que se acumulam na margem rio e então percebemos: não há um rio, há um mar.
As águas correm com um poder assustador e toda a margem sul desapareceu transformada num pequeno mar interior.
As grandes cheias cortam-nos o caminho
-
Descobri que vivem nas colinas, nas montanhas rochosas. Nas correntes fortes dos rios e nas águas turvas dos lagos. No escuro das grutas e no abanar suave dos coqueiros. No guincho dos morcegos e no bater das asas das águias. Dentro das lamas, entre as areias.
Q uando chegámos a Mikindani, no Sul da Tanzânia, a aldeia fugiu, em debandada. Bandos de cabras, bandos de crianças correram colina acima.
À visão do nosso Ra gritavam:
– Simba! Simba! [leão]
E a nós, logo que saímos do jipe:
– Mlungu! Mlungu!! [branco]
M ikindani é uma aldeia isolada no Sudeste da Tanzânia. Aqui, segundo os guias e as informações turísticas, nenhum turista vem. Fazer o quê? Não há nada aqui que atraia um turista.

A não serque se goste da estrada difícil de Dar es Salaam – que de transporte público pode demorar entre 24 horas e não se sabe quantos dias – ou da África quase intocada.
A não ser que se tenha interesse pelas aldeias tradicionais, pelas comunidades pequenas, fechadas, muçulmanas.
E a não ser que se tenha curiosidade pela costa suaíli, em tempos importante e próspera devido aos seus portos – Kilwa, Lindi, Mikindani –, mas que agora permanece deixada ao abandono.
Nesta aldeia, os poucos edifícios de pedra, importantes marcas da ocupação árabe, inglesa, alemã ou portuguesa, estão praticamente em ruínas e são perigosamente ocupados por pessoas e animais – famílias inteiras que aproveitam qualquer estrutura para aí cozinhar, dormir ou secar colheitas.
Chegamos a Mikindani e perguntamos aos locais:
– Best Hotel?
– ‘OldiBoma’ – é a resposta. Depois de muitos pedidos de direcções pelo caminho de terra batida (não há uma única placa) chegamos ao Old Boma Hotel.
Um antigo forte alemão, numa colina em frente a uma baía do Índico, transformado pelos ingleses em hotel de charme.
Chegamos satisfeitos por ter conseguido percorrer quase 600 km de estrada difícil desde Dar es Salaam até aqui. Depois de ver no Ruvuma a força das águas, ficamos uma noite e amanhã seguimos para Moçambique.

Eu não sabia, foi aqui que descobri. Ninguém vem aqui. Para quê? Eu vim pelos espíritos, é aqui que vivem.
Esta noite não é verdade. Não existe a noite nem o dia aqui, e os projectos – já o sabia – não estão na nossa mão.
Aqui encontrei o meu emi, o meu ojiji, o ori, e talvez algum deles aqui mesmo eu tenha deixado. Mas neste momento, no da chegada, eu não sabia.
Todos sabemos, em toda a África. Todos concordamos:
Que a vida não acaba no momento da morte.
Que em cada um de nós existem duas essências espirituais, e três formas de alma nos protegem.
Que a alma-vida é como um bio-espírito que desaparece no momento da morte física mas que mantém a sua identidade mesmo depois de separado do corpo. Que pode ser protegido em momentos de perigo e ser guardado num lugar seguro, podendo assim o corpo ser ameaçado ou ferido, mas não morrer, porque a alma está guardada – quando passa o perigo a alma, em segurança, regressa.
Que o espírito, essência mais resistente, vive mesmo depois da morte, mas não vive para sempre. Que pode morrer aos poucos, ou ser esquecido.
Que os espíritos mais fracos, de crianças, ou de pessoas insignificantes, podem desaparecer depois de alguns anos. Mas o espírito de pessoas fortes, homens ricos e famosos, mães de muitas crianças, chefes, pessoas que foram amadas e admiradas, esse espírito vive por muitas gerações.
Que os espíritos maus também vivem muito tempo: feiticeiros, bruxas, espíritos revoltados que procuram vingança – esses vivem por muitos anos.
Que os espíritos vivem na floresta, na Grande Floresta africana.

Aqui é a terra dos espíritos e das criaturas mágicas. Na água, nas árvores, nas pedras... Nas frutas, nos bichos, nas trovoadas...
Nos espaços perto de onde foram enterrados, ou queimados, ou onde seus restos foram devorados pelos animais.
Os espíritos maus estão aqui. E protegem-nos deles as fogueiras, as danças, as galinhas, o bater dos tambores.
Os espíritos bons dos entes amados que morreram – os nossos avós, os nossos tios, os nossos pais –, esses estão aqui, estão aí, estão por perto acompanhando-nos, aos que os amam. E aproximam-nos deles as danças, os cantos, as papaias, as cinzas e os açúcares das cervejas tradicionais.
Sabemos que o emi, ou respiração, vive nos pulmões e no coração e é alimentado pelo vento – que é a força vital que nos faz viver, respirar, caminhar, falar, ver, fazer amor.
Que o ojiji é como uma sombra, e nos segue sempre como um cão.
Que o eleda, ou ori – o terceiro espírito – é a cabeça, a alma guardiã.
Que no momento da morte os três espíritos esperam pelo corpo, lá, onde os espíritos esperam.
Sabemos que esperam por um bebé. Com ele regressarão à vida para se tornarem babatunde [pai regressou] ou yetunde [mãe regressou].
Aqui recebemos as crianças e, as que são parecidas com os avós, são assim chamadas.
Sabemos que antes da morte o espírito emi pode visitar os familiares, ou os outros membros do clã, em sonho, para avisar da proximidade do momento da morte. Que mesmo durante o dia são os espíritos que permitem que a presença fria de um familiar moribundo possa ser sentida mesmo de muito longe, como se estivesse muito perto.
Que aos que morrem demasiado cedo o espírito guardião dá uma segunda oportunidade – eles continuam a vida, quase como fantasmas, e ninguém chega a notar, nem mesmo os que são mais próximos e queridos. Quando, de novo, chega a hora há uma segunda morte, e só depois desta morte o espírito guardião entrega o corpo confessando a Olorun, o deus, o que fez.
Aqui descobri os espíritos. Aqui descobri que de tempos a tempos têm de ser alimentados por sacrifícios. E aqui os fiz.
E estes meus espíritos, os que descobri, descobri aqui, deixei aqui, ainda recebo daqui.
Mas eu não sabia. Hoje, enquanto estaciono o jipe e leio a placa que saúda karibu (bem-vindo) eu não sei. Para mim, no meu espírito, amanhã sigo para Moçambique.
-
Estamos na Tanzânia, na longa estrada que leva a Sul.
O jipe avança aos poucos, lamas, água e paus puxando-o para a terra.
Numa das aldeias paramos, ali mesmo, ao lado da barraca que vende águas e bolachas.
Ao nosso lado num grupo de homens discute-se com grande alvoroço. Reclamam a sorte, lamentam as perdas, ameaçam de vingança os seres.
Na aldeia os terrenos plantados foram invadidas por elefantes, gulosos das mandiocas, não sobrou nada senão a terra revolvida pelas patas enormes.
- Temos de fazer alguma coisa! - discutem, planeiam matanças.
Por aqui, contam-nos:
- Os elefantes invadem muitas vezes as plantações, o governo não faz nada! E quando tentamos fazer justiça somos castigados! Os animais selvagens não podem ser mortos. Mas eles matam-nos, e vendem aos mzungus (brancos), como vocês os marfins!! Também para nós os elefantes podiam ser riqueza!
Este homem pertence à tribo Kamba, do Quénia e falam-nos de Ivonya-Ngia, o que alimenta os pobres.
Um homem da minha tribo, muito pobre, decide procurar o deus e pedir ajuda. O caminho é longo e quando finalmente chega vê as grandes manadas de gado e, bem no meio dos pastos verdes – que a terra protege os deuses das secas e da fome – a casa do deus.
Ngia vê aproximar-se o homem pobre, tem pena dele e logo ali lhe oferece 100 vacas e 100 ovelhas, que o ajudem na sua pobreza, mas quando o deus se prepara para lhe abençoar o caminho o homem nega a oferta:
- Eu não quero caridade, eu quero saber o segredo: como posso tornar-me para sempre rico?
Ivonya-Ngia pensa um pouco, pega num frasco de um óleo e dá-o ao homem pobre:
- Esfrega este óleo nos dentes caninos superiores da tua mulher, espera até que cresçam e depois vende-os.
O homem volta para casa com esta estranha tarefa que executou de imediato prometendo a sua mulher que isso os faria muito ricos.
Depois de algumas semanas os dentes começaram a crescer até ficarem longos como braços. O homem convence a sua mulher a deixá-lo arrancá-los e no mercado troca-os por uma dúzia de cabras.
Depois de mais algumas semanas os dentes da sua mulher cresceram de novo, ainda maiores do que da vez anterior, mas a mulher não deixou que o marido lhes tocasse.
Não só os dentes mas todo o seu corpo tinha crescido muito e tornou-se muito pesado, a sua pele estava muito rija e grossa e estava com uma estranha coloração acinzentada.
O homem achava a nova aparência da mulher desprezível mas insistia em dela ter os valiosos dentes.
Cansada a mulher fugiu para a floresta.
Caminhou durante muitos dias sem conseguir encontrar um lugar confortável para parar.
O seu corpo cresceu muito e passados poucos dias, na floresta, a mulher deu à luz um bebé grande e cinzento. Deu à luz um elefante.
A mulher olhou para ele e admirou-se com as formas e cores do seu filho, ele não parecia espantado com o aspecto da sua mãe mulher. Avançaram pela floresta, o filho elefante mostrando pelos seus movimentos, caminhos, escolhas, a nova natureza da mulher. Ela seguia-o. Confusa pelas novidades da sua vida, seguia-o.
À beira de um logo onde saciaram a sede encontraram mais elefantes fêmeas e outros bebés de pele rija e cinzenta.
A mulher ficou a viver na floresta, e ao seu bebé quando este cresceu também lhe cresceram os dentes.
O homem pobre que procurou a ajuda do deus voltou a ser pobre, e todos os dias lamentou ter sido tão ambicioso.
De tempos a tempos sentia perto da sua casa o som pesado de passos, a sombra enorme de dentes, longos como braços.
E tinha saudades da mulher.

Aqui acreditam na sabedoria dos animais e deles bebem as indicações da terra para as plantações, as colheitas, as secas, a vida.
Contam nas tribos que na lua nova uma menina nasceu na aldeia. Nasceu grande e desde muito nova que ela cresceu, cresceu, cresceu muito mais que as crianças da sua idade. Diferente de todas as outras pessoas da tribo, e sendo as pessoas zelosas das tradições receosas das diferenças - augúrios de mudanças – ela foi expulsa.
A menina chorou, cantou aos deuses e falou às mães e avós da tribo, implorou aos chefes na forma mais poética da sua língua mas não os demoveu, foi enviada para a floresta, sozinha. Durante dois dias caminhou, tinha medo de dormir, medo das feras que não podia domar sem o fogo que não teve tempo de aprender a fazer com a mãe. Caminhou.
Caminhou, sozinha.
Encontrou no mato um lago e no lago a lama.
Nas margens do lago, à medida que se aproximava, viu dentro da lama formarem-se os bichos cinzentos, vindos dos lagos interiores da terra. Na lama moviam-se os bichos, e desenhavam-se as formas grandes, de cinzento seco, estalado pelo sol, ou de cinzento-escuro, brilhante ainda da água. Nas margens do lago banhavam-se os bichos. E à sua chegada os crocodilos investiram para fora da água, os hipopótamos lá para dentro. E na margem, mesmo a seu lado observavam-na os elefantes, em banhos e duches.
Cinzentos.
A menina aproximou-se, os elefantes não se afastaram, ficaram só ali, observando, deixando-se ser observados.
Ela ficou, os elefantes levaram-na onde havia pepinos e frutas para comer, e deixaram-na tocar-lhes o corpo, subir-lhes para o dorso. A menina ficou para sempre na companhia deles. Com eles teve quatro filhos, enormes, inteligentes, nobres. Esta é a estória dos antepassados do clã Indhlovu.
-
E quando o vento soprou e moveu com violência as águas os elefantes foram os primeiros a correr pela colina. Os machos divididos em manadas de jovens solteiros, mais rápidos, e os grupos mais lentos, os casados. As fêmeas em bando, lideradas pela mais velha. As crias avançando no círculo feminino, protector. Correm todos de caudas erguidas, para avisar do perigo os outros membros da manada.
Os mais jovens agarrando com a tromba a cauda das irmãs, das mães, das tias. Comunicam por sons, vocalizações de baixa frequência que alcançam até quatro quilómetros. Todos sobem a colina a 40 km/h, o mais veloz que conseguem correr.
A ferocidade da terra.
Sem a dádiva da terra ninguém vive. É ela que permite a vida e que gera todos os seres, de todas as vezes que novos seres nascem.
Ela faz a erva crescer, alimenta todas as criaturas, e com a ajuda dos poderes da chuva sempre renasce, todos os dias.
Por vezes não chove.
Em África, em muitas das suas terras, durante muito tempo não chove.
A terra seca, estala, mas quando a água volta, voltam os sapos, as borboletas, os hipopótamos, os pássaros. Onde estavam durante a seca?
Estavam escondidos, protegidos no ventre da mãe terra.
Antes de morrer a terra entra para dentro de si mesma. Leva as últimas gotas de água e as ervas ainda macias para dentro. Leva os seres. Protege-se.
E logo que a erva é verde todos vêem, até as cabras e as vacas, todos voltam do interior da terra.
E na nossa viagem vemos os elefantes habitantes do vulcão.
Todos em África sabem que esta é a verdadeira mãe. E muitos durante gerações partiram procurando o interior da terra, em busca dos grandes lagos.
O lago de água.
O lago de leite.
Sim, esse, esse de onde vêem as cabras e as vacas. Não existe o lago? Então de onde vem o leite?
Todas as criaturas são terra, também nós, nossa carne é feita de terra. O fogo também vive na terra, que o cospe às vezes. A madeira é terra. O vento também, vem das suas cavernas interiores. Todos os quatro elementos vêem da terra.
De todos os espíritos a terra é o mais poderoso, o que decide a vida e a morte.
E quando é perturbada move-se, abana as florestas, as montanhas, tudo. Avisando os seres da sua desobediência.
Os homens fazem as libações e oferendas aos antepassados, a algumas árvores… mas não adoram a terra.
Mas os animais sabem, conhecem bem a sua mãe e obedecem-lhe, os que não o fazem são castigados.
Nos tsunamis os castigos das águas. Nos furacões os castigos dos ventos. Nos terramotos os castigos do solo. Nas erupções vulcânicas os castigos do fogo.
Os animais sabem. E fogem. Muito antes da magia dos homens – das ciências e da tecnologia, das máquinas de previsão – os animais sabem.
Os elefantes são um bicho sagrado, temido, adorado, pelo seu tamanho poucos animais podem derrotá-lo. Só a magia dos homens pode, com os seus venenos, as armas.
E na nossa viagem vemos os elefantes.
Os que saem do mato de surpresa, os que esperam que se afastem os intrusos. Esperam, parte da paisagem, imóveis como as árvores.
Os que fazem avançar a família e seguem confiantes, de tromba levantada e orelhas a abanar de pata no ar, em guinchos ousados.
Contam os povos do lago que um caçador encontrou uma enorme pele de elefante perto do lago Chad. Escondeu-a. O lago moveu-se, agitado, o caçador, profanador dos segredos sagrados da terra temia o vento e as águas, e as criaturas e forças que vivem nelas, escondeu-se na margem. Da água saiu uma jovem mulher, muita alta, enorme, bela, nua. Ela dirigiu-se ao lugar de onde ele recolhera a pele e não a encontrando começou a chorar. O homem ficou fixo na imagem da mulher enorme e como caçador que era não resistiu a tê-la para si.
Aproximou-se. Ela assustou-te, levantou-se, pesada, e olhou-o de frente, queixo erguido, orgulhoso. Ela chorava porque perdera suas roupas e o caçador fez-lhe as promessas dos homens. As roupas, a casa, a protecção.
Ela recusou, afastou-se, pesada. Ao passar uma árvore arranhou o rosto, bem fundo. De novo olhou seu corpo nu, chorou. Olhou o homem que ainda a esperava, na sua mão o ceptro da magia que domina a vida e chama a morte, a arma, ela conhecia a magia. Aceitou pertencer-lhe. Seguiu-o. De queixo altivo, de olhos baixos.
Caçador e mulher viveram juntos e tiveram muitas crianças, enormes – porque os filhos de elefantes não podem ser texugos. Um dia a terra secou durante muitos dias, os cereais escasseavam, a mulher juntava os restos e no fundo do depósito encontrou a pele de elefante que perdera, ela vestiu-a. Nesse dia voltou para o mato, para viver como um elefante outra vez.
A terra chamou a casa a sua filha.
Os filhos da mulher e do caçador ficaram e tornaram-se os sábios do seu clã, os que não temiam os elefantes, os que adoravam o Grande Animal.
O elefante é o maior dos filhos da terra, e as outras criaturas respeitam-no.
Os elefantes escolhem bem sua casa, sempre próximos da água – precisam de cerca de 140litros por dia – e perto das mais de 100 espécies de plantas que os alimentam.
E se encontram os lugares onde os homens tentam a magia da comunicação com a terra, a de acesso aos ventres das plantas, a do plantar e do crescer, aí não resistem às bananas e à cana-de-açúcar.
A terra protege os elefantes e o que guardam - fazem gestações de 18 a 22meses, um filhote de cada vez. Se a seca é severa durante mais de quatro anos a terra não permite aos bichos gerar tantos bebés. Os bebés de 90kg de peso e um metro de altura alimentam-se do grande lago de leite que alimenta suas mães ou amas-de-leite até aos 8 meses, e até aos quatro anos estão ao cuidado das mães.
Porque a terra assim decidiu.
-
É o que se chama ‘morrer na praia’!
O corta mato saiu caro e aqui estamos, atolados a menos de dois metros do trilho.
A população da aldeia observa divertida.
Saio do jipe.
‘Calça as botas!’- grita-me do interior da viatura a Filipa.
Resmungo qualquer coisa e não calço, saio para a lama mesmo de chinelos.
Sim, sei que há cobras!
Sim, estou de mau humor e é por isso não calço as botas!
Sim, sei que sou idiota!
Que diabo ao fim de tanto tempo de estrada ainda não aprendi a evitar trabalhos e a não desafiar a sorte?
Parecia tão convidativo - atravessávamos o mato e evitávamos os veículos atolados, voltávamos ao trilho e continuávamos.
Fui parvo.

Tento subir para o trilho, a lama agarra-me o chinelo que fica colado, tento recuperá-lo, desequilibro-me e estatelo-me no charco. Os locais riem-se de mim.
Devia ter calçado as botas.
Sento-me na lama; a Filipa e o Ra também se riem.
Todos acham muito divertido. Eu não!
-‘Calça as botas!‘ Insiste ela, pedagógica.
-‘ Calça as botas, calça as botas! Eu quero saber é como é que saímos daqui! ‘
- ‘ Se fores mordido não ajuda ’
- ‘Nha, nha, nha...’ Às vezes as mulheres são tão racionais que irrita!
Sobretudo se têm razão.
Já não sei que ia fazer quando saí do jipe, portanto volto lá para dentro.
A situação não melhorou.
Limpo-me com toalhetes húmidos – daqueles com que se limpa os bebés - e resmungo:
- ‘ Mas como vamos sair daqui? Sim, como? Não estou a ver! ‘
Silêncio...Não se contrariam os doidos.
Saio outra vez, batendo com a porta, para ver se tenho alguma ideia.
Impossível: o jipe escorregou e ficou perpendicular ao trilho, rodas quase submersas e fortemente presas na lama. Não há tracção e não temos remos.
No trilho, uns metros à frente, está atolado um camião. Um jipe choca insistentemente contra a sua traseira tentando, por este singular processo, empurrá-lo para fora da poça em que está preso.
-‘Bwana (senhor) – dirige-se-me um dos habitantes da aldeia – se pagares nós tiramos-te daqui.’
-‘Como ?- respondo irritado - tens um tractor?’
-‘Não Bwana, nós pegamos no jipe e pomo-lo no trilho.’
Rio-me - com a carga que trazemos o jipe pesa cerca de quatro toneladas - é impossível. Ele não sabe o que diz!
-‘Se pagar quanto?’
- ‘Hum, cem mil xelins’ – cerca de 56€.
Abro a carteira, só tenho cinquenta mil.
- ‘Tenho cinquenta, queres?’ Ele concorda.
-‘Vai para dentro e acelera quando eu disser.’
Volto para o jipe certo que não vai resultar. Das cabanas, a um sinal do homem, aparece uma pequena multidão, mais de vinte pessoas, que se colocam em volta do jipe e começam a abaná-lo, a puxá-lo e a empurrá-lo, Ra gane.
- ‘Acelera, acelera!’ Grita-me.
Movemo-nos, movemo-nos!
À força de braços vamos escorregando a pouco e pouco até que, por fim, uma das rodas dianteiras pisa terreno mais sólido e conseguimos soltar-nos.
Estou atónito - praticamente pegaram no jipe e puseram-no no trilho.
Pago o combinado.
-Vês? Diz a Filipa ao mesmo tempo que sai, botas calçadas claro, para tirar uma fotografia, deixando a porta aberta.
Ora ao mesmo tempo o camião que estava uns metros à frente consegue, mercê de uma pancada mais forte do jipe, desatolar-se e inicia uma galopada infrene na nossa direcção. Rápida a Filipa fecha a porta e refugia-se atrás do jipe, o camião mergulha numa poça, mesmo ao meu lado e, no processo, levanta uma onda enorme de lama que entra direitinha pela janela que a Filipa deixara aberta.
Eu fico cheia de lama dos pés à cabeça.
Ra gane baixinho. A Filipa ri-se.
Eu regresso aos toalhetes húmidos.
Estamos exaustos.
Decidimos parar na primeira povoação que houver.
O trilho melhora um pouco, fica mais seco.
Umas horas depois chegamos a Kilwa.
Kilwa!
Com tanta azáfama e tantos problemas no caminho só agora nos damos conta que estamos em Kilwa, a portuguesa Quíloa.
Aquela que -
“ em poder e forças muito excede
A Moçambique esta ilha,
que se chama Quíloa, mui conhecida
pela fama.”
Ah, começa a cheirar a Portugal esta África e quanto mais andamos mais próximos estamos. Ou não fosse redondo o Mundo.
Como à intrépida frota também a nós Vénus, nos colocou no bom caminho.
Kilwa significa em suaíli – local de boa pesca.
Nesta zona encontra-se Kilwa Masoko – mercado - e Kilwa Kisiwani – na ilha-, sendo esta segunda a Quíloa cantada por Camões, onde Pedro Alvares Cabral- o primeiro europeu a visitá-la- desembarcou e onde viu com espanto os ‘mouros negros’; tornada tributária da coroa portuguesa por Vasco da Gama e, como o tributo não fosse pago, tomada por Francisco de Almeida já no início do século XVI.
Kilwa Kisiwani era, à data em que passou para o domínio português, uma espécie de hipermercado. Aqui se concentravam o ouro e o ferro vindos do Grande Zimbabué, o marfim e os escravos do interior da Tanzânia e, vindos de leste, os têxteis, as jóias, as porcelanas e as especiarias. O seu domínio estendia-se desde aqui até à antiga Sofala, hoje cidade da Beira,
cerca de 1700km a sul. Aqui acorriam mercadores de todo o Índico, das arábias e do extremo oriente. Daqui partiam em pacientes dhows, carregadas de riqueza.
A ilha sossobrou perante a visão das 22 naus de Francisco de Almeida, que de imediato mandou construir a fortaleza cujas ruínas contemplamos agora.
Tomada a ilha escreve a D. Manuel aconselhando algo que durante séculos marcaria o pensamento geopolítico nacional
“ Toda a nossa força esteja no mar, desistamos de nos apropriar da terra. As tradições antigas de conquista, o império sobre Reis tão distantes não convem. (...) Abandonemos a ideia de conquista para não padecermos das moléstias de Alexandre. (...) Espero que em meu tempo sereis imperador deste Mundo de cá.”
Ruínas sobre outras ruínas foi o que ficou nesta parte do ‘Mundo de cá’, que nem a vontade tanzaniana nem a memória portuguesa se empenham em retirar da lista de ‘património mundial em perigo’.
Plácida e morna a baía da Kilwa continental vive de costas voltadas ao esplendor antigo, sobre as águas as antigas dhows há muito que substituíram as caravelas.
Banhamo-nos na água tépida do Índico, lavamo-nos da lama e de cansaços.
E recordamos