- ALHEAMENTO.
-

É extraordinária a forma irresponsável como nos alheamos do futuro vivendo com ele,
ombro com ombro,
no presente.
- REVISÃO DO ESTATUTO DO ALUNO, FINALMENTE!
-
Veja-se a notícia na página principal!
- UM DIA TALVEZ SE PENSE NISSO... MAS, E SE FOSSE AGORA?
-
Dia de reunião de Departamento.
Feito o balanço dos resultados do 1º período verificou-se, entre outros, que uma grande parte dos alunos revela problemas de dislexia, do foro cognitivo, de… e de… . Tudo isto ou a possibilidade de uma deficiente preparação ao nível do EB – do básico? Pois, não se sabe. Não trazem relatórios associados aos processos dos anos anteriores e os que os trazem, já se encontram “desactualizados”.
Na minha opinião, são os primeiros resultados de um sistema nada exigente, de qualidade meramente estatística.
Tudo isto trouxe-me à memória o texto que se segue.
(Março / 09) Tenho estado a corrigir trabalhos dos alunos.
Várias vezes, já este ano lectivo, pedi que reescrevessem respostas a testes, outras penalizei-os, assinalando erro na impossibilidade de perceber, avaliar o que estava escrito, outras ainda, na altura da entrega, recusei-me a receber os trabalhos e obriguei-os a reescrever tudo, de forma legível…
Razões?
É simples: Não consigo decifrar o que “vejo” numa primeira leitura diagonal e há que cultivar o gosto pela perfeição que, mesmo que não chegue, está lá algures.
Há alunos que escrevem por baixo da linha e, de vez em quando, por cima, imagine-se, outros que não conseguem ver a utilidade da existência de uma linha recta e ondulam as letras por cima dela, outros ainda encaracolam as letras – e quando estas surgem em final de palavra, não dá para descrever o aspecto – e reduzem-nas à forma ínfima de um aglomerado de curvas e tracinhos…
Dir-me-ão… mais valia pedir os trabalhos passados a computador.
Desde há uns 3, 4 anos que me recuso a tal.
Primeiro foram as bolinhas em cima dos is, depois as maiúsculas intercaladas com minúsculas no meio, no fim das palavras, depois a caligrafia feminina das bolinhas, os ás confundindo-se com os ós em que uma mesma perninha servia letras antes e depois, e por aí fora, dando forma ao que a imaginação determinava.
E da escrita das mensagens do telemóvel transportadas para os trabalhos, para os testes? E não adianta sequer dizer que um [q] demora tanto tempo a escrever como [k] em vez de “que”…
Mas a tendência é mesmo para piorar; estou a constatá-lo neste ano, nos alunos de 10º ano, nos alunos que estarão a fazer exame de 12º daqui a dois anos.
E não é preciosismo. Pragmaticamente, existem itens nos critérios de avaliação de Português que prevêem situações como as referidas, com carácter penalizante.
Por outro lado, é importante que se “escreva à mão”.
E se um trabalho passado a computador é mais bonito, é mais ilustrativo, colorido ou outros idos, a verdade é que se desaprende a translineação – em termos gerais, a maioria dos nossos jovens não consegue separar silabicamente as palavras – esquece-se o desenho das letras, perde-se a agilidade manual pois só se utilizam 2, 3 dedos de cada mão – nem imaginam a ginástica que alguns alunos fazem para segurar na caneta e já não digo, propositadamente, correctamente porque aí… - e, pensem nisto, o aluno não é obrigado a saber escrever correctamente, sem erros ortográficos, pois o computador fá-lo por ele. E quando a palavra não é reconhecida, dá-se a desculpa de que o computador não conhecia a palavra, não assinalou erro. Pois se nem o computador sabe… ai, ai.
Geração do Choque Tecnológico?
Certo.
Como em tudo, com algumas regras, com alguma disciplina… até porque, actualmente, os exames ainda são “via manual”!
- proibido exigir
-
Ainda não compreendi por que razão a exigência, algum sacrifício se tornaram algo de inaceitável, de proibitivo, quase anti-direitos humanos…
Traumatiza, é anti-pedagógico, dizem. Não entendo.
Como pode alguém respeitar-se e respeitar o próprio trabalho se não for exigente, se não se aplicar naquilo que faz?
Pede-se a um aluno que faça um trabalho por escrito subordinado a um determinado tema. Fornecem-se links, livros, bibliografia. Livros, pesquisa na biblioteca nem pensar; links: abrem-se, copy-past, trabalho feito. Umas imagens ou quase nunca. Muitas vezes lêem-se cabeçalhos, títulos, não se selecciona a informação, talvez porque, na maior parte das vezes, nem se leram os textos. Tempo perdido, o deles e o nosso.
Em que medida este exemplo interessa? No que representa e interfere na formação destes futuros cidadãos. Enquanto ouvir, na altura da entrega de um trabalho “Setora, eu só fiz… Mas chega, não chega?”, pensarei sempre onde estará o limite de uma qualquer acção ou trabalho a desenvolver por estes futuros profissionais.
Claro que não será sempre assim nem tão mau. Mas se pensarmos na forma crítica como observamos tudo quanto é de origem nacional, os erros, os desperdícios de dinheiro devido a estudos mal feitos, a maus investimentos, a um “basta assim!”, veremos que a tradição se manterá.
- saudade e dor.
-
- das nossas crianças e dos seus não-tempos
-
Hoje, em conversa com a Coral...
Sobre o tempo das nossas crianças.
Ando a ler uma coisinha que se chama As crianças Ocupadas… na verdade, trata-se de um livro sobre a taxa exagerada de ocupação do tempo dos nossos filhos, além de outros aspectos com isso relacionados.
Quanto tempo passa o teu filho no colégio? - dizia-me a Coral. Pois, das 8h30 da manhã até às 17h30 na melhor das hipóteses, até às 19h00 quando tem kenpo. Banho, jantar, tpcs e passou o dia “a trabalhar”. Dois recreios, fila para lavar mãos, entrar no refeitório em comboio, ordem, regras, disciplina… se me dá jeito? Não poderia ser de outra forma, é o meu horário também com excepção de 4ª e 5ª, como poderia pensar num horário mais comedido?
E queixamo-nos quando querem ver mais um pouco de TV, quando querem jogar na PS e se recusam a fazer os trabalhos, a estudar… tudo porque querem viver, na sua idade, no seu tempo, a seu tempo. Os pobres vivem escravizados pelo ritmo de vida dos pais, dos seus hábitos e necessidades, dos seus gostos. No fundo, começam a viver demasiado cedo a vida adulta dos pais. Que um dia será também a sua… então, terão sido crianças quando?
Uma das chamadas de atenção do tal livro refere o modo como o adultos têm vindo a lutar pela redução de horário nas suas profissões e aplaudem o acréscimo da carga horária escolar dos seus meninos pois dispõe assim de mais tempo “para as suas coisas”, a que têm pleno direito, diga-se, do mesmo modo que as nossas crianças têm direito a estar com os pais.
E será mesmo assim quando não é da outra forma, a da ausência?
Conversava um destes dias com uma colega a propósito da importância dos telemóveis, jogos e outras tecnologias na vida diária dos nossos jovens…
Conclusão a que chegámos: os nossos filhos são, na verdade, educados pela técnica. Começou com a TV a substituir os pais, “desde que esteja sossegado”, “deixa-o estar, pelo menos deixa-me fazer o jantar em paz”, depois o telemóvel com os amigos do lado de lá – e porque esses, ao menos, “falam connosco e ouvem-nos” – os chat, h5, msn e por aí fora, todos eles candidatos e confirmados educadores do presente para o futuro. Também por isso temos jovens adolescentes que não sabem emitir opiniões, pensar por si sem aludirem a exemplos televisivos. Utilizam um discurso atabalhoado e desconexo, articulam mal as palavras, detestam expressar-se em público pois têm consciência de todas estas falhas; são criados e educados no silêncio. É tudo.
E convenhamos, falar para quê se não existe ninguém para os ouvir?
- incompreensão!
-

às vezes não dizemos.
ficamos apenas.
o gesto está lá, nós também.
como sempre estivemos.
é no dia em que gritamos "Basta!" que se apercebem que estamos vivos, afinal.
e é exactamente nesse momento, e porque estamos vivos, que não ficamos.
- HABITUAMO-NOS A AMAR O BELO MAS A VIDA ESTÁ EM TODO O LADO! (reposição)
-

há dias em que coloco a alma à janela de mim e observo o que me rodeia... e sorrio, e ignoro.
noutros, sinto que me são atiradas pedrinhas aos vidros da Alma... e ela contorce-se, chora e recolhe-se na forma escrita.
foi o caso.
...
HABITUAMO-NOS A AMAR O BELO...
... o normal, o esperado, o Belo per si!
Colombo, xx, fila de caixa. duas ou três filas à minha esquerda.
uma menina, uma adolescente, num carro tipo de bebé mas para adultos. percebia-se que se tratava de uma deficiência profunda. por todas as razões.
sorria ou tentava falar, agitando a fita de Carnaval que alguém lhe tinha colocado à volta do pescoço. lembrando a época de alegria...
e era com alegria que os acompanhantes conversavam entre si, sorrindo-lhe, acariciando-a na sua agitação. observei-os. eram três, com idades muito perto dos 50. ou não. que a vida por vezes deixa marcas, noutros casos, são as pessoas quem as elimina porque assim é preciso, porque outros valores, necessidades gritam mais alto do que o próprio sofrimento.
pensei no futuro da menina-adolescente, no dos adultos. senti que o meu olhar se ensombrava quando, num gesto repentino, a menina puxou a senhora que estava mais perto. ela baixou-se, tentando compreender a mensagem.
vestida ao rigor da época , com roupas doiradas, chapéu, uma fita carnavalesca caída sobre o peito, marcava assim o momento diferente que se vivia junto da menina… e ainda que chorasse por dentro. ambas riram com a mensagem trocada, a mais velha fazendo uma festa no rosto da mais nova, com um ar encantado por toda aquela partilha.
sorri. como não? e admirei aqueles três adultos como prova de que o Amor não conhece barreira, que está aí para o que der e vier, sem ressentimentos, culpas, enfrentando cada dia e a vida.
passado um bocado tornei a encontrá-las no xx. o meu garoto, na sua inocência, e porque não vê caras mas carros de bebé, não lhes resiste, fez uma festa na mão da bebé grande como lhe chamou e ela riu das palhaçadas daquele batman de palmo e meio. mais uma mensagem trocada num mundo à parte, excluídos os que não compreendem e pensam...
mundo perfeito este, assim! à sua, nossa maneira...
mas e será?
fontanário junto à xx.
uma esposa gritava com o marido, rodeada de sacos de compras, porque já estava à espera há 10 minutos de um pai embevecido que corria atrás da sua fada de 2, 3 anos, vestida a rigor e que teimava subir para um avião da Minnie.
10 minutos? o que são 10 minutos de uma vida quando não se tem mais nada a não ser a incerteza do dia de amanhã e um problema sério que não se resume a meia dúzia de sacos esperando num chão de um qualquer centro comercial?
a vida, afinal, em todo o seu esplendor... só não sei a de quem e qual o valor que cada um de nós lhe atribui, o real.
- POIS SE EU NÃO GOSTO DE SOPA, POR QUE RAZÃO TENHO DE LER?
-
http://sol.sapo.pt/blogs/anatarouca/archive/2007/01/23/Os-10-Direitos-do-Leitor.aspx
Podia indicá-los aqui mas há cá em casa, aproveitem e consultem…no blogue O Lobo Leitor.
Plano Nacional de Leitura: sabem o que é, eu também, ralho sempre e muito sempre que tenho de lidar com a coisa, reconheço-lhe o mérito, a necessidade mesmo, já os meios utilizados fazem-me ralhar – ralhar é mesmo enfurecer-me.
Pois esta coisa do PNL é a forma encontrada por altas instâncias para transformar as crianças em leitores futuros… Um pouco como, tens de comer a sopa porque a sopa faz bem…
E por que é que a sopa faz bem?
Porque sim.
Mas isso não chega.
Então a sopa faz bem porque faz bem ao sangue, faz crescer os ossos, dá-te força para correres atrás dos teus colegas…
Mas eu consigo correr bem depressa e além disso o P. também não gosta de sopa, é mais alto do que eu e também tem 9 nove anos…
Na verdade, o garoto cá de casa foi criado com sopa. Esta conversa foi semi-inventada…
Este ano chegaram-me três títulos que fazem parte do PNL para o 4º ano. A ideia era escolher um.
Perguntei ao interessado: então, conheces a história de algum dos 3? Não.
A professora não os resumiu?
Não.
Então, de qual título gostas mais?
Pode ser “A cidade dos cães e outras histórias”.
E porquê?
Como não gosto de cães… (foi quase mordido por um em criança. Passou da adoração ao pavor.)
Pensei: uma razão como outra qualquer. Aliás, quando falo do Contrato de Leitura aos meus grandotes do secundário refiro sempre que um título sugestivo pode ser uma ajuda para a aquisição deste e não daquele livro.
Franzi a Alma.
Ainda não me esqueci da chatice que foi ler “A Menina que sorria a dormir” no 3º ano. Tive quase de representar para que a história ficasse lá… Este ano já leu e resumiu a história da cidade dos canídeos. As outras ficaram à espera… ainda estão. Já falei da necessidade de, do ter de, olha que se não lês… .
Hoje, Colombo, W.: Mãe, prometeste-me “O Diário do Banana 2”… Saltei: E já leste o livro para a professora?
Mãe, sabes bem que este é mais giro… (Então não sei? Já leu o primeiro 3 vezes…!).
Existem duas coisas a que nunca digo que não: comida saudável e livros. Ponto.
Comprei-o. Entre tempo de espera no restaurante, no… enquanto a eu-mãe via os saldos de umas roupinhas, leu 100 páginas com muita gargalhada à mistura. Ponto de novo.
Ninguém gosta de fazer seja o que for obrigado e mesmo que o faça.
Também poderia dizer que não é com vinagre que se apanham moscas.
O primeiro grupo de estagiárias que tive chegou-me exactamente no ano da reforma. Uma das tarefas que lhes era exigida consistia na elaboração de uma lista de obras a propor aos seus alunos. Como alunas de Clássicas incluíram obras como Homero e Cícero. Perguntei-lhes se tinham gostado das obras em causa, Sim, Mais ou Menos. E como esperam que os vossos alunos reajam a estas obras? Claro que perceberam logo.
A leitura deve ser um acto voluntário, motivado pelas preferências de cada pessoa para que possa ser motivador para leituras mais … adequadas? Não sei como chamar-lhes, desculpem-me.
Ler é um prazer, uma aventura, um risco. Como a vida e o ser. Com altos e baixos para que se desenvolvam as capacidades de selecção e de crítica.
Sempre fui uma leitora viciada. Aos 8, 9 anos lia kilos de banda desenhada: Hulk, Capitão América, Tio Patinhas e restante família, Homem-Aranha… E digo kilos por causa da visita diária ao vendedor de livros usados na R. de S. Bento onde trocava aqueles por outros. Não havia net, jogos, programas especiais de férias. A leitura era tudo e o jogar no jardim ao fundo da rua. Entre os 14 e os 16 anos já tinha lido toda a ficção queirosiana, O pavilhão dos Cancerosos, os livros sobre droga, O Grego… para trás ficaram as aventuras dos 7 e dos cinco. Pessoa começava a despertar, Florbela foi a primeira grade paixão pela poesia.
A leitura é, pois, uma aprendizagem. Como a escrita. Como o ser. O amar. O tudo.
Mas com espaço, com tempo… Queixam-se que os nossos jovens não lêem: cativem-nos, dêem-lhes a possibilidade de escolherem o que desejam para que descubram o resto, aquilo a que nós adultos, letrados, leitores consideramos bons livros.
Tive há 5 anos uma aluna que, quando falei no CL, disse-me categoricamente: Nunca gostei de ler e não é agora que vou começar.
Percebi-lhe a determinação no olhar. Disse-lhe: tens duas formas de resolver esta questão, a primeira, há uma percentagem a atribuir na avaliação final para a competência Leitura. Não lês, tens zero. A segunda, deixo-te escolher o que quiseres, falamos sobre isso e apenas exijo que não seja algo que já tenhas lido no básico. Pode até ser um artigo, um livro recomendado, o que for…
Esta situação ocorreu no 10ºano.
Terminou o 12º ano a ler mais do que 2, 3 livros por período, pelo prazer que isso lhe dava, escolhendo obras “a sério”.
Ela chamou-lhe milagre. Eu contrapus chamando-lhe desafio… como o da aventura de ler.
- (sed) CONTO DE NATAL
-
Mais um ano, mais uma ronda pelas luzes de Natal. Uma tradição que se cumpre.
Sempre me fascinou o ambiente natalício lisboeta. Na minha infância as compras, as prendas eram compradas na manhã de 24, entre a humidade das ruas e o cheiro a castanha assada. Não existiam Centros comerciais ou hipers disto e daquilo e o natural era pedir que não chovesse, que a confusão não fosse muito grande. Mas não se conseguia viver sem isso…
E sendo a tradição outra…
Sem cheiro a castanhas e observando a fuga à chuva e ao vento de uns quantos chapéus-de-chuva, lembrei-me dessas palavras tão úteis em situações como esta: “Já nada é como antes”. Pois não, talvez as pessoas tenham mudado, talvez os hábitos tenham mudado… Eu sei que sim.
Na passagem por uma das transversais da Rua Augusta, o vermelho do semáforo, um amontoado de caixas de cartão num abraço embrulhado de panos e cobertores, chamou a minha atenção. Do meio deles saía uma forma pequena, sentada, enrugada de mulher de idade, muita idade. Habitação numa das entradas transversais de um importante banco da cidade.
Incongruências.
Chovia.
O interior da carrinha arrefeceu sem aviso. Frio interior. Culpa até. Daí o frio, pelo conforto de direito, o abandono sem culpa efectiva mas sentida.
Uma transeunte aproxima-se correndo, bastantes sacos nas mãos, sem espaço para um chapéu. Olha de relance, ultrapassa, volta atrás e deitando uma das mãos ao interior de um dos sacos, retira de lá dois pequenos embrulhos. Estende-os à forma humana que aceita com ambas as mãos, com gesto de quase prece. Fazendo um gesto de despedida com a mão generosa, a senhora retoma a corrida.
O verde da esperança abre e são de novo os olhos nos azuis celestes das luzes natalícias. Senti a noite ganha ainda que por um breve momento. Ou talvez a culpa reduzida.
Ou aumentada… o Bem-Fazer de outrem ajuda quem pode, culpa-me duplamente nesta forma acomodada de inércia.
- DOA A QUEM DOER.
-
Acabei de ler o artigo sobre o “Bom” professor… Afinal, sempre somos alguém, com direito a reconhecimento, a vida(?).
Perdoem-me a ironia mas sinto-me como sempre: saudosa do tempo em que apenas dava aulas pensando que estava a construir algo porque era assim que tinha de ser, porque disso dependia, depende o futuro do País, ensinar, formar gente e não pensar nisso como “deves ensinar melhor para subires na carreira, para ganhar mais.” Eu sei que é importante mas desta forma, uma vez mais o digo: esta reforma, esta avaliação, este estatuto não traz benefícios ao ensino, apenas às contas do Estado e não avalia condignamente, justamente os professores.
Confesso, estas palavras surgem hoje por esta razão, a do artigo, mas sobretudo motivadas por mais uma dessas situações a que alguns professores se prestam e que, não dignificando a classe, corroboram o parecer que a opinião pública tem relativamente à mesma. Como encarregada de educação compreendo a insatisfação manifestada por EEs pois eu própria também já tive de me aborrecer com ditos e atitudes; como professora, envergonham-me pois um professor não pode, não deve ter em sala de aula uma atitude social, isto é, não pode transpor para os seus alunos frustrações pessoais, vivências que não se adeqúem à idade dos mesmos – por exemplo, ensinar uma música com referências a cerveja e a ficar tosco junto de meninos de 4º ano! – e por aí fora. Há coisas que não se fazem nem se dizem em determinados contextos e grave é que os mesmos que as utilizam refilem quando se trata de defenderem as suas próprias crianças.
Bom, Muito Bom e Excelente: basta-me a opinião e os resultados daqueles com quem trabalho. E sim, eu sei, tenho uma concepção romântica do ensino mas continua a ser um dos meus prazeres na vida, venha que ministro vier. Momentos de tristeza terei tido por algumas injustiças cometidas mas fica tudo à porta da sala de aula.
Doa a quem doer.
- OS ESPINHOS DA ROSA I - aculturação, B.I. e outros espinhos
-
Era um grupo como outro qualquer, já habitual em locais como aquele.
Piercings, correntes, gel no cabelo, moldado, espetado, tatuagens, calças rasgadas, de marca – sabem quanto custa um buraco de marca? – linguagem a condizer.
Não os condeno. Encaro estas manifestações como experiências que, mais tarde ou mais cedo, verão o seu fim face a um emprego de que se necessita, face a uma mudança no percurso de vida. Se sempre acontece assim? Não, mas esperamos que sim.
Tentei identificar marcas nacionais em todo aquele escaparate futurista. Talvez seja difícil a separação das águas mas, tanto quanto me foi possível, não encontrei nem uma. Preocupei-me: será que não existe nada tradicionalmente português, ou mais actual, que possa ser incluído nesta metrópole ambulante? Pois, acho que não. O que é triste, muito triste. Culturalmente tão ricos, tão abrangentes e não interessarmos para nada a esta nova gente que procura no estrangeiro modelos a seguir. Parece impossível!
Que conquistadores teremos sido nós, afinal, que efeitos culturais teremos nós tido desde sempre até aos nossos dias?
Nós, que hoje comemos picanha e feijão preto, vamos ao chinês, ao japonês, à pizza, à lasanha…
Nós…
Que ouvimos kizomba, dançamos kizomba, abrimos escolas de samba, de capoeira, que celebramos o halloween, que adoptámos o piercing e o tatoo, que acreditamos em mãe de santo e ouvimos os conselhos dos búzios e das conchas, “fazemos” ginásio e malhação…
Nós…
Que apenas queremos ser fashion, iguais, reconhecíveis e identificáveis pois, ao que parece, a nossa identidade de portugueses é tão comprometedora que mais vale ser outro qualquer desde que não sejamos nós…
Modelos, nós? Sim, somos, é verdade. Já de quê… Por isso não acusemos os nossos jovens de fazerem parte da geração perdida por tudo aquilo que criámos para que fossem cidadãos do mundo. Porque são-no. Parece apenas que o nosso B.I. nacional se perdeu algures no tempo, quando éramos os mais fortes, quando ainda não tínhamos ensinado os nativos a serem como nós. Enquanto fomos conquistadores. E se é que alguma vez o fomos…
Verdadeiramente e sem ironia, o que me preocupa e entristece é pensar que corremos o risco de sermos substituídos culturalmente, como referência devido à nossa inércia. E pensarmos nos 20% ou 30% que não serão assim não invalida que o possamos fazer por todos ou quase. E porque ninguém aprende sozinho.
- FECHE OS OLHOS E RELAXE...
-
Escolha a cadeira mais confortável lá de casa.
Sente-se, recoste-se, respire fundo e imagine o quê, quem gostaria de ver nesse mesmo momento.
Fixe-o, sorria e recoste-se como se fosse fazer uma viagem incrível, afinal, o sonho da sua vida.
Já está? Então abra os olhos devagar, prepare-se para o encontro com a luz do Sol.
Não consegue, esforça-se, debalde, as suas pálpebras parecem coladas, a luz não entra. Mantém-se tudo escuro e imprevisível, o rosto amado esvai-se, o suor na testa, o medo de que aquilo esteja mesmo a acontecer consigo, a esperança de que vá acordar de um momento para o outro.
Não sei se terá sido assim com os doentes que cegaram no HSML...
Na sicn, um dos dois entrevistados, referia-se ao sucedido como a algo que lhe tinha roubado a Vida, gorado todas as suas expectativas.
A outra paciente converteu matematicamente o pensamento de muitos de nós ao dizer:
Para os pobres, justiça = zero.
Para os importantes = não existe punição.
Esta situação é tanto mais grave quanto se sabe o quanto os portugueses perderam a confiança nas instituições, independentemente da sua área de actuação. Corremos cada vez mais riscos quando dependemos de uma forma ou de outra dos ouros, da sua (in)competência. Veja-se o caso do actor António Feio, o de uma pessoa minha conhecida a quem trocaram os comprimidos para a tensão por uns para a epilepsia… tem 85 anos. …
Estamos em risco mais vezes do que aquelas em que acreditamos.
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado.
Luís de Camões
E porque alguma coisa tem de ser feita, fala-se em indemnizações, que é o mínimo, o exigível, mesmo que se reconheça que danos morais não têm preço. Assim como a vida.
Agora já pode abrir os olhos.
Alguns há que não podem dizer o mesmo..