Adoro esta ilustração de John Gurney, com as personagens das histórias infantis em alegre convívio, a beberem chazinho e a comerem queques...
O ladrão de palavras
Há muitos anos, havia um homem que
roubava palavras. As nossas melhores palavras. Metia-as,
cuidadosamente, num saco de linho e desaparecia. Para ser sincero, na
nossa aldeia, que uma sebe de montes abraça, nunca ninguém viu o rosto
do homem e ninguém lhe sabia o nome. Mas, pela manhã, as pessoas
acordavam pobres. Pobres, sempre mais pobres e tristes.
As palavras, nesse tempo, eram de ouro.
O homem introduzia uma palhinha
invisível no nosso silêncio e apartava as palavras. Da mesma arte se
servia para desencaminhar palavras dos livros e dos jornais. Não as
roubava todas, porque isso daria muito nas vistas. Ele aprisionava as
palavras alegres, as mais luminosas, as nossas melhores palavras — e
nós sobrevivíamos no meio de palavras sem sabor.
Palavra insípida é como fruto desconhecido do sol.
Cada dia vivido, menos palavras havia
para agasalhar a tristeza. Era como se a mãe quisesse fazer um
pão-de-ló e não houvesse açúcar; como se nós fôssemos abelhas proibidas
de produzir mel.
Impedidos das palavras luminosas,
emagrecia a imaginação: e assim seria impossível pedalar até ao fim dos
sonhos. O sonho, na nossa aldeia, era veludo que enxugava a melancolia.
Nós conhecíamos o local onde o homem
abrigava o saco da alegria. Ficava num bosque cerrado, nem o sol podia
furar a copa das árvores. O bosque estava povoado de cogumelos:
engordavam de sombra e de humidade. Alguns cogumelos atingiam a
grandeza das árvores!
Nenhum de nós podia ir ao bosque. Entre
outras palavras, ele roubou-nos a coragem. Também correu a notícia de
que os cogumelos seriam venenosos. Todos os cogumelos, os pequenos — do
tamanho de guarda-chuva aberto — e os grandes. Bastaria olhá-los e
perderíamos a vida!
Com o andar do tempo, a nossa tristeza
transformou-se em nuvem. E essa nuvem, de um momento para o outro,
rasurou o sol em quase metade da aldeia: essa parte do povoado ficou
sombria como o bosque.
Todos os dias, porque o silêncio era
tecido de palavras sem sabor, a nuvem estendia o domínio. Temeu-se uma
praga venenosa de cogumelos! Para afastar a maldição, pela manhã,
queimávamos rama verde de pinheiro em redor das casas.
Os cogumelos, enfim, não levantaram a
cabeça. Mas a nuvem, que medrava com o fumo da rama verde, tinha fome,
imensa fome de claridade. Grande parte da aldeia, a dada altura, era
noite. A calamidade! A calamidade, provocada pelo musgo verde, muito
verde deu o primeiro sinal.
«Estranha doença!», disseram os velhos.
No rosto das crianças da aldeia despontou estranha barba, muito verde e húmida.
Testámos todos os xaropes caseiros e
outras mezinhas da imaginação do povo Nada. Nada estorvava o avanço do
musgo no rosto das crianças. E também de pouco valia ir ao barbeiro.
Ele, com a costas da navalha, limpava a nossa cara, mas, na manhã
seguinte, a barba irrompia com mais fulgor.
Os velhos disseram: «Ninguém pode ser homem antes do tempo, é contra as leis da natureza!»
Mandaram chamar o médico.
Não escondeu o espanto, o médico que
veio de longe. Primeiro, por ver o dia e a noite no mesmo sítio e à
mesma hora. Depois a surpresa multiplicou-se à medida que lhe surgiam
meninos barbados e tristes. Apenas observou, com minúcia, uma criança,
e achou remédio para rebater o mal de todas as outras. Abriu a pasta de
couro, retirou um caderno e a caneta. Escreveu rápido. Entregou a
receita, não aceitou o dinheiro da consulta. E partiu a toda a
velocidade, como se a nossa doença alastrasse por contágio.
O ladrão de palavras estava junto de
nós. Ninguém o viu, mas ele esteve sempre no meio de nós. Adivinhámos a
sua presença pelas palavras que a palhinha invisível havia sorvido da
receita:
«A sombra misturou-se com a tristeza. Só um , colher vezes dia
, , silêncio.»
A nuvem, nesse instante, cresceu largos
metros: porque todos nós, velhos e novos, sem saber o que o médico nos
havia indicado, ficámos ainda mais tristes. Mas a última palavra da
receita (que o Ladrão terá achado de pouco valor para guardar no saco
de linho), abria uma pista. Se descobríssemos o verbo que precedia
silêncio, seria desvendado o mistério.
O automóvel do médico havia já dobrado o monte, e foi então, de forma inesperada, que se ouviu o grito:
«É preciso prender o ladrão de palavras!»
O grito atravessou a aldeia, acordou os cães do lado onde era noite, assustou as galinhas da parte onde era dia.
Uma mulher ergueu a voz e os braços na
direcção da nuvem: afrontou (afrontar, o verbo que procurávamos) o
silêncio. De repente, outros habitantes resgataram a coragem, a palavra
coragem, adormecida no bosque dos cogumelos!
A nuvem estremeceu, depois, como bicho
do monte, fugiu espavorida. Num instante, o céu ficou leve, azul,
imensamente azul. E sol, generoso, bebeu a nossa melancolia.
Em grande festa, o povo partiu à
descoberta do bosque. Primeira surpresa: não havia cogumelos gigantes,
muito menos venenosos. Mas o saco de linho estava lá, ao pé de um velho
medronheiro. Abrimos o saco e o saco nada tinha!
Nesse dia luminoso, verdadeiramente
luminoso, no saco de linho vazio prendemos o ladrão da alegria. Ele,
afinal, era uma palavra — a palavra medo.
Francisco Duarte Mangas
O ladrão de palavras
Lisboa, Editorial Caminho, 2006