SOL

Anything

 

Anything that doesn't take years of your life and drive you to suicide hardly seems worth doing - CORMAC McCARTHY

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Farrapos

 

vivo num sítio convexo

ouço a voz como um reflexo

as luzes ecoam num amplexo

                 

minhas mágoas sempre oculto

minhas pedras não dissolvo

olho para trás procurando um vulto

simplicidades que não resolvo

resmungo um breve insulto

mas a amizade sempre devolvo

          

se um dia semear pinturas

terei guardado um bocado

de mel para as amarguras

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Propensão

 

esperança banal que me mostras teu sorriso

separa suavemente as folhas desse livro fechado

não é de frases em branco que preciso

é de ver e sentir este chão molhado

        

não basta fazer de duas mãos simples prece

nem de umas palavras inspiração de profeta

um simples olhar não mais te merece

porque se transformou em perdida seta

       

descobre a união

que nunca magoa

mesmo que a razão

seja doutra pessoa

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Uma outra nascente

 

destas letras ausente

nesse passado cortado rente

saberias contar os dias

só porque não sabes o que é

caminhar pelo teu próprio pé

            

talvez assim atravesses as pontes

para beber a água de outras fontes

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Manter a sombra

 

nobreza de espírito é coisa que não se desencanta

só a pena

jamais saberei o que a surpresa canta

nesta vastidão amena

             

relego para sempre a tua deixa

como um talvez

uma dor que não se queixa

sem doer de vez

                    

o parco semblante nada te diz

é tardio

esta utopia que sempre quiz

já não brota desta terra em pousio

                      

sê mais que um desejo

depois será tarde tanto ensejo

               

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Luz branca

 

neste quarto que já minguou

quem nunca perdeu nunca ganhou

na conquista de cada momentum

a conquista não serve nenhum

             

no inicio a imagem falsa

a meio alguma repulsa

agora que acaba enfim

já ganhei algo para mim

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Folha seca

            

sabendo que o tempo é circular

vai-se esvaindo em por-do-sol

guardando velharias só por guardar

juntando coisas inúteis ao rol

             

mentir um dia por impulso

não traz a verdade pura

guardar um lenço sujo no bolso

não é promessa nem jura

            

no meio do livro a folha seca

deixa a sua marca discreta

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Voando

julgando os dias desertos

fechando espaços abertos

á luz da névoa adormecida

tombou muito cedo na vida

                                                 

deixou a copa voando

fez sorrir até partir

mas volta de vez em quando

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Laço lasso

 

         

há uma linha que prende

a vaidade onde te afogas

é uma parede que fende

nas preces onde te rogas

             

o desejo já é passado

frio como a primeira neve

mesmo sussurado ao ouvido

o sentimento é muito breve

      

na paz perene da solidão

ecoa o riso da paixão

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Solista (a)corda

orchestra

quando a corda vibra

e o compasso se descobre

neste silêncio se quebra

a razão cada vez mais pobre

    

depois toca o solista

tudo nele se concentra

no meio de tantos salta à vista

a verdade que na fé não entra

          

na escuridão da última fila

não se distingue a percussão

depois de tanto senti-la

esmoreceu a paixão

    

o maestro indica o caminho

os olhos fazem a leitura

fechando os olhos, sozinho

principia a abertura

            

e se alguém desafina

na orquestra ou na plateia

renasce o que se imagina

em noite de lua-cheia

            

ouve-se aquilo que se gosta

descobre-se outra verdade

mas quando ela depois assusta

já nem serve a amizade

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Apenas a sós

cheguei cedo

o mar acordava

perdi o medo

que o poente deixava

        

num breve olhar

cruzei o infinito

fizeste-me deixar

o solitário mito

     

e quando partiste

lutando por vós

não consegui ficar triste

apenas a sós

maré

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Dois

águas

o pó acumula-se nas garrafas

a madeira apodrece

talvez o passado não regresse

nessas palavras que sempre abafas

         

depois de tantos anos

a água não secou

a pérola não brilhou

chovem outros danos

                    

as lágrimas têm cores

sabem a raios de luar

por isso irei sempre guardar

cá dentro as minhas dores

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Em paz

20 anos

 

nesta vela

           

acesa

       

abro a janela

                 

da tua beleza

              

         

     

desaparecida

              

não esquecida

             

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Onde as aves voam

somente quando o sol desaparece no horizonte

os olhos se fecham como se não tivessem chama

e numa carta fechada ficou a água dessa fonte

que secou há muito para deixar o caminho sem lama

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Envelheço

red drop

envelheço mais por estes dias

é a visão que se turva

por não ver aquilo que serias

nesse abrandar a cada curva

  

meto a cabeça entre as mãos

fecho os olhos e a saudade

imagino apenas os sins e os nãos

e a energia trazida pela vaidade

                     

todos estes dias de remorso

deixam a nú a paixão linear

pois se nem o rio segue o mesmo curso

ano após ano num suave vaguear

         

agora que surgem gotas de orvalho

nas manhãs secas de Outono

pela terra húmida as cinzas espalho

esperando sempre essa alma sem dono

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