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A HIDRA

Durante dezenas de anos, fruto da maneira de ser muito portuguesa do “deixa andar” e do “fingir que não se vê”, aliada à novel cultura pós-modernista de que o dinheiro faz a felicidade, a corrupção foi-se espalhando por todo o tecido social e em progressão geométrica. Só que as coisas chegaram a um tal ponto, em que o cheiro é já tão nauseabundo, que o ar se tornou irrespirável. E é já sem surpresa e com naturalidade que todos os dias assistimos a esta implosão de novos escândalos. 

 

E, como está à vista de todos, o poder autárquico é um terreno fértil à propagação da doença. A corrupção é, sem qualquer dúvida, o imposto mais caro que os portugueses pagam. E hoje as autarquias locais são as principais fontes de corrupção, sendo o urbanismo uma área de enriquecimento ilícito incontrolável.

 

Acresce que os presidentes de Câmara, muitas vezes pouco conhecedores de onde começa e termina o seu poder e educados na cultura autoritária e antidemocrática do antigo regime (que, ainda, têm por referência), estão convencidos de que são os donos e senhores das suas autarquias. E o dinheiro da autarquia, que chegam a confundir com o seu (basta ouvi-los falar), é utilizado para cimentar o seu poder, cumprindo a velha máxima de que «a política serve para ajudar os amigos, prejudicar os inimigos e aplicar as leis aos que nos são indiferentes».

 

Assim, em vez de se guiarem por critérios objectivos na atribuição de apoios e subsídios a particulares e associações, o dinheiro público é, antes, utilizado para silenciar consciências, eliminar adversários e colocar homens de mão à frente das diferentes associações e instituições. Ou seja, a torneira autárquica abre ou fecha, consoante as associações e os particulares prestem ou não vassalagem ao senhor feudal.

 

Mas o que é mais revoltante e aviltante em todo este processo é a forma humilhante, sabuja e conformada como a maioria das pessoas aceita vergar-se ao poder presidencial para poder comer as migalhas que vão caindo do prato (o empregozito, o licenciamento da obra, o muro, o subsídio, etc.).

 

É certo que o voto é secreto. Mas ninguém consegue ser vertical no momento de votar quando chega à cabine de voto com uma tão grande curvatura nas costas. Quem vive de cócoras é incapaz de votar direito.

FACE OCULTA OU À MOSTRA?

«A única garantia dos cidadãos contra o arbítrio é a publicidade.»

(Benjamin Constant)

POLÍTICA E SERIEDADE

Hoje é ponto assente, para o homem comum, que os políticos são todos uns aldrabões e que só querem tacho. Agora também é verdade que a seriedade e a honestidade não são qualidades que os eleitores valorizem num político. Antes pelo contrário.

 

Não é, pois, de admirar que indivíduos condenados, indiciados ou envolvidos em casos de corrupção, favorecimento pessoal ou abuso de poder continuem a ganhar categoricamente as eleições. Ou seja, a falta de honestidade dos políticos (de que os portugueses tanto se queixam) é fruto, afinal, de uma escolha consciente desses mesmos portugueses que consideram, no fundo, a falta de honestidade uma qualidade essencial para um político poder exercer condignamente o cargo para o qual foi eleito. Daí a expressão tantas vezes ouvida, relativamente a pessoas que a opinião pública tem por sérias e honestas: «o senhor é demasiado sério para ser político».

 

Tudo isto tem uma razão de ser. Num país, onde toda a gente sobrevive à conta de cunhas, subsídios e favores, todos têm a consciência do perigo que seria serem governados por alguém que fosse sério. Lá se ia o emprego da filha, o subsídio para o pessoal e a adjudicação da obra. Todos sabem da aldrabice em que vivemos. Mas poucos conseguem imaginar-se a viver sem ser assim.

 

Para já não falar do estafado argumento da obra feita com que se quer justificar o voto num político menos escrupuloso. Como se, com tantos milhões de euros de fundos comunitários, alguém pudesse não ter feito nada. Mas até, neste campo, a questão deveria ser outra. Ou seja, se a obra se justifica, se está adequada aos seus destinatários e potenciais utilizadores e se é proporcional ao dinheiro que custou.

 

Mas qual é o eleitor que se preocupa se o dinheiro que se gastou no estádio, na rotunda ou na piscina dava para fazer três estádios, três rotundas e três piscinas? Ou com o mamarracho que lhe espetaram na rotunda à porta de casa?

 

Para o povo, o que interessa é que o estádio, a rotunda e a piscina estão feitos. Quanto ao seu preço, ninguém se preocupa com isso. E se o político e a sua rede de amigos se abarbataram com algumas centenas de milhar de euros, pouco importa… O que interessa é que a obra está feita.

 

Acontece que tudo isto é pago com dinheiro dos portugueses. O dinheiro que esta gente mete ao bolso é dinheiro nosso. O dinheiro gasto na obra inútil, desnecessária e no mamarracho é dinheiro nosso. O dinheiro desbaratado em subsídios, almoços, viagens e electrodomésticos distribuídos ao domicílio é dinheiro nosso.

 

É isto que os portugueses não conseguem entender. Porque ganham pouco ou estão desempregados ou beneficiam de algumas migalhas deste esbanjamento de dinheiros públicos, os portugueses são absolutamente indiferentes à forma como os políticos derretem o nosso dinheiro.

 

Dizia Pacheco Pereira, outro dia, ao meu lado, numa acção de campanha: «um português que nasça neste momento já deve 15 mil euros». E eu olhava para a plateia e apercebia-me do que ia na cabeça daquela gente: «Eu já estou a dever tanto e a tanta gente que mais ou menos 15 mil euros pouca diferença faz» ou «que me interessa a dívida do Estado se não sou eu que a vou pagar? Eu até só ganho o salário mínimo…»

 

Os portugueses não percebem (ou não querem perceber) que a sua miséria resulta precisamente da forma como quem nos governa desbarata os recursos que são de todos nós. Se os portugueses valorizassem mais a seriedade na actividade política, hoje haveria menos obras faraónicas ou inúteis, menos cunhas e menos subsídios, mas viveríamos todos muito melhor e a diferença entre pobres e ricos não seria seguramente tão grande.

ERNÂNI LOPES

«Esta década é uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância. É uma década de incapacidade na visão estratégica e de fantasia na leitura da realidade económica-financeira. É uma década de um permanente esforço exibicionista sem conteúdo e uma expressão sem nobreza. Nunca vi nada assim.»

OS INTOCÁVEIS

Mário Crespo in Jornal de Notícias de 2/11/09

 

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.

 

Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.

 

O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.

 

Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

UMA IDEIA PARA PORTUGAL

in Jornal i de 26/10/09

 

Não adianta mudar de tractor, se o problema é do tractorista. Pelo contrário, mudar de tractor, nestas circunstâncias, só agrava a situação.

 

E o nosso problema é precisamente este. Os nossos governantes passam a vida a mudar as leis (ou seja, a mudar de tractor), quando o problema é de quem as aplica.

 

Qual a solução? É fácil. Primeiro, não mudar de tractor; depois, ensinar o tractorista a usar o tractor; finalmente, substituir o tractorista se ele não aprender ou não quiser aprender.

VENCEDORES E OPORTUNISTAS

O português confunde muito o espírito de vencedor com o do oportunista. Não é por acaso que a expressão «EU SOU DO QUE GANHA» é aquela que melhor caracteriza o carácter do nosso povo. O português, em regra, só gosta de apanhar o comboio quando a vitória está antecipadamente assegurada. Mas este espírito de se colar aos vencedores define, por natureza, os oportunistas e não os vencedores.

 

Da minha parte, as vitórias antecipadamente asseguradas sempre me enfadaram e enjoaram. Só as vitórias impossíveis me estimulam e entusiasmam.

 

Foi por esta razão que aceitei o convite do PSD para ser candidato à Câmara de Abrantes. A mesma razão por que nunca aceitaria ser candidato do PS em Abrantes, do PSD em Viseu ou da CDU em Avis

ENTREVISTA REVISTA DIÁRIO DE NOTÍCIAS (2/10)

Candidatura de Santana Maia à Câmara de Abrantes resume-se em duas palavras: 

 

Amar Abrantes    

 

Durante mais de uma década, Santana-Maia Leonardo deu voz à indignação de um povo. Falou contra os poderes instituídos, os compadrios e a corrupção. Hoje, é o rosto do PSD por Abrantes e fala, em discurso directo, à Revista da Qualidade, explicando o porquê deste desafio e abrindo o livro da sua candidatura.

 

Qual a razão da sua candidatura à Câmara Municipal de Abrantes?

Do ponto de vista do PSD, penso que foi a vontade de mudar a sério. Durante mais de uma década, fui colunista de diversos jornais e escrevi contra a forma pouco séria de fazer política em Portugal. E o PSD de Abrantes reviu-se nas minhas ideias. Do meu ponto de vista, as razões foram diferentes. Por um lado, senti a obrigação de me entregar de alma e coração a um concelho onde tenho as minhas raízes familiares, seguindo o bom exemplo dos meus tios. Por outro lado, senti a obrigação moral de dar a cara pelas minhas convicções e ideias. A mudança que eu represento e defendo, saliente-se, tem a ver com a forma como se exerce o poder e não apenas com a mudança de partido no poder.

 

Num dos seus recentes discursos referiu que o trabalho a fazer em Abrantes e em Portugal era digno de Hércules. Sente que consegue levar a cabo essa tarefa?

Sim, é preciso realmente um trabalho de Hércules. Referi-me a Hércules porque este lutou contra a Hidra, animal mitológico que ganhava força a cada golpe. E Portugal tem também a sua Hidra: a corrupção. A corrupção é o imposto mais caro que os portugueses pagam. Hoje as autarquias locais são as principais fontes de corrupção, sendo o urbanismo uma área de enriquecimento ilícito incontrolável. Acredito, no entanto, que consigo ter essa força porque candidato-me à Câmara sem telhados de vidro e despido de quaisquer interesses. Com 50 anos, tenho a minha vida resolvida: não tenho família para empregar, nem dívidas para pagar… Exercerei o cargo de autarca de Abrantes de forma livre e sem interesses, apenas em prol da população. Penso que só assim, de forma desprendida, se pode ser um bom autarca.

 

Aborda muitas vezes o tema das verbas comunitárias. Um dos seus intuitos é aproveitar as verbas deste novo Quadro Comunitário para desenvolver Abrantes?

Obviamente. No entanto, o que tem acontecido, em Abrantes e em Portugal, é que todos querem fazer obras faraónicas com vista a perpetuar os seus nomes e a enriquecer os mesmos, sem que haja a preocupação com o verdadeiro retorno para as populações que dizem servir. Abrantes não fugiu à regra. O problema é que, depois, damos uma volta pelo concelho e vemos estradas intransitáveis, centros de dia sem condições, idosos ao abandono, escolas fechadas, populações sem saneamento básico e sem qualquer infra-estrutura de lazer ou desportiva… Ora, isto é inadmissível. A primeira obrigação das autarquias é fazer as pessoas felizes e nenhuma pessoa é feliz com um mega-estádio de basebol, mas sem esgotos. Os concelhos só têm futuro se crescerem de forma equilibrada. Em Abrantes gastou-se muito, mal e em poucos sítios, sem grande retorno sequer para os sítios onde os investimentos foram feitos, e o resto do território ficou completamente ao abandono. Tornar o concelho mais harmonioso, corrigindo as gritantes assimetrias, será um dos nossos grandes objectivos.

 

Qual a razão de querer criar a marca «Abrantes»?

Abrantes tem potencialidades que todos os concelhos gostariam de ter. Abrantes tem um castelo e um património histórico valioso, tem uma barragem e um rio, tem uma gastronomia excelente, uma cultura muito rica e uma localização privilegiada. Estamos no centro do país. E aquilo que se tem verificado é que, ao longo destes anos, Abrantes não tem conseguido atrair visitantes e tem perdido população. Quantas pessoas no país sabem que Abrantes tem um castelo? Quantas pessoas associam a barragem de Castelo de Bode a Abrantes? Os abrantinos consomem-se, muitas vezes, em pequenas rivalidades, fruto, na maioria das vezes, de pequenas invejas. Ora, Abrantes só será grande se não se deixar consumir nestas ninharias. Abrantes precisa de alguém que faça apelo à sua verdadeira alma, que promova Abrantes e a coloque no mapa de Portugal.

 

E se não há visitas, não há atracção de população. Sem população, o concelho fica desertificado…

Exactamente. A minha luta prende-se precisamente com a desertificação e com a forma centralizada de fazer política em Portugal. Invocamos na Europa o facto de sermos um país periférico para recebermos fundos comunitários, mas, quando esses fundos chegam, os governantes de Lisboa esquecem-se da periferia do país. E nas autarquias acontece o mesmo. Reclamam-se investimentos e dinheiros do Estado e da Europa, em nome da interioridade, e, quando as verbas chegam, o dinheiro é todo gasto na sede do concelho. Somos todos filhos de Deus. Este é o princípio que defendo. É preciso que o dinheiro e o desenvolvimento cheguem a todo o lado, para que as pessoas não fujam do interior para o litoral e das pequenas aldeias e vilas para as cidades.

 

Sente-se com força para enfrentar o descrédito da população na classe política?

Só gente sem vergonha não pensa duas vezes antes de entrar na vida política porque, efectivamente, corremos o risco de sermos enxovalhados e de acharem que somos iguais aos anteriores. Mas a verdade é que os políticos portugueses reflectem apenas aquilo que a maioria dos portugueses é. Dou o exemplo do futebol. As regras do futebol são iguais aqui e na Inglaterra mas a seriedade e a competitividade do jogo não são as mesmas. Aqui o jogador simula, descaradamente, faltas, lesões e penaltis, sempre com o apoio dos seus adeptos e a complacência dos árbitros. Ora, isto reproduz a nossa cultura, uma cultura que desculpabiliza a fraude quando a mesma nos favorece ou beneficia. É natural que, sendo nós assim, os nossos governantes também o sejam. É, pois, importante remar contra esta cultura de falta de honestidade. Mas quem manda tem de dar o exemplo. Só assim é possível mudar Portugal.

 

Costuma referir-se às pessoas não como destinatários mas sim como participantes…

Eu defendo as pessoas como os verdadeiros agentes da mudança e não apenas como destinatárias de políticas. O nosso problema é o tractorista, não é o tractor. E o grande falhanço das nossas reformas reside precisamente em andar sempre a mudar de tractor, sem mudar o tractorista. Acredito que a educação, no verdadeiro sentido da palavra, pode mudar as pessoas e que, através das associações desportivas e culturais e das escolas, será possível implementar uma sociedade de valores e um Homem novo. Temos de conseguir que os jovens interiorizem os valores de cidadania, da liberdade de opinião e de expressão, da honra, da solidariedade e do respeito pelos outros. Este é o caminho.

 

Qual a adesão das pessoas à sua forma de pensar, ao seu programa eleitoral?

Existe, em Abrantes, neste momento, um grande desencanto. Tenho procurado incutir a esperança nessas pessoas e mostrar-lhes que a mudança é segura. E, apesar de reconhecer que o desencanto está a corroer a alma dos abrantinos, acredito que ainda vão encontrar, dentro de si, uma réstia de forças e de alma para lutar pela mudança.

 

Gostaria de deixar alguma mensagem aos abrantinos?

A única mensagem que posso deixar é de esperança. Vou apresentar nestas eleições uma lista completamente renovada, onde as qualidades humanas foram o primeiro critério de escolha. Parafraseando o meu primo e ilustre penalista Conselheiro Maia Gonçalves, também eu considero que os políticos devem ser, antes de mais, pessoas boas e sensatas. Ponto final. E, se possível, letradas. Por sua vez, a renovação da classe política é sempre importante porque o poder cria vícios.

 

Acha que Abrantes pode ser um exemplo no país?

O exemplo é a melhor forma de ensinar e Abrantes vai ser esse exemplo. E seremos seguramente uma voz contra a forma como se faz política neste país, contra o centralismo de Lisboa e a escandalosa concentração de meios na capital.

ABRANTES INSEGURA

A relação dos portugueses com as comunidades ciganas nem sempre foi pacífica. Com efeito, apesar da longa permanência destas comunidades em território português, a verdade é que nem estas comunidades, alguma vez, manifestaram grande interesse em se integrar, nem os portugueses se mostraram muito abertos à integração.

 

No entanto, o pulso de ferro da ditadura salazarista, a vida nómada destas comunidades e a sua sobrevivência à conta da venda ambulante, do contrabando de tabaco e de pequenos furtos e burlas, ou seja, à conta de pequenos crimes que provocavam, muitas vezes, mais o riso do que a ira, ia fazendo com que os portugueses as fossem tolerando.

 

(Devo, antes de mais, esclarecer que estou a usar aqui o termo «cigano» em sentido restrito, ou seja, indivíduo que vive nas comunidades ciganas e se rege pela “lei cigana”, e o termo «português» em sentido lato, ou seja, qualquer pessoa de qualquer nacionalidade, etnia, raça ou religião que viva no território nacional e que se reja pelas nossas leis).

 

Com o advento da democracia, tornou-se obrigatório levar a cabo uma série de medidas com vista à integração das comunidades ciganas na sociedade portuguesa, em nome dos princípios civilizacionais de combate ao racismo e de luta contra a discriminação social e racial.

 

Acontece que um número muito significativo de ciganos recusa, liminarmente, fazer qualquer esforço de integração e, à boa maneira cigana, só aceita a lei portuguesa para colher os benefícios das políticas de integração, porque, quanto ao resto, continua a reger-se pelas suas próprias leis.

 

E, num país onde a autoridade do Estado se evaporou, até os pequenos marginais começaram a sonhar em grande. E muitas comunidades ciganas adaptaram-se rapidamente à nova realidade, evoluindo naturalmente do contrabando de tabaco e dos pequenos furtos para o tráfico de droga e para os roubos violentos, muitas vezes sobre pessoas idosas ou que vivem isoladas. E tudo isto perante a passividade das autoridades públicas que lhes continuam a dar religiosamente os subsídios de reinserção social como se isso, por si só, tivesse o efeito miraculoso de os converter ao cumprimento das leis portuguesas.

 

Em Abrantes a situação começa já a tornar-se preocupante, havendo bairros, localidades e pessoas que vivem absolutamente aterrorizadas. E já não basta serem assaltadas e agredidas como são ainda forçadas a viver sob ameaça permanente de verem os filhos mortos, caso apresentem queixa ou, se a tiverem apresentado, a não retirem. É caso para se dizer que, neste momento, a “lei cigana” já se começa a sobrepor à lei portuguesa na regulação de conflitos.

 

Sou, obviamente, a favor de políticas de reinserção social. Mas quem recebe apoios sociais tem de perceber que também tem deveres para com aqueles que pagam impostos para que eles possam receber esses apoios. O que não é admissível é que, sob o pretexto da reinserção social, o Governo e as câmaras estejam apenas a financiar o crime e a promover a marginalidade.

 

Com efeito, relativamente às comunidades ciganas, o Estado português limita-se apenas a despejar dinheiro, fechando os olhos a todos os incumprimentos das obrigações impostas, aos comportamentos marginais e aos flagrantes sinais exteriores de riqueza que muitas destas comunidades apresentam.

 

Por este andar, isto ainda vai acabar mal. Quem te avisa…

A DROGA (Painel)

FLÁVIO (membro de “gang” de Lisboa) :

 

«Se tu morasses num sítio onde o que se levanta às seis da manhã para trabalhar ganha um décimo do que se levanta ao meio-dia para traficar haxixe, o que fazias?»

 

FRANCISCO DE VILHENA E SILVA :

 

«Os “drogados” invocam a condição de “doentes” para não serem punidos pelos seus delitos, mas depois esquecem-se que são “doentes” e assumem-se como pessoas livres com capacidade de decidirem pelo seu tratamento, ou não.»

 

«Não podemos ajudar aqueles que prevaricam e continuam a prevaricar só porque são “drogados”, e ao mesmo tempo sermos exigentes para com os jovens cumpridores. (...) Não é eticamente correcto facultar aos prevaricadores maiores recursos do que aos jovens cumpridores. A aplicação dos dinheiros públicos tem de obedecer a critérios rigorosos de ética e justiça social.»

 

ALOCUÇÃO DO JUIZ AQUANDO DA LEITURA DA SENTENÇA PROFERIDA NO PROCESSO REFERENTE AO HOMICÍDIO DO ESTUDANTE DO TÉCNICO :

 

«Carlos Duarte (o homicida do estudante do Técnico), é o senhor o responsável pelo seu acto. O único responsável é o senhor; não é o Estado por não cuidar devidamente dos toxicodependentes; não é o Governo por não fazer as leis adequadas; não é a sociedade por lhes negar oportunidades. Porém, se o senhor tem sido "travado" a tempo, se o Estado fosse mais firme em relação à toxicodependência, se os "decisores públicos" não tivessem feito passar para a comunidade um sentimento de ausência de censurabilidade e de impunidade de tais modos de vida, o senhor não iria cumprir 25 anos da sua vida na cadeia e, sobretudo, o Ricardo José Duarte estaria vivo. Que todos nós pensemos nisto.»

        

JOSÉ ANTÓNIO SARAIVA :

 

«Em Singapura decretou-se a pena de morte para os traficantes e penas de prisão duríssimas para os consumidores. Com bons resultados aparentemente: enquanto o “realismo” ocidental tem contribuído para o aumento constante do número de drogados, o “realismo” de Singapura praticamente acabou com a droga».

VOZES DE BURRO

«Quem não se sente não é filho de boa gente». E vai daí toda a gente se acha no dever de responder à letra a qualquer insulto de que seja vítima.

 

Ora, para uma pedrada nos acertar, é necessário, em primeiro lugar, que nós estejamos ao seu alcance. Da mesma forma, para que um insulto nos atinja, é necessário, antes de mais, que quem o profere esteja ao nosso nível ou próximo de nós. O que significa também que, ao reagirmos a determinadas ofensas, nos colocamos no mesmo baixo nível do caluniador.

 

Não nos ofende quem quer, mas quem pode. Ofendermo-nos com o que certas pessoas dizem a nosso respeito é reconhecer-lhes importância. E das duas uma: ou consideramos que essas pessoas estão ao nosso nível ou não. E, se não estão, é, como diz o povo: «vozes de burro não chegam ao céu».

«BOCAGE, MEU IRMÃO»
VIR'Ó DISCO E TOC'Ó O MESMO

Nos Estados Unidos da América, raramente um director se mantém, durante muito tempo, à frente da mesma empresa. Aliás, quando o director começa a conhecer bem a empresa e os funcionários, significa, para a administração, que está, na altura, de mudar de empresa.

 

Isto parece contraditório mas reside precisamente aqui o segredo do sucesso das grandes empresas americanas. Com efeito, ao começar de novo, sem conhecer a empresa, nem os seus trabalhadores, o novo director não tem juízos pré-formados sobre os trabalhadores da empresa, nem estes conhecem ainda os vícios e as fraquezas do director. Isso propicia a que todos os trabalhadores sintam que têm uma nova oportunidade de mostrar o seu valor e suas capacidades, sem que haja, logo à partida, trabalhadores marginalizados e marcados com o ferrete da desconfiança. Por outro lado, para o director, a direcção de uma nova empresa impõe-lhe um novo desafio, libertando-o da rotina. E não há nada mais destrutivo das qualidades de uma pessoa do que a rotina. A rotina é uma autêntica fábrica de criar vícios.

 

Em Portugal, pelo contrário, prefere-se sempre a linha de continuidade. E a continuidade tem sempre e inevitavelmente uma consequência: a perpetuação e amplificação dos mesmos vícios. Esta é, provavelmente, a principal razão por que não conseguimos sair da cepa torta. Invejamos o sucesso dos outros mas somos incapazes de lhes seguir o exemplo.

MANDAR E COMANDAR

Como é fácil de constatar, o grande problema do nosso país reside única e exclusivamente nas suas elites. Basta ver que os trabalhadores portugueses que conseguem elevar o Luxemburgo ao país com maior taxa de produtividade da união europeia são feitos da mesma cepa daqueles que, em Portugal, nos afundam na cauda da Europa. A diferença não está, pois, nos trabalhadores, mas nos seus directores e dirigentes.

 

Como dizia ainda recentemente António Cerejeira, director de recursos humanos da IBM: «O que faz a diferença são as pessoas. Se tivermos empregados motivados, isso terá impacto no resultado». Acontece que os nossos dirigentes, mal se apanham no poleiro, transformam-se completamente. Como diz o povo, «se queres ver um pobre soberbo, dá-lhe a chave de um palheiro».

 

Fui o 1º classificado do curso de oficiais de Mafra e fiz o serviço militar no BIMec de Santa Margarida. A minha companhia era sempre escolhida para as demonstrações, devido ao seu elevado grau de operacionalidade.

 

A explicação para o sucesso da minha companhia é muito fácil de perceber. Nas outras companhias, os oficiais distinguiam-se por vestir casaco de cabedal, usar óculos escuros e dar ordens. Na minha companhia, os oficiais não se distinguiam dos soldados por nenhuma peça de vestuário porque só usavam as peças de vestuário que os soldados podiam usar. Na minha companhia, os oficiais distinguiam-se dos soldados por outras razões: nos exercícios, o oficial era o primeiro a fazê-los; nas refeições, o oficial era o último a ser servido.

 

E é assim que deve ser. Há uma grande diferença entre mandar e comandar. Quem manda dá ordens; quem comanda dá o exemplo. À medida que se sobe na escala hierárquica, devem aumentar as obrigações e diminuir os direitos.

 

Mas este é um mal português muito antigo. Já Camões se queixava disso mesmo ao rei D. Sebastião, no final do Canto X de “Os Lusíadas”: «Fazei, Senhor, que nunca os admirados/ Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,/ Possam dizer que são pera mandados,/ Mais que pera mandar, os Portugueses

AS GUERRAS DO BASTONÁRIO

Como toda a gente sabe, não sou um defensor nem do estilo, nem dos métodos do actual Bastonário da Ordem dos Advogados. Agora também é verdade que o actual Bastonário é o fruto natural da árvore plantada pelos anteriores Bastonários, excepção feita ao Dr Pires de Lima.

 

Com efeito, apesar de a advocacia ser uma profissão liberal na sua essência, a verdade é que foi acometida dos mesmos vícios que enfermam a nossa sociedade. Ou seja, enquanto a nobreza ia enchendo a pança à conta das ligações promíscuas que têm com o poder político (estatal e autárquico), foi crescendo uma plebe de descamisados que vivem exclusivamente das esmolas do apoio judiciário. Ambos vivem do Estado: só que, enquanto os grandes escritórios levam o grosso da fatia à conta das amizades que foram angariando na vida política, os descamisados precisam para comer que lhes paguem as defesas oficiosas.

 

Marinho Pinto representa, precisamente, a voz dos descamisados. E a voz dos descamisados é sempre demagógica, populista e perigosa. Vive la Révolution Française! Liberté! Egalité! Fraternité!

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