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Entramos finalmente na África do Sul, concluímos a travessia Norte-Sul do continente. Foram mais de 12.000Km e doze países que atravessámos - só em África - e, o que não é despiciendo, sobrevivemos!
África do Sul é um nome desconchavado para um país. Quem é que gostaria que Portugal se chamasse ‘Europa do Ocidente’?
Passada a fronteira a primeira vila que encontramos chama-se…Belfast!
É desde logo um aviso para o que vamos encontrar neste país.
Estamos, de facto, a Sul da África negra. Ou assim parece. Belfast tem um núcleo urbano em nada distinto de uma vila do Norte da Europa e até faz frio. Como na Europa tem também uma periferia miserável de bairros habitados por negros.
Nada neste país é como no resto da África que atravessámos: há estradas, há electricidade, as cidades são organizadas, há recolha de lixo, têm jardins e iluminação pública, teatros e cinemas, escolas, hospitais e universidades. Há megapolis como Joanesburgo com cerca de 8 milhões de habitantes. O PIB per capita é cerca de doze vezes superior ao do vizinho Moçambique.
A vida selvagem não foi dizimada nas lutas intestinas e é tão abundante e variada que é possível ir a um café com um jardim onde há gazelas, avestruzes, ónix e cavalos. Também há muito espaço -o país tem doze vezes o tamanho de Portugal e só quatro vezes mais população. Por isso as vilas estão cheias de vivendas descomunais – quase sempre propriedade de brancos – com jardins luxuriantes, com carros, barcos e por vezes helicópteros estacionados no seu interior.
Os boers gostam de viajar de jipe, por isso o país está cheio de belos lodges onde por 30 ou 40 Euros se dorme.
É justamente a um deles que nos dirigimos para pernoitar. Somos recebidos por uma simpática senhora:
-‘Boa noite, gostávamos de dormir aqui, mas temos um cão. Aceitam cães?’
- ‘Cães? Sim não há problema, adoro cães. Mas há uma dificuldade: temos gente negra cá a dormir, percebem? Não há como evitar! Querem ficar mesmo assim? ’
Palavras para quê?
Penso apenas em que outro sítio do mundo esta cena seria possível?
A senhora parte do princípio que, por sermos brancos, nos pode colocar a questão, assim, sem pudores nem reticências. Ou seja para ela é normal perguntar e nem se lhe coloca a dúvida se para nós também o é, antes conclui, baseada na cor da nossa pele, que só pode ser.
Ficámos apesar de tudo.
No dia seguinte, já de saída de Belfast, paramos numa pequena barraca, já nos arredores, para comprar água. O bairro é de negros e os olhares que nos lançam são desconfiados e por vezes hostis. Só na Rússia me lembro de ter sentido uma sensação semelhante
Seguimos viagem.
- Estão sempre a cumprimentar-nos!
- Pelos vistos aqui é hábito, parece que toda a gente nos conhece.
Saímos de Belfast esta manhã e desde então, sempre que algum veículo se cruza connosco na estrada, o condutor ergue a mão direita em sinal de saudação. O gesto é muito específico, não é um ocasional e displicente aceno; não é um acto distraído nem circunstancial.
Palma da mão bem aberta, dedos unidos mas com o polegar bem separado e ligeiramente arqueado para cima, levantar e baixar lento do braço.
- Se calhar é por causa da matrícula…
Mas não, não é da matrícula. É da cor, da cor da pele entenda-se.
Todos os condutores que nos cumprimentam são brancos e os brancos deste país cumprimentam-se. Trocam gestos de identificação formais e codificados, tipo sociedade secreta, e mesmo sendo óbvio que nem eu nem Filipa possuímos as características físicas dos boers – enormes, obesos, peles nórdicas e olhos claros - mesmo assim a Filipa é loura e eu, ainda que muito escurecido, ainda entro na categoria de branco.
Somos do clube portanto.
Já tinha sentido coisa parecida na Tanzânia, mas aí a situação era diferente: todos os brancos com quem convivíamos eram expatriados europeus na sua maioria, tínhamos algo em comum.
Mas aqui a única coisa que tenho em comum com estes condutores, que não conheço, com os quais não tenho qualquer relação e que ademais são naturais deste país, é a cor da pele.
De início ainda acreditamos que é simpatia e espírito pioneiro: temos um furo, de imediato um jipe carregadinho de boers para e de lá saltam uns dois ou três para nos ajudarem a mudar o pneu.
Uns quilómetros depois um jipe está atolado mesmo no meio de um cruzamento. Nos trilhos que vão dar ao cruzamento estão parados cinco ou seis veículos, aguardam que o condutor consiga desatolar-se. O condutor do veículo atolado é negro, os condutores dos jipes são brancos. Nem um só foi ajudar. Saímos do nosso jipe e oferecemos auxílio ao condutor, que está muito aflito. Os boers olham-nos atónitos. O condutor negro não está menos surpreendido.
Horas depois é a nossa vez de ficar atolados. Passam dois veículos conduzidos por negros, não param. Passa um jipe conduzido por um branco, pára e reboca-nos.
Não conheço continente tão racista como o africano. Os meus amigos africanos explicam-me que há muitas ‘raças’: negros, amarelos, vermelhos, brancos, mulatos, mulatos apurados, monhés, mistos, canecos… E desconfiam muito quando eu digo que só existe a raça humana.
E neste continente de raças não há país tão segregacionista como este.
O clube dos brancos sul-africanos age como se fosse uma espécie em vias de extinção. Isolam-se, não convivem com os negros, vivem em fortalezas, frequentam cafés onde não entram outras cores. Os negros vivem em bairros onde não entram brancos, têm os seus redutos e desconfiam de qualquer branco que se aproxime. Não convivem, antes vivem em zonas bem delimitadas que a prudência aconselha a respeitar. As relações entre eles, que se pressentem quando se respira o ambiente das cidades, não são mais do que contratuais. O contrato parece ser:
– ‘Não te vou matar mas não sou obrigado a viver ao pé de ti!’
Não encontrei a nação arco-íris que Mandela generosamente proclamou. Não encontrei, de facto, sul-africanos. Encontrei boers e zulus, indianos e xhosas, sothos e chineses.
Todos eles, em tempos, foram homens mas aqui respondem por outros nomes.
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Não procures os deuses, eles estão por todo o lado. Nas águas, nos nenúfares, no bambo, no papiro, nas águias e nas pequenas rãs, nos louva-deus, nos crocodilos, nas areias. O ciclo da natureza, esse é o divino.
O braço de rio vem das montanhas de Angola, e corre. Espalha-se pelas areias claras apenas para se evaporar e ser sugado para o céu onde de novo vai chover nas montanhas.
Visto numa imagem de satélite o delta é como uma mão feita do braço do rio Okavango, que desaparece na areia seca do deserto kalahari. Estamos aqui.
Aproximamo-nos da água, mas não a vemos. Sentimo-la presente, no verde da vegetação de ervas altas, no zigue zaguear do caminho que fazemos. Continuamos sempre, mesmo não seguindo em frente. E vemos a água, vemos nela as canoas, parecem-me pequenas demais para o nosso plano, três pessoas dentro da madeira instável? Aproximamo-nos da margem, mas não se pode chamar margem à areia ensopada de água, em movimento irregular e mutável.
Tudo se move aqui, as ervas, as águas, as areias, o ar, os seres que o meu olhar distraído ainda não consegue ver.
Saio do jipe, na irregular margem espera-nos John, o barqueiro. De calças arregaçadas e pernas enterradas na areia pantanosa aguenta perto de si o mokoro – a canoa tradicional – recebe a minha mão, os meus pés destreinados enterram-se e mal me equilibro para subir. Subo, sento-me na fina cama de capim seco que cobre o fundo da canoa quase chato.
Sinto que pela primeira vez flutuo.
Não sei se é a forma da embarcação, a cor da água, a temperatura do ar ou a visão da vegetação, mas sinto um flutuar... diferente, como se fosse de facto a primeira vez.
A canoa parece não ter peso, a água não existe, tudo o que delimita os elementos são apenas linhas ténues. Tudo se mistura sem peso ou forma. Sim, a sensação é assim mesmo, mágica, e logo que a canoa avança sinto como se entrasse noutro mundo. E é assim mesmo que acontece.
John conduz a barca de pé! E o seu remo é um pau longíssimo e muito fino, que toca o fundo do delta ou se apoia nos enlaçados nenufares que habitam o interior das águas.
Está calor, mas não se imaginem a navegar suavemente de pés e mãos dentro de água, aqui habitam os seres, os crocodilos, os hipopótamos, os peixes letais.
Entre Junho e Agosto, os meses mais secos do Botswana, o delta incha e chama para si enorme quantidade de vida selvagem, e sacia os seres.
Navegamos, deslizamos suavemente, tão suavemente, o equilíbrio é impossível, o movimento imperceptível, a sobrevivêcia milagrosa e o caminho? Esse gesto já conheço, é inventado.
O mokoro avança deslizando, às vezes na água transparente, pintada das cores das folhas e das flores, outras vezes pela vegetação, desafiando a altura e a densidade das ervas. A “proa” da canoa, pontiaguda, separa as ervas e o som da madeira pela vegetação é... musical. Como o som do toque do vento num canavial de canas muito finas, como o arrastar áspero das camisas de milho numa eira de pedra, como o som sensual da seda de um vestido tocando uma parede de cal.
No delta as concentrações de sal da evaporação das águas em conjunto com as enormes térmitas criam ilhas, dentro do delta visitamos a ilha do chefe, reservada como seu único espaço de caça. A canoa pára na areia mais seca, saltamos para a ilha. Acompanhamos John, que nos vai educando sobre as pegadas de animais, de hipopótamos, de elefantes, de hienas...
Viajamos, e nem sempre sabemos para onde nos deslocamos de facto, onde está o longe ou a distância, pode estar sentada ao meu lado no autocarro ou lá longe nos destinos exóticos do oriente, ou aqui, em áfrica. E de novo pensamos que há coisas que são universais.
Em Portugal estou sentada com amigos num jantar feito de saudades, de afectos, e falamos das distâncias. No calor das discussões uma amiga levanta-se de rompante, a pele roborizada pela certeza, os gestos tensos das verdades:
- Há coisas que são universais! Que são iguais aqui e em todo o mundo – eu replico que não é verdade mas penso um pouco e respondo apenas que não sei.
Não sei.
A minha experiência diz-me que não, mas, na verdade, que sei eu das verdades? Nada.
Mas sei, isso sim, que basta afastar-me o suficiente da minha rua que tudo fica diferente. Tudo é relativo.
E argumentam comigo que as coisas universais são o instinto maternal, o valor da vida...
Nenhuma das nossas certezas se mantém no confronto com a realidade que vemos da nossa janela.
Seguro na mão uma moeda do Botswana – um pula. Pula significa chuva.
Ao preço da chuva. Já pensaram no significado desta expressão? Não exactamente do que exprime mas porque o exprime assim?
Em portugal chove, muito. Há água (pelo menos por enquanto).
Mas imaginem a mesma expressão usada em países como o Egipto ou a Namíbia, formados por enormes desertos? No Botswana 70% do país é deserto, o deserto kalahari.
Aqui a água é preciosa.
Na tribo dos Hambukushu há uma crença, um ritual, uma prática. Na tribo dos Hambukushu existe desde tempos imemoriais o fazedor de chuva. Este homem quando chega à idade de casar escolhe uma mulher, esta mulher é escolhida para dar à luz sacrifícios. O fazedor de chuva e a mugrodi, a mãe da chuva, fazem filhos que oferecem para que nunca falte a água para as criaturas da terra. O bebé nasce, o bebé é enterrado nas margens pantanosas do delta, apenas a cabeça está de fora, o crâneo aberto recebe as primeiras gotas. Mantido o sacrifício a chuva continuará.
Não, nada é universal.
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Para mim o Zimbabué tem pêlo dourado e grosso, tem bafo quente, patas fortes e um olhar…
As estórias aqui são duras. A estória política, económica, social… essas quase todos conhecemos. Das notícias, dos jornais, dos documentários. E pensamos que conhecemos tudo.
Estamos na cidade de fronteira com Zâmbia, aqui o turismo é forte e importante mas nas prateleiras das lojas não há nada, nos restaurantes não aceitam dinheiro local e todo o tipo de negócio é feito em dólares. Passeamos no jipe dispendioso e muitas vezes os olhares são… magoados.
Mas para mim ziimba remabwe, a grande casa feita de pedras, conta outra estória.
Caminhamos pelo mato, em grupos pequenos, e caminhamos em suspense, podemos não ver nada de início mas o mato é sempre surpresa, agora isso já sei. Recebemos informações e por isso pensamos que caminhamos informados, seguros, sabendo o que fazer.
Caminho pelo mato e sei que Zimbabué espreita… estou no território dos animais. Eles estão aqui. E vêem-me. Eu não os vejo.
Caminhamos em fila. Viemos todos com o mesmo propósito, vê-lo, tocá-lo, sentir o seu poder. Há regras, sabemos, não podemos deixar que nos olhe de frente, não podemos deixar por um momento que seja ele a tomar iniciativa. Mantemos na mão um pau magrinho, simbólico objecto de poder, e concentramo-nos na força a pôr na voz, na determinação e segurança que precisa um “não!”. Nós somos os visitantes e controlamos o encontro. Caminhamos, os homens sábios das leis e coisas da natureza caminham à nossa frente, eles não olham, eles vêem. Nós olhamos, direccionamos vagamente o olhar, apenas.
Um arbusto mais forte, uma árvore mais alta, erva, erva, pedras. Isto é o que eu olho. Eles vêem as pegadas, os ramos marcados, os ninhos, as tocas. Eles educam-nos pelo caminho. Nós avançamos como crianças que não sabem nada. E pelo caminho assim respondemos às lições sobre esta casa, falam-nos dos pequenos pássaros que fazem os ninhos escondidos nos ramos dos arbustos, falam-nos das folhas e paus que se apanham e se usam para desinfectar, para lavar os dentes, para fazer tudo aquilo que nós, as crianças, só sabemos fazer se vier em embalagens e com explicações no exterior sobre o que é, para que serve, como se usa. Aqui as regras são outras. E eu não as controlo, eu oiço e olho, na esperança que à força da repetição possa verdadeiramente escutar, observar e aprender.
Avançamos, a maioria de nós nem se detém nestes pormenores do caminho, estamos demasiado apressados e gostamos de receber o que mais nos motiva de forma rápida, clara, directa. Avançamos mais um pouco pela grande casa deita de pedra e perante a inquietação de alguns aceleramos o encontro, os homens sábios do mato oferecem-nos o presente e vemo-lo chegar devagar… o rei. São dois, avançam. E para nós chegaram os brinquedos. Aqui sabemos que nos podemos aproximar, embora com regras de segurança, que embora tenhamos assinado um documento que prova que sabemos dos perigos, estamos livres para experimentar. Que embora seja selvagem posso tocá-lo, e embora seja um ser posso usá-lo como um brinquedo, que embora tenha pago para isso o encontro com ele é genuíno, e embora leve boas fotos para casa estou de facto a ajudar. Esta é a maior esponja de intenções e peso de consciência da Europa – as causas humanitárias.
Eles avançam, são dois os reis. Um rei uma rainha, ou dois príncipes, jovens. Nós, as crianças humanas acabadas de chegar da civilização, vestidas em kaki de look safari, olhamos deslumbradas: “posso tocar? Mesmo?”. Não queremos acreditar que a natureza está tão perto, ou melhor, que a fantasia sobre África está assim, tão perto de ser realizada. Porque o desejo não é de natureza, essa está ali, na árvore, na flor, no piar do pássaro. Vai á janela, não há natureza aí onde tu estás? Mesmo que seja um toque, um verde, a presença tímida de uma erva daninha, tudo isso é natureza. Não precisamos de nos deslocar os lugares sagrados para fazer o culto, o sagrado existe, está por todo o lado. Mas da mesma forma que me toca e comove um templo, uma mesquita, uma catedral, um encontro assim, de perto, com um leão, é assim mesmo… sagrado.
Eles avançam, os príncipes, e sinto-lhes a força, a serenidade, o poder.
São dois, um leãozinho de 18meses, ainda sem juba e uma leoa de 12meses.
Eles avançam, deitam-se, abrem as patas e esfregam as costas no chão, para se refrescar. Olham-nos de vez em quando mas parecem identificar em nós uma única função, mimos. O macho está deitado de barriga para cima e os sabedores das coisas da natureza dizem-me que posso avançar e fazer-lhe festas, eu avanço. Olho o pêlo, toco-o e afago-o como um gato. É bom, é estranho, sinto dentro do leão a força, como se o sangue corresse mais veloz nas veias, como se os músculos estivessem mais acordados, os ossos mais activos e flexíveis. Um segundo em que desvio os olhos e a boca do leão avança para a minha mão, eu reajo por instinto, ele olha-me, de frente, uma das regras a não quebrar, eu levanto-me com o meu pauzinho na mão e solto o não da praxe, ele volta a deitar-se com um ar absolutamente entediado. Apetece-me brincar, mas avisam-nos, o toque da língua é o suficiente para a pele ficar vermelha e um momento de brincadeira pode ser fatal. São animais selvagens estes leões com quem caminhamos pelo mato.
Pensa “agora”, amanhã pode ser tarde demais.
Vê, toca. Visita-nos agora. África é destino único e está a ser transformada, o rei está em vias de extinção. O número de leões em África está a diminuir drasticamente, números recentes indicam de dentro de pouco tempo não haverá mais leões. A caça, as doenças, a redução do seu habitat natural põem em perigo a vida destes animais. E eu estou aqui! Toco-os. Tocar um animal selvagem é regressar à origem de todas as coisas.
Este momento, da caminhada com os leões, é parte das várias fases de uma ONG que protege o rei. Criando as melhores condições para o acasalamento e a sobrevivência dos leões nos primeiros meses de vida. Entre o seu nascimento e sua total libertação na vida selvagem está um elemento, o homem. O homem que caça, que ocupa território, que invade, é o mesmo que se preocupa, que protege, que permite a vida.
Regressamos do mato e de novo ouvimos Nyaminyami, o espírito do rio Zambeze, muitas vezes falo aqui sobre a poesia e a morte da poesia, sobre as boas intenções as más utilizações mas eu… eu tenho esperança, e apetece-me ficar.
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A África não tem belas catedrais como as da Europa.
Nem a sua pintura me comove como o faz a europeia, nem a sua escultura e nem sequer a sua música.
Aqui o belo escolheu a natureza para residir. Ela tem o dom de me preencher, de satisfazer por si toda a necessidade de fruição estética de que careço.
O belo e o infinito juntam-se numa só imagem e oferecem-se, sem apuro mas com refinada elegância, ao meu olhar.
Se fosse crente diria que Deus escolheu esta parte do mundo para mostrar ao homem que, por mais que se esmere, não poderá competir com ele na criação da beleza.
“É um grande incêndio!” – Diz-me a Filipa, apontando uma enorme mancha de fumo branco que se eleva, gigantesca, no horizonte, sobre a floresta.
Viajamos em direcção a Livingstone, cidade situada na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabué, e a nenhum de nós ocorreu que a gigantesca nuvem mais não é que milhões de partículas de água lançadas a largas dezenas de metros de altura pela força da corrente das Cataratas Vitória. A nuvem que daí resulta é visivel a mais de 40km, distância a que nos encontramos da catarata.
“Sem dúvida os anjos reúnem-se nos céus para, das alturas, contemplarem tamanha beleza”. Escreve Livingstone quando aqui chega, em 1855. O viajante terá sido o primeiro europeu a contemplá-las e, comparando-as em majestade à soberana do império onde ‘o Sol nunca se punha’, baptizou-as com o nome de Vitória.
O que o missionário nunca disse foi que os Koloko ( tribo local) tinham crismado a catarata com um nome mais antigo e poderoso: ‘Mosi-oa-Tunya’ – o fumo que troveja.
Nem, impedido talvez pelo seu fervor cristão, falou do deus do Zambeze: Nyaminyami, o deus do rio.
Aqui, na África austral, diz-se sempre o nome do rio antecedido do adjectivo ‘poderoso’. E o poder do Zambeze é atordoante – o seu comprimento é praticamente igual à distância que separa Moscovo de Lisboa e a sua bacia ocupa uma região semelhante às áreas somadas de Portugal, Espanha, França, Suiça, Bélgica e Holanda.
Esta descomunal massa de água precipita-se, aqui, de uma altura de mais de cem metros dando forma e justificando o seu nome ancestral.
E quem governa o poderoso Zambeze é Nyaminyami, o senhor das águas.
Como o deus Nilo é ele que tem poder sobre os crocodilos, os hipopótamos, sobre as cheias, sobre as secas, sobre a vida e a morte. É um deus com forma de serpente que vive sob uma grande rocha no lago Kariba, a jusante daqui. Os Tonga (tribo do lago) dizem que a grande barragem que foi construída no rio – Cabora Bassa, em Moçambique – separou Nyaminyami de sua mulher. Desde então a ira do deus sente-se amíude e à noite as águas, contam-nos, correm vermelhas quando ele passa à procura da sua noiva.
A depressão que forma as cataratas começa na Zâmbia e termina, capricho da política, 1708 metros depois, já no Zimbabué.
Paramos em Livingstone, ainda na Zâmbia para ir buscar um passageiro: o nosso amigo e ex-patrão Brian Currie, o presidente da Trade Aid para quem trabalhámos na Tanzânia dirigindo as actividades dessa ONG.
Brian foi peremptório: “Não consigo convencê-los a ficar mais um ano a tomar conta do Boma, mas nem pensem que se livram de mim assim. As Vic Falls ficam na vossa rota, eu voo para lá, vocês apanham-me e passamos uns dias no Victoria Falls Hotel. Eu pago!”
A verdade é que Brian, não só nos pagou a estadia no hotel, como antes já tinha insistido em financiar parte da nossa viagem, desde a Tanzânia até Moçambique : “É o vosso bónus, mesmo assim acho que ainda vos devo dinheiro.”
Por isso à hora marcada do dia combinado reunimo-nos de novo com ele.
Não vinha só: trazia o novo administrador da TA a quem vinha mostrar África. Metemos os dois no jipe apesar da firme oposição de Ra.
Na fronteira com o Zimbabué Filipa eu e Ra passamos sem problemas. Já a Brian e a Neill, à laia de represália pelas difíceis relações que o reino Unido mantém com a antiga colónia desde o inicio da actual crise zimbabueana, exigem o dobro do dinheiro, e levantam todo o tipo de dificuldades
Brian tinha dito que o hotel era um local agradável. Esquecera-se de dizer que é um dos mais luxuosos hotéis da Africa austral.
Construído em 1904 Situado em frente às cataratas beneficia da mais extraordinária vista sobre elas.
Não é um local que escolhêssemos para passar a noite se fossemos nós a pagar: o quarto custa cerca de 500€.
Estamos no país de Mugabe, a dez quilómetros daqui não há electricidade, nem comida ou água e desde há meses que não há combustível.
No hotel existe uma bomba de combustível privativa, um lago artificial, a carne vem da Argentina, a pastelaria é francesa ( incluindo os pasteis de nata misturados com as ‘french delicatessen’) o vinho da África do Sul e da Europa, o champanhe e os queijos de França e o caviar do Irão. A clientela, predominantemente do norte da Europa e dos EUA, esquece durante uns tempo as agruras da política e partilha a requintada sala de jantar com ministros do governo de Mugabe. Todos são bem vindos, mesmo os britânicos.
E, milagres só possíveis às moedas fortes, Brian foi tão persuasivo na exibição dos seus cartões de crédito que convenceu o gerente a aceitar que Ra ficasse connosco no quarto. Foi a primeira vez que ele dormiu num tapete persa.
Estar de viagem com Brian é como se tivéssemos dez anos, andássemos com o nosso pai e fosse sempre Natal: ele paga tudo e está sempre a oferecer presentes. Além disso tem o hábito de distribuir notas expressivas a toda a gente que ele acha que precisa. Durante a sua curta estadia arranjou ainda forma de pagar a educação do filho de um empregado de uma das lojas do hotel.
No final, antes de partir, disse-nos que já tinha pago mais uma noite de hotel para que pudéssemos ficar sós.
É noite e a Lua está cheia.
O rio ruge quando se despenha no abismo e das águas ascende o fumo que, antes de se evolar nas alturas, qual farol guia os viajantes até à grande queda de água.
Adormeço no meio dos maiores confortos que o dinheiro pode comprar.
Nem sonho com a profunda miséria que me rodeia.
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O Homem toma conta do mundo? Nós, os humanos somos responsáveis pela criação? É verdade? Como? Tenho as dúvidas. E adensam-se a cada passo.
Mas o sol nasce. Ainda. E aqui nasce no lago. Malawi - o lago nascer do sol.
No início vivia apenas deus Mulling e os animais. Tudo vivia em paz. Um dia decide pescar no lago. No primeiro dia ele apanha uma boa pesca e come bem, no segundo dia ele não apanha mais nada na sua ratoeira senão um homem e uma mulher minúsculos. Ele liberta-os e deixa-os caminhar pela terra, eles crescem até terem o tamanho que tem hoje. Esfregam dois paus, um no outro, e fazem o fogo. O fogo cresce descontroladamente e devora a floresta ameaçando todos os animais. Depois matam um búfalo e cozinham-no.
Mulling está furioso com os humanos, todos os animais fugiram, mesmo a aranha sobe até a árvore mais alta e desaparece no céu, tece um fio longo e forte que lança para Mulling, o deus, ele foge da sua própria criação, os humanos quase destroem tudo.
Avançamos. E como sempre invento os caminhos, sei que não existem. Os caminhos secretos de África são os caminhos doces dos afectos. Não sei o que seguimos, nem sei se é um caminho os riachos que passamos, as pontes, os troncos, os caminhos entre as cabanas, pelo meio das cabras e sob os olhares das crianças. Avançamos pela vegetação luxuosamente verde, escandalosamente verde. De bananeiras, de coqueiros. Os macacos observam-nos das bermas das estradas, as crianças afastam-se, as mulheres param e controlam pelo canto do olho o jipe que avança.

Não sabemos o caminho mas seguimos o caminho. Procuramos o lago. E vemos no mapa o tamanho e, ainda hoje nos deixamos enganar pelos papéis desenhados a cores, pensamos nós que o lago se vê! De certeza se vê ao longe! Hum…. Nem sinal dele. Mas vê-se. No verde da vegetação, no vermelho da terra.
Aqui há água. Que cai do céu, que vem da terra. Estamos no território do lago, aqui é ele que reina.
Está sol. A luz reflecte de certo o lago, mas não o vemos, parece cada vez mais escondido.
No início o sol e a lua eram amigos e brilhavam ambos com a mesma intensidade. Um dia forma tomar banho no lago com as suas famílias e o sol sugeriu que ocupassem zonas diferentes do lago para que tivessem maior privacidade, combinam um sinal, quando a água estiver a ferver é sinal de que ele já tomou banho. Logo que a lua e a família se afastam ele arranca ramos de uma árvore, incendeia-os e atira-os para a água, a lua vê o vapor a sair da água entra na água. Quando a lua sai da água ela está bastante pálida e perdeu a maior parte do seu calor. O sol aparece de surpresa e ri da lua, porque ele está mais brilhante do que ela. A lua decide vingar-se.
Há uma grande seca na terra e a lua sugere que matem os seus filhos porque não é possível alimentar tantos seres. A lua combina que usem zonas diferentes do lago para terem privacidade, quando o sol vir sangue na água saberá que a lua já matou a família. A lua não o faz, o filho mais novo deita giz vermelho na água, quando o sol vê a água tingida ele mata todos os seus filhos. Agora ele vive de dia e brilha intensamente, mas a lua, pálida, brilha de noite, acompanhada por toda a sua família.
Aqui preparo-me para resistir às tentadoras águas, tem fama de ser letais.
Aqui, no vale Rift, o lugar que será poupado mesmo no dia em q o mundo acabar.
Aqui nesta parte do mundo viviam os pigmeus.
Caminhamos a superfície da terra e num encontro com um pigmeu pergunta ele:
- Quando é que pela primeira vez me viste? – e só existe uma resposta
– Lá muito ao longe! - Respondendo assim o pequeno ser correrá a saltar gritando
- Afinal sou grande! Afinal sou grande! - Se a esta recorrente pergunta responder a verdade
- Só agora te avistei - o pagamento será um apenas, uma seta impregnada de veneno, espetada no rabo.
As pequenas crianças apontam para nós:
- Tu, mzungo (branco) peni (caneta)?
Procuramos o lago lago, Niassa.
O lago que é Malawi e Niassa, que é Tanzânia e Moçambique. Para quê dar-lhe nomes e dividi-lo em fronteiras que se afundam. É O Lago.
Avançamos, avançamos, avançamos e finalmente conseguimos vê-lo… é imenso. Parece que chegámos ao mar! Cerca de 560k de cumprimento, 80km de largura, 700m de profundidade… uau!
Do meio do lago é impossível ver as margens, e pela cor, a ondulação, as correntes, é difícil não sentir que estamos à beira de um mar.
As águas estão infestadas de bilharzia mas… confesso que sei o quão refrescantes são… há perigos de este parasita entrar no nosso organismo mas poucas hipóteses de que seja invasão letal… eu nem hesito, comecei por molhar os pés e depois assumir o risco, mergulhando de cabeça! Hum….
Aqui há só uma hipótese para ficar, uma missão luterana. Estacionamos. Avançamos pelas escadas de cimento do edifício de telhado de zinco. E apesar das diferenças a memória viaja para os colégios da infância, o cheiro a cera, que aqui não existe, sobe-me ao nariz, e instintivamente baixo o tom de voz. O crucifixo na parede leva-me para os colégios onde estudei… religiosos da fé que não me assiste.
Anoiteceu já. O lago parece sinalizado por luzes de velas flutuantes, os pescadores aguardam a mordedura dos peixes, a luz é o isco, os peixes aproximam-se e são apanhados.
Aqui as lendas falam de monstros como cobras, que saem das águas e vão pelas aldeias devorando o sangue e os cérebros das suas vítimas.
Aqui vivem os crocodilos e os hipopótamos.
Contam a estória de um homem que vivia nas margens do lago e pedia a deus por sorte e fortuna, um dia saiu das águas uma mulher feia com um só olho e o homem desposou-a. De imediato enriqueceu. O homem recebeu muito gado e a fortuna foi aumentando cada dia, um dia numa fúria o homem cansou-se da sua esposa e bateu-lhe dizendo que por ser um homem rico e poderoso já não precisava de uma mulher tão feia. A mulher voltou as costas para ele e começou a avançar para as águas e para espanto do homem cada uma das suas vacas e cabras a seguiu, afogando-se nas águas do lago.
Nas margens do lago senta-se uma pedra q todos acreditam ser sagrada e misteriosa, um ser que de noite se levanta e vai às águas beber.
No lago acreditam viver ainda as almas dos pigmeus dizimados pelos Bantu, fumos que ao longe sobem para os céus.
O lago nasceu da mãe terra. Nasceu para a Tanzânia, para o Malawi, para Moçambique, para nós. Cuidamos dele?
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Isto em terceira não vai lá.
Meto a segunda, acelero. O jeep engasga-se, pára.
Silêncio atordoante. Ra suspira.
A Filipa arrisca – ‘apareceu uma luz aí – aponta o painel de instrumentos - que dizia correia de transmissão’.
Calafrio. Se for a correia estamos perdidos.
Onde é que estamos? Não sei bem. Há três dias deixámos o Indico para trás, depois penetrámos cerca de 800Km numa região de densa floresta, por trilhos enlameados. Hoje de manhã começámos a subir estas montanhas, as montanhas Livingstone. Sei pelo estudo do mapa que têm cerca de 25OKm de extensão e que sobem até aos 2.500 metros. O trilho que as cruza é incrivelmente empinado e o jeep está de novo carregado com tudo o que temos.
Se for a correia a oficina mais próxima onde se poderá reparar o estrago está a quase mil quilómetros e muitos dias de viagem.
Saímos – barulho de macacos, gargalhadas de hienas, ao longe o bramido de um búfalo, o chão está cheio de dejectos de elefantes - tudo normal portanto.
Abro a tampa do motor, a bomba de diesel está cheia de água! Os tanzanianos têm o hábito de misturar água no combustível e o resultado é este; a água o jeep não anda!
Nada de grave portanto, há só que tirar a água e seguir.
Passadas as montanhas vemos o nosso destino, o lago Niassa e o Malawi.
O Malawi é forçosamente o país do lago. Pequeno, bem organizado - com estradas, campos cultivados, escolas, pequenas cidades. Contrasta fortemente com a desorganizada Tanzânia. O lago ocupa quase um terço do território nacional.
É o primeiro grande lago que encontramos em África. De lago, tal como o entendemos na
Europa, tem muito pouco.
É maior do que a Bélgica e tem marés. O seu comprimento é equivalente à distância que separa Lisboa de Madrid.
Os seus habitantes originais foram pigmeus chamados Aka Fula (os cavadores do solo). Há cerca de 1000 anos foram dizimados, caçados até à extinção, pelas tribos Bantu de quem descendem os actuais ocupantes.
Diz-se que as almas dos pigmeus vivem no lago e podem ser vistas ao amanhecer bruxuleando entre as ilhas.
Como tantas coisas em África fomos nós, os portugueses, os primeiros europeus a chegar a este lago.
O nome Niassa não é mais, aliás, do que a palavra Nianga – tribo que habita na margem moçambicana – para lago; Nianga, por seu turno, significa habitante do lago. Só aqui, no Malawi, chamam ao lago ‘Sol nascente’, o que em Chichewa, língua local, se diz Malawi.
No entanto, e apesar de já em 1616 Gaspar Bocarro descrever a região a sul daqui e falar do ‘lago que parece um mar’, Livingstone, em 1859, anuncia à Europa a sua descoberta e solenemente baptiza-o com o nome de...lago.
Recordo-me das palavras de mestre Luís de Albuquerque:
-’Não foi nada o Livingstone! O capitão Cândido da Costa Cardoso tinha lá estado treze anos antes do escocês pernalta lá chegar. O que o Livingstone fez foi aportar em Quelimane, seguir por Moçambique dentro e quando encontrou o Cardoso disse-lhe – Dr. Cardoso, eu presumo – e depois perguntou-lhe o caminho para o lago. Ora o Cardoso disse para ele ir andado e perguntar - Niassa? Niassa?(lago? lago?) E foi assim que ele lá chegou.
Se o senhor passasse mais tempo na Sociedade de Geografia e menos tardes a olhar para as moças também sabia isto e eu não perdia tempo a ensiná-lo!’ E depois discorria durante horas sobre esta região que ele conhecia das páginas dos exploradores portugueses.
São as suas palavras feitas vida que eu contemplo agora.
Na região moçambicana do Niassa o ano de 1868 ficou lembrado, entre a tribo Nianga e os colonos portugueses, como o ano do ‘vapori’. Nesse ano Livingstone, na sua última viagem, subiu o Zambeze, de barco a vapor a caminho do lago, coisa nunca vista em África.
É impossível convencer os súbditos de sua majestade britânica – e boa parte do mundo - da primazia portuguesa. Livingstone foi mártir além de explorador, isso e as reportagens de Stanley asseguram a perpetuação do mito.
O célebre encontro entre os dois homens resume em si o romantismo com que a civilização ocidental sempre olhou a África
A beleza e a paz que rodeiam a margem do lago atraíram gerações de missionários que, seguindo o exemplo de Livingstone e persuadidos pelos seus apelos à evangelização do interior de África se instalaram aqui para cristianizarem os povos, disputando as almas ao islamismo. A margem norte, onde nos encontramos agora, é tradicionalmente anglicana e a sul, que fica em Moçambique, católica.
É justamente a missão anglicana que procuramos agora, entre o mato cerrado das margens. É aqui o único alojamento possível na região. Encontramo-la e por 12€ temos direito a uma cama.
Agora, de manhã, contemplando o lago, interrogo-me que desígnio misterioso, que sórdida ironia, leva a natureza a misturar com a mais deslumbrante beleza os mais temidos horrores?
A paz que imana das águas, a quietude que emoldura as montanhas, ocultam algumas das mais mortíferas pragas que, ao longo dos séculos, martirizaram as populações em África.
Aqui nas águas quentes deste lago vive o parasita da bilhárzia, um verme que uma vez alojado no ser humano se reproduz aos milhares, infectando o sangue e fazendo o fígado inchar. Um parasita que transforma o seu hospedeiro num morto vivo sem vontade nem energia; em alguém cuja única função passa a ser alimentar os vermes e servir-lhes de incubadora.
Aqui também prolifera um tipo particular de malária, conhecida como malária cerebral. Após a picada a morte sobrevém em menos de 48 horas.
Dizem os antigos que as doenças não são mais do que uma velha maldição lançada pelos pigmeus aos seus algozes.
Na biblioteca da missão encontro um velho livro, nele está registado um relatório, produzido em Edimburgo, por um inspector que veio visitar esta missão em 1877.
Na frieza analítica e desprovida de romantismo está sintetizada a dureza do local:
- ‘Prejuízos – A morte de 22 escoceses, 12 cavalos e outro gado diverso. Despesas de 20.00 libras ao longo dos últimos cinco anos.
Resultados – Um africano convertido e uma missão abandonada”.
África!
-
Estou de partida. Aqui conheci os paraísos, abri os olhos para as imagens de contrastes e choques, e aceito-as já sem pestanejar, descobri as doçuras dos sabores da natureza, mesmo os mais acre, e consigo apreciá-los, intimidou-me a intensidade dos olhares mais selvagens e agora desejo-os.

É quase natal, sou supersticiosa e para mim a época dos nascimentos é sempre momento de mudança, altura de metamorfoses.
Vivemos aqui, há 11meses vivemos. Para muitos é loucura seguir um caminho indefinido quando na cama há lençóis limpos e na mesa comida acabada de fazer. Quando nos rostos há familiaridade, com as comunidades comunicação, com os superiores entendimento e com os colegas paz. Quando não se colocam as questões do conforto, da segurança, dos valores financeiros ou morais.
Mas para mim não é assim. Quero partir. Cheguei aqui para ficar uma noite, passaram-se tantas... quero marcar novos caminhos e criar o passo à medida do meu pé.
Neste lugar aprendi. Sobre as diferenças, sobre o relativismo, sobre o poder dos contextos.

Diz a sabedoria deste povo: Achekaye kovu hajaona jeraha - não julgues alguém sem compreenderes profundamente a raiz das suas acções.
Há algumas semanas veio trabalhar para o Boma uma nova contabilista, Kate, e dois dias depois de chegar saiu sozinha para a noite, que aqui é sempre escura, e foi atacada por um homem que lhe queria roubar a mala, ela resistiu, o tipo esfaqueou-a, ela gritou, ele fugiu.
Acontece em todo o lado mas aqui o que me intrigou foi o facto de o atacante trabalhar como segurança para um edifício do governo e a ter atacado na rua de terra vermelha, entre o seu emprego e a sua casa...
A confusão acorda-me, Kate tem vários golpes superficiais - perto dos olhos, no pescoço, no peito... - e um mais profundo no braço.
Seguimos para a polícia, tomam conta da ocorrência mas não podem prender o suspeito porque ele está a guardar um edifício do governo, quando acabar o seu turno, de manhã, será detido… hum… é uma perspectiva.
Seguimos para Mtwara e estacionamos frente a três casas de alvenaria e chão de terra batida, o hospital local. Telmo pede um médico enquanto eu limpo o sangue que escorre dos golpes na pele branquíssima da voluntária assustada e chorosa. Os golpes são feios mas eu sorrio. Seguimos para uma sala, a entrada está tapada por uma cortina de tecido escuro, sujíssimo, há duas marquesas de napa castanha, um balcão com alguns baldes e utensílios. Um jovem com uma bata vagamente branca escrevinha num papel como os médicos costumam fazer. Felizmente não sou eu que vou ser cozida porque a Kate vinha do bar mas eu estou sóbria o suficiente para pensar nos desinfectantes, nas agulhas, na SIDA… uma mulher velha, de bata cor de laranja vem saudar e um homem que não entendo quem é vem ver de perto e fazer-me perguntas em swahili. O médico mexe gazes num balde de metal.
Kate olha para mim fixamente, os olhos chorosos e verdes, de esperança. Eu sorrio. Não sei o que dizer, quero distraí-la e por razões misteriosas começo a dizer algum texto do Hamlet, ela é escocesa, tento o reconforto da identificação cultural. Olho fixamente o médico à espera do momento da agulha, que se for tirada de um daqueles recipientes de metal me vai obrigar a cancelar toda a operação. Suspiro, há uma agulha com linha dentro de um plástico, tudo devidamente desinfectado e selado. Seguem-se cinco dolorosos pontos que eu observo entre as tiradas da Ofélia.
Voltamos para casa e o atacante está lá, no seu posto de trabalho! Que fazer? Bom se a polícia não nos assiste inventemos:
- Askari! – grita o Telmo chamando um dos nossos seguranças – vigia-o!
Ao amanhecer asseguram-nos que o suspeito está na esquadra, e pelas 10 vamos até lá para formalizar a queixa. Somos levados ao comandante da polícia:

- Poly sana (lamento muito o que aconteceu) estivemos no local às oito horas mas não encontrámos o suspeito, estamos em investigações e de certeza não demorará muitos dias... – aqui Telmo quase salta da cadeira:
- COMO??!! NÓS GUARDÁMOS O SUSPEITO TODA A NOITE PORQUE SE RECUSARAM A IR PRENDÊ-LO ONTEM, E NOS GARANTIRAM QUE LÁ IAM ÁS 6 DA MANHÃ E AGORA NÃO O ENCONTRAM??!! – o comandante da polícia pede um minuto para "averiguar", tendo em conta o tamanho da esquadra é certo que não precisará de mais do que isso. Regressa e confirma, o suspeito está detido mas ele não sabia…
- Mas vocês foram lá buscá-lo!
- Não, nós aqui na polícia não temos viatura, foi o vosso segurança que o trouxe a pé até aqui. E já que falamos nisso, é possível ter a vossa boleia para o levarmos amanhã para o julgamento?
Regresso a casa, e confesso que um pouco confundida. No regresso dizem-me que foi sorte.
- Sorte?
- Sim, sorte dele que é aqui da terra, senão teria sido queimado vivo e ponto final.
Aqui não entendo, mas não julgo.
Aqui encontrei os paraísos. A aldeia, o vale, a baía, a praia deserta Msimbati.
E como é habitual na nossa mente o paraíso é coisa única, e exclusiva. Msimbati é um paraíso desses, cinematográficos. Onde nos imaginamos a amar, a dormir, a espreguiçar o corpo, entregues às delícias, a viver.
Msimbati é uma praia a 50km da nossa casa. Hoje é parte de uma reserva de vida marinha. É um areal extenso, claro, limpo, com uma baía de Índico, redonda, morna, límpida. Aqui quase ninguém vem. Msimbati é tal paraíso que em tempos Leslie-Moore o quis transformar em sultanato, só seu. Escreveu ao governo tanzaniano a pedir que o presidente Julius Nyerere reconhecesse a sua independência, com sentido de humor Julius respondeu que não poderia fazê-lo mas que os oficiais do governo não visitariam aquele território sem a sua permissão. Leslie-Moore viveu satisfeito no seu sultanato/ sonho sem nunca ser incomodado até, por motivos de doença, ser deportado para a Inglaterra onde morreu.
Aqui não tomo para mim, mas desejo.
Akili ni nywele, kila mtu ana zake - A inteligência é como cabelo, cada um tem o seu tipo.
Dizem-me que no norte da Tanzânia há uma cascata especial, onde a água só cai em algumas e especiais alturas do ano, em que se pode entrar por detrás da queda de água e ficar a acompanhar cada gota na sua queda, gorda, pesada, transparente. Não sei onde fica, mas avanço, para a encontrar não seguimos estradas nem placas, mas repetimos o nome do lugar:
- Koporogwe. - as crianças ouvem-me, correm, e em gestos e gritos correm à minha frente, com o entusiasmo de quem brinca e o suspense de quem guarda um segredo. Sigo-as. Por entre os milheirais, entre a terras e as ervas, subindo as pontes feitas de troncos, atravessando os riachos, até a ver, a koporogwe. As imagens falam por si, porque é difícil descrever a sensação de privilégio, de magia partilhada… as crianças exibem o lugar como algo só delas, assim mesmo, único.
Aqui não sei, mas respeito.
Aqui vivo a magia, e é difícil abandonar os lugares assim, mas siku ya kufa nyani miti yote huteleza, no dia em que está destinado que o macaco caia todas as árvores se tornam escorregadias.
Aqui é dia de partir. Parto.
-
‘Se não sabes onde estás, é porque já chegaste.’
Dizem as histórias perdidas que assim eram acolhidos os navegantes árabes que, atraiçoados pelos ventos do Índico, desapareciam mar dentro e aportavam a Ungunja–palavra suaíli para cesto.
O cesto é uma ilha bem localizada - costa oriental africana, na rota marítima que leva à Índia e, querendo os ventos, a poucas semanas de viagem da Península Árabica.
Quente sem ser abrasadora, povoada por gentes dóceis e pouco ilustradas nas artes da guerra, de terras férteis e de mares generosos; os visitantes árabes rapidamente se tornaram seus senhores e governantes.
Aqui ergueram a primeira mesquita do hemisfério Sul.
O cesto de gentes reiventou-se como cesto de especiarias e foi rebaptizado pelos novos senhores: - Zanj-bar, a costa dos zanj, dos negros.
Utilizaram os suaílis - habitantes da costa - na missão que os tornou tristemente afamados em África: caçadores de homens. Africanos que penetrando no interior de África caçavam outros, para depois os venderem aos Árabes.
Em Zanzibar os odores da pimenta misturaram-se rapidamente com o fedor do medo.
O cesto encheu-se e transbordou.
Foi repleto de promessas de riquezas exóticas que nós, os portugueses, o viemos encontrar no século XV e, derrotando e escorraçando os antigos senhores, o reclamámos para o Reino no século seguinte.
Aos suaílis demos o mesmo emprego que os Árabes haviam oferecido e por duzentos anos chamámos nossa a esta terra.
A ilha das especiarias transformou-se em porto de abrigo para os marinheiros dos Alentejos, das Beiras e dos Algarves de aquém mar. Por aqui passavam as porcelanas da China, os novos sabores que espantavam Lisboa e, a partir da capital, conquistavam a Europa.
Aqui ancorou muito do antigo esplendor Luso, fermentaram muitas das histórias sobre o Oriente que estimulavam a imaginação e espicaçavam a curiosidade da intelectualidade ocidental.
No final do século XVII perdemo-la para os antigos ocupantes.
Hoje viemos visitá-la.
Brian fez-me um ultimato: “Há meses que não saem do Boma, vão passear, divertir-se, mudem de ares. É uma ordem. Eu pago!”
Ora sabendo nós que Brian é um ex-militar achámos prudente não discutir as ordens e viemos.
Zanzibar, sendo uma ilha, estava-nos vedada: é preciso voar para lá e não havia possibilidade de levar o Ra. Agora podíamos deixá-lo em segurança no Boma.
Foi a primeira vez em milhares de quilómetros que viajámos sem ele, que o deixámos só, que quebrámos a nossa aliança, deixando para trás o nosso companheiro.
Não foi fácil. É triste não ouvir a respiração dele debaixo da cama durante a noite, não receber as suas carícias ao despertar.
Creio que nunca nos perdoou.
Foi também a primeira vez que viajámos de avião, em que não éramos senhores do nosso próprio transporte, em que outro decidia a rota e os tempos de partida.
Sinto-me um pouco turista e menos viajante.
Zanzibar é, no imaginário europeu, sinónimo de destino exótico, de encantamento, de ilha paradisíaca, de mil e uma noites de cálida sensualidade. Um entreposto de promessas
Aqui se abasteciam e daqui partiram, durante a segunda metade do século XIX, as românticas expedições africanas, que rasgaram o interior de África à curiosidade Europeia.
Aqui Livingstone planeou, se abasteceu e recrutou homens para a sua última viagem.
Por aqui Henry Stanley procurou, debalde, por ele. Daqui saiu no seu encalce.
Na realidade é um cesto. Uma espécie de alcofa onde a história foi depositando, em camadas que se sobrepõem e por vezes se anulam, as marcas das civilizações que passaram por esta ilha.
Para quem, como nós, vem da floresta, a primeira surpresa é a abundância. De repente, efeito nefasto das viagens aéreas, passamos de um local onde para se comprar pasta de dentes é preciso negociar com um comerciante indiano e aguardar cerca de duas semanas pela sua chegada, para –sem sair do mesmo país – um outro em que se anunciam e vendem Ipods e se alardeiam as vantagens da tecnologia 3G para os telemóveis.
É uma espécie de viagem no tempo. Dou por mim a olhar embasbacado para montras onde se exibem aqueles produtos que o turista já conhece da sua cidade e cuja presença aqui, no meio do Indico e a meio de África, sem dúvida o tranquilizará.
É a glorificação despropositada da globalização. Mas quem é que quererá vir encontrar em Zanzibar o que tem ao fundo da rua onde vive?
Toda a gente! Se avalio bem a forma como os turistas discutem os artigos e comparam preços.
Das esplanadas, das lojas, sobe música. Não é árabe nem indiana é...
o Freddie Mercury!
Muito mais popular que Livingstone. Há mesmo um cartaz que oferece uma excursão aos seus locais preferidos na ilha.
Os bares da ‘cidade de pedra’ estão cheios de gente a beber cerveja e a seguir atenta e ruidosamente um qualquer jogo. Nos tectos bandeiras de clubes de futebol europeus e a promessa :
-We have English beer!
E não é sem estupefacção que dou por nós a jantar num improvável Sushi bar...
Durante o dia andam todos apressadamente a tirar fotos nos locais indicados pelo turismo local. Afogueados parecem ter um único desejo: sair o mais depressa possível do Sol, voltar ao ar condicionado e à cerveja gelada.
O que até é legitimo e nada tem de censurável. Mas não é o que esperava encontrar aqui.
Zanzibar é um frágil grão de pimenta molhada, sem odor e incapaz de condimentar.
Salvam-se alguns recantos da cidade velha, um velho templo Hindu que descobrimos num beco e salva-me tropeçar em vestígios da presença portuguesa – na toponímia, na arquitectura, na base da velha fortaleza Omíada erguida após expulsão das nossas tropas e, a cereja no bolo, dois velhos canhões que engalanam a entrada da ‘Casa das maravilhas’, espécie de museu municipal. Duas velhas peças de artilharia do século XVII, principal atracção do local, nas quais é ainda possível descobrir o escudo nacional.
Antes de partir, numa recôndita loja da cidade, encontro uma velha bússola. Não funciona, atrás tem gravado o poema de Frost – A estrada que não tomei.
Compro-a para não me enganar na minha estrada.
-
A fantasia ilumina os dias. Sonha.
Para Brian há uma filosofia por detrás deste hotel, que deve ser da experiência de se ser convidado e não hóspede. E, pelo menos nos sonhos do Brian, somos agora o governador e esposa de governador, esta é a nossa casa.
Como primeiro teste aos nossos talentos para o cargo recebemos Roy e Sue Butler. Roy foi coronel do exército, serviu no teatro de guerra durante a II Grande Mundial e depois no extremo Oriente. No final dos anos 50 foi o oficial de liesion às ordens do Governador britânico e esteve alocado aqui, na Tanzânia.
O sonho da Sue sempre foi ser actriz, o Roy está mais interessado na estória da nossa viagem, e Telmo, deslumbrado com as estórias da guerra, vai lançando frases de Churchill. A Sue acompanha tudo com verdadeiro entusiasmo, e sempre que falo de um personagem ou conto um momento difícil ela exclama “well done” o que me faz sentir como se estivesse num jogo de computador.
Viveram aqui sete anos, tiveram um leopardo como animal de estimação, o filho mais velho nasceu no hospital de Lindi, têm mil estórias sobre esses tempos, porque “nessa altura não era assim como agora!”
Brian sugere um safari (viagem) até ao planalto Rondo - um vizinho, em tamanho e beleza - do planalto Makonde, que promete boas vistas e uma viagem agradável e calma. Eu já conheço este lugar o suficiente para saber que aqui toda a frase que contenha a palavra safari tem sempre muitos e exclamativos “njema!”, que corra bem! Aqui respeitam os viajantes, onde não há estradas viajar é perigoso.
O plano é entregar uma encomenda ao padre missionário conhecido do Brian, deslumbrarmo-nos com a paisagem, e voltar.
E esta parte de ir lá para ver uma paisagem, admito que possa intrigar muitos.
A pergunta é boa, porque é que nós, os que viajamos, nos deslocamos para longe, despendendo tempo, dinheiro, às vezes mesmo correndo riscos, para ver uma paisagem? Até para mim é um mistério. Não é um mistério quando vou, nem quando estou lá, ou mesmo quando regresso, e nem agora, quando penso nisso. Não entendo a razão porque isto das viagens não se entende, sente-se.
Seguimos pela estrada rachada pela força da água, e seguimos comunicando, não há placas que nos indiquem o caminho, ouvimos apenas as direcções “it’s ok, you can go”. Mas não é verdade, a lama prende as rodas, e os locais vão dando as indicações de especialista, “go, wait” – no chão põem um ramo de coqueiro, daqueles fortes, duros, difíceis de partir e mesmo de carregar, e depois trazem outro. E finalmente, depois de discutido o preço, oferecem-se para empurrar. Mais 10minutos e estamos prontos. Seguimos caminho, aos solavancos, e pelo caminho vou descobrindo que, como muitas vezes acontece, a viagem para agradar as visitas parece que agrada mais os anfitriões. Sue louva deus a cada solavanco e vai temendo pelo nosso jipe, que se pode estragar. Roy está entusiasmado e responde a cada “Oh, my god!” – com – “they have crossed the Sahaara, this is nothing!”
Seguimos caminho, o mato é muito, a estrada difícil. Os homens vão sentados nos bancos da frente. Eu e Sue atrás, paramos por um momento e eu vejo no tecto por cima da janela de Roy uma gigantesca aranha de patas castanhas e corpo avermelhado, peluda. Eu não mato animais e nestas situações sou pelas soluções holísticas, peço ao Roy para sair do jipe, a sua mobilidade é difícil e o meu pedido soa a abuso. Telmo olha-me com censura, mas porque não sabe, nele a mobilidade não é um problema, mas a fobia de aranhas é-o de certeza! Bom, como ambos resistem, sou obrigada a denunciar a situação. E aí ambos saltam para fora do jipe com a agilidade de crianças. Na mesma repentina jovialidade a Sue grita. Eu olho a aranha, o corpo é grande e gordo, as patas são longas e grossas, estava antes encolhida, agora vejo que é maior que uma mão aberta. Eu fixo-a, ela fixa-me, calculo as distâncias e os gestos. Não penso em apanhá-la, sequer tocar-lhe, parece-me perigoso e inútil. Não quero fazer-lhe mal, nem assustá-la, e não fosse o nível de veneno que as aranhas têm habitualmente por aqui por mim poderia viver no jipe. Mas os convidados parecem ter opinião diferente e fui - por instinto de grupo, estratégia individual, ou vice-versa - promovida a gestora deste conflito. Eu não sei bem que fazer, quero que ela saia do jipe e tento dizer-lho com o olhar, mas preciso de lhe dar uma saída. Hum… avanço para o control de comandos do jipe, giro a chave e carrego no botão que abre o tecto, não preciso de fazer mais nada, enquanto me afasto do comando, quase no mesmo ritmo e na mesma direcção a aranha avança, por alguns segundos parece que avança para mim, e para Sue, que solta mais um grito, eu olho ainda a aranha que avança para a abertura, hesita por uns momentos, em comunicações insondáveis e sai, desaparece. Eu sorrio. Sue recupera a respiração exclamando “well done!”.
Seguimos pela estrada, mas cada vez é mais estranho o uso desta palavra, a estrada não existe. É cada vez mais difícil avançar mas o Roy vai dizendo “we have done worst” a verdade é que a afirmação me dá força, a coragem é algo contagioso, e eu repito o incentivo, “vamos, já fizemos pior!!”
No topo do planalto deixamos a encomenda com um intermediário, e a paisagem para outro dia, choveu muito a vegetação impede a visão.
No caminho de regresso a estrada é ainda menos… estrada. A terra está partida e há enormes desníveis, à nossa frente uma camião está parado e fora dele seis homens com pás tentam alisar o terreno. Re-equacionamos caminhos quando Roy avança com a sua máxima de que já fizemos pior mas eu já duvido de quem fala quando diz “nós”, e começo a desconfiar que se refere à guerra.
Finalmente regressamos ao hotel, empoeirados e cansados eu avanço à frente e vou adiantando aos que perguntam como correu que… “bom, já fizemos pior!”, Roy vem atrás de mim e diz em voz bem alta, enquanto pede uma garrafa de cerveja Safari:
- My God! Worst road I had ever seen!!
Coragem é audácia. Arrisca.
-
É difícil não nos encantarmos com África. Aqui as pessoas são afáveis, a temperatura é abençoada. Dia e noite, Inverno ou Verão, oscila entre os 28º e os 31º C – e por aí se fica. Estamos a escassos 40 km de Moçambique e não é invulgar sermos saudados com um reconfortante «Bom dia», em português.
Em Mikindani, para o europeu, a vida parece doce, fácil e encantatória
A paisagem é deslumbrante. Flores crescem misteriosamente de um dia para o outro, regalando-nos com madrugadas de cores novas: vermelhos vivos, púrpuras, amarelos e laranjas tão surpreendentes e inesperados que, às vezes, acredito que Kuchelli (o pintor tingatinga local) entretém as suas noites pintando a flora, reinventando-a com cada Lua nova.

A estrada trouxe-nos aqui e por aqui nos demoramos há já vários meses.
É fascinante a prodigalidade da natureza neste canto de África.
Suaves e arborizadas colinas emolduram uma perfeita baía onde o Índico repousa. O mar alimenta a aldeia e as suas criaturas: ele e a terra são as únicas fontes de sustento.
Mal se adivinham as primeiras carícias do Sol e já a aldeia desperta – para depois, noite começada, voltar a adormecer embalada pelas ondas.
A cultura suaíli não tem horas para o tempo que decorre entre o pôr e o nascer do Sol. Não há electricidade e poucas são as razões que levarão alguém a desafiar a negra noite. As condições de vida são porventura inaceitáveis para a maior parte dos europeus como nós, mas é um idílio deambular pelo mato usufruindo do simples prazer de mergulhar em verdíssimas e mornas paisagens.
Subindo ao topo da colina onde habitamos, vislumbramos um enorme vale. Vasto, estende-se até aos limites do nosso olhar, todo ele recheado de vida. Cuida generosamente e sem discriminações de toda a Criação.

Embondeiros – os reis da flora que já eram vetustos quando Cristo passeava entre as oliveiras – guardam fresca memória de um jovem que ‘recentemente’ por aqui andou, apressado, procurando água e víveres para poder continuar a viagem.
Lembram-se que lhe chamavam Vasco da Gama.
Dizem-nos que outros de igual linguajar trouxeram aquela árvore miudita e estrangeira que está agora convencida de que é a rainha do vale: a petulante mangueira que, com seus frutos, adoça os palatos das gentes, dos macacos e dos morcegos. Uma vergonha, acham os solenes embondeiros.
Foram também os mesmos forasteiros que aqui deixaram as enfezadas maçarocas que lhes arranham irritantemente as raízes.
B ananeiras, coqueiros altos como pináculos, cajueiras que servem de recreio às dezenas de espécies de ladinos e barulhentos macacos, milhares de palmeiras que reflectem em suas folhas o dourado ocaso.

Caminhamos no vale e encontramo-lo fantasticamente almofadado por milhões de folhas que descobrem o seu caminho para a mãe Terra em eterno ciclo de renovação da vida. Cânticos de camuflados pássaros entoam odes à beleza do local em pacífica competição com os estridentes macacos e os discretos esquilos. Lagartos do tamanho de pequenos cães e curiosos como cachorros espreitam-nos por entre a erva para desaparecerem apressados no denso mato. As histórias que se partilham à volta da fogueira falam de velhos leões solitários que escolhem o vale para o seu último repouso.
E se é certo que neste paraíso não há maçãs, em contrapartida proliferam venenosas serpentes de todo o tipo, gigantescas mambas que apimentam os passeios e estimulam o ritmo cardíaco.
Aqui e além pequenas cabanas de lama e colmo, quase invisíveis entre a vegetação, albergam precariamente famílias que têm o vale como morada e o tomam pelo mundo todo. Pelos carreiros que o cortam desfilam, ao fim do dia, coloridos cortejos de mulheres e crianças, que se apressam no regresso à sua cabana. Vão acender o fogo e repartir os frutos.
N uma destas pequenas habitações vive Bimku- bwa. A menina tem, adivinha a mãe, talvez seis, talvez sete anos, é pequenina e viva. Este Novembro o seu jogo preferido foi apedrejar as mangueiras para se poder deliciar com as mangas que delas caem.
Vive com Mtipa, o pai, que é professor lá em Mikindani e com a mãe, Mwanamisi, que todos os dias percorre o vale em busca da vida. O vale alimenta-os, fornece-lhes a lama, a madeira e as folhas das suas árvores para construírem abrigos; dá-lhes combustível para o fogo; inspira-lhes as histórias com que entretêm as longas e cálidas noites.
Naquela manhã, Mtipa diz à sua mulher para não cansar a menina nem a levar para o campo consigo, pois ela parece cansada, talvez esteja doente.
Mwanamisi ouve mas não dá importância, a carne das crianças deve enrijecer e suportar as fadigas e as doenças para poder florir. Assim aprendeu das avós e assim ensina aos filhos. Os homens, todas as mulheres o sabem, são fracos e não suportam a dor e o sofrimento, como uma mulher aprende e sabe. Depois de Mtipa abalar, sai com a pequena para o campo e por aí se demora e se afadiga o dia todo, falando com as árvores e com as plantas, pedindo-lhes que a ajudem a viver.
Q UANDO o Sol começa enfim a ocasar, coloca o seu dia de trabalho em impossível equilíbrio sobre a cabeça e inicia a longa caminhada de regresso à sua pequena cabana.
B imkubwa atrasa-se. Que se sente mal, protesta, que não tem forças, que lhe pesa a cabeça e lhe adormecem os olhos, quer descansar.
– Não! – nega-lhe a mãe – Se ficas, deixo-te só.
E assim fez, assim sabia fazer.
Tarde já entrada, a menina fica sozinha no caminho do mato e a primeira sombra da noite ali a encontra.
Chegado a casa, o pai pergunta pela filha:
– Ficou lá no mato, não quis vir.
– Onde a deixaste? – insiste ele, alarmado.
– Lá! – exclama ela, apontando o negrume que os rodeia.
Ele sai a correr e refaz o caminho. Encontra a filha não muito longe de casa.
Está morta.
No dia seguinte enterram a sua flor entre as sementes que prometem novas vidas ao vale. O pai rega com as suas lágrimas toda a terra, a mulher-mãe parece estar ausente, cala e oculta a dor.
Para Bimkubwa o vale nunca chegou a ser doce.

-
Mulheres.
Hoje é dia de festa, e não sei porquê o elogio é… feminino.
Aqui, entre os swahilis, misturam-se no sangue as influências de África, da Ásia, da antiga Pérsia, da Índia, das arábias.
E eu não sabia, mas sonhava com este lugar. Com o caril e as especiarias, com os véus e os brilhantes, com o calor e a humidade, com o cheiro acre e doce dos corpos que dançam os sons graves dos tambores, com os odores do peixe seco e do incenso. Com o sal das águas calmas, sem ondas, onde se pode adormecer, com o toque da areia quente, com a chuva morna, com as mangas doces…
Vivo numa colina, em frente a mim uma baía.
Aqui, na beira da água, uma mulher fala, está de pé, da Índia sopra o vento, tão quente que não traz nem alívio à humidade do ar.
Aqui acreditam nos poderes. Nos objectos sagrados, nos lugares santos, nos rituais. Nos jinn, nos anjos, nos espíritos bons e nos maus, nos antepassados, na magia, no mau-olhado. Acreditam em baraka, a bênção, a sorte. Nas palavras sagradas do Corão, da bíblia, das frases amuleto dos antigos. Acreditam na energia negativa da inveja, apenas ultrapassada pela força das boas acções, dos pensamentos bons, da solidariedade, da vida sã. Por acção das orações, dos rituais a Mungu, o grande deus.
A mulher está frente a água e deixa passar por ela os espíritos. Procuram-na os possessivos mashetani, pepo e os ancestrais koma e mizimu. Chamam-na e fazem os pedidos do mal, e estes ficam, em desejos negros. Ela só tem um caminho, o da água, e avança. Alheia às necessidades dos pulmões e do oxigénio, dos seres e dos seus elementos, ela avança, até desaparecer. Não se afoga, entra no elemento e voltará.
Estou aqui, nesta baía, a lua está cheia, de perfeita prata, a água sem um movimento, eu estou em contacto com os afectos do além, ao telefone com Portugal, e a noite sabe a… perfeita. Vesti um vestido de secreto significado e vim para a baía celebrar. Celebrar a paz entre os anciãos da sabedoria e das religiões desta terra. Celebrar a nossa chegada a este lugar, os nossos castigos, a recusa da nossa presença, as hostilidades e a hospitalidade, tudo misturado.
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Celebrar…
Aqui fazem-se os sadaka, sacrifícios, e as celebrações em memória dos antepassados, amados e temidos. E no mzimu, lugar de características especiais, fazem-se os sacrifícios.
Hoje matámos quinze galinhas e uma cabra e partilhamos bebidas e um prato de comida com todos os convidados.
Mas como nos rituais religiosos que fazemos distraidamente, desconhecendo neles as origens e os significados, espiamos as falhas, mas nunca todas.
Ofereço, mas não sei as orações ou para onde dirigir a mente, o olhar interior.
Diz-se que quando um espírito possui uma pessoa, deve um mganga, um mwalimu, a direccionar a oferenda, o sacrifício, o gesto – mas eu não reconheço os sinais, sigo neófita das regras, mas sigo. Com os caminhos cruzados pelas influências, tão coloridas como as que assistem este povo, sigo em partilhas.
À mais velha do grupo ofereço, duas vezes. E recebo em troca os convites para sua casa, que não honro…
Não conheço uganga, a magia branca, nem a distinguiria de uchawi, a magia negra. Não creio nem temo as bruxas que provocam as doenças ou as transformações em animais.
Não sei as palavras que se escrevem, nem que tinta especial se usa, como se toma a água que lava as letras, para que serve o remédio, não sei.
Não sei da bênção que acompanha o nome da que me serve o pequeno-almoço todos os dias, Mwanajuma, nascida na sorte de uma sexta-feira.
Não sei das cerimónias dos recém-nascidos, de como a mulher mais velha lhe dá o sol e a chuva matando uma cabra, recebendo-o com as palavras “deus trouxe-te a este mundo, controla-te e não cobices as coisas dos outros” de como o bebé é atirado ao ar sete vezes e assim mostrado ao sol num baptismo.

Para a festa convidámos tambores e danças, um dos grupos é composto por 10 mulheres que actuam em cerimónias de circuncisão, em sessões de feiticeiros… nas celebrações dos espíritos. Metade delas carregam os bebés às costas, a mais velha aproxima-se, diz qualquer coisa mas eu não entendo… olho Maomé, ele sorri,
- They ask your name - eu respondo,
- Filipa - mas elas não parecem satisfeitas, digo o primeiro nome- Joana - elas apresentam-se.
Antes da refeição os cristãos unem as mãos e descem os olhos, os muçulmanos sobem o olhar e de mãos afastadas, abertas, indicam o céu, os hindus observam e eu… peço mais momentos destes à minha estrela.
Os convidados são aproximadamente 60, e são diversos.
São 22horas, a festa está a começar e dura até… bom, até a comunidade islâmica permitir…
Há alguns dias a comunidade muçulmana veio ao Boma queixar-se. Reclamar que mzungus fazem festas que duram toda a noite e que não conseguem cumprir as orações diárias - nem dormir, imagino – com a paz necessária.
Vieram cinco líderes da comunidade; muçulmanos, Shiitas e Sunitas, e falaram com o bwana Telmo, no Boma.
Por razões… delicadas, eu não estive presente na reunião, e ainda bem, porque… eu sou tolerante e até mais, tenho fascínio pela diferenças culturais! mas se estivesses presente teria tido vontade de perguntar como dormimos nós se as mesquitas, além de acordarem cedo, não nos oferecem o agradável e melódico Alah u Akbar mas aquelas frases em Swahili, gritadas e nervosas?
Mas Telmo geriu o conflito e marcou o dia da festa, para a partilha das gentes.
Depois das bênçãos e da refeição tocam os tambores e os grupos começam.
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O grupo de mulheres, liderado pela mais velha, dança em círculo e grita
- Juliana ehe, ehe!! Julianan eh, ah! - eu assisto, tiro fotos e pergunto a Maomé
- Quem é Juliana? – ele está surpreendido
- It’s you! - e a acção seguinte já não deixa dúvidas, as mulheres puxam-me para a roda para que dance com elas, o gesto diz-me “não penses, dança!” eu avanço!
Hoje faço anos.
Aguardo a mulher que desapareceu na água, diz-se que o seu espírito lhe pertence, que desapareceu sem sofrimento ou dor, regressará com a luz da sabedoria. Quando? Pergunto-me.
-
Telmo sai da prisão e descobre quem o denunciou. E percebe que está rodeado de inimigos
KINGODI olha-me. – Habari za leo? – pergunta-me em suaíli como vai o meu dia.
Respondo-lhe que podia ir melhor.
Retoma as perguntas que os seus subordinados me tinham feito e acrescenta:
– Nós temos leis. Quando muda o director do Boma, a Trade Aid tem de nos avisar. Afinal, é um edifício histórico, feito por vocês, os mzungus [brancos], mas também nosso.
Depois diz-me que Brian, durante a minha detenção, não tinha estado inactivo: ligou ao comissário regional do Governo e ameaçou, caso eu não fosse solto de imediato, encerrar as operações da Trade Aid em Mikindani – o que, sendo o Boma a única fonte de emprego numa aldeia de 19.000 pessoas, não era despiciendo. Também contratou um par de advogados em Dar-es-Salam e despachou-_-os de avião para Mtwara.
Kingodi achou que eu não merecia tanta maçada.
– Vou deixar-te ir com um conselho: haraka, haraka haina baraka! [devagar, devagar se vai ao longe]. Começaste agora mas já tens muitos inimigos no Boma, por isso estás aqui. Um homem não deve ter pressa em criar inimigos!
MAL SAIO, Brian liga-me. Desfaz-se em desculpas: alguém em Londres tinha feito asneira, tinha-se esquecido de avisar as autoridades e de tratar atempadamente da nossa legalização. Se, por causa disto, nós quiséssemos partir, ele percebia, mas tinha esperança que não o fizéssemos. E não tinha dúvidas de que estávamos a fazer a coisa certa e que a minha detenção era a mais eloquente prova disso.
Asseguro-lhe que não desistiremos. Depois faz-me a pergunta crucial:
– Alguém do Boma chamou a Migração e denunciou-te. Quem poderá ter sido? Denis?

DENIS, o suspeito do costume. Afinal era quem mais perdia com as mudanças anunciadas para o Boma.
E aqui está ele, à porta da Migração, no jipe do Boma, esperando que eu fosse libertado para me transportar de volta. Viajámos em silêncio até ao forte, eu obcecado a pensar se me teria enganado quando decidi confiar nele.
À chegada, os chefes de departamento esperam-nos à porta. Um deles tinha-me mandado prender. Mas qual? Reúno-me com Kate, a contabilista escocesa, mas ela não tem mais pistas do que eu e também suspeita de Denis. A meio da conversa, o fiel do armazém, Maomé (a quem chamamos ‘o pequeno’, para o distinguir do outro Maomé, que é empregado do bar), pede para me falar:
– O dia está muito bonito porque chove desde ontem à noite. Dormi fresco e acordei muito contente. Hoje não entrou água na minha casa, mas ontem sim. A minha mulher e os meus filhos também estão felizes e de boa saúde, graças a Alá.
Um suaíli nunca aborda directamente o assunto principal da conversa, é má educação. Confesso que muitas vezes é exasperante.
– Também estou feliz porque o Boma está a ficar muito bonito. Gosto das flores que mandaste pôr e gosto da música. Arrumei o meu armazém como mandaste e agora já consigo entrar lá dentro. A minha mulher disse-me que esta camisa que a Mama Telmo [referia-se à Filipa] mandou fazer para mim é mais bonita do que a t-shirt que eu usava. Isso é bom. Por isso acho que a Mdo [uma das chefes de departamento] fez mal em ter chamado a Polícia para te levar. Acho que é melhor que fiquem, para o Boma continuar bonito.
E foi-se.
DEMOREI alguns momentos a perceber o sentido do que me havia dito, tão inusual fora a denúncia.
Kate chama Denis sem demora e pergunta-lhe se é verdade o que Maomé dissera. Ele confirma e acrescenta que Mdo tem uma cunhada que trabalha na Polícia da Migração – a mulher que me havia interrogado assanhadamente. Todos sabiam, portanto, mas naturalmente ninguém me tinha avisado.
– Despedimo-la? – pergunta-_-me Kate.
– Despede-a! – aconselhou Brian, tão aliviado como eu por não ter sido Denis.
Opus-me, não tinha provas, não achei que fosse boa estratégia e acredito em segundas oportunidades. Viria a lamentar amargamente a decisão.
À porta do escritório aparece um homem:
-“Ouvi dizer que o Boma tem finalmente um pai e uma mãe, gostava de falar com eles.”
É Nhamiduddin – “Mas todos me chamam Babu (avô) por que já tenho mais de sessenta anos, chamem-me avô também!”
Babu é um homem de três mundos. Nasceu ‘Mikindani boy’, como ele se classifica. De ascendência indiana a sua família emigrou para África há apenas duas gerações. Um dia, nos anos cinquenta, um inglês pegou nele e levou-o para Londres onde se fez engenheiro, dedicou a vida ao projecto do túnel sob a Mancha. Reformou-se e voltou a Mikindani para recuperar a velha casa de família e aqui viver.
Não se identifica já com a cultura Suaíli, mas também não se identifica com a europeia. Por isso nunca diz ‘nós’ os Suaíli, mas sim ‘eles’, ou ‘vocês’- os europeus. É o representante em Mtwara do Alto Comissário Britânico, soube que eu tinha sido preso e decidiu vir ver-nos.
Diz-nos:
-“O Boma é uma ratoeira para os europeus. Se fores conivente com o desleixo em que se vive eles assumem que és um coelho e cozinham-te; se fores um leão hão-de preparar-te armadilhas até que fujas. Foi o que te fizeram, foi assim que se livraram em pouco tempo de todos os outros directores.
O Brian disse-te porque fugiu o último ao fim de duas semanas? Não? Eu explico: puseram a correr o rumor que o homem era pedófilo, na aldeia não se falava de outra coisa. Ficou tão perturbado que fugiu e nunca se quis encontrar com o Brian. A outros lançam feitiços, maldições...
Expliquei-lhe que o que mais perturbava era a aparente impossibilidade de programar fosse o que fosse, já que todos teimavam em ignorar tudo o que não fosse organizado para o minuto seguinte. Riu-se muito:
-“ Planificar? Mas isso implica acreditar que o futuro existe, que depende de ti e não de Deus, da chuva dos espíritos da vontade dos antepassados ou de outra coisa qualquer. Acorda! Isto não é o teu Mundo.
Por que hão-de eles fazer algo para amanhã se não sabem se o amanhã existe? Tanta coisa pode acontecer: o Boma pode cair, a casa deles pode cair, tu podes desaparecer; eles, um parente deles ou mesmo tu podem morrer, por que se hão-de preocupar?
Quando não se tem esperança na vida sobra-nos a esperança na morte.”
-
Acordei condenado.
Devia ter-me apercebido, devia te visto a coisa chegar, mas não dei por nada. Caí como um pateta, um amador.
Comecei o dia a tentar lutar contra a tradição. Ora a tradição é uma espécie de dogma não escrito nesta zona de África. Reverenciada pelos africanos e intocável para os europeus que por aqui andam a labutar nas ONGs.
Sempre que abordo o assunto com eles a discussão termina com acusações sobre o meu pensamento neo-colonial.
Não sei se sou neo - colonial ou outra coisa qualquer – mas é certo que não me sinto obrigado a aceitar as tradições só por que o são, ou aceite que não tenho o direito de as discutir devido ao passado colonial do povo a que pertenço.
Não encaro a História da Expansão como matéria de julgamento, nem carrego pecados ancestrais. Não aceito ser limitado nos meus direitos de opinião e de crítica só por ser branco e português.
Por isso se vou dirigir este local não me inibo de impor mudanças, nem de por em causa o que me parece censurável, tradição ou não.
Não sinto aquele fascínio antropológico e laboratorial pelas práticas das populações indígenas, que nos quer convencer a tudo compreender e aceitar em nome do respeito pelas culturas africanas originais.
E francamente não me fascina que se queimem pessoas suspeitas de algum crime, que se corte o clítoris a crianças ou que se enfiem folhas de palmeira no canal da uretra dos homens suspeitos de terem levado uma mulher da tribo a ser infiel. Mesmo que me acusem de arrogância eurocêntrica.
Aqui no Boma está tudo empestado de terríveis tradições:
-“Denis, por que é que isto se faz assim?”
-“É tradição!”
Tradição, tradição! A tradição diz que os chefes de departamento chegam mais tarde do que os restantes funcionários; que estes para terem direito a dias de folga têm de pagar aos chefes, que os chefes folgam dois dias e todos os outros um ou nenhum, dependendo do humor do seu chefe. Que os funcionários de base estão proibidos de me dirigirem a palavra sem apresentarem antes o assunto ao seu chefe directo.
Eu conheço esta tradição, mas na Europa costumava chamar-lhe pouca vergonha.
O Boma vive, com a cumplicidade de sucessivas direcções britânicas, num regime feudal, em que cada pequeno chefe tem a sua coutada, põe e dispõe das pessoas sem controle de ninguém.
Questiono David – um jovem de trinta e poucos anos, formado em finanças em Cambridge, que um dia se cansou da City londrina e optou por vir para Mikindani – sobre esta prática e a sua explicação surpreende-me:
-“Nós sempre achámos que era melhor deixá-los ter as suas formas de organização interna, que reflectem a organização comunal. Os directores nunca quiseram interferir nisso, é a cultura deles, a sua tradição e esta é a sua terra.”
David não gosta de nós. Acha que faria todo o sentido ter sido ele nomeado director do Boma e não eu que caí aqui por acaso. Aliás é essa a opinião de todos os voluntários. Nunca perdoarão a Brian o acto.
-‘Pois bem – digo-lhe – no Boma essa tradição acabou.
Levanta-se indignado e abandona o Boma vociferando contra o colonialismo.
Durante o nosso convívio produzirá dezenas de relatórios denunciando a Brian o meu comportamento colonialista. Por cada um que recebia Brian mandava-me uma curta sms: - ‘Continua, acho que estás a ir bem porque recebi outro relatório do David.’
Digo a Denis que convoque uma reunião com os seis chefes de departamento para o dia seguinte às 7h, avisou-o que o objectivo da reunião é acabar com os privilégios de que ele também usufruía.
Na reunião vocifero contra as práticas ‘tradicionais’ de gestão do Boma, contra o papel que eles desempenhavam nelas. Troco-os de pelouros, faço-os responsáveis por futuros roubos de material, instituo a regra que qualquer funcionário poderá falar directamente comigo sem passar por eles. Termino com a ameaça solene de que despedirei sem contemplações quem voltar às práticas tradicionais. Indignam-se, ameaçam mas, sem outro remédio, acatam. Denis não abre a boca.
Termino a reunião à 8.15H. Às 8.30h quatro homens entram de rompante no escritório e vão directos ao assunto:
-‘ És tu o novo director do Boma? ’
-‘ Sim...’
-‘Estás preso.- identificam-se fugazmente – tens dois minutos para ires buscar o teu passaporte e vires connosco, não nos obrigues a algemar-te.
-‘Preso?! Mas...
-‘Não viemos aqui conversar. Saberás o resto na esquadra.’
Vou ao quarto buscar o passaporte. Filipa e Ra dormem.
Levam-me para Mtwara, a capital da província. Pelo caminho sem que se apercebam consigo mandar uma breve mensagem para Brian – ‘Brian, fui preso. Socorro!’
Na esquadra fecham-me numa sala e mandam-me sentar numa cadeira que puseram no meio. À minha frente, atrás de uma secretária, sentam-se três homens e uma mulher, estão a menos de meio metro de mim. São da policia da migração e querem saber que faço aqui e que ordens ando a dar no Boma. Respondo à primeira pergunta mas recuso-me a falar sobre o Boma. Gritam-me, ameaçam-me, gesticulam contra a minha cara, insinuam disparates, dizem que ‘sabem tudo!’. Sinto-me num filme série B. Eles agem como estereótipos dos actores dos policiais americanos e eu não sei o que hei-de fazer, nem sequer posso pedir para falar à Embaixada por que não há. A mulher era a mais encarniçada. O meu telemóvel toca sem cessar, é Brian mas não me autorizam a responder e por fim confiscam-mo. O calor na sala fechada é tremendo. Ao fim de quatro horas começam a perder energia, ficam cansados de repetir as mesmas perguntas e ouvir as mesmas respostas.
Decidem levar-me ao chefe. É uma esperança.
Empurram-me contra uma cadeira. Sento-me. À minha frente o chefe, Kingodi, ignora-me; compulsa documentos, faz telefonemas, recebe outros. Fala sempre em Suaíli. Eu entretenho-me a observar o placar que estava por trás dele: Um diploma de um curso feito na URSS, uma foto com Kingody a apertar a mão a Nyerere, outra em que cumprimenta um obscuro chinês e, impressas numa folha A3, as palavras –‘Com a morte da esperança, chega a esperança na morte! - Nietzsche.’
Kingodi olha-me.
-

Acendo uma vela e queimo incenso, escrevo. Enceno o momento mas a verdade é que sempre escrevi. Sem saber bem porquê ou para quê.
Na viagem escrevo em todo o lado, perante uma paisagem deslumbrante ou na casa de banho, sentada na areia ou no chão da mesquita.
Viajamos de jipe, aqui na zona de Mtwara. Passamos as cabanas de lama, os longos coqueirais, as bananeiras de verde quase eléctrico. As mangueiras estão carregadas, os cajueiros sem fruto. Abrandamos para vencer os buracos do caminho, as crianças vêm a correr, gritam:
- Mzungu! Mzungo!. Chamam-me branca. Brincam, cabrilolam, riem, apontam-me o dedo. Seguem o jipe a correr, depois desistem, ficam a observar, no meio do caminho de terra vermelha.
O tempo passou. Quanto tempo passou desde que colhia figos nas figueiras do senhor Manel, desde que esfolava os joelhos na brita, desde que fugia da escola nos intervalos da manhã, desde que brincava aos namoros na areia do parque, desde que trocava papelinhos da “melhor amiga” desde que…? Não sei, em viagem parece que o tempo fica distorcido…
Passamos as aldeias, as cabanas, as escolas:
- O que são estas construções de cimento abandonadas?
- Como assim abandonadas? São escolas.
Estou de visita numa delas, acompanho os voluntários britânicos. Eles falam com o director, eu sento-me debaixo de uma árvore, tiro da bolsa um caderno e começo a escrever. E parece que comecei uma aula, as crianças correm para mim e amontoam-se para ver o que estou a fazer. Algumas tiram das pastas os seus cadernos, e mostram-mos com orgulho. Eu recebo-os. Os caderninhos estão estimados e limpos, alguns têm na capa o rosto do presidente. Uma das meninas pequeninas põe em cima de todos os outros o seu caderno, impecável. Está cheio de exercícios feitos em letra redonda e desenhada, está corrigido com caneta vermelha e todas as páginas estão aprovadas, excepto uma, eu levanto a cabeça do caderno:
– Ai, aqui fizeste um erro! – Digo assim mesmo, em português, ela baixa a cabeça,
envergonhada, e depois olha na minha mão o meu próprio caderno. Olha para uma página, roda a cabeça ligeiramente à esquerda e à direita, olha-me nos olhos um momento, e no rosto começa a nascer-lhe um sorriso, desata a rir, e afastando os colegas sai a fazer pinotes. Algumas ficaram por detrás de mim, e por cima do meu ombro tentam ver. Eu olho o meu caderno à procura da anedota e… e envergonho-me… da minha caligrafia, ilegível. Envergonho-me das tantas vezes que eu mesma rodo a cabeça, aproximo e afasto as páginas dos olhos, giro o caderno para cima e para baixo, intrigada com a mensagem que eu - eu mesma! - escrevi ali. Todas as crianças acompanham a menina, em risos e pinos. E outras mais aproximam-se e riem. Mas se nem falaram entre elas, riem de quê? Bem sei que nesta fase, e no recreio, tudo é contagioso, mas desconfio…
Quanto tempo passou desde aquele dia na escola em que decidi desafiar o meu grupo de amigos, que era o mesmo desde os meus quatro anos de idade?
Quanto tempo passou desde que escolhi para companhia as minorias, e para amigos os elementos mais problemáticos da escola? As órfãs, os negros, as ciganas, as repetentes, as mais velhas, as que cheiravam mal, os que faltavam às aulas, as que fumavam cigarros às escondidas e roubavam chocolates nos supermercados, as que pediam beijos aos rapazes e dobravam na cintura as saias para as subir acima dos joelhos, os que mentiam, as que batiam. Era com esses que eu me dava melhor.
O meu grupo não aceitou, fui excluída. Mas não desisti, e durante algum tempo, não sei se um mês, uma estação, um trimestre – o passar do tempo é misterioso para mim – defendi as emigrantes, os que eram castigados, os que vestiam sempre a mesma roupa, as adoptadas, as feias, as más. E acompanhava-os nas suas lutas, do almoço roubado, dos castigos da professora que usava a cana, das caneladas nos jogos de futebol, dos vexames nos recreios, dos pais que bebiam, das mães que batiam.
E corria os riscos dos castigos porque as acompanhava até casa para contar das reguadas e ia até ao orfanato para relatar as injustiças. Tudo para provar da minha liberdade, da minha dedicação à causa. E lá em casa falava mesmo com a mãe, com o pai, e no orfanato cumprimentava a directora obesa e má subia mesmo até ao refeitório e provava mesmo a sopa de gordura e água. E nos minimercados também punha no bolso os doces e quando era apanhada olhava de soslaio e se as amigas já tinham fugido – o que acontecia quase invariavelmente – eu olhava o dono com um olhar que dizia “não é para mim, é que eu tenho de me integrar neste grupo, percebe? Não é por mim, é… luta pelas minorias…” mas o dono não acreditava, e a minha mãe também não. E ficava de castigo, mas não desistia, nas aulas passava de carteira em carteira as revistas obscenas, nos intervalos guardava a porta da casa de banho para os disparates das novas amigas.
Porquê? Não sei. Já passou muito tempo, mas não sei… Por teimosia, por rebeldia, por obstinação, por entusiasmo desenfreado, por paixão.
As razões… os porquês… como é que acontece esse momento de clareza ou obscuro impulso, que nos faz escolher, decidir. Não sei. E quase invariavelmente quando decido não se ouve o agradável aplauso de um quórum mas antes a hesitação de um grupo, seguida de um bichanar colectivo, mais tarde interrompido por um “mas”, um “vejamos” ou uma pergunta difícil…
É comum ouvir esta pergunta: porque fiz esta viagem? E só tenho uma resposta: por paixão.
Quanto tempo passou desde que sei que este é o meu caminho eu não sei. Mas quando é necessário para os outros que eu justifique as decisões da minha vida esta é a minha irracional razão, e lamenta a minha mãe: “Mas filha, tu dizes sempre isso!” mas é a verdade, sigo as paixões.
Escrevo, o Ra descansa a meus pés, descansa apenas do cansaço que nos dá o calor e a humidade do ar, Telmo abre a porta:
- Filipa?
- Sim paixão? – ele sorri.
- São cinco horas, vamos tomar chá? – e mesmo sem saber quando nos tornámos tão britânicos sigo-o.
-
Em Mikindani não há televisão.
Também não há luz que não venha do Sol ou das fogueiras que os Makonde, tribo maioritária na província de Mtwara, ateiam à porta das cabanas.
Há muita água. Quando chove as inclinadas colinas que envolvem a aldeia vêem os seus carreiros transformarem-se, sem transição, em ribeiros torrenciais que correm livremente, ansiosos por se salgarem no Índico. No caminho divertem as crianças que se lavam da monotonia de dias mais secos.
-‘Porque se chama assim?’
-‘Não sei bem, parece que quer dizer que o Miki, que estava metido em trabalhos, para se furtar a brigas fugiu para dentro de casa. Daí recebemos o nome de aldeia do Miki que fugiu para casa...está lá dentro: Miki-ndani.
Explica-me, compenetrado, Maomé um respeitável ancião com cerca de 60 anos, o que o transforma, nesta região de curta esperança de vida, num Matusalem.
O orgulho de Maomé é, chapéu tradicional na cabeça, ciceronar os brancos pela sua aldeia e mostrar-lhes como é respeitado e conhecido.
Tão muçulmano quanto o nome, Maomé, elucida-nos sobre as mesquitas e crenças da aldeia.
‘Há três crenças muçulmanas: Sunita, Xiita e Waabita. Eu sou Sunita por que é a mesquita da minha rua. Uma pessoa não deve ir a uma mesquita que fica longe da casa onde nasceu.’ Assim, simples, explica-nos como resolver as guerras religiosas.
Estamos mesmo no cantinho Sudeste da Tanzânia e ninguém, lá longíssimo em Dar-es-Salam, quer saber destes territórios perdidos entre o mato os rios e o Índico. A Sul fica o isolado Norte de Moçambique de onde vêm outros que fogem de uma região muitíssimo pobre e procuram ganhar a vida numa outra que é só muito pobre. O superlativo dita-lhes a fuga para Norte em busca de sobrevivência. Atravessam o Ruvuma em canoas talhadas na casca de mangueiras e anonimam-se entre irmãos de tribo e de língua.
De vez em quando o chefe da migração, que tem a incumbência de manter a província livre de clandestinos que venham perturbar o desiquilibrio da região, afadiga-se numa caça aos moçambicanos. Arrebanha um grupo mete-os numa canoa e envia-os para a província de Cabo Delgado. Os deserdados bem tentam objectar:
-‘Tenho pai tanzaniano’, reclamam.
-‘Isso é o que dizem todos’, afirma implacável enquanto os recambia.
Eles voltam passado semanas garantindo-lhe o emprego.
As cabanas de Mikindani espalham-se entre o mato numa desordem de paus e de lama com forma de abrigo.
A Europa deixou memórias. O lugar foi ocupado por Alemães e depois por Ingleses, que aproveitavam a bem defendida baía para as suas incursões ao interior de África.
Ruínas de antigas casas coloniais espalham as suas paredes de coral pelas ruas de lama e servem de abrigo a lagartos, cobras, cabras e circunstanciais viajantes sem abrigo.
Existe mesmo a casa onde Livingstone teria pernoitado no início da sua última e fatal viagem em busca da nascente do Nilo; e não é o pormenor da construção datar dos anos cinquenta do século passado que inibe as autoridades provinciais de inaugurar placas onde se pormenoriza o número de noites que o explorador lá dormiu.
Vivem muitas histórias na aldeia.
Há tempos, dos EUA, chegou um jovem. Arqueólogo! Anunciava-se aos locais e aos brancos.
Ingénuo, eu, pergunto-lhe :
-‘E que período da história investigas?’
-‘De 500 a 1500! Dizia sem corar.
Ainda pensei que se referia a dólares, mas não, ele queria mesmo que acreditássemos que a sua pesquisa tinha um milénio de ambição. Muitos suados buracos depois os locais explicam tudo. Ele procura é o ouro de Bismarck. Um tesouro que na precipitada fuga os alemães teriam abandonado, em 1917, sem mapa nem X que marcasse o local, enterrado em misteriosa colina e que os ocupantes britânicos nunca encontraram.
O padre católico Augustin Fernandez assegura que sim que o tesouro jaz por aqui. Mas ele tambem garante que só apanha malária quem sair de casa depois da meia noite, hora em que o mosquito fatal começará o seu pernicioso trabalho- ‘antes disso não há perigo’. Assegura.
O missionário vive na sua missão no topo de uma colina ligeiramente afastada de Mikindani de onde desce esporadicamente em busca de fiéis e de um repasto mais substancial, que normalmente lhe é oferecido por algum dos brancos endinheirados que, de quando em vez, aqui andam. É normalmente entre a segunda e a terceira garrafa de vinho sul africano que desenvolve, sério, a tese sobre os mosquitos.
Magro, desorbitado e de discurso torrencial vive um pouco desesperado entre uma comunidade esmagadoramente muçulmana; e não consegue convencer os brancos, maioritariamente anglicanos, das virtudes da sua igreja.
‘Eu sou um bocadinho português, porque o meu pai era de Goa!’ Explica ele esperançado no nosso catolicismo, enquanto se debate com a galinha.
À aldeia afluem regularmente novas fornadas de jovens que trazem na vontade o desejo de, nos três meses que dura a sua missão de voluntariado, mudar África, resolver o problema da pobreza e acabar com o SIDA. A tarefa é grande e o calor também por isso costumam arrefecer os últimos dois meses e meio no bar que um inglês abriu numa das ruas, que dessedenta os expatriados e lhes afoga os sonhos.
Um velho sábio de origem indiana a quem todos chamam Babu (avô) tem por hábito ouvir pacientemente estes jovens e, quando eles terminam de lhe relatar o seu inovador e revolucionário plano com o qual resolverão de uma assentada todos os problemas da região, vaticina-lhes: ‘Muito bem, daqui a duas semanas falamos de novo’, e sorri.
E depois diverte-se a vê-los à noite, bêbados de frustração, no tal bar.
Ele sabe de tudo e não acredita em nada. Sabe da terrível certeza que vive no coração de todos os que aqui nasceram, a certeza que por aqui nada nunca muda ou melhora, que o tempo só trará mais ruína e maior abandono. Por isso encara com divertido cepticismo estes jovens que se esforçam por aprender os hábitos e compreender as gentes. Cedo voltam à Europa com a consciência lavada.
‘Não percebem nada de África’, segreda-me desesperançado.
Mikindani fica e ele também.
E nada mudou.