Uma casa é feita de Lugares.
Depois de um Lugar ao Sol eis agora um Lugar à Sombra.
Uma nova casa, de várias salas, para entrar quem quiser partilhar um pouco da luz das sombras das palavras.
A sombra das Imagens
http://bap63.wordpress.com/
Mas são os lugares que ainda fazem a nossa casa.
Há 3 anos nascia um jornal e uma comunidade. Fiz parte de ambos desde o primeiro dia, do jornal como leitor, da comunidade como habitante de escritas e afins. De repente, parece que 3 anos foi toda uma década e que os mundos, o de lá fora e o nosso, mudaram completamente. Mas não, afinal foi tudo ainda anteontem, ao virar da esquina.
O jornal, que comprei desde o número um, primeiro pela novidade, depois por um certo gosto da diferença e, finalmente, apenas por um hábito parvo, acabou por definhar dia a dia. Basta dar uma vista de olhos e nota-se que a publicidade rareia, o que constitui um autêntico cadafalso para qualquer publicação. Explicar este facto com os tempos de crises é, talvez, bastante enganador, pois a sua crise vem de antes. Numa mistura entre um estilo tablóide e um outro de credibilidade, trouxeram, inclusive, bons nomes da área, nunca se conseguiu afirmar ao viver nessa indefinição.
O jornalismo não vive bons dias. Não começou agora este calendário pessimista, os novos formatos electrónicos da comunicação vieram e vão ditar o fim de alguns suportes, mas os tempos presentes, especialmente em Portugal, estão a ser-lhes fatais. O cair do pano sobre uma suposta isenção e um grande rigor na actividade jornalística, veio mostrar que, afinal, é uma área com níveis de incompetência e de mediocridade como qualquer outra, desde que feita por maus profissionais. Infelizmente, assistimos a isso todos os dias, as notícias de encomenda e o fazer manchetes com assuntos que, depois de lidos, não têm substrato nenhum, surgem como cogumelos.
Em Auditoria procuram-se evidências, na Investigação Criminal a prova e no Jornalismo o facto noticioso, ou seja, a Notícia. Nos 3 está subjacente que por detrás estão factos que se podem comprovar pelo cruzamento de várias fontes e não apenas a suposição, o comentário, o “sound bite”. Mas foi nisto que se transformou em boa parte o jornalismo que se vai fazendo. Mesmo publicações de referência trabalham por encomenda com base nas intrigas e na coscuvilhice, afinal o habitat natural da imprensa cor-de-rosa, sempre tão desdenhada pela dita imprensa séria. Reparamos, muitas das vezes, que o dito jornalismo de investigação é, afinal, um conjunto de episódios recolhidos ao sabor do sopro e berrados histericamente, sendo que a escrita também pode ser gritada, em função de muitos interesses que não o de informar. No fundo, trouxeram o táxi para dentro das redacções
Neste aspecto o jornal Sol acaba por ser exemplar, por ser um espelho de todo este novo tempo decadente, tanto mais que alberga, a versão online, uma outra parte desta questão, que é uma Comunidade de Blogues.
Esta nova plataforma de comunicação veio mudar um pouco a forma como a informação hoje é tratada, pois passou a ser não só o eco de tudo o que é publicado, repetindo até à exaustão as notícias e os acontecimentos de outros meios, como também uma própria fonte para a criação dos ditos factos que depois a velha comunicação amplia e divulga. Uma espécie de pescadinha de rabo na boca, mas com dentes de piranha pois vai acabar por se comer a ela própria. Mas sobre isto, não vou mais longe, já está mais do que falado, inclusive por mim, noutros tempos.
Gostaria só, nesta pequena e média efeméride, de realçar a pequena e média Comunidade que aqui se instalou. Como um autêntico condomínio, as pessoas abriram janelas e deixaram passar a luz que habitava dentro das diversas salas que eram suas, com mais cor menos cor, o certo é que o prédio foi ficando engraçado pois albergava todo um manancial de espécies e de variantes cromáticas. Uns aproveitaram e estenderam nas janelas autênticos lençóis, outros sacudiram apenas o pó das ideias que guardavam nos seus armários, e ainda outros resolveram tão somente atirar foguetes e dizer adeus a quem passava. Tudo bem.

O problema é que alguns começaram a vir à janela, debruçando-se sobre os peitorais, para apenas comentar o que outros estendiam. Se a coisa funcionava bem quando se elogiava o pano sacudido, piorou quando começaram a reclamar sobre o pó que caia na sua ombreira e azedou mesmo quando, à janela ou nas marquises de trás, resolveram intrigar sobre o tipo de pó que andaria lá por baixo de camas e armários uns dos outros. Para complicar, vieram ainda uns e-snipers que decidiram atirar sobre quem vinha à janela. Instalou-se a confusão e daí a um ambiente neurótico no condomínio foi um passo de pardalinho.
Uns, fartos da gritaria, resolveram sair e procurar habitação noutras paragens mais sossegadas. Outros, levantaram o som da televisão para não ouvir o barulho à volta, e continuaram a abrir a janela, agora já não tão escancarada. Claro que o pessoal dos tiros e da berraria continuou a sua irrisória vida de ataques, como se fosse uma espécie de oxigénio para a sobrevivência dos seus pequenos e tristes dias. Um táxi desgovernado começou a circular dentro do condomínio.
É estranho, que um jornal que teve todos os pássaros na mão, inovar na apresentação da notícia, inovar na ligação aos novos suportes, permitiu que voassem todos, apenas porque deixou cair as próprias ideias que em tempos construíra, incluindo uma casa com janelas de todos nós.
Assim, aquilo que teve, em tempos, belas paisagens e belas ideias, apagou-se num lume de estilhaços.
Uma casa vazia arrefece.
De loucos, aos poucos, tudo parece que se aquece. Queima. Vêm em bandos, feitos palhaços de um circo que se esquece. Trazem trapézios contrafeitos de palavras recolhidas em qualquer depósito de latas baratas, retratos digitais de saltos banais salpicados com o cansaço dos dias em que queriam ser domadores de leões.
Não adianta abrir as janelas e espreitar, já poucos moram nelas para namorar e petiscar ideias com molho de palavrões. Apenas um táxi enorme espreita os serões de comadres coscuvilheiras, soalheiras, que assentam os gordos peitorais nos degraus do fim da estrada, sinais a muito dizer e nada fazer. Talvez uma manta de retalhos bordada com a língua fina com que resolveram brincar, seja apenas a única peça que enche agora aquela sala que acabaram por esvaziar.
A bandeirada esgotou, se havia mais eu, míope, não a vi. Que raio de rua é esta que resolveu entupir a festa?
Pare! Saio já aqui.
“O sucesso nos investimentos consiste em antecipar o que os outros anteciparão”
Não esquecerei.
Começarei por investir contra todos os camelos que me aparecerem pela frente a venderem-me futuro em pacotes com alto teor de acúcar.
Caso contrário, irei acabar, por certo, a investir contra as paredes, o que, diga-se, não aportará lá muita liquidez aos meus dias.

No que é que uma mulher pensa quando se apanha sozinha em viagem? Compras. E o que pensa um homem? Sexo. Já se sabe, esta espécie de pelos na cara, mal se apanha com umas malas em solo estranho, começa logo com as hormonas em curto-circuito a fulminar o pensamento, onde posso um ver show bem quente, será que no hotel vai haver algum convenção da Avon, a loura do secretariado do seminário terá reparado em mim?
Se um homem pensa em sexo 8 vezes por dia, logo que faz o controlo de fronteira, entra num processo multiplicador, e passa a ter uma reflexão sexual continua em que, apenas em curtos intervalos, pensa coisas do seu dia, nomeadamente trabalho. Talvez por isso, sempre que um homem vai em negócios faz sempre péssimos negócios, que o digam uns ares de Puerto Rico tão conhecedores de grandes negociatas.
Ok, sou capaz de estar a exagerar, os homens também pensan noutras coisas importantes, como onde se pode comer bem, no sentido literal do termo. Ou seja, a espécie além de esticar antenas para sentir as vibrações da libido que anda no ar também mete no radar do seu GPS do aprazimento umas coordenadas gastronómicas. Digamos que o solo estrangeiro funciona assim como uma espécie de vitaminas para abrir o apetite, seja ele qual for.
O problema é que entre o desejar e o consumar vai por vezes uma distância maior do que o outro lado do Atlântico. No entanto, situações há em que se procura pôr de imediato Miami ou NY mesmo aqui ao fim da rua.
Pois então, eis mais uma Cena Cortada do Filmezinho das Nossas Vidas, desta vez interdito a menores de 18 e apenas para homens, ou seja, menina não entra.
Ah, dizer das Nossas Vidas é apenas uma força de expressão, claro!

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No que é que uma mulher pensa quando se apanha sozinha em viagem? Compras. E o que pensa um homem? Sexo. Não adianta negar, vem escrito nos genes. Mal um gajo se apanha liberto das amarras em terra estranja só pensa em soltar a franga.
Pedro escutou estas palavras e não ousou contrariá-las, não porque concordasse literalmente, mas porque rebater o seu amigo e colega Bernardo era uma tarefa inglória, especialmente quando ele vinha com as suas retóricas sexistas, exacerbadas agora que o erudito tinha um blogue onde despejava as suas teorias de pacotilha sobre comportamentos.
- É por isso que eu arranjei um programa fantástico para a nossa ida a Barcelona – anunciou Bernardo. – Vai ser de arrasar.
- Vê lá no que nos metes, olha que eu quero paz e sossego – avisou Pedro, já a temer que a coisa pudesse ficar complicada naquilo que seria uma simples viagem profissional de 2 dias para uns workshops chatos de marketing, normalmente umas reuniões em cadeia onde se tiram umas conclusões muito engraçadas que depois se esquecem de imediato quando se regressa a casa. Bernardo tinha uma teoria, aquilo era uma espécie de recreio empresarial, em que os mais durões, chefes e afins, se querem exibir na brincadeira, para mostrar que são inteligentes e têm grandes ideias, e obrigam os mais fracos, os funcionários normalizados, a fazerem parte da reinação. Felizmente que havia sempre umas colegas tolhidas de boas que alegravam o joguinho, dizia ele.
- Aquilo vai se um aborrecimento completo, eu estive a ver a listagem do pessoal participantes e é uma seca, no nosso grupo estão 2 alemães convencidos que têm a mania que mandam em tudo, ainda não lhes passou o Fhuer. Bom, então de gajas é uma miséria completa, desta vez os deuses não estão connosco, só vão três e duas delas, já as conheço, são uns autênticos estafermos, daquelas que ficam em último lugar num concurso de misses mesmo quando são as únicas correntes. Há esperança apenas numa, mas não se pode arriscar. O melhor é tratar da nossa vidinha fora dali. Estive a ver umas coisas na net…
- Bom, eu nem quero saber.
- Mau-mau, mau-mau! Não te armes em pudico. Vais agora dizer que não gostavas de um pouco de Carnaval? Conheço-te bem e sei que mesmo com esse ar de sonso fazes os teus caldinhos.
- Uma coisa é uma rambóia, outra coisa são os teus esquemas. Mas vá lá, diz-me o que andaste a congeminar.
- Qual é a tua maior fantasia?
- Porra, sei lá! Achas que no meio da análise de uma pilha contratos eu consigo reflectir sobre os meus desejos secretos? Poupa-me!
- Ok, poupe-te então ao confessionário, afinal isto vai dar tudo ao mesmo. Sabes, eu já fiz muita cena, já pintei a manta de todas as maneiras, mas há uma coisa que nunca fiz e ando com a pulga a picar-me, que é participar numa orgia.

Pedro não caiu da cadeira, mas não deixou de entornar o copo de água num dos contratos, irra, já tinha que ficar até mais tarde para compor aquilo.
- É isso pá, uma loucura total, chegar ali e tudo ao molho – reafirmou Bernardo, um pouco deliciado com a atrapalhação do amigo. – Já tratei de tudo. Estive a ver na net, há um site sobre um grupo em Barcelona onde nos podemos inscrever, marcamos a noite e pronto, aparecemos.
- Eu não quero acreditar que estejas a falar a sério. Já te imaginaste realmente numa coisa destas, ainda por cima numa altura cheia de doenças.
- Ouve lá, andas a ver muitos filmes porno. Aquilo é quase inócuo, é mais mexer, reboliço e tal do que propriamente fornicanço puro e duro.
- Uma coisa na net!? Sabes lá onde nos podemos meter, tu não viste aqueles filmes de terror, Hostel e coisas assim?
- Deixa lá os filmes, aquilo pareceu-me uma coisa segura. Há uma pré-inscrição e tem lá a morada deles e tudo, aquilo é um grupo que costuma arranjar umas faenas destas.
- Bernardo Pimentel, sabes que mais? Cura-te!
Mas Bernardo não só não procurou nenhuma terapia, como levou adiante a ideia e inscreveu-se a ele e ao amigo na tal orgia. Como sempre, inventou todo os dados, mas mesmo que não inventasse o resultado não seria muito diferente, pois como o site estava em catalão não entendeu muito o que era solicitado. O pior é que não foram só os dados que ele não entendeu, todo o enquadramento da festa sexual não pôde ser muito analisado face à estranheza da língua. Sabia que era uma orgia imensa e a morada, era o que interessava.
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Na viagem até Barcelona pareciam 2 crianças excitadas com as aventuras que iam fazer nas férias. Mesmo Pedro, que rejeitou a ideia, mal se apanhou no avião começou a ficar entusiasmado com a hipótese de experimentar toda aquela loucura. O facto de não ir sozinho levava-o a sentir-se um pouco mais seguro.
Mal chegaram ao hotel o tom eufórico começou a desvanecer-se, havia uma confusão nas reservas e só havia um quarto marcado. O pior não foi o hotel estar cheio e não haver mais nenhum espaço para albergar outro dos portugas, o pior foi mesmo quando chegaram ao quarto e viram que a cama era enorme, mas de casal. Não adiantou reclamar para a recepção, do outro lado só escutavam “completos, estamos completos” ou então algo que não entendiam mas que presumiam que não seria nada abonatório sobre eles.
- Começa bem, para quem vinha para a rambóia total com todas as chicas das redondezas acabamos juntos, os 2 mânfios, na mesma cama – desabafou Pedro, sentado num cadeirão sem vontade de desfazer as malas.
- Deixa lá, que isto compõe-se. Amanhã arranjam-nos mais um quarto – sossegou Bernardo. – Além disso, também não era aqui que íamos fazer a festa.
- Era a última coisa que me apetecia, dormir contigo. Não vou dormir nada.
- Está descansado pá, que mesmo que eu um dia virasse para o outro lado não ia querer nada contigo. Já que ia ser assim, ao menos queria coisa de primeira água – brincou Bernardo. - Não é por nada, mas não fazes propriamente o meu género.
Pedro sorriu, mas, apesar do alívio de saber que podia ter uma noite descansada, sentiu o seu ego um pouco lá por baixo, afinal ninguém gosta de ser desconsiderado. Arrumaram depressa as coisas e fizeram-se à cidade, estar naquele quarto passou a ser uma situação desconfortável.
À saída do quarto, no corredor, esbarraram numa empregada da limpeza que, ao ver quem tinham saído de uma suite matrimonial, lhe lançou um sorriso maroto.
- Eu nem quero acreditar que estamos a passar por um casalinho – voltou a lamentar-se Pedro, no elevador, enquanto se olhava ao espelho e verificava se realmente não era de primeira água.
- Que ideia! Tu achas que alguém ia acreditar que um tipo como eu podia andar com um tipo como tu?!
Mais um comentário assim e Pedro quando regressasse a Portugal tinha iniciar sessões de psicoterapia. No entanto, na rua depressa virou as atenções quando Bernardo lhe apresentou a sugestão da noite.
- Como temos que estar frescos para a sessão de trabalho amanhã de manhã e depois finos para a grande festa da noite, o melhor é fazermos uma coisa simples e regressarmos relativamente cedo. Vamos apenas jantar e pronto.
Pedro não queria acreditar no que ouvia, o seu amigo Bernardo a apresentar um simples e banal programa nocturno. Devia estar doente, por certo. Ou será que afinal estava a ficar curado da sua enorme panca de tarado sexual? Não, a patologia erótica mantinha-se, o jantar ia ser num restaurante coqueluche, segundo alguns guias da capital catalã, onde a comida era supostamente afrodisíaca servida por belas empregadas em topless e fio dental.

- Vamos carregar baterias para amanhã à noite – justificou Bernardo, depois de ter anunciado mais uma das suas eleições, um pouco antes de chegarem ao restaurante, também ele escolhido na plataforma digital global.
- Para quem vai ter que dormir na mesma cama, não sei se será boa ideia isto de ir arranjar excitação extra – disse Pedro, mais uma vez receoso com a ideia de ter que compartilhar a cama com um homem, logo ele que se pudesse, mesmo casado, dormiria sozinho quando fosse mesmo para dormir, pois tinha o sono muito leve e acordava ao mínimo toque.
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O problema de Pedro com uma provável libido desgovernada ficou de imediato solucionado mal entraram no restaurante, aquela noite era uma de ladies night e as suspostas ardentes empregadas em lingerie diminuta tinham sido substituídas por uns matulões de bíceps insuflados e desnudados, com apenas uns boxers, justos e curtos, de cetim lilás. Já para não falar da clientela, ruidosamente feminina na sua maioria e alegremente masculina alternativa em minoria.
- Pelo menos não falta mulherio, pode ser que ainda nos toque alguma coisa – tentou consular Bernardo, perante o desalento e o incómodo de Pedro.
Mas se tivesse tocado, por certo, não teria sido da ala feminina, mas sim de uma outra que, apesar de também vibrar sempre que um empregado desfilava com uma bandeja na mão, fazia a barba todos os dias. Afinal, dois tipos numa mesa, numa noite em que o corpo masculino era a estrela, só podiam mesmo captar o olhar de congéneres da tal minoria alternativa, e nunca a parte fêmea, que apenas os viam como mais um casalinho inacessível.
- Não percebo aqueles tipos, estão ali os dois de beijos e abraços mas não param de olhar para nós – comentou Bernardo, já um pouco desconfortável com a investida à distância. – Não chegam um para o outro? Parece que querem ainda mais.
- Não eras tu que querias uma orgia? – ironizou Pedro. - Se calhar eles também. Será que não se inscreveram na mesma festa? Vê lá!
- Até podem lá estar, mas não vão faltar mulheres, eu vi umas fotos no site de festas anteriores.
- Fotos, mas os gajos publicam fotos? – perguntou Pedro, engasgando-se com um pedaço de beringela com queijo, que já lhe estava a custar passar na garganta, pelo facto de ela vir montada numa forma fálica.
- Ná, devem ter tirado só umas como exemplo, para as pessoas verem como aquilo é. Além disso, já te disse que o pessoal está todo nu mas tem uma máscara.
Se o jantar já estava a ser desconfortável naquele momento passou a ficar aterrador, Pedro não parava de pensar na festa, como é que ele ia andar nu no meio de uma multidão, com uma mascara ridícula na cara, e ainda poder ser fotografado? Se um dia se soubesse daquilo lá pelos lados das terras lusas, não só Paula lhe punha a mala à porta, como a sua querida mãezinha dava entrada numa urgência hospitalar em estado terminal. No entanto os pensamentos sinistros depressa lhe passaram quando reparou que tinha quase uns glúteos espetados na sua cara. Um empregado fazia uma dança especial com as ancas para umas clientes da mesa ao lado e num dos passos mais ginasticados espetou o seu traseiro de ginásio em direcção à mesa de Pedro.
- Ainda bem que estes gajos se depilam – observou Bernardo.
- Porquê, na tua primeira água não podem estar peludos?
- Não, apenas estar aqui a comer, ou a fingir que tal, e andarem estes marmanjos em cuecas a passear de um lado para outro, não seria muito recomendável se os gajos fossem peludos. Engraçado, vejo que amofinaste com aquilo de não seres a minha primeira água.
Pedro não respondeu à provocação, sugeriu que fossem embora, estava com vontade de ir à casa de banho e a ideia de ir à do restaurante assustava-o um pouco, não queria ter encontros imediatos de terceiro grau com a clientela masculina presente num sitio onde se tem que deitar calças abaixo. Mas a conta demorou e pressão urinária não sossegou, Pedro acabou mesmo por ir às instalações sanitárias daquele espaço que estava a ficar pior do que a casa fantasma.
Entrou a receio. Aparentemente não estava ninguém. Dirigiu-se imediatamente ao urinol. Quando estava a meio da sua libertadora função sentiu que uma porta de uma cabine se abriu. Não olhou, tentou manter-se tranquilo, apesar de se aperceber que quem estava nos lavatórios podia enxerga-lo directamente naquela situação. Esse facto provocou nele uma contracção, impedindo-o de chegar ao fim do acto. Por fim, com algum esforço chegou ao epílogo do alívio. Terminada a função, apertou as calças, voltou-se e dirigiu-se ao lavatório. Ficou para morrer. Ao espelho, estava uma bonita mulher retocando a maquilhagem.
- Perdon, tive que venir aqui – disse ela. – La nuestra estava completa e yo mui apertadita.
- No problema – disse Pedro, arranhando um espanhol pouco ortodoxo, aliviado por a invasora ser uma mulher, mas embaraçado por ter estado naqueles preparos também à frente de um exemplar do belo sexo.
- Vale, aqui somos todas chicas, non?!
Antes de sair, e depois de ter guardado a maquilhagem na carteira, a espanhola deu mais uma olhadela para Pedro.
- Poes en outra encarnacion, se te vienes al outro lado de la fuerza, llama-me. Es que está mui bueno, hombre!. Que malgastar, por Díos!

Bernardo estranhou a boa disposição com que Pedro voltou da casa de banho, mas nem perguntou a razão. Não queria mesmo saber.
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Chegados ao quarto iniciou-se o processo mais complexo da noite, dormir na mesma cama. Sem terem combinado nada, adoptaram uma estratégia idêntica, dormir cada um junto à sua beirinha, no limite do abismo do colchão. Assim, não havia o perigo de nem um hálito tocar no outro. Resultado, foi uma autêntica noite em que esteve a chover homens no chão. Pelo menos, assim pensaram os ocupantes do quarto de baixo que passaram a noite a ouvir ora um, ora outro, a cair da cama. Tal foi o número de quedas, ao mínimo movimento do sono iam pelo abismo abaixo, que os hóspedes de baixo fizeram queixa na recepção pelo reboliço da noite. Mais uma vez Pedro e Bernardo tiveram que levar com um sorriso maroto, quando o concierge lhe pediu que fossem mais discretos na próxima noite.
Felizmente que era um novo dia e tinham um workshop pela frente. Durante as sessões, poderiam ter anunciado as suas promoções a vice-presidentes que eles nem notavam, tal era o estado embrenhado dos seus pensamentos com a finalmente grande e explosiva festa que os esperava pela noite.
Foi com alguma dificuldade que se livraram do programa cultural que a organização tinha perspectivado para a noite, uma jantar de comida catalã e uma ida a um espectáculo de teatro de vanguarda, um dos muitos que anima a bela urbe de Barcelona. Lá disseram que tinham um parente a viver na cidade e que tinham combinado um jantar com ele.
- Era o que mais me faltava aturar estes estafermos também pela noite. A única tipa de jeito tinha que ser casada com aquele estafermo do vice-presidente dinamarquês – comentou Bernardo enquanto iam a caminho da ditosa orgia.
Pedro nem respondeu, ia num estado de nervos tal que as palavras ficavam entaladas. Nem mesmo ao jantar, onde despacharam umas sandes à pressa, soltou o pio. Bernardo, pelo contrário, falava e falava sem parar. Talvez também por estar nervoso.
Tiveram alguma dificuldade em encontrar a rua onde ia decorrer o grande evento, mas ao fim de algum tempo estavam numa ruela, mal iluminada e apertada, que ostentava na placa o mesmo nome que eles traziam apontado num papel.
- Achas mesmos que devemos entrar? – perguntou Pedro receoso.
- Ó pá, agora que chegamos até aqui, vamos até ao fim. Estamos os 2 juntos nada nos pode acontecer. Além disso, estamos em Barcelona, uma das cidades mais desenvolvidas do mundo, não estamos propriamente num paíseco obscuro qualquer.
- Promete-me uma coisa, se a coisa não estiver a correr bem para um de nós, saímos os dois, ok?
- Claro, isto só tem piada se tivermos bem os dois e não um a fazer o frete porque apenas o outro quer lá estar. Vamos?
- Ok. Algarve, aí vamos nós!
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Riram-se. Ajeitaram os casacos e tocaram à campainha. Um fulano de quase 2 metros de altura e com uns ombros mais largos do que a própria porta atendeu-os, começou por lhe perguntar os nomes e a identificação. Confusão geral. Bernardo tinha dado nomes falsos e não tinha nenhuma identificação que provasse essa identidade criada na net. Num espanhol meio confuso lá lhe disse que se tinha enganado nos nomes, o que enfureceu ainda mais o gorila, que gritou que aquilo era uma coisa séria, de responsabilidade. Com a confusão apareceu um outro fulano, menos encorpado, que acabou por achar piada ter ali 2 portugueses a querer participar naquilo e deixou-os entrar, não sem antes os ter obrigado a identificar e a assinar um papel em que assumiam que era por livre vontade que ali estavam. Pelo menos era isso que eles acharam que assinaram, dado que estava em catalão a declaração em causa.
O segurança encaminhou-os para uma sala ampla onde várias pessoas se despiam. Bernardo e Pedro tiraram logo o retrato dos restantes participantes. Ficaram mais aliviados, a população masculina era maioritária mas havia, mesmo assim, uma representação razoável do sexo feminino, algumas delas bastante interessantes, segundo a douta opinião de Bernardo.

Despiram-se discretamente a um canto. Quando iam tirar a roupa interior, alguém lhes disse que a podiam manter até ao início da orgia se quisessem, ou, pelo menos, foi isso que eles entenderam. Assim fizeram, havia que guardar bem o trunfo para quando o jogo fosse a sério. Um outro tipo corpulento começou a distribuir umas máscaras para que as colocassem durante todo o acto. Pedro achou uma parvoíce, ir colocar máscaras agora que todos já tinham visto a cara um dos outros, mas mesmo assim colocou a sua. Será que iria aparecer alguma alta individualidade? Quando se olhou ao espelho sentiu-se ridículo, estava assim uma espécie de Zorro em cuecas.
- E se eu não conseguir ficar no ponto? – perguntou Pedro aflito, como uma criança pronta a desistir da brincadeira por ter a sensação que não ia ganhar.
- Tarde demais para teres dúvidas existenciais, não achas?
- Não sei se com esta gente toda me consigo excitar, já viste a confusão que vai ser? Olha para o maralhal que está aqui?
- Não penses nisso. Entra na cena, vais ver que no meio daquele reboliço ficas uma fera. Além disso, ninguém te conhece para falar de ti.
O tempo para Pedro hesitar não foi muito. Um tipo, vestido à guarda romano, começou a falar qualquer coisa, em catalão, enquanto que outros dois, vestidos da mesma maneira, rodearam o grupo.
- Não estou a gostar disto – comentou Pedro ao ver as novas personagens com uns arpões de cabo grande na mão. – Para quem vem para uma coisa destas, ver aqueles gajos com paus pontiagudos na mão não anima muito.
Mesmo sem entenderem o que dizia, perceberam que o guarda centurião dava as instruções para o acto. Na orgia podia ser tudo ao molho, mas pelos vistos tinha mais regras do que uma coreografia da companhia nacional de bailado. Perdido por cem, perdido por mil, não se preocuparam mais e deixaram-se ir na onda. Primeira tarefa, tirar a ultima peça de roupa. Num instante todo o grupo ficou pronto a ir a banhos numa praia nudista. Pedro, mesmo assim, lá colocou as mãos à frente, que ainda não estava na hora de mostrar o seu tesouro, queria mesmo impressionar quando estivesse no ponto.
Entraram para uma sala, não muito iluminada, em que um enorme e redondo colchão cobria o chão. Subiram para a plataforma do amor mas ficaram estáticos como que à espera da ordem de partida, que não tardou, pois o guarda romano, que conjuntamente com os outros dois se colocou à volta do grupo, disse qualquer coisa que devia significar começar. Mal foi proferida a palavra de largada todo os colegas sexuais começaram a movimentar-se num ritmo bastante espalhafatoso, eles apalpavam-se, eles rebolavam-se um por cima de outros, eles guinchavam. Pedro, um pouco tonto, olhava especado para tudo aquilo.
- Mais do que prazer, parecem é que estão possuídos – pensou Pedro, enquanto tentava procurar Bernardo no meio da multidão, mas este nem ligou ao olhar do amigo pois já estava bastante empolgado com duas louras que lhe couberam como vizinhas.
Com alguma dificuldade, Pedro tentou abstrair-se e entrar no jogo, começou por procurar algum pedaço de boa carne que fosse bom para mexer, mas não via meio de chegar a terra firme. Por fim avistou uma donzela deitada que lhe pareceu uma boa forma de começar, dobrou-se para chegar a ela mas a meio da viagem foi interrompido. Um grande, gordo e peludo rabo masculino quase que se enfaixou na sua cara. Sentiu um dilúvio de suores frios com a contemplação daquela paisagem tenebrosa a poucos centímetros dos seus olhos. Recuou de imediato e só não saiu a correr porque naquele momento isso ainda seria mais complicado. Enquanto isso, todo o resto do pessoal parecia bastante animado, pelo menos agiam como tal.
Pedro acalmou-se e tentou fazer nova investida, agora que o proprietário do traseiro horribilis já se tinha desviado, mas voltou a ser suspenso na tentativa de acesso ao jardim das delícias, pois o braço de uma parceira, bem animada com a sessão, bateu-lhe na cara e fez saltar-lhe a máscara. O seu acessório de zorro depressa voou e foi cair no meio de um entrelaçado de corpos. Que fazer? Pôr-se de cócoras à procura do sua peça de anonimato, jamais, num cenário daqueles seria a morte do artista, era preferível mostrar a sua graça de fronte, assim como assim, ninguém o conhecia.
À terceira foi de vez, conseguiu finalmente entrosar-se com o pessoal e lá se agarrou a uma espanhola que parecia eléctrica, tanto nos movimentos como no falar. Mais do que deleite, Pedro sentia era uma enorme vontade de rir com tudo aquilo. De repente, quando começou a sentir mais qualquer coisa, sentiu-se a elevar, sentiu que o chão se erguia. Bernardo tinha falado da explosão de prazer que seria uma coisa assim, mas daí chegar ao céu com aquilo tudo ia uma grande distância.
Ao céu não chegou, mas ao topo de um palco foi de imediato. Lá estavam eles, toda a orgia, bem no meio do palco enquanto que um conjunto de actores debitava umas falas para a plateia.
Podiam ter pensado em tudo, inclusive que seriam esquartejados, mas nunca que a famosa orgia, onde se tinham inscrito, era apenas uma perfomance de um grupo de teatro vanguardista catalão que levava à cena a peça a Orgia do Poder, onde, todas noites, recrutava anónimos, através da Internet, para comporem a orgia-quadro que fazia parte do último acto, uma mistura de teatro pós-moderno com uma instalação humana.
Meio cego com as luzes e aturdido com toda aquela movimentação, Pedro caminhou um pouco até à boca de cena para perceber o que se estava passar, mostrando-se assim, como veio ao mundo, a uma plateia. O seu tesouro, no qual ele tinha, digamos, um imponente orgulho, e que até tinha impressionado uma espanhola caliente numa casa de banho, ficou, naquele momento, reduzido a um autêntico tesourinho, quando vislumbrou uma mar de gente a assistir. Os actores, temendo complicações, lá o desviaram para não interromper mais a marcação. Mas ele não parava de olhar tudo aquilo, de boca aberta. Como era possível estar ali? O público também se interrogava porque razão só havia um soldado da orgia que não tinha máscara, especialmente o pessoal da primeira fila, colegas de trabalho de um workshop sobre marketing, que num roteiro cultural na cidade tinham escolhido aquela peça de vanguarda intelectual.
- Oh my God! That one isn’t Pedro, the guy of Portugal? – gritou uma das senhoras do grupo excursionista empresarial.
Aquilo que era uma orgia controlada, quase coreografada, virou, de um momento para outro, uma bagunça. Pedro começou a saltar por cima daquela gente toda para sair dali, mas só sentia braços e pernas a prende-lo, como se estivesse a lutar contra um polvo gigante. Decidido a levar até ao fim a sua fuga não hesitou em empurrar e calcar, mesmos nas partes menos próprias, quem se pusesse na frente. Assim, depois de gemidos de prazer, passam a ouvir-se berros de dor com asneiras, numa língua estranha, à mistura. Mal se livrou da teia labiríntica de corpos, tentou encontrar uma saída no palco, mas as luzes e uma encenação modernista impediam de a encontrar. Só quando deitou abaixo 2 pilares, um arco, umas estatuetas e uns cortinados de veludo vermelho, encontrou finalmente a saída do palco. Quando já estava tudo a ficar mais calmo, Bernardo emerge do meio da pilha de corpos e sai a correr atrás do amigo, afinal pacto era pacto.
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Só quando se apanhou no avião de volta Pedro se sentiu aliviado. Ainda nem queria acreditar no que tinha acontecido. Imagens em flash invadiam-lhe a mente. Tentou esquecer todos risinhos parvos dos colegas do workshop no dia seguinte, sempre que olhavam para ele, para ver se dormia um pouco, afinal não tinha pregado olho na noite anterior.
O pessoal do avião quase que entrou em pânico quando ouviu um berro. Pedro, ao ter um pesadelo, gritou, sonhara com um traseiro grande, gordo e peludo a voar mesmo em cima se si.
Paula não percebeu porque durante uns tempos o marido não estava interessado em sexo. Cismava que ele tinha arranjado uma espanhola.
ID7
1. Crise MILLIONAIRE |
Danny Boyle, realizador do Slumdog Millionaire, devia ter agradecido a Bush, ao Lehman Brothers e a todos os responsáveis por esta crise bárbara por o terem ajudado a ganhar o Óscar. Apesar de ser um filme com o qual simpatizo bastante é notório que só ganhou a chuvada de prémios porque, face aos tempos amargos que vivemos, havia a necessidade de premiar a esperança. Quem melhor do que o Slumdog para simbolizar isso, um filme onde um rapaz das favelas consegue sobreviver e ser feliz ao lado de um eterno amor? Conto de fadas? Talvez, mas em tempos de depressão é disso que as pessoas precisam. Benjamin Buton, um produto superior de cinema, tinha mesmo que ficar esquecido, afinal é um filme amargo e deprimente sobre o queimar do tempo, em que envelhecer é perder mas ficar jovem não é ganhar. Foi-lhe fatal esta melancolia. |
2. Um caso de Furniture |
Sean Penn (Milk) ganhou e merecia ganhar. É um daqueles casos grandes do acting. Mas o favorito era Mickey Rourke (O Wrestler) por ser a eterna recuperação. Não apostei nele e acertei. Penso que a Academia em lugar de optar por um baú, de onde se está a desencantar um canastrão adormecido, escolheu o armário de onde saiu, há muito, a personagem de Sean. |
3. KATE amiga |
Desta vez foi de vez, a Kate Winslet levou a estatueta e fez discurso, mesmo que o seu papel no Leitor não seja nada de espantar, mesmo que já tenha feito muito melhor, mesmo que tivesse por vizinha de nomeação um furacão chamado Meryl Streep. Parece-me que as estrangeiras tomaram conta da praça e não há americana que molhe o bico na noite dourada. |
4. Olé, Penelope |
Mais do que um bom papel o importante é o folclore e as castanholas, assim devem ter pensado os membros da Academia, porque o prémio a Penélope Cruz é apenas a distinção do exotismo com que os americanos vêem o salero espanhol. Mesmo com todas as embirrações e os limites da muchacha ela é ainda o melhor do último filme de Woddy Allen, uma seca imensa encomendada pela junta de turismo de Barcelona. Um filme que não arranca e que parece que apenas quis ilustrar a paisagem espanhola de uma forma intelectual. Como sempre mete americanos (as) a pensar que as coisas por cá, no velho continente, se resumem a grandes orgias (3), claro que com grandes considerações existencialistas. |
5. O Fantasma da Noite |
Heath Ledger merece mesmo. Não há nada como morrer para as pessoas distinguirem um filme de acção. Sugiro que comecem a limpar o sebo aos protagonistas de Homem de Ferro 2, Transformers 2, Wolferine e afins. Já agora, estou à espera que um ilustre elemento aqui da casa diga qualquer coisa sobre “não posso aceitar que se nomeie, e muito menos, que se possa premiar alguém que morreu de overdose…” . E esta ein?! |
6. O Luxo e o Lixo |
Mais uma vez foi comentado o grande luxo com que as estrelas se apresentaram, especialmente as femininas, no red carpet, e como aquilo era ostensivo com os tempos de crise. Ó gente, é em tempos de crise que devemos deixar que os ricos gastem as massas em comprinhas, porque o consumo dele é importante para a economia. Se tivessem ido com vestidos de chita, tínhamos não sei quantas casas de alta-costura a fechar portas e a despedir a mão-de-obra barata que empregam. A sério, é importante que, em tempos de crise, os ricos consumam e a classe média poupe (não se endivide). Voltarei a este assunto brevemente num post perto de si. |
7. Diálogo do Absurdo |
Ao chegar a casa: Angelina: Brad, liga-me para a embaixada do Burkina Faso. Brad: Vais lá fazer um novo filme ou buscar uma criança? Angelina: Vou emigrar, vou pedir a nacionalidade brukinafasiense. Brad: Estás doida? Angelina: Não, mas é a única maneira de se ganhar um Óscar nesta terra, ser uma actizeca estrangeira. Brad: Não fiques assim querida, que eu também não ganhei nada. Fica para a próxima. Angelina: Mas tu nunca ganhas nada, meu pastelão. Se nem mesmo este ano que fizeste de entrevadinho conseguiste quanto mais nos outros. Olha, vai mais é ver como estão as crianças, que eu vou fazer mais uma tatoo. |
Nunca pensara que uma coisa a pudesse assustar tanto, que olhar para ela sentisse uma sensação de medo aterrador e de náusea repulsiva ao mesmo tempo. Mas ali estava, sobre ela, sobre a cabeça dela, Aquilo, uma imagem horrível. Alice, saiu a correr, aos gritos, pela rua fora, deixando cair e a rolar pelo chão as maçãs, caríssimas, por sinal, que tinha acabado de comprar na única mercearia ainda existente no bairro.

- Malucas! – murmurou o merceeiro, enquanto se preparava para voltar a apanhar algumas das maçãs que não rebolaram pela rua abaixo, mas depressa foi interrompido nessa sua intenção. Olhou para o céu e viu Aquilo. Como homem, evitou dar uns gritos estridentes de medo, mas o seu coração quase que saiu pelo peito fora e foi fazer companhia às maçãs rolantes. Esmagado pela imagem horripilante que pairava sobre ele, recuou e encostou-se à banca da fruta, que tinha montando em frente à sua porta, mas o seu peso avantajado, pelos anos sofridos e por muita cerveja ao final da tarde, deitou abaixo toda aquela montra exterior de produtos agrícolas decorada com preços de saldo, julgava ele, em papel amarelo. No meio do caos da fruta a deslizar pela via, o merceeiro, perdeu o pudor e saiu, também ele, a correr e aos berros pela rua abaixo.
Alarmados pelo alarido, as pessoas começaram a sair à rua. Por momentos ficaram estáticas e mudas ao ver Aquilo, terrível e esmagador, sobre as suas cabeças. Depois, como marionetas de fio rasgado, começaram, em pânico, a correr de um lado para o outro, tontas, erráticas, numa berraria desafinada, tentando fechar-se em casa, janelas corridas, desaparecer nos carros, malditos motores que nunca pegam quando precisam, ou simplesmente fugir em passo rápido para um outro local em que não se vislumbrasse semelhante coisa. Depressa viram que não adiantava, a imponência de Aquilo fazia com que pudesse ser visto em qualquer parte da cidade.
- Fábio Alexandre, corre! – gritou uma mãe para uma criança que, indiferente a Aquilo e a todo aquele acontecimento, apanhava as maçãs que, por magia, tinham vindo a desfilar para o seu o chão. Ainda conseguiu trincar uma, antes da sua mãe o quase ter atirado em voo picado para dentro de casa.
Na tentativa de fuga, o choque entre os carros foi inevitável. Agora, mais do que o temor da ameaça que pairava sobre eles, era o pânico de estar enjaulados dentro chapa amolgada, sem possibilidade de fuga, sem forma de evitar que Aquilo os perseguisse.
Um polícia tentou iniciar manobras de resgate dos acidentados, mas também não resistiu quando Aquilo se aproximou mais. Contra todas as regras profissionais, recuou e fugiu, mas antes chamou reforços por rádio. Era preciso um ataque urgente.
Finalmente um lugar. Vitória iniciou uma manobra complicada de estacionamento. Ao fim de alguns largos minutos conseguiu efectua-la, não sem antes barafustar com todas as pessoas que, descontroladamente, corriam e lhe atrapalharam a dita manobra. Antes de sair, retocou a maquilhagem, tinha que estar bonita para a reunião, era preciso impressionar, ela era uma mulher de sucesso e não podia desiludir em nenhum pormenor, aliás não sabia se aquele tom platinado de cabelo estava muito bem para a ocasião, loura nem sempre tem vantagem quando se quer ser determinada. Nem mesmo quando puxou o espelho, para não errar no contorno do baton, reparou que nele estava também reflectido todo um invulgar caos urbano. Descontraidamente, abriu a porta do carro e saiu.
- Parece impossível! – vociferou Vitória ao quase se ter despenhado no chão, por um dos seus belos saltos ter assente numa das muitas inquietas maçãs que habitavam o solo. – Só pode ser praga, já não me basta passar o dia a comer isto para manter a linha e tenho que levar logo com elas à saída do carro.
Mal teve tempo de se alinhar, tinha ficado um pouco descomposta com o desequilíbrio, sentiu uma sombra gigante sobre ela e, quando olhou para cima, ficou estarrecida. Só naquele momento reparou que toda aquela gente à sua volta se comportava de uma forma estranha e histérica por causa de Aquilo. Não quis, não pôde ser diferente, tudo era demasiado aterrador para ficar ali, conjuntamente com o resto da população começou uma fuga errante. Os saltos não ajudavam, primeiro tirou os sapatos e correu descalça com eles na mão, depois, contra toda uma dor profunda de se separar daquelas peças de renome, atirou-os para a berma, qualquer peso diminuía a velocidade, aquelas horas todas passadas com o personal trainer afinal não tinham ajudado em nada a sua forma física.

Um sem-abrigo, habituado a ter o frenesim da cidade como sua manta, ignorava a histeria instalada e manteve-se apático, no seu sono compulsivo de esquecer os dias, até levar com um dos sapatos de marca na cara. Meio sorumbático, tentou perceber o que se passava mas ficou confuso, um sapato de senhora, lindíssimo, tinha vindo aterrar até ele, maçãs e maçãs desaguavam nos seus pés. Será que estavam a chover presentes? Mas do céu não vinham dádivas, mas sim uma terrível criatura. Mesmo para ele, habituado a todas as alucinações desde há muito, perder a família num estúpido acidente de carro não tinha sido fácil, era apavorante ter que olhar para Aquilo. Pela primeira vez, desde há algum tempo, juntou-se à população e comungou com ela os mesmos actos, correr, tropeçar e gritar.
Sebastião, um executivo de topo, inclinou-se para trás, na sua cadeira de pele de topo, e congratulou-se consigo mesmo por ter fechado mais um negócio, também de topo, em pouco instantes, com uns simples cliques, comprara, fechara e fundira uma série de empresas, fundos e participações, algures numas ilhas paradisíacas no outro lado do Atlântico. Para enganar o estômago, pegou numa maçã verde, que a sua querida esposa lhe tinha colocado na pasta, agora ela andava com a mania que tinham que ter um vida saudável, enfim coisas de uma mulher sem mais nada em que pensar a não ser onde gastar o muito dinheiro que ele esforçadamente conseguia, felizmente que tinha os braços quentes de uma outra, mais carnal e menos retórica, para o satisfazer noutros processos também necessários à sua bela saúde. Ainda não tinha dado a segunda trinca, junto à janela larga de uma torre envidraçada, onde se sedeava a sua empresa de topo, quando se engasgou. Mesmo ali, do outro lado do vidro, quase junto ao seu nariz, estava Aquilo. Uma imagem demasiado aterrorizadora, para que ele conseguisse engolir o bocado de maçã que, entretanto com o susto, ficara entalado na garganta. A sufocar, sem conseguir pedir auxilio, Sebastião rolou no chão desesperadamente até ficar inerte. Tinha acabado de ser a primeira vítima da estranha assombração, ainda que ela nada tivesse feito, a não ser pairar do outro lado do vidro.
Em busca de protecção, muitas pessoas refugiaram-se na igreja, umas apenas para se ocultarem de Aquilo, como crianças debaixo da manta a esconderem-se do papão, outras para pedirem forças ao seu criador afim de enfrentarem o que viram. Mas foi em vão. De súbito, o tecto da igreja, com belos frescos, ficou transparente e surgiu, assim de novo, sobre as suas cabeças, a sombra de Aquilo, agora ainda maior, mais vigoroso. Olharam para o padre, como que à procura de uma salvação, mas ele, qual homem de carne e osso, também não conseguiu resistir ao temor. Com um telhado agora de vidro, não lhe restou outra alternativa senão fugir como todos os mortais.
Na praça, o local onde Aquilo se via melhor, um grupo militar de intervenção preparava-se para atacar. Às ordens do comandante iniciaram os disparos. Mas mal as primeiras rajadas saíram em direcção à criatura, os soldados começaram a cair. As balas, além de não trespassar o alvo, eram devolvidas, em ricochete, à origem.
O Presidente, no seu palácio político, enclausurou-se numa pequena sala na cave. Não queria olhar Aquilo, pelo que lhe tinham contando não ia aguentar ver. Se não conseguia arranjar uma forma de o aniquilar, então tinha que se encontrar uma forma de se sobreviver a ele, com ele. Chamou os seus colaboradores para decidirem como se podia viver com Aquilo. Como se podia arranjar uma forma simples de viver em que se ignorasse Aquilo? Enquanto que lá fora militares tentavam novas armas e a população, desesperada, continuava a fugir, o Presidente tentava arranjar uma solução, não para o eliminar, mas apenas para o contornar.
Uma cidade em estado de sítio, virada de pernas para o ar. Aquilo permanecia ali, estático, silencioso, sobre a urbe, como se a estivesse a iluminar.
Como tinha surgido aquela coisa que a todos amedrontava? De onde tinha surgido aquele espelho gigante, com uma moldura barroca dourada, que devolvia, numa escala colossal, a imagem de cada um, fria, real, sem manipulações nem transfigurações, apenas eles mesmos em ponto grande. A imagem que ninguém queria ver.

Alheios a tudo isto, um casal desnudado, estendido numa pequena toalha no meio das dunas, enrolava os seus corpos numa coreografia lasciva de desejo intenso. Tinham faltado ao trabalho naquela tarde para porem em dia as suas doutrinas de amantes. Depois de terem começado por trincar uma maçã, partilhada pedaço a pedaço na boca de ambos, depressa se envolveram em gestos sensuais de deslindar cada poro do mapa epidérmico do amor.
Talvez pelo facto do prazer ser a única linguagem que naquele momento decifravam, nem se aperceberam, num primeiro tempo, que o tal espelho colossal, de imagens desmedidas, também pairava sobre eles. Quando finalmente notaram a assombração que provinha do céu, riram-se e gostaram do que viram. Uma grande imagem dos seus corpos, quentes e entrelaçados, como cordas de marinheiro, era mostrada dentro daquele rectângulo dourado. Cada gesto, cada movimento impetuoso, era devolvido num detalhe exacerbado de dimensão. Esta situação não só não os assustou, como lhe excitou ainda mais o desejo, o que levou a uma cadência acelerada dos movimentos corporais e, finalmente, a um clímax, tão profundo e magnânimo como a imagem descomunal que era reflectida. Os gritos, agora não de medo, mas de prazer magnificente, ecoaram por toda a praia e foram fortes demais para o espelho voador que, face a tão lascivos decibéis, se desfez em milhares de partículas sobre o mar.
Nunca ninguém percebeu como Aquilo se pulverizou de um momento para o outro. Na cidade, tudo voltou ao normal, poucos ou quase nenhuns falam do que aconteceu e do que viram reflectido naquela tarde. A vida, para bem de todos, assim pensavam eles, confinou o seu ritmo banal. O preço das maçãs não parava de subir, estavam pela hora da morte, pelo menos Alice assim o dizia.
vvv
Uma homenagem, enviesada, como sempre, a um filme que é da melhores metáforas sobre os medos que se escondem em cada um, nomeadamente os medos dos novos tempos, A Guerra dos Mundos de Steven Spielberg.
- Mamã, lembra-se da Lindy? Ela diz que está à espera de um filho meu.
- Por Deus! Não posso crer!
Carminho só não caiu no chão de acrílico luminoso porque se segurou ao feixe de luz que emitia ondas de terapias avulsas na sala. O seu benjamim tinha sido apanhado por uma vampira qualquer.
- Constanço, merecia um estalo. Porque não tomou precauções?
- Mas ó mamã, eu só lhe dei um beijo.
- Mau, mau! Não venha com essa. Em que século é que o menino vive? Não sabe que hoje em dia se pode fazer um filho de tudo, até da caspa do seu cabelo, que por sinal anda muito mal?!
- Mas foi um beijo simples.
- Não interessa, a saliva tem o código genético suficiente para fabricarem um espermatozóide seu. Isto se ela quiser fazer mesmo um embrião à moda antiga. Se for despachada, como parece que é, faz apenas uma réplica sua e pronto. Nem parece que estudou biogenética.
- Eu sei mamã, mas pensei que o beijo era sincero.
- Sincero, sincero! Se bem que não percebo, um beijo na boca, com salivas a misturarem-se, como vai ela isolar o seu código? A menos que tivesse um micro-selector na boca não ia conseguir. Não notou nada quando a beijou?
- Não, mas não foi na boca. Eu beijei-a na mão, simplesmente. Ela disse que queria um beijo molhado, eu até me ri, porque um cavalheiro nunca molha a mão de uma senhora.
Carminho foi até ao feixe de luz, para mudar a onda de terapia. Agora queria uma torrente de energias tranquilizadoras para acalmar o seu estado de ansiedade, que detonava ao pensar que tinha aparecido uma pistoleira que lhe ia levar toda a fortuna que os seus antepassados tinham construído, contra ventos e marés, no início do século XXI.
Constanço também aproveitou a onda balsâmica, não para se tranquilizar mas, sim, para ganhar forças e poder contar à mãe que não fora só Lindy, afinal tinha beijado a mão das 14 bailarinas voadoras que vieram abrilhantar a sua bela e gigantesca festa de 20º aniversário, há um mês atrás.
Sem mais rodrigozitos eis a última fornada. Só espero é que um dia venham cá a casa receber o prémio.

Lili Caneças | A Múmia: O Túmulo do Imperador Dragão, já não há pachorra para isto de se teimar em ressuscitar aquilo que devia estar quieto e que teve piada uma vez, se é que teve. Múmias só servem para se estudar nas escolas e ver em museus, a bem do nosso estômago e da saúde mental das criancinhas. |
Ecoponto - Faz isso por mim, vá lá! | WALL-E, por ter feito mais pela sensibilização da problemática do lixo do que todas as campanhas imbecis com quase anónimas armadas em vedetas sensíveis com o ambiente. E que tal se poupassem o dinheiro para pôr mais camiões a fazer recolha? Hum?! |
E não se pode chicoteá-lo? | George Lucas em Star Wars: A Guerra dos Clones, por ter estragado todo um imaginário com uma animação que parecia saída de um computador de um adolescente que faz umas brincadeiras nas horas vagas para pôr no Youtube. |
Alzheimer com todos | Mamma Mia, por ter posto todo um universo de drag queen a ser amado e cantado por toda a gente em todos os lugares, mais um pouco e até na missa se escutava o Dance Queen. |

Banco de Portugal e Associados | Destruir Depois de Ler, por nos ter mostrado que nesta coisa de relatórios comprometedores o melhor é rasgar para não nos virem pedir explicações daquilo que supostamente devíamos saber mas fingimos que não vimos. |
Palácio de S. Bento | Olhos de Lince, por revelar que afinal, em informação, quando se tudo se quer saber e controlar o feitiço se vira conta o feiticeiro. |
Qualquer dia corto os pulsos | Julianne Moore em Savage Grace - Desejos Selvagens e o Ensaio Sobre a Cegueira, por não parar de fazer filmes de ambiente pesado. Com tantos papéis assim, um dia destes destrambelha dos nervos e depois quero ver quem segura a mulher. Será que não há um papel de uma comédia romântica para a menina? |
Há um Bush escondido em todos nós | Busca Implacável, por mostrar que qualquer americano, quando lhe apertam os calos, se acha no direito de vir por aí fora a distribuir bordoada a torto e a direito. Mas com razão, claro, porque todos os outros estrangeiros são corruptos, mafiosos e tarados. |
Mais um pouco e era português | Em Bruges, por ser um filme sobre a chatice, com criminosa chatos, num sítio chato a matar um tempo chato. Felizmente que não era português porque apesar de tudo conseguiu ser um grande filme. |
Maria de Lurdes Rodrigues e | A Turma por mostrar que dentro de uma sala de aulas há mais mundo do que avaliações e estratégias políticas requentadas. |
Big Brother ou Porque é que ainda não me lembrei disto? | Ensaio Sobre a Cegueira, por mostrar que à Endemol e ao José Eduardo Moniz ainda lhe falta muito caminho para explorar o máximo no mundo dos reality shows. Ponham os olhos neste filme e terão um novo filão, ainda por cima com bênção nobelesca. |
O Dartacão tinha mais piada | Reviver o Passado em Brideshead, que numa onda de revivalismo televisivo arrancou das memórias este pastiche. Ainda que para muitos basta mostrar uns bons palácios, umas boas roupas e um sotaque irrepreensível para termos grande filme, o que é certo é que todos suspiraram pela velha série. Afinal já tivemos Expiação quanto baste. Vá lá, adaptem o Dartacão, fica mais barato e o pessoal cansa-se menos. |
Freeport | Antes que o Diabo Saiba que Morreste, por mostar tão bem que as trapalhadas para ganhar umas massas à custa da família dão sempre para o torto e, às páginas tantas, já não se percebe quem gamou mesmo o quê. |
Bronco, mais Bronco, não há | Adam Slander em Não te Metas com o Zohan por reduzir tudo ao mínimo denominador comum, quer sejam as mulheres, feministas de todo o mundo devem estar a arrancar cabelos, quer seja o conflito Israel-Árabe, que aqui mais parece uma zaragata de bêbados numa tasca portuguesa. Bom, e daí o rapaz é capaz de…! |
Onde Está o Wally? | Tom Cruise em Tempestade Tropical, pois muita gente, que não viu o genérico do filme, nem se apercebeu que o rapaz entrava e dava um festival de representação. Ou seja, Tom é bom quando não parece o Tom. Há coisas fantásticas, não há? |
Quando for grande quero ser Bourne Ultimatum | 007 - Quantum of Solace, que isto agora de todos os filmes de acção quererem ser como o Ultimato faz com que nos tenhamos que agarrar à cadeira, não só para não cair, dada a velocidade e o tremelicanso das imagens, mas também para não perder um enredo aos soluços labirínticos. |
Programa eleitoral | O Corpo da Mentira, por nos mostrar que tudo se pode cozinhar, mesmo que depois não seja a valer, mesmo que o argumento seja um deja vu disfarçado de novidade. |
Cenas Cortadas | Madagáscar 2, por não trazer nada de novo e parecer que foi feito apenas com os resto do que sobrou do outro. Mais valia terem-no incluído nos extras do DVD do primeiro. |
Dia de Folga de Soraia e Nicolau | Amália, o Filme, por tentar ser um filme de sucesso e não ter a Soraia Chaves despida nem o Nicolau Breyner a fazer de mauzão. |
Estatuto político dos Açores | O Dia em que a Terra Parou por ter uma invasão de extraterrestres, prontos a destruir e a provocar um momento quase tão forte e importante como o do dia em que Cavaco fez uma declaração política ao país em pleno Verão. |
O Cinema Paraíso dos pequeninos | Filho de Rambow - Um Novo Herói, que isto de juntar crianças e colocá-las a invocar memórias cinematográficas do passado, dá sempre jeito e lágrima na certa. |
Vende-se Óscar a quem der melhor oferta | Nicole Kidman em Austrália, porque a mulher a seguir ao prémio não acerta uma. A continuar assim, ainda vai fazer companhia ao M. Night Shyamalan numa caixa de supermercado. A mim só me precisa de dizer onde é que eu já estou a estourar o meu dinheirinho em compras. |
Quero o meu dinheiro de volta! ou Afinal atraímos foi um buraco negro | Sim!, por demonstrar que afinal todos os Segredos e programas de auto-ajuda são uma grande tanga, onde cada um quer sacar o seu. Malta, toca a ir pedir o dinheiro de volta de todas as edições do Segredo e afins, livros e vídeos, pois mesmo com toda esta vontade positiva que nos impingiram, e que varreu o mundo na sequência da multimilionária filosofia australiana, caiu-nos em cima uma crise meteórica como nunca. Cá para mim, a única coisa que as Leis da Atracção, do dito Segredo, captaram foi um autêntico buraco negro de onde nunca mais saímos. Ora bolas! |
Até pró ano, se o buraco negro deixar.
Posso não ter a passadeira vermelha, nem as louras platinadas aos gritinhos a dizerem que foi um tal Oscar de La Renta que fez os trapinhos com que seguram as mamocas, as tais que parecem explodir de silicone, mas tenho aqui, todos os anos, uma reserva especial de sabor intenso, feita com tudo o que essas louras longilíneas, bonitões armados em durões e panzudos directores fizeram na digníssima sétima arte, chamada Oscaritos 2009.
Eis a 1ª parte do veneno, com base nos filmes estreados por cá, no burgo, em 2008:
Categorias | Vencedores |
O Botox quando nasce é para todos | Silvester Stallone em John Rambo, por ter injectado litros de botox para se manter inchado em todas as partes, menos na inteligência de fazer bons filmes. |
Mães de Bragança | Diablo Cody argumentista em Juno, que, não se sabe se depois de uma cruzada beata como a das transmontanas, resolveu abandonar o varão dos clubes de striptease e virar escritora de sucesso. Deixou de aturar adolescentes e pais de família babosos a atirarem-lhe dólares para o plateau, para aturar produtores babosos a exigir dólares no plateau. |
Made In China ou O vómito do Ano | Aliens vs Predador 2 por não passar de uma imitação barata daquilo que já foram 2 ícones do bom terror cinematográfico. Só espero é que isto seja como os brinquedos das ditas lojas, em que as peças dos bonecos alienígenas começam a dar o berro logo nas primeiras brincadeiras, poupando-nos, assim, a mais Vs. |
Depois disto só Manoel de Oliveira | Brad Pitt em O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford que não se cansa de fazer papéis chatos a ver se embolsa o Óscar. Vamos lá ver se é este ano que pega. |
SIC Mulher | Expiação, por não ter faltado nada num filme de gaja: grandes decors, menina rica menino pobre, amor impossível, trafulhice e inveja de saias, tudo para chorar baba e ranho no fim. |
Vamos lá encher chouriços | SAW 4 e SAW 5, uma saga que é uma chaga, não há meio de acabar e já vem em dose dupla por ano. Não vai haver colesterol que aguente. |
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Chatos de todo mundo, Uni-vos! | Para Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman em The Darjeeling Limited, por terem consigo a comédia com maior número de bocejos por metro quadrado. Era para rir, lembram-se?! |
Direitos de Autor para a bruxa já! | Nome de Código: Cloverfield por ter copiado à descarada o esquema do Projecto Blair Witch. Isto de andar com uma câmara às costas, a fugir com muito medo e não desligarmos a dita, só se engole uma vez. |
Chamem a ASAE | Tim Burton em Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street por ter apresentado umas empadas especiais que nos tornaram vegetarianos nos 15 dias seguintes à visão do filme. Este tipo, apesar de fazer bons filmes, tem uma panca daquelas que vou ali e já venho, em pequenino deve ter batido com a moleirinha no chão. |
Vai um bocadinho de Prozac? | Tommy Lee Jones no No Vale de Elah e Este País não é Para Velhos, que com tantas personagens depressivas uma pessoa ainda acaba a atirar-se da ponte. Anime-se homem, afinal quem vive em Portugal somos nós. |
Os estúdios de televisão são na porta ao lado | Ben Affleck que realizou Vista Pela Última Vez com a mesma ligeireza com que se faz um telefilme barato em tempo de crise. Será que se enganou no estúdio? Será que não quer vir trabalhar para a SIC e fazer a A Vida Privada de Sócrates? |
A Maldição da Força | Hayden Christensen em Jumper, que depois de Star Wars 2 e 3 não acerta uma e vai acabar esquecido como Mark Richard Hamill, o seu filhinho Luke Skywalker no Star Wars 4, 5 e 6. |
Depois admiram-se das torres | Nome de Código: Cloverfield por insistir sempre na destruição de Nova Iorque por forças estranhas, não percebem que mesmos os terroristas vêem mau cinema. |
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Segurança Social | Este País Não É Para Velhos por demonstrar que a melhor forma do não haver buracos no orçamento da Segurança Social é ir abatendo o pessoal. |
BPN | Os Falsificadores por nos ter mostrado que a trafulhice bancária é uma coisa com barbas e que os nossos bancos afinal só seguiram uma longa tradição. |
Victor Constâncio | Ponto de Mira, por ter revelado que aquilo que é verdade agora, deixa de ser daqui a pouco, consoante os relatos de cada personagem, ou seja, com tantos pontos de mira não se acerta um. |
Malucos do Riso | Uns Espartanos do Pior por terem reduzido o humor cinematográfico ao nível de uns Batanetes quaisquer. |
Alcoólicos Anónimos | Robert Downey Jr. em O Homem de Ferro e Tempestade Tropical, ainda há pouco andava a pedir uma moedinha ao arrumar carros e agora é quase o maior do bairro. Para compensar vai fazendo umas personagens que se não andam sempre com os copos, pelo menos parecem que charram umas coisas. |
Para a próxima comprem na Zara | Sara Jessica Parker e trupe em Sexo e a Cidade, por já não se aguentar tanta comprinha sofisticada na 5ªavenida, tanta elegância de passarelle, tanta cultura de catálogo, tanto fingir que somos moderninhas. Será que estas mulheres não têm que dar no batente das 9 às 5 como todas as outras? |
Mais 1 assim e estás numa Caixa de Supermercado | M. Night Shyamalan em O Acontecimento, por não acertar uma e ter realizado flop atrás de flop. Qualquer produtor quando o vê entrar pela porta a dentro do escritório com um novo projecto deve sentir-se à beira de um ataque cardíaco, ou então sai por porta fora a visitar a madrinha no Alasca. |
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Mais valia estar quieto | Steven Spielberg em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, por ter ousado ir buscar às catacumbas da memória um herói amado por todos, o ter envelhecido tal e qual ele era, mas que foi depois foi rejeitado pela maioria dos fans por desvirtuar o antinguinho. Ó Steven, pobres e mal agradecidos, é o que eles são! |
Onde está o saco de enjoo? | Speed Racer pela velocidade estonteante das imagens, das cores e da uma historinha que não devia ter saído dos bancos da primária. |
Melhor do que eu só o Obama | Will Smith em Hancock, por ser sempre o maior e estar fadado ao sucesso. A continuar assim, ou acaba na Casa Branca ou a fazer um papel de um deus. Mas papel de deus já ele fez. Ah, então?! |
Emule ou a Feira do Relógio | Tropa de Elite, por se ter tornado o filme mais pirateado de sempre antes da sua estreia. Quando chegou por cá, às salas de cinema, o pessoal até pensou que era a sequela. |
A morte fica-te tão bem | Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, não fosse ter embarcado desta para melhor e queria ver se toda a gente se rendia ao seu grande desempenho num filme de acção e efeitos especiais. Tá bem abelha! Os complexados de Godard até se exorcizavam antes de entrar na sala. |
Dentro em breve segue a 2ª rodada, se até lá ninguém tiver inquinado com intoxicação oscarítica.
Para quem nunca viu um filme pornográfico – como eu sou inocente! – passo a explicar a sua estrutura base: genérico manhoso, truca-truca, qualquer coisa no meio, truca-truca, mais uma cenita que ninguém vê, novo truca-truca, diálogo rapidíssimo, truca-truca a três, imagens de uma paisagem a correr e um truca-truca tudo ao molho. Mais coisa menos coisa, não passamos disto.
Pondo estas cenas em acção seria uma coisa do género: dona de casa, desesperada com os calores e com a canalização da banca da cozinha, chama o picheleiro, o homem mal tem tempo de pousar a caixa das ferramentas e já a fêmea, loura platinada, está a ter um ataque epiléptico nudista sobre ele. Refeita da reparação da canalização, sai para a rua para apanhar ar fresco nas trombas bronzeadas junto à piscina, e zás, depara com um jardineiro maroto com quem resolve brincar às montadas. Como mulher moderna, mal a vizinha entra em casa para pedir salsa, ela avia-a de outros condimentos. Com tanta ginástica efervescente resolve tomar um banho para relaxar e zás, contenta-se com ela mesmo. Para terminar, resolve chamar o elenco todo para uma festinha encalorada na sala de estar, fazendo assim uma surpresa ao marido, que ao entrar fica todo baboso com a iniciativa da sua mulherzinha para manter a chama do casamento viva.

Bom, mas o que me traz aqui não é propriamente fazer um workshop sobre o género da indústria cinematográfica que mais faz pelo ambiente - pois o nível de emissões de dióxido de carbono é baixíssimo, com guarda-roupa quase nulo, decors da família do realizador e quase toda a energia a provir do trabalho corporal - mas sim falar sobre o telefilme passado na SIC sobre Salazar. É que a diferença entre aquilo e um filme porno não é nenhuma. Senão vejamos:
Tudo o que vimos sobre o homem foi apenas um pretexto para ir mostrando as cenas de cama com as damas do salão. Salazar disse qualquer coisinha e pronto começou por saltar para os braços de uma dita escritora jornalista francesa, depois um flash-back e o rapaz faz umas escapadelas para se atirar a uma moçoila da terra, à irmã e a uma filha da madrinha. Já adulto quer ler o horóscopo e pimba, cai na laia da bruxa de serviço, uma Soraya Chaves ao nível do seu melhor nível, muita cama e boas coxas, nem sequer um beijo lésbico faltou para compor o ramalhete do imaginário machista de qualquer filme porno. Depois vem uma condessa, marquesa, duquesa, ou lá o que era. Por fim, volta aos braços da francesa mas, qual machão, dá-lhe um anel e põe-na a andar. Ora digam lá, se isto não é quase igual à historinha da dona de casa desesperadamente acesa?

Outra característica do filme porno é concentrar todo o seu objecto narrativo no sexo, exacerbando-o, ampliando-o nas suas imagens. Tudo o que está à volta desaparece, é apenas um adesivo minúsculo para colar as cenas entre si. Foi isso que aconteceu no telefilme, Salazar ficou despido de qualquer conteúdo a não ser a de um engatatão que teve lindas mulheres ao seus pés a torto e a direito. Com um bocado de jeito quase que podíamos dizer que Salazar foi um homem mundano, ultra-moderno, vanguardista até, especialmente com o sexo feminino. Penso que qualquer jovem moçoila dos nossos dias, que tenha por aí 20 anos, ficou com vontade de ter também um Salazar para si, um homem que amava e compreendia as mulheres como ninguém, além de ser super charmoso. Ora, se há coisa que todos sabemos, foi qual o lugar real em que Salazar colocou as mulheres e como ele lutou contra toda a forma de evolução de costumes.
A série não pretendia fazer um retrato político da figura mas sim aportar um olhar sobre a sua intimidade. O problema é que a intimidade, qual espelho, deve devolver também a vida pública e o seu tempo. Basta olharmos para qualquer peça de ficção vinda lá de fora e vemos que por muito intimista que seja o enredo nunca deixa de fazer um retrato de toda uma época – Benjamin Buton, por exemplo, mesmo sendo uma fantasia intimista sobre uma personagem e os seus desamores, não deixa de nos mostrar as paisagens do século XX americano.

Salazar é capaz de ser a personagem mais fascinante do nosso luso século XX, não propriamente pelas suas qualidades como estadista visionário, mas por todos os contornos romanescos que ele encerra, nomeadamente o lado mais negro do ser português. Por isso, salivei com esta possibilidade de finalmente podermos ter uma perspectiva mais psicológica da sua entidade: que traumas, que rancores, que agruras construiu ele para que a sua visão de pátria e mundo fosse uma coisa tão cinzenta, limitada e enclausurada?
Não bastava o mau argumento, uma oportunidade única que se perdeu, ainda tivemos que levar com erros técnicos a rodo, nomeadamente no adereços e decors - apresentar um brinquedo dos anos 30, um carro de bombeiros, em que era notório as peças de plástico é não ter tido o mínimo de rigor – e na caracterização – não basta pôr uma pasta de latex e pó branco na cara para dar um ar envelhecido, há que ter cuidado com a iluminação para que as rugas surtam efeito e não pareçam que o actor caiu dentro da tigela da farinha.
O elenco apesar de esforçado tinha grandes erros de casting. Diogo Morgado até pode ir bem em telenovelas, mas faltava-lhe corpo na voz e na postura para encarnar uma personagem com tal dimensão. Nunca deixou de ser o actor a tentar ser Salazar.

As mulheres, apesar de lindas, ficaram-se pelo estereótipo de mulheres fatais. É impressionante que a ficção portuguesa nunca mais larga estes cromos de um certo cinema, que já está lá longe, quando retrata as mulheres. Será que não conseguem filmar a mulher portuguesa sem cair no eterno cliché? Basta ver alguma coisa da ficção espanhola, bem aqui ao lado, e vemos como eles filmam as mulheres, carnais, temperamentais, faladoras, perdidas, lutadoras, enfim femininas, e não caricaturas de fantasias de um certo imaginário marialva intelectual. Salazar a frequentar festas em que uma Soraya aparece de boquilha e com uma serpente só pode ser mesmo um exercício surrealista!
No fim, só uma personagem cumpriu o propósito, Dona Maria. Margarida Carpinteiro com o seu olhar e o seu silêncio foi o grande retrato de uma certa época. Manipuladora, sombria, serviçal, alma estéril de uma pátria perdida.
Afinal, não é só quando se põem mamocas ao saltos e pilocas pujentes que se constrói pornografia. Basta que se corte o essencial para se focar e exagerar o objecto primário do deleite, que não sendo real se pretende passar por tal, e se coloque farinha, tal e qual como a péssima maquilhagem, a ocultar a escuridão que emerge da pele da História. No fundo, farinha para os nossos olhos.
Aconteceu tudo de repente.
No início, começou timidamente a comprar umas coisas, o dinheiro não era muito, em pequenos passos. Depois viu que aquilo era fácil, dinheiro gerava dinheiro, e todo um mundo novo se abriu a seus pés.
Sem grande esforço, apenas tinha que estar atento às jogadas dos seus parceiros, adquiriu todo um património financeiro que nunca sonhara. Sentia inclusive um certo prazer sensual ao olhar para todo o dinheiro que ganhara em tão pouco tempo. Eufórico não parava. Descobriu nele um espírito de vencedor, enquanto todos os outros estavam à beira da falência ele continuava a ganhar e a ganhar, pequenos golpes ajudavam à festa.
Em tudo há um limite, mas a ganância cegou-o completamente e continuou a investir como um louco, mesmo quanto todos diziam para ele ter calma. Mais, queria muito mais. Queria mesmo tudo.

Quando de repente verificou que tinha que ir para a prisão não queria acreditar, ele não tinha feito nada de mal, apenas tinha levado ao extremo as regras do jogo. Será que haveria engano? Não, a carta era bem clara, tinha que ir directamente para a prisão.
Num gesto de fúria, atirou tudo pelo ar, inclusive algum dinheiro que tinha ganho, e pontapeou tudo o que lhe apareceu pela frente. Os parceiros só não foram atacados porque se desviaram.
- Porra, que mau perder! Nunca mais voltamos a jogar ao monopólio com este gajo – desabafou um dos colegas de jogo, enquanto tentava arrumar as peças e o dinheiro de brincar que tinham voado por toda a sala.
Pior do que uma panca, só mesmo duas pancadas. A pedido de várias famílias, talvez porque há uma costela SM, sado maso para os mais desprevenidos, em todos nós, eis aqui uma nova tabela com as probabilidades de vitória na noite da oscarada, desta vez dos senhores de fraque e das senhoras vestidas por costureiros de não sei quantos quilates, que ficam na fila da frente a bater palmas e a fingir que acham muito piada às balelas do apresentador. Actores e Actrizes, pois não!

Actores | B | S | D | P | M | V | E | Tot | Prob |
Richard Jenkins (The Visitor) | 5 | 5 | 5 | 3 | 9 | 2 | 1 | 33,5 | 14,6% |
Frank Langella (Frost/Nixon) | 6 | 5 | 4 | 2 | 8 | 6 | 1 | 36,0 | 15,7% |
Sean Penn (Milk) | 8 | 7 | 9 | 10 | 3 | 6 | 3 | 55,5 | 24,2% |
Brad Pitt (O Estranho Caso de Benjamin Button) | 6 | 8 | 10 | 6 | 6 | 9 | 6 | 52,0 | 22,7% |
Mickey Rourke (O Wrestler) | 10 | 4 | 9 | 7 | 9 | 6 | 7 | 52,5 | 22,9% |
Actrizes | B | S | D | P | M | V | E | Tot | Prob |
Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) | 6 | 3 | 6 | 3 | 4 | 4 | 2 | 34,0 | 17,7% |
Angelina Jolie (A Troca) | 7 | 6 | 5 | 2 | 3 | 8 | 4 | 37,5 | 19,5% |
Melissa Leo (Frozen River) | 6 | 4 | 5 | 3 | 6 | 4 | 3 | 33,0 | 17,1% |
Meryl Streep (Dúvida) | 6 | 9 | 4 | 10 | 2 | 6 | 2 | 44,0 | 22,9% |
Kate Winslet (The Reader) | 6 | 8 | 7 | 7 | 8 | 5 | 6 | 44,0 | 22,9% |
Berros e Bocas
Nada como uma berraria desgraçada e uns trejeitos com a boca para se dizer, temos actor! Vá lá perceber-se porquê mas o overacting sempre foi uma coisa que caiu nas boas graças da Academia. Valores: Entre 10, para o sindicalista de megafone, e 1, para o monge tibetano em voto de silêncio.
Sotaques, Sobrancelhas e Shakespeare
Um sotaque bem carregado dá sempre bom resultado. Se misturar aquele representar do mexer apenas uma sobrancelha e ter Shakespeare no hálito, então temos o estilo Sóbrio, com ares de BBC, que derrete as almas intelectuais da Academia. Valores: Entre 1, para uma versão Fátima Felgueiras, e 10, para as eternas velhas cheias de pó, armadas em rainhas, baronesas e duquesas arruinadas.
Desgraçadinhos e Despenteadas
Que venham os doentinhos, os aleijadinhos, as mulheres da má vida, os gays abatidos, todos os enjeitados, que nestas coisas do acting quanto mais desgraçadinho melhor. Já agora, as belas deixem o glamour de lado e toca a ficarem esgrouviadas, com mais uma centena de anos, pois andar de bengala e com artroses de maquilhagem tem muito peso no voto. Valores: Entre 1, para uma Miss América, e 10, para os accionistas reformados do BPN.
Ter recebido muitos prémios pode ser bom, ter recebido muitos prémios pode ser mau! Há que equilibrar. Analisei os prémios que receberam com o filme em questão, pus uma ponderação de 5, somei-lhe outros prémios (ponderação 1) e outras nomeações (ponderação 0,5), deduzi os Óscares já recebidos (ponderação de 10) e dividi pelo que obteve a maior pontuação
| Filme | Prem | Nom | Oscar | Tot | Pond. |
Richard Jenkins | 4 | 0 | 7 | 0 | 23,5 | 3,1 |
Frank Langella | 1 | 4 | 17 | 0 | 17,5 | 2,3 |
Sean Penn | 6 | 33 | 45 | 1 | 75,5 | 10,0 |
Brad Pitt | 0 | 22 | 41 | 0 | 42,5 | 5,6 |
Mickey Rourke | 8 | 3 | 19 | 0 | 52,5 | 7,0 |
Anne Hathaway | 4 | 4 | 14 | 0 | 31 | 3,1 |
Angelina Jolie | 1 | 2 | 47 | 1 | 20,5 | 2,0 |
Melissa Leo | 5 | 5 | 6 | 0 | 33 | 3,3 |
Meryl Streep | 3 | 66 | 80 | 2 | 101 | 10,0 |
Kate Winslet | 4 | 29 | 52 | 0 | 75 | 7,4 |
Estar com os pés para a cova (factor muito importante nos secundários), ter a carreira lá bem no fundo ou andar a ser prometido e nunca mais levar, é meio caminho andado para erguer a estatueta. Valores entre 1, para quem ainda tem muita estrada para andar, e 10, para quem o GPS já avisou que estava quase no destino.
Não há declamação, tipo teatro nacional, que aguente o anonimato do filme. É que na hora da Academia votar, pelo menos, a dita tem que saber soletrar o nome do filme. Valores entre 1, para o filme de gabardina e óculos escuros, e 10, para o filme todo descascado e cheio de plumas a desfilar no sambómedro.
Embirrações e Complicações
Por muito bom actor que seja, o seu ar pode criar embirrações que são autênticos muros para alcançarem o podium. Demasiado bonito, demasiado canastrão, demasiado opinativo, são adoçantes amargos que votantes académicos põe no chá na hora da escolha. Valores entre 1, para um actor tipo cachorrinho a pedir colo , e 10, para o gajo tipo mosquito numa noite de Verão.
No fim disto tudo apliquei a fórmula:
. (2xB+S+2xD+P+0,5XM+V)-E .
∑ ((2xB+S+2xD+P+0,5XM+V)-E)
E obtive, assim, a percentagem que determina a probabilidade do actor e actriz vencer na noite dos Óscares.

Não fosse o pequeno senão de já terem Óscares anteriores no papo teríamos Sean Penn e Merly Streep a levarem os homens nus com espada. São duas interpretações soberbas e só o pudor das repetições impede de se fazer justiça. É certo que ultimamente tem havido bis, mas não sei não. Se calhar lá teremos que levar com o canastrão e com a inglesa que ganha tudo na liga dos últimos mas nunca mais leva o biblot dourado para pôr na lareira.
O que vale é que o júri não vai em matemáticas e vota como lhe dá na bolha, ou então, faz como um velho actor, membro da Academia (Henry Fonda, James Stewart, ???), que quando lhe perguntaram qual o critério para votar, ele disse, não sei, é a minha neta que preenche o boletim.
Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal. Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:
-Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo... mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, confuso, diz:
-Doutor, afinal levo ou deixo os patos?
Esta pequena anedota atribuída a Bocage, serve não só para ilustrar a nossa, bem portuguesa, eterna incapacidade para sermos objectivos no que queremos dizer e fazer, como também acaba por ser uma engraçada metáfora sobre todo este alarido à volta do caso FreePort, nomeadamente do jornalismo que temos.
Depois de ler e ler tudo o que andou a sair, o que temos afinal? Nada que se perceba do ponto vista de uma boa história, quanto mais de factos jurídico para uma sentença culpável.
Parece que um tal de Charles Smith sacou umas massas aos seus compadres ingleses para umas certas luvas, de marca, presumo, tal o preço das ditas, que carinhosamente queria calçar nas mãos deste e daquele. Há mails e DVD’s a ilustrar isso, mas depois no que toca a quem, por quem e quanto, népias.
E o que fazem os senhores jornalistas, a propósito dito? Disparam, em todos os sentidos, artigos pouco objectivos em que não se percebe quais sãos os verdadeiros factos. Numa investigação à séria tudo aquilo que falam é apenas o ruído de uma informação não tratada e cruzada. Agem, assim, como se fossem simples estagiários com overdose de dados.
Nestas coisas há que ir com cuidado e apresentar uma historinha bem contada, em que os factos se percebam e façam sentido, e não ir pelo diz que diz, tipo comadres vizinhas ao soalheiro a falar da vida alheia. Caso contrário entra-se num terreno pantanoso que leva ao fundo tudo aquilo que devia ficar bem firme, a instituição politica, pois a figura do PM vai ficar queimada e sem autoridade, no caso de ser inocente, e a condenação dos culpados, quaisquer que sejam, PM incluído, já que, com toda a confusão, os tiros não lhe vão acertar. Ainda alguém dúvida que no caso Casa Pia só vão sair mal a Justiça e as vítimas?
Numa altura em que o jornalismo e jornalistas atravessam a sua pior crise, a forma como se apresentam ao mundo é de franco-atiradores à procura de sangue, em que não só ficam felizes pelo tiros que disparam, como também, outros, se entretém a brincar com as cápsulas. E chamam a isto jornalismo de investigação.
Em investigação há que ir atrás dos factos e montar o puzzle antes de se apresentar o que quer que seja. Aqui, neste caso é ir atrás do dinheiro, quanto foi (nem isso ainda se percebeu), quem o recebeu, e não cair na casca de banana que mais uma vez os ingleses nos puseram no caminho. Afinal os homens fizeram um péssimo negócio com a Outlet, falida até mais não, e ainda por cima caíram num conto de vigário de andar a distribuir luvas às cegas, como se isto fosse a República Democrática da Cribéria. Parece-me que à conta dos pacóvios dos portugueses muita gente meteu a mão ao bolso, incluindo também pacóvios lusos, que gostam de se chegar à frente sempre que anda no ar um cheiro a parentela e negociatas.

Não ponho as mãos no fogo pelo PM, nem por ninguém. Mesmo em caso de não culpa não lhe falta trapalhada nisto tudo, como já é hábito nestas coisas de licenciamentos e afins. Cabala, Campanha Negra, Vudu? Sei lá, mas o certo é que nestas coisas os políticos colocam-se sempre a jeito. Não querem ser lobos mas teimam, senão vesti-la, pelo menos, tapar-se com a pele.
Mas há uma coisa, mais importante do que a presunção de inocência, que é não cairmos em julgamentos histéricos que só vão levar à sua absolvição, no caso de ser culpado, ou à destruição das instituições, no caso de ser inocente. Nesta época de crise o país vais paralisar com todo este circo.
Parem de vez com o mail que diz e não diz, com o DVD que prova e nada prova. Digam-me apenas para onde foi o dinheiro, não será difícil já que alguém o deu e se está a queixar. Gritando bem alto, Show me the Money!
É que assim não há quem aguente, pois afinal não sabemos se o homem levou o pato ou não. Ou será que caímos todos que nem um patinho?
Post Post: Na hipótese do PM vir a ser culpado, ele não devia ser julgado por corrupção, mas sim por burrice compulsiva.
Sempre fui reservado. Nunca pensei revelar em público alguma mania minha, muito menos uma tara. Todos nós as temos, mas daí a dizê-las à boca cheio vai uma légua submarina. Assim, num gesto de perfeita nudez, vou mostrar-me numa cena pouca digna, a de parameterizar coisas por tudo e por nada.
Cada louco com o seu tema, cantava o Serrat. Pois eu, que não canto, encanto talvez (!!!!!!!), tenho muito tema na minha dose de loucura quotidiana. Uma delas é brincar com números, melhor seria brincar com outras coisas, alguém dirá. Certo, mas uma coisa não impede a outra e a vida é feita de muitos tipos de brincadeiras, a única formula para trazermos a criança, que fomos em tempos, durante todo o percurso irritante da adultice até ao momento do cadafalso final. Caso contrário, não valeria a pena.
Para ilustrar a panca, eis aqui um exercício à volta das fitas nomeadas para o Óscar do Melhor Filme:
Filmes | B | A | P | C | S | D | E | Tot | Prob |
O Estranho Caso de Benjamin Button | 8 | 5 | 7 | 7,1 | 10 | 9 | 2 | 59,1 | 26% |
Frost/Nixon | 7 | 4 | 4 | 9,4 | 2 | 3 | 2 | 38,4 | 17% |
Milk | 5 | 7 | 6 | 8,9 | 4 | 7 | 6 | 42,9 | 19% |
The Reader | 7 | 4 | 3 | 5,7 | 2 | 5 | 1 | 35,7 | 15% |
Quem Quer Ser Milionário? | 4 | 8 | 10 | 8,8 | 7 | 7 | 4 | 54,8 | 24% |

Os Indicadores:
Bonitinho e Académico
A Academia gosta de coisas a puxar para os grandes dramas, épicos, biopics, apelar ao sentimento nobre, planos elaborados, fotografia bonitinha e interpretações arrebatadoras, tudo sem grandes sobressaltos. Exemplos máximos: Dança com Lobos, Paciente Inglês e Mente Brilhante. Valores: Entre 10, para o filme certinho, vindo do colégio com notas máximas, e 1, para o rebelde chumbado por faltas.
Por vezes a Academia gosta de dar numa de moderninha e dizer que está muito à frente, premiando alguma ousadia. O Silêncio dos Inocentes foi um pouco o percursor desta moda, mas ultimamente o Colisão e o Este país não é para Velhos mostra esta tendência. Valores: Entre 1, para o xarope, e 10, para aquele que é um soco no estômago.
O facto de vir já premiado é um factor importante na hora de votar. Ponderei por 3 as nomeações ao Óscar, 2 os prémios recebidos e 1 as restantes nomeações, reduzindo depois tudo a 10 com base na pontuação máxima.
| Osc | Prem | Nom | Tot | Pond. |
O Estranho Caso de Benjamin Button | 13 | 6 | 47 | 98 | 6,6 |
Frost/Nixon | 5 | 7 | 31 | 60 | 4,0 |
Milk | 8 | 15 | 38 | 92 | 6,2 |
The Reader | 5 | 4 | 21 | 44 | 3,0 |
Quem Quer Ser Bilionário? | 10 | 41 | 37 | 149 | 10,0 |
Média ponderada das estrelinhas que lhe deram lá pelas Américas. É o único cálculo que não é meu mas de outros tolos que se entretêm a fazer estas coisas na net. Antes isso que em medicamentos!
As intenções artísticas podem ser muitas, mas isto de dar prémios a filmes que a bilheteira resolveu pôr de castigo não faz bem à saúde, pelo que ter tido algum sucesso é também um factor a ter em conta. Assim, tendo partido do principio que a barreira dos 100 milhões de verdinhas era o tecto máximo e, em função do box Office, foram atribuídos Valores entre 1, para o sucesso tipo português, e 10, para o filme que desgastou hectares de milho para fazer pipocas.
Desgraçadinhos, Doentinhos e outros CoitaDinhos
Ter personagens maltratadas pela sociedade, que vão de deficientes a pobrezinhos, passando por prostitutas e alcoólicos, é quase sempre receita para o sucesso na academia, nomeadamente nos prémios interpretativos. Como uma coisa puxa a outra, também dá uma boa ajuda ao prémio do melhor filme. Valores entre 1, para um filme tipo Mourinho, e 10, para uma fita tipo Alzira a desgraçadinha, alcoólica, entrevadinha, abandonada, com uma doença incurável e com 10 filhos para criar.
Embirrações e Complicações
Abordar uma temática que cause um certo engolir em seco, ou ter personagens e actores que tenham algum atrito com o status quo hollywoodesco, não é boa política para o prémio. Lembram-se dos cowboys de Brokeback Moutain? Era tudo muito bom, muito bom, mas aquilo dos Marlboros Men andarem mais interessados em guardar o gado para lá do arco-íris do que fazer a barba com navalha, foi forte demais para a Academia e o Colisão levou a melhor, claro que também era um filme superior, mas isso agora não interessa nada. Valores entre 1, para um filme com a Madre Teresa, e 10, para uma fita com a Ministra da Educação.
No fim disto tudo apliquei a fórmula:
. (2xB+A+2xP+C+D)-E .
∑ ((2xB+A+2xP+C+D)-E)
E obtive, assim, a percentagem que determina a probabilidade do filme vencedor na noite dos Óscares.

Numa análise imediata podemos dizer que temos praticamente um empate técnico entre o Slumdog e o Benjamin Button, e que o The Reader vai ser o longo sorriso amarelo da noite, com excepção da Kate Winslet, mas isso já é outro departamento, os das interpretações. Ou será que Milk vai por a Academia a sair do armário? As hipóteses são menores, mas ainda assim está na corrida.

Pronto, já me posso vestir, que o tempo faz frio e ainda apanho uma constipação. Talvez volte a este nudismo pan-numérico para ilustrar a probabilidade dos actores e actrizes, ou, quiçá, porque não, calcular quantas vezes o Governador do Banco de Portugal vai dar palpites errados sobre a conjuntura nacional. Não seria melhor eu emigrar para a Patagónia?! Fico-me com esta dúvida metódica.