Lá estava o navio que me levaria pelo Atlântico rumo ao Brasil. Levava comigo a forte esperança de um dia poder retornar. Dois anos seriam suficientes para trabalhar e juntar dinheiro para voltar à minha aldeia. Estava certa que ajudaria minha mãe a superar as dificuldades, pois não foi fácil para ela criar e educar seus seis filhos, desempenhando maravilhosamente o papel de mãe e pai.
Triste ilusão! As palavras de minha mãezinha estão até hoje em minha lembrança: “Para ti, filha, é adeus até a eternidade!”
Como era sábia a minha mãezinha. Ela tinha a certeza que a filha jovem e cheia de ilusões, jamais voltaria a cantar para ela os fados da Amália.
Era eu considerada, o rouxinol da aldeia. Vivia a cantar enquanto lavava as roupas nas pedras do rio Dinha. 
Águas cristalinas, peixes grandes que se escondiam entre as pedras. Os arcos da ponte romana. Meu rio, minha aldeia.
Fecho os olhos e recordo-me que certo dia cantava uma canção que muito lembrava a minha mãe, enquanto lavava a roupa no rio:
A tia Ana vive só
Que até chego a ter dó
Como pode andar sozinha
Noite e dia sem parar
Sempre sempre a trabalhar
Com os sacos de farinha
Tem oitenta anos feitos
Já tem os olhos cansados
Mói farinha pra confeitos, casamentos, baptizados
Oh, tia Ana, o teu moinho
Lá de cima do outeiro
Vale mais o teu moinho
Do que vale o mundo inteiro
Oh, tia Ana, o teu moinho
É o melhor do lugar
Já está velho como tu
E como tu há de cansar.
Olhei para a ponte e notei que muitas pessoas da aldeia pararam para me ouvir cantar.
Minha aldeia, minha gente. Se eu pudesse faria o tempo voltar para trás.
Recordo-me os moinhos a moerem farinha de milho e centeio.
Oh, tia Ana, o teu moinho
É o melhor do lugar
Já está velho como tu
E como tu há de cansar!
Na lembrança ficou o cheiro de pão quentinho saindo do forno, que só a minha querida mãe sabia fazer.
Muitas vezes junto à lareira rezávamos o terço pedindo a Virgem Maria força e coragem para a nossa caminhada. Eu nem imaginava o que o destino a mim reservava. Eu iria para longe de tudo e de todos que tanto amava.
Anos tristes aqueles, reflexo da guerra mundial. Viviam os portugueses com muitas dificuldades.
Recordo-me com muitas saudades do meu irmão mais novo. Com um lençol e quatro paus montávamos uma barraca no quintal. Ao ver os aviões, corríamos para a barraca pensando que fossem aviões inimigos. Olhávamos para o céu assim que os aviões passavam e víamos as nuvens brancas que na inocência de criança eram anjinhos que estavam lá em cima tomando conta de nós.
Em meio a tanta dificuldade e tristeza, a fé estava presente.
O sino da igreja... Não posso esquecer. Suas badaladas pareciam dizer: “Mantenham a fé, continuem orando e acreditando que dias melhores virão”.
Toca sino da igreja... Chama o povo do Ribeiro.
Era linda a Páscoa na aldeia. Enfeitávamos os caminhos por onde passava a procissão com ramos de oliveira, camélias brancas e vermelhas.
A festa de São João era a mais linda da aldeia. Pulávamos fogueiras, cantávamos, dançávamos, muita música, muita alegria para os nossos corações.
Lembro-me da escola, dos professores e dos amigos.
Gente boa da minha aldeia. O dono da mercearia, aquele bondoso senhor, que tantas vezes me deixou levar as mercadorias mesmo não tendo um tostão para pagar na hora. Ele sabia que assim que fosse possível, minha mãezinha pagaria tudo que devíamos. As dificuldades eram muitas, mas não deixávamos de cumprir com nossas obrigações.
Tantas lembranças...
A água fresquinha da fonte que saciava a minha sede.
Eu também tinha sede de mudança.
Lembranças de um tempo triste, mas que deixou saudades.
“Para ti, filha, até a eternidade!”
Minha mãezinha estava certa, eu não consegui retornar em dois anos como desejava. Voltei vinte e seis anos depois. Muitos já não estavam mais lá. O moinho cansou e parou de trabalhar. Minha mãezinha cansou e não aguentou mais esperar.
Adeus, até a eternidade, mãe Ana!
Tua filha Ilda.

Este texto, é um relato de alguém que está do outro lado do oceano – Brasil, que à muito partiu, e ainda hoje, sente saudade de uma terra que teve que deixar, para melhor vida procurar…
Sem dúvida, que esta terra clama, por todos aqueles que algum dia a deixaram, procurando algo que aqui não encontraram…
Todos eles serão SEMPRE BEM-VINDOS!!!