SOL
Direito à segunda oportunidade...até Cavaco a teve!

meditando

 

Não queria deixar de rabiscar a minha opinião sobre tudo o que nos vai fazer desaguar esta noite num pós eleitoral de alegria ou tristeza

Sejam quais forem os resultados, tal como a maioria das pessoas, acredito que ninguém será maioritário. E por esse facto já poderemos ficar descansados, pois as maiorias costumam absolutizar o poder e tornar a democracia incaracterística e algo prepotente. Depois é vê-los, os senhores das cúpulas, a brandir a bandeira da arrogância e da indiferença. Já vimos e provámos esse petisco.

Todavia, mesmo sem maioria, teremos que definir hipóteses e seleccionar esquemas de vida.

Dos habituais contendores há sempre a dupla que discute o lugar cimeiro e forma governo: ou PS ou PSD, que, coligados ou não, entre si ou com outro partido muleta, deverão formar e presidir um novo Governo. Creio que os portugueses, por atavismo ou não, continuam a ser muito conservadores nas escolhas, quase indiferentes e passivos no seu quotidiano político. Comodismo? Receio da mudança? Masoquismo? Seja lá o que for, teremos que aceitar.

Num passado não muito longínquo já tivemos PSD com e sem alianças, e em tempos de muito dinheiro da UE a entrar no País a fundo perdido. Aplicou-se bastante, mas também enriqueceram muitos políticos desse sistema, de forma fraudulenta e deixando o povo na mesma miséria. Criaram-se bancos e estruturas financeiras oportunistas, para que os novos-ricos, quase sempre ligados ao sistema político vigente, guardassem os produtos desviados fraudulentamente e quiçá as parcelas legalmente ganhas. E que se viu?

Aparecem as vergonhas dum BPN quase totalmente dominado por políticos do PSD e amigos próximos, que servia de couto para tipos sem vergonha que se serviram dos dinheiros de todos os portugueses e o aplicaram apenas em benefício próprio e dos seus. Chamar a isto políticos sérios é o mesmo que dizer que Hitler foi um governante sério e justo, salvo algumas diferenças pontuais. O pior é que governantes actuais e de suposta confiança, concediam benesses nacionais a alguns desses “ladrões do povo”. Claro que também tiveram exuberantíssimos lucros e proveitos com as fraudes cometidas, mas parecem estar alheios ao facto, como se a seriedade e honestidade fossem um saco roto. Não deverão justificações ao humilde povo que roubaram? E o castigo da Justiça, onde está? Intocáveis? Não pode ser!

É certo que muitas outras manigâncias se cometeram na alta finança portuguesa, mas curiosamente (coincidência, acaso?) só com este último Governo de Sócrates é que começaram a desvendar-se essas fraudes e abusos dos “novos-ricos” cheios de falso poder. Louvor seja dado, então a este Governo, pelo menos neste campo, em que os pseudo-poderosos começaram a ter que prestar contas de fraudulentos negócios e enriquecimentos. Governos anteriores (com telhados de vidro) nem sequer ousaram investigar… deixaram-nos continuar no “negócio”.

No tempo dos governos de Cavaco, sendo Primeiro-Ministro Mário Soares, com tanto dinheiro a entrar no País, a fundo perdido, criaram uma lei que iria beneficiar e apenas enriquecer TODOS os políticos que estivessem no activo: criaram as subvenções políticas, uma remuneração adicional à reforma, algo substancial, e que era atribuída ao fim de poucos anos de exercício político efectivo. Sabemos que quase todos os políticos ainda no activo (pois são sempre os mesmos a ocupar cargos!) e outros já aposentados (mas com tachos milionários de pseudo-gestão) são beneficiários efectivos dessa subvenção política adicional. Se ainda não a recebem, vão recebê-la, pois foi-lhes atribuída por lei, anteriormente. Só os novos, mesmo novos, que nunca foram reconduzidos nos seus cargos, é que já não vão ter direito a essa subvenção. Porquê? Porque o Governo de Sócrates, e muito bem (mais uma vez este Governo!) se dignou colocar um fim a essa vergonhosa benesse dos políticos. Já não foi sem tempo, no entanto deveria retirá-la a quem dela usufrui, pois hoje há muitos trabalhadores que já vão perder benesses normais das suas futuras reformas, mercê de nova legislação que mexeu nas “regras do jogo”. A perder, percam todos e haja moralidade!

Acusaram este Governo de muitas irregularidades e gritam-nas aos quatro ventos, mas parece que apesar de algumas dessas irregularidades, ainda conseguiu ser mais justo que governos anteriores, doa a quem doer.

Realmente também ofereceu “tachos” e um deles é o de Jorge Coelho, na Mota-Engil, que tem direitos até longas datas e “ganha” muitas empreitadas. Mas, se bem se lembram, esta benesse concedida veio tirar idêntico, ou até mais grave, “tacho” que fora concedido pelo PSD a Ferreira do Amaral, com a Luso-Ponte. E Ferreira do Amaral, já não tinha cometido erros enormes na EXPO-98, além doutras derrapagens vergonhosas em seu proveito? Não sou eu que o digo, os jornais escalpelizaram os problemas. Pois bem, embora mal, aqui, “amor com amor se paga”. No entanto deveremos continuar alerta e vigilantes, denunciando estas irregularidades e benesses.

Neste Governo houve um facto que muito me marcou, pela arrogância dos governantes, mal informados e num autêntico despique político com sindicatos de esquerda (além doutros) – a reforma do Ensino, a guerra com os professores.

Claro que aqui o Governo exagerou e procurou impor-se a uma classe que não tinha qualquer interesse numa guerra Governo/Fenprof. Também é certo que os professores, apesar de ser uma classe “a toque de campainha” (quase a única, na Função Pública) merecia que lhes corrigissem determinados vícios ancestrais, que não foram eles que criaram, mas os sistemas políticos anteriores. Refiro-me, particularmente a carga horária de luxo, essencialmente em finais de carreira, em que a componente lectiva era muitas vezes de 14 horas semanais! A componente não-lectiva não era nada de pesado e, por vezes, quase inexistente. Também a progressão na carreira era de um facilitismo notório, sem prestação de grandes provas, embora fossem avaliados (contrariamente ao que o Governo deixou transparecer), frequentando acções de formação, mas muitas delas de valor duvidoso e dificuldade quase nula.

Contudo, este Governo, como já muito propalado, criou um ECD (Estatuto de Carreira Docente), demasiado confuso, complexo e que gerou algumas injustiças inter-pares. A avaliação do desempenho tornou-se um cavalo de Tróia, uma guerra de complicados papéis. A divisão dos professores em Professor e Professor Titular, criou injustiças com criação apressada de Titulares sem regras justas e lógicas, sobejamente conhecidas. Mas, o pior de tudo, ainda foi a nova forma de Gestão Escolar, em que se deu azo a muitos oportunismos de índole política local, com escolha de Directores, maioritariamente, em período de interrupção lectiva (Páscoa). Estes Directores de Agrupamentos escolares, passaram a ter um poder absolutista, que urge modificar, e foram eleitos por um Conselho de Escola em que a maioria dos eleitores não são professores, ou seja, por exemplo, em vinte elementos apenas sete serão professores. Ora estes são, com os seus colegas de Agrupamento, as verdadeiras vítimas dos atropelos cometidos pelo excessivo poder dos Directores, que reinam a seu bel-prazer, sem, muitas vezes, ouvir opiniões dos colegas. Além disso têm um bom suplemento remuneratório para o desempenho da sua actividade e rodeiam-se de adjuntos da sua confiança que nem sempre serão os mais capazes, já que receiam o incómodo e a sombra de alguém mais bem preparado, fomentando o já conhecido Princípio de Peters, tanto em voga na política, desde a central à autárquica, além doutras. Como exemplo diga-se que para cargos de Coordenação Pedagógica são exigidos professores Titulares, mas para a Gestão Escolar e adjuntos do Director, não são necessários os Titulares! Belas hierarquias!

Claro que não vou, aqui, repetir muito do que já escrevi noutras alturas, mas queria deixar um apontamento e alerta para muitos dos professores que andaram agora em plena campanha eleitoral a reabrir as feridas que levaram às grandes greves, e justas, da classe. Alguns estão a querer passar por serem “socialistas” ou que votaram “Sócrates” nas anteriores Legislativas, mas creio que a maioria deles não votou “Socialista”. Sempre foram, ou mais à esquerda e “agentes sindicais” disfarçados ou são “PSD’s” camuflados. Creio que não enganam as pessoas, mas para esses deixo-lhes um repto e solicito-lhes que me expliquem o seguinte: acham que o PSD não queria que fosse aprovado este ECD? Então porque faltaram aqueles cerca de 30 deputados desse partido, no dia da votação deste ECD, que poderiam ter evitado, como sabem, a sua aprovação? É fácil, Manuela Ferreira Leite queria mais tarde, se ganhar estas Legislativas (o que não acredito), não ter a classe dos docentes contra ela, pelo que favoreceu estas faltas. Posteriormente seria só dar uns retoques nesse mesmo ECD, e até passaria pela melhor do mundo!

Logo a seguir veio também, muito pressuroso, o Presidente da República, aprovar e promulgar esse ECD. Claro que primeiro falou com MFL e o partido, que é o seu, por muita isenção que procure evidenciar. Veja-se agora o caso “inventado” pelo seu Gabinete sobre as “pseudo-escutas”. Porque não vetou então o documento e o promulgou? Era mais plausível que o fizesse face ao hipotético descontentamento dos seus correligionários, mas não convinha… era mais lógico vetar outros documentos que discordassem da sua fé e filosofia de vida, como o das uniões de facto (aqui a MFL impôs-se-lhe, com a disciplina partidária e o retrogradismo de ambos!). Conclusão, ao PR, tal como ao seu partido, não convinha anular a promulgação do ECD. É por demais evidente.

Dada a já longa exposição, não vou estender-me mais, deixando novo comentário para depois. No entanto, acho que na sua globalidade o Governo de Sócrates foi o melhor de todos os anteriores. Reformista, dinâmico, eficiente e, apesar da crise capitalista mundial (inegável e destruidora de todas as economias mundiais), conseguiu manter firme a nossa Economia, já de si muito frágil. Creio, pois, que merece uma segunda oportunidade de governação, pois até Cavaco a teve naquela sua longa governação, num período em que mais dinheiro a fundo perdido entrou no nosso País e desapareceu, muito dele, para enriquecer os seus amigos e correligionários. Foi assim que nasceu o BPN, quase aposto. Foi assim que nasceram as subvenções políticas a que Sócrates colocou ponto final.

Logo se verá quem ganhou e, seja qual for o resultado, a vida continuará. Que os vencedores formem um Governo que leve o País a bom cais e nos tire desta malfadada sina de sermos eternamente pobres e injustiçados.

 

O gesto é tudo...

                                      

Há gestos que valem um discurso e discursos que não merecem um gesto. Da gestualidade à objectividade pode distar um fosso imensurável, mas o significado do gesto poderá ser demolidor e irredutível. Repare-se na exuberância mímica facial, na amplitude gestual e no olhar algo cínico de um quase ícone governamental que decidiu, sem gestos, mas por simples palavras decretar o fim da crise. Dir-se-á um homem em crise que, num momento posterior de crise comportamental, acabou por denunciar quão verde estava Pinho...e parecia, na opacidade duma política de bruma, um Pinho já maduro. Como é enganador o cendal translúcido da política baseada no excesso da maioria. Tudo o que parece, afinal não é, e a limpidez das imagens só deixa transparecer imaturidade em fase senil. Isso mesmo, a verde senilidade de quem se julga fruto maduro!

Não há verde pinho sem poesia nem canto, e nós, portugueses, até possuímos lembranças para o autor deste inusitado gesto, desde D.Diniz até Afonso Lopes Vieira e outros. Como memorando cá vai o poema de Afonso Lopes Vieira, consagrado na voz de Amália.

"Flor Do Verde Pinho"

meu jardim de saudades
Verde catedral marinha
E cuja reza caminha
Pelas roboantes naves.
Ai flores do verde pinho
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'a perderam no caminho.
Revejo-te e venho exangue,
Acolhe-me com piedade
Longo jardim da saudade
Que me puseste no sangue.
Ai flores do verde ramo
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'alongaram do que eu amo.
A tua alma em mim existe
E anda no aroma das flores
Que te falam dos amores
De tudo o que lindo e triste.
A tua alma com carinho
Eu guardo-a e deito-a a cantar
Das flores do verde pinho
quelas ondas do mar.
Ai flores do verde ramo
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'alongaram do que eu amo.

 

(Afonso Lopes Vieira)

Pinho, na fase mais madura do seu trajecto político, mesmo ao cair das folhas esmaecidas do poder, acabou por sucumbir mais verde do que julgava, pois nem sequer amadureceu as ideias duma crise, por si, decretada num passado recente. Nem sempre cair de maduro será regra...pois há gestos que ceifam pedestais e fazem rolar cabeças (mal pensantes).


 

 

 

as faces da mesma fruta

                           partes iguais

Dá vontade de rir e de chorar, mas com predomínio de riso...um riso de chacota e sardónico, perante o ranger de dentes de políticos falhados e arrogantes, perante os últimos valores da abstenção nas Europeias.

Realmente lamentável tamanha ausência às urnas, mas a realidade é esta...dói aos bem instalados e aos mais conscientes, mas o verdadeiro povo a que pertencemos é assim...conformado e resignado: não sabe nem quer saber, não tem nem quer ter, não luta nem quer lutar. Pretende deixar que outros pensem e façam por ele... uma verdadeira apatia!
E porquê? Podem crer que a maior culpa cabe à desgraça dos políticos que temos e que singram apoiados na apatia deste povo que exploram e dominam de forma infame e desonesta. Povo que não acredita nos políticos, embora possa acreditar em algumas políticas que não são postas em prática. Se o povo se desligou da política, a culpa vai quase inteira para os maus políticos (quase sempre os mesmos, em alternância) que geriram o País nestes 35 anos de pseudo-democracia.
As recentes eleições europeias mostraram, sem quaisquer razões para euforia dalguns e depressão doutros, que as políticas não cumpridas e a falta de bom senso político, jamais favoreceram a pretensão pela continuidade. Todavia há que estar atentos porque os falsos ganhadores não merecem o apoio do povo, nem um retorno aos erros que anteriormente cometeram e agora pretendem branquear. Será que o povo sofre de amnésia ou padece de masoquismo crónico? Não creio neste princípio e espero que nas próximas eleições saibam o que escolher. É que muitas vezes vale muito mais uma continuidade com sacrifícios, que voltar às perfídias dum poder que se diz alternativo, mas não passa de uma sanguessuga que nos levou à miséria anunciada, com espoliação do erário público e alimentação de um polvo constituido por uma classe política ávida de poder e mordomias. Acaso algum político da era PSD/AD se encontra a viver de ordenados regulares ou reformas normais? Só quem andar a léguas da realidade e das recentes polémicas do BPN e quejandos, se deixa embrulhar por falsas ideias e promessas. Qual foi o Governo, até hoje, que ousou mexer nas mordomias exageradas de gestores, políticos e outros oportunistas do Sistema?
No tempo dos Governos PSD (com ou sem CDS) ninguém mexeu com os grandes interesses económicos, ninguém mexeu nas classes mais favorecidas e até se fomentou o enriquecimennto dos que militavam no Poder instalado. Verdade que o PS pós Guterres ainda alimentou desses vícios e desfavoreceu os que trabalham quotidianamente com salários, muitas vezes, de miséria. Que raio de desenvolvimento económico teve o nosso País nestes 35 anos de alternância política? Quem procura agora, e em tempos de crise mundial, corrigir alguns (muitos) erros do passado? Quem acabou com a subvenção política (belo tacho remuneratório) dos deputados, autarcas e governantes?
Sabemos que já foi um pouco tarde e a desoras...mas sucedeu. Alguém teve a coragem que aos anteriores faltou... e mais não direi, que o povo não dorme, mas castiga na hora certa.

Tem piada o PSD cantar vitória nas eleições recentes, mas tudo não passa de uma farsa. O PSD teve cerca de 3000 votos acima dos que teve nas europeias anteriores, mas...ficou na "pole position". Na próxima corrida, com muito maior assistência, sem tantas ausências (menos que 62%) poderá voltar a perder a vantagem posicional.
À guisa de relembrança, irei transcrever algo que aqui escrevi em 11/12/2004, num outro blogue. Na altura cairia Santana Lopes e seu séquito. Qualquer coincidência com a realidade de hoje será mesmo ocasional.
Isto foi escrito antes das eleições de 20/02/2005 e, obviamentes antes da tomada de posse de Sócrates em 12/03/2005

«Alberto Caeiro, em Poemas Inconjuntos, diz: “Cortei a laranja em duas, e as duas partes não podiam ficar iguais. Para qual fui injusto - eu, que as vou comer a ambas?”
Teoricamente este Governo já se foi...na prática ainda poderá causar danos colaterais se não houver anticorpos que os neutralizem. A real bagunçada já não é institucional, não se brinca num cenário político às trocas e baldrocas e os atónitos do mundo surreal já não se divertem a expensas do pobre Zé Povinho. Infelizmente ainda há nevoeiro que desaparecerá, talvez, a breve trecho, mas sumiu-se o bréu que nos envolvia. Como muitos, senti alívio dum sufoco que não escolhi, e, muitos que escolheram, sentiram-se livres duma penhora que jamais esperavam quando com boas intenções o fizeram. O tempo mostra, em devida e exacta altura, o seu contratempo. Se o fruto caíu por “bichado”, foi óptimo. A bicharada, por contiguidade, poderia minar novos frutos e seria a putrefacção global. Em bom tempo o tempo foi contratempo. Os homens adormecem inebriados no seu narcisismo que é efémero, mas o tempo, na sua real crueza, não permite eternidades balofas. Muito menos a atónitos dum mundo surreal. Vêm aí tempos de mudança e contratempos que poderão arrastar a continuidade do mesmo que, nós mesmos, queremos distante. E a continuidade poderá ter outra máscara carnavalesca, mas, subjacente, o rosto mostrará iguais cores e feições. Dóceis palavras e falsos sorrisos tentarão fazer deslizar os incautos. Cuidado, que as promessas que saem de quem não cumpriu nem agradou, não trarão novas mézinhas e as maleitas prevalecerão, por vezes mais resistentes a nova terapêutica. Na bipolaridade a que nos limitaram, teremos duas fortes opções: os mesmos, ou os quase-mesmos. As duas partes de uma mesma laranja...e sem sermos injustos, teremos que continuar a comer mais do mesmo, que as partes são semelhantes (mas não iguais).»


Afinal que nos irá reservar o próximo acto eleitoral?...Vamos andando e na altura se verá, pois a inconstância e fidelidade de um povo ditarão os resultados. Prevejo uma luta de gigantes entre os dois habituais, já que os outros apenas vão marcando presença perante um conservadorismo popular que diria doentio e masoquista quanto baste. Mais uma vez teremos do "mesmo" ou do "quase o mesmo"... a laranja, mesmo partida em duas, continua a conceder-nos o mesmo sumo, quiçá com maior acidez que naqueles "idos"
Insistir na mentira...cale-se Sr PM, a ministra engana-o

                                    

 

Ouvi Sócrates, em Braga, enumerar os pretensos sucessos na reforma da educação. Acho que ele está mal informado pelo seu elenco ministerial.

Primeiro: Os professores sempre foram avaliados, embora em moldes diferentes dos agora propostos e que são um autêntico falhanço e acima de tudo uma injustiça, pois não premeia os melhores, mas sim os do sistema, bajuladores e mais amigos do Director e avaliadores.

Segundo: a criação de directores nos agrupamentos de escolas é o ressurgimento da forma antiga, salazarista, mas com os protagonistas a ser eleitos por uma maioria que não é de professores, mas ao sabor dos interesses das Câmaras Municipais e outras instituições oportunistas que nem se preocupam com a Escola. Ah!, e estes Directores vão ganhar mais uns setecentos e tal euros, além dos seus 3 adjuntos que receberão cerca de mais 400 euros. Realmente em tempo de crise o Governo é displicente e mãos largas. No salazarismo, e até agora, cada um vivia com o seu ordenado próprio, mas ...há que tê-los nas mãos, subservientes ao poder. Nas USF (Unidades de Saúde familiar) a coisa é parecida e com despesas acrescidas. Viva a crise!

Chamar sucesso às vergonhosas aulas de substituição? Que aulas? Antes entretenimento de meninos e sobrecarga estúpida de professores a quem a substituição nada diz. Nem sequer, na sua maioria, pertencem ao grupo do professor que substituem. Uma farsa que o PM não quer ver nem analisar "in situ".

Quanto ao "Magalhães", os alunos não o podem usar, na sua maioria; muitos nem o possuem, outros vendem-no. Outra farsa. O PM que se inteire, pois anda cego.

E mais injustiças há que deixaram os professores à beira do desespero. Basta ver e confirmar o número dos que pediram reforma antecipada com prejuizo de valor. Basta ver o descontentamento dos mais corajosos e resistentes e as milhares de depressões (em seguimento médico) dos mais frágeis.

Aos alunos só lhes falta agredir fisicamente os professorees no dia a dia, pois psicologicamente já o fazem ao som do batuque ministerial e com assentimento do poder político.

Quanto ao sucesso escolar...nem falemos. Passa-se, obrigatoriamente, com várias negativas e professor que não atribua notas positivas é conotado de mau professor e o Governo aplaude a poupança e o pseudo-sucesso.

Há motivos para o País estar alarmado com tamanha fraude na Educação, essencialmente quando se diz que tudo está bem e é um sucesso. Acorde senhor Primeiro Ministro, abra os olhos e deixe de acreditar em todas as porcarias que lhe contam. O País rola mal na Educação. Nada de facilitismos, pois acaba por se auto-condenar. Falarão do seu curso de Engenharia feito com facilitismo inusual, e ainda da grande farsa das Novas Oportunidades.

Quem não quer ventos que não semeie tempestades, pois a seu tempo sofrerá consequências nefastas e irreparáveis. Pode crer Sr. PM, a sua cama vai ser feita agora nas novas eleições e só a grande abstenção, brancura e nulidade, o vão safar duma catástrofe eleitoral.


Ainda sei gritar Abril... em nome dos que sofrem mais
pobreza 

Passaram já 35 anos. Para gente do meu tempo ainda foi ontem, mas, para a geração dos meus filhos, tudo parece estar à margem dos acontecimentos. Só quem saboreou os tempos de antanho e provou as agruras de uma certa forma de vida, poderá ter a verdadeira noção do antes e do depois. Os jovens até aos quarenta, quarenta e cinco anos, terão os testemunhos na memória, mas a vivência jamais por eles passou, pelo menos de forma vinculativa e quiçá traumática. Viver de facto não é propriamente a mesma coisa que viver ao som dos testemunhos e resquício de imagens e documentos.

Doa a quem doer, os tempos eram outros, todos sabemos. Se temos saudades de muitas coisas boas, que as houve, também não as temos de muitas outras que, hoje, quase seriam impossíveis e até obsoletas. Não se trata de repudiar o “modus vivendi “ e carências sócio-económicas desses tempos, mas tão somente a repressão, o silêncio imposto, a censura, a opressão de actos e ideias. Liberdade era coisa de que se não dispunha, desde que algo mexesse com os “superiores interesses” da Nação, barreira delineada pela máquina do poder.

Mas afinal que nos trouxeram, de novo, estes 35 anos de maior liberdade e democracia? Na realidade um pouco mais de liberdade, com demasiada libertinagem nos cérebros mais tacanhos e abusivos, mas também uma série de  injustiças sociais e económicas, ainda em crescendo.

É facto que se acabou a guerra com as ex-colónias, mas tal acabaria por suceder, mais ano menos ano, mesmo sem a revolta dos cravos, quase tenho a certeza disso. Ninguém pense que continuaríamos, mais tempo, com tal guerra estúpida e descabida. Marcelo Caetano sabia-o bem, talvez melhor que muitos dos que se revoltaram nesse Abril de então.

Também tivemos as portas da Europa abertas a mil sonhos que, na sua globalidade, apenas beneficiaram a fatia de novos políticos e novos ricos. Sabemos que os milhões foram aplicados em muitas obras e melhoramentos básicos para as nossas más infra-estruturas, mas, grande parte desses dinheiros que chegaram da UE, apenas reverteram em favor dos que se encontravam no poder, e seus correligionários. Foi para a nova classe política, que ainda hoje se mantém numa alternância de poder, uma autêntica chuva de dinheiros fáceis, aplicados apenas em seu proveito e de mais alguns amigos.

Realmente, estes 35 anos enriqueceram a corja política, essencialmente os "importantes" dos dois maiores partidos que se alternaram no poder, e, como não havia leis nem fiscalização para o enriquecimento ilícito, foi um “ver se te avias”. Quem mais roubasse e melhor disfarçasse, teria continuidade no poder e o respeito de milhões de ingénuos explorados que se vergavam perante senhorial canalha. Surgiu, perante os exemplos da americanice imperialista, uma casta de “pseudo-gestores”, feitos nas coxas, como sói dizer-se, e, que tal como lá, num imperialismo autofágico, acabou por trazer esta crise que castiga o povo desprotegido, mas premeia os que ilicitamente amealharam o que seria de todos, se melhor distribuido. E o efeito bola de neve continua...

Contudo, soubemos há poucos dias, que continua a não interessar aos poderosos, que se chamem os ladrões pelo nome. Poderão continuar a enriquecer ilicitamente, sem que tal seja considerado roubo, a menos que eufemisticamente lhe chamemos "lucros legais dignamente obtidos" (pobre povo português!), já que num contexto do tipo “Ali Babá e os quarenta ladrões”, o Estado (Ali Babá) ganha 60% do roubo efectuado pelos ilícitos (os quarenta ladrões...) sendo estes ganhadores de 40% do seu “legalizado” roubo. Ah, o povo, que é a vítima do roubo (pois donde haveria de sair o produto?!...), ficará a bater palmas aos intervenientes desta farsa, e continuará, eternamente a bajular quem, tão descaradamente, o assalta e, nas próximas eleições vai, subservientemente, reeleger os mesmos gatunos para o Governo da eterna alternância. O ciclo repetir-se-á “ad aeternum”, por uma simples razão: covardia, subserviência e falta de auto-confiança nas capacidades de cada um.

Os políticos, podem crer, são, na sua maioria, um bando de incompetentes, eleitos e nomeados ao abrigo do “Princípio de Peters”, e, quase sempre, são como as pilhas “Duracell”: duram, duram, duram... mas porque deixamos, podem acreditar.

Sempre ouvi dizer que o poder corrompe, mas tal só sucede com os mandantes desonestos, gatunos e mentalmente fracos. Portanto, acho que todos os governantes e gestores de empresas que se corromperam (e foram tantos, e alguns tão bem disfarçados) ou são mentalmente fracos, logo corruptíveis, ou então são gatunos e desonestos. Assim sendo deverão deixar o poder, ou a bem ou a mal, mas o povo é que deverá decidir, porque as leis são como se vê: favoráveis à corrupção, não considerando o roubo descarado como crime. Viu-se estes dias! E nada de justificar o injustificável, pois a ordem legal é neste momento: roubem, roubem quanto e como puderem, à sombra de favores e cunhas, pois o Estado agradece que o roubo seja gigantesco, para que os ladrões e o poder também enriqueçam. O Povo que se lixe, pois nasceu e vive para ser explorado pela corja dos chico-espertos, ao abrigo das leis, por estes, elaboradas

Afinal o mesmo povo subjugado e espoliado foi quem os elegeu, portanto que grame a pastilha até à dissolução final.

Conjecturando... (ou) Com jeito, urrando-2

         

 

No seguimento do anterior articulado, venho mais uma vez emitir uns “urros”, com jeito, como quem diz, conjecturar, sobre a tão badalada crise da “avaliação dos professores”, em moldes algo sul-americanos e anacrónicos.

Não sou professor, nem deles tenho, neste momento, qualquer sinal de inveja. Tenho esposa professora, como já referi, e embora tal não me conceda qualquer “estatuto” para falar de Ensino, acho que todos gostamos de analisar os dados e emitir opiniões.

De algumas vasculharias efectuadas, tirei humildes e pessoais ilações que não pretendem esclarecer os mais informados, mas até, e pelo contrário, colher informações de “feed-back”, se tal for o merecimento.

Assim, debrucei-me, sem escalpelo, sobre o célebre Memorando de Entendimento, assinado, em 17 de Abril de 2008, entre o Ministério da educação e a Plataforma Sindical dos Professores, concluindo que a metodologia e “timing” das avaliações dos docentes não eram ali taxativamente esclarecidas e estipuladas, parecendo-me até que seria mais aplicável ao ano escolar anterior e sob certos condicionalismos, com correcções a efectuar no decurso do presente ano lectivo. Aliás li uma declaração da Plataforma Sindical, assinada nesse dia, que abaixo transcrevo:

DECLARAÇÃO PARA A ACTA:

As organizações que integram a Plataforma Sindical dos Professores, ao assinarem a presente Acta fazem-no conscientes de terem sido obtidos resultados positivos para os professores e educadores que constam do "Memorando de Entendimento" nela contida. Só foi possível chegar a tal "Memorando de Entendimento" na sequência das lutas que têm vindo a ser desenvolvidas pelos professores, para o que contribuiu decisivamente a grandiosa Marcha da Indignação, realizada em 8 de Março, que juntou 100.000 professores. Há importantes resultados obtidos, tanto para os professores, independentemente do seu vínculo, como para as escolas, designadamente em aspectos relacionados com a carreira docente, os horários de trabalho e a formação contínua. O alargamento do prazo para a implementação do primeiro procedimento sobre gestão escolar abre perspectivas de intervenção aos professores, para além de ficar garantido, desde já, o desenvolvimento de processos negociais sobre matérias relevantes para os docentes. São resultados que reforçam a confiança dos professores na sua acção e nas suas lutas.

As organizações da Plataforma Sindical dos Professores subscrevem a presente Acta porque o "Memorando de Entendimento" que a integra responde satisfatoriamente às reclamações de carácter imediato que, na Marcha da Indignação, os professores e educadores exigiram ver resolvidas no terceiro período do presente ano lectivo.

Todavia, a Plataforma Sindical dos Professores, no que à avaliação diz respeito, reafirma o seu desacordo com o modelo imposto pelo ME, aliás, expresso nos pareceres e posições emitidos ao longo dos processos de revisão do ECD e de regulamentação desta matéria. Reafirma, ainda, que os pressupostos base do desbloqueio da actual situação de profundo conflito em nada alteram as divergências de fundo que as organizações sindicais mantêm sobre:

- o actual Estatuto da Carreira Docente, designadamente quanto ao ingresso na profissão e à divisão dos docentes em "professores" e "titulares", agravada por um concurso de acesso sujeito a cotas e com regras injustas e inaceitáveis;

- ao modelo de avaliação do desempenho que se considera injusto, burocrático, incoerente, desadequado e inaplicável, devendo ser alterado no final do ano lectivo de 2008/2009.

- um modelo de direcção e gestão escolar que não reforça a autonomia, antes a cerceia;

- a nova legislação sobre Educação Especial, que põe em causa princípios fundamentais da Escola Inclusiva;

- um conjunto grande de medidas que tem vindo a desvalorizar a Escola Pública e não dignifica o exercício da profissão docente.

A Plataforma Sindical considera ainda ser imperioso racionalizar a organização do horário dos docentes, aprofundando o que nesta matéria consta do Entendimento, no sentido de respeitar o direito ao tempo necessário para a excelência do exercício da docência, incluindo o tempo necessário para a actualização científica.

Estas são razões suficientes para que, apesar do entendimento agora encontrado, os professores continuem a lutar por uma profissão dignificada no quadro de uma Escola Pública de qualidade, inclusiva e mais democrática.

No que salientei, com fundo amarelo, quanto ao ECD, também estou em pleno desacordo com o que se fez, e até me parece que é aí que reside o verdadeiro busílis que introduz todas as assimetrias e injustiças inter-pares.

Como é possível, numa carreira tão importante como a dos professores, criar apenas uma dicotomia classificativa: PROFESSORES e TITULARES. Mas acima de tudo, recuar um pouco e ver como se transformaram os professores nos actuais TITULARES.

Nos vários agrupamentos escolares abriram (foi a nível nacional) concursos para promoção a TITULARES, mas apenas se valorizou os últimos seis ou sete anos da carreira de cada candidato, fazendo-se “tabula rasa” de todo um passado de professores, alguns já com mais de cinquenta anos, que ocuparam posições melhor pontuáveis, a fim de atingirem os pontos necessários à promoção. Mais ainda, e vergonha das vergonhas, os professores mais jovens, licenciados (muitas vezes em altas e longas fornadas das ESES, algumas de reputação dúbia) não eram obrigados a atingir limite mínimo de pontuação, mas os mais experientes (a maioria de Universidades e Faculdades de reputado gabarito) e dos escalões superiores, que ultimamente até cederam cargos agora valorizáveis aos seus colegas mais jovens, teriam que atingir 95 pontos, de contrário seriam eliminados. Onde está pois a justiça? E que outras injustiças daí advirão?

Primeiro: um professor que está num escalão mais baixo (8º ou 9º) irá, neste anacrónico sistema da avaliação, ser o AVALIADOR de um colega no 10º escalão, professor este que até poderia ter sido o monitor do anterior.

Segundo: um “professor”, mais concretamente Educador de Infância, que estava no agrupamento, e não é um verdadeiro professor (no sentido estrito e real do termo…que me perdoem!) vai poder avaliar, já que foi promovido, sem qualquer cota, a Titular, um verdadeiro professor licenciado para o Ensino e já em fim de carreira.

Terceiro: como vão continuar os escalões até ao 10º, vai suceder que alguns avaliadores terão avaliandos que, tal como eles, concorrem ao mesmo escalão superior, ou seja, vai ser como “um juiz em causa própria” e com obtenção de dividendos… um horror! 

Quarto: um professor de EVT vai avaliar professores (muitos de escalões superiores) de Educação Musical e Educação Física…pasme-se a sabedoria global que apareceu no Ensino!

E mais contra-sensos que os professores, melhor que eu poderão enumerar e citar.

Quanto às AULAS DE SUBSTITUIÇÃO, que não sirvam de exemplo de aceitação pelos professores, e muito menos como justificativas de sucesso escolar.

São uma verdadeira aberração, quer para alunos quer para professores, e a “VOX POPULI DIXIT”. São acima de tudo uma espécie de OTL (ocupação de tempos livres), com alunos revoltados e quase reprimidos dentro do espaço escolar, e professores a blasfemar, contrariados, muitas vezes indiferentes, autenticamente a leste dos assuntos relacionados com a matéria dessas aulas. Que proveito ou ilações advêm de tal balbúrdia e aberração. Há professores que conseguem ter maior carga horária de aulas de substituição que de aulas propriamente suas (exemplo: minha esposa, no seu grupo). Alguns alunos, se não tivessem aulas de substituição, às vezes chegavam mais cedo a sua casa, com possibilidade de estudarem matérias em atraso, mas lá vem a seca da aula de substituição, onde vai apenas queimar o tempo.

A Ministra, que, orgulhosa e ostensivamente, não quer abdicar do seu Modelo, copiado, ao que consta, do chileno, após tantos gastos e viagens inúteis na Finlândia, em busca do modelo nórdico, vai acabar, tal como os seus acólitos e Governo, por pagar um preço inimaginável. Ainda hoje ouvi o psitacismo inconfundível do Ministro dos Assuntos Parlamentares, que parece preferir a fractura versus torção. Como são todos tão iguais… quase saídos das páginas da “Revolta dos Porcos!”

Conjecturando... (ou) Com jeito, urrando-1

                

Hoje apeteceu-me, em dia de manifestação de professores e homenageando a minha esposa, ela própria uma manifestante, deixar aqui um pouco mais de mim e do que me vai recalcando o pensamento-

Assim, já deixei noutro blog uma primeira ideia que partilho em http://deputado-da-abstencao.blogspot.com/ e me fez pensar noutra situações que abalam o ensino actual, sob a batuta de uma Ministra já apodada pelos próprios professores, de Sinistra.

Não é por acaso que vejo a minha esposa, que sempre gostou da Escola e dos alunos, fazendo da docência, durante mais de trinta anos, uma autêntica sinfonia de amor e dedicação, ficar hoje desmotivada e desencantada com tudo o que esta senhora Ministra reservou para todos os professores, alunos e seus familiares.

Nem sempre o exagero reformista traz benefícios e, no Ensino, base da educação de um povo, as mudanças deverão ser ponderadas e estandardizadas. Não se deverá legislar "ad libitum" e ao sabor do "quero, posso e mando". Aliás, em nenhum tipo de reformas se deverá agir dessa forma. No entanto, acho que existem reformadores que pretendem ver, pela negativa, o seu nome ligado a um passado histórico que envergonharia e derreteria qualquer estátua de gelo.

Será que o Ensino se degradou neste mandato do PS? Acaso as reformas estarão a frutificar e a ser motivo do tão apregoado sucesso escolar e atenuante do nosso índice de iliteracia?

Sinceramente, pelas muitas conversas e ilações, ao longo deste tempo, não me parece haver o sucesso tão apregoado pela Ministra e Governo. As crianças chegam ao 5º ano de escolaridade obrigatória com múltiplas deficiências em todas as áreas de conhecimento. Alguns, até sem saber ler nem escrever, o que se pode provar aqui na minha cidade e na escola da minha esposa. Nos seus desabafos acabo por tomar conhecimento de muitos disparates cometidos em nome do sucesso escolar. Relatórios, na verdade, são às toneladas, por tudo e por nada, quase se discutindo e querendo provar o sexo dos anjos. Qualidade, pouca e duvidosa.

Hoje, no contexto da avaliação do desempenho dos professores, conta muito o sucesso dos seus alunos, mas esquecem-se, muitas vezes, que há vários tipos de turmas, e acima de tudo muitas maneiras de elaborar, no início do ano lectivo, essas mesmas turmas. Assim, há turmas onde se juntam os "gandulas" e "ordinários", alunos reconhecidamente mal comportados e com dificuldades acrescidas na aprendizagem elementar de conceitos básicos, introduzindo no seio da turma um ou outro "desgraçado" que, ou se deixa arrastar pela indisciplina dos "chefes de fila", ou será vítima de bullying. Por outro lado, elaboram-se turmas onde, por artes quase divinais, vão cair os melhores alunos e filhos de "boas famílias" (em sentido lato). Agora digam-me, se souberem, que culpa terão também os desafortunados e "desgraçados" professores que tiveram a má sorte de lhe caberem as turmas de problemáticos e maus alunos? Pois é, mas irão ser avaliados pelo seu desempenho com esses alunos que lhes couberam e, curiosamente, até os professores "rifados" parecem ser escolhidos. Maldades? Chamem-lhe o que quiserem, mas acreditem que um professor com maus alunos ou faz ouvidos de ferrador e vai na onda do pseudo-sucesso escolar, ou a ser correcto terá que amargar e sofrer com uma avaliação pior que a dos colegas bafejados por óptimas turmas, quase escolhidas a dedo. Será isto justiça? Pois podem crer que sucede em muitas escolas, tal como aqui na minha pequena cidade.

Quando não acreditarem nestas pseudo-demagogias de maus professores e profetas de desgraças, aconselho-vos a procurar informações destes dados junto de escolas várias e alguns professores amigos, depois emitam, com segurança e conhecimento as vossas doutorais opiniões.

Claro que, como em todas as profissões, há bons e maus professores . Sabe-se que até há bem poucos anos, com a progressão na carreira os mais antigos até tinham muito poucas horas de trabalho efectivo, quase a roçar o ridículo, mas isso é que deveria ser corrigido mas sem atitudes de vingança e menosprezo. A ser assim, também deveríamos contestar e menosprezar aqueles funcionários  públicos (incluindo professores) que até há bem pouco tempo eram reformados com pensão "total", e com pouco mais de cinquenta anos de idade. Porventura alguém os obriga, por legislação política, a regressar ao seu emprego e ser-lhes cortada a sua pensão, já que no activo estão pessoas que trabalham, com a sua idade, e vão, futuramente e a curto prazo, ser penalizadas em percentagens que rasam a vergonha nacional. E são estes os políticos, também eles bafejados por reformas e subsídios dourados e inteiros, que têm a distinta lata de castigar quem trabalha mais que eles e ao toque de campainhas? Sim, é que no Parlamento, nas autarquias e nos gabinetes governamentais, não há campainhas nem digitómetros para controlar os políticos e seus sequazes.

Nada me move contra bons políticos, mas são tão raros que acabo por ter vergonha da maioria deles, incluindo a nossa Ministra M.L.R., a tal que foi apodada de Sinistra.

 

O Regresso... e a Vida continua

                     a vida

 

1) - O REGRESSO:

Após uma ausência eis-me regressado para mais uns comentários e um ou outro post, já que actualmente me encontro em fase de sobrecarga de trabalho por participar em simultâneo em três júris de exames (um como presidente) a colegas que pretendem subir na carreira hospitalar ou ter acesso a lugares de Chefes de Serviço. É que isto de ascender na carreira médica obriga a muito trabalho realizado e a filtragens incontáveis, baseadas em discussão de currícula e a submissão a júris de cinco elementos da mesma área médica.

Não é fácil e, muitas vezes, médicos já com longa prática clínica acabam por ser eliminados e preteridos para lugares almejados ou progressão na carreira profissional. É duro e, por vezes, durante as discussões curriculares, passa-se por humilhações inesperadas. Para hoje ser Chefe de Serviço tive, como muitos dos meus colegas, de passar as “passas do Algarve”, e agora, por força dos Decretos-Lei que regem as nossas carreiras, tenho que fazer parte destes júris de avaliação que nos acarretam muitíssimo trabalho e situações incómodas que passam muitas vezes por ganhos de inimizade e impugnações várias, nem que seja só “para chatear”, e TUDO a custo ZERO, o que acho uma autêntica exploração, já que temos que adiar consultas e muito trabalho programado, para realizarmos, nos tempos previstos, as várias reuniões (com actas justificativas) e provas. Trabalho para a comunidade médica, mas penosa e gratuita. Se um dia mudar que não seja para pior.

 

2) – SEQUELAS DE UM REFERENDO:

Naquele dia voltou a sentir-se a força do abstencionismo, pese o facto da maioria dos portugueses acomodados e sempre habituados a que alguém pense e resolva por eles os problemas do País, mas acabou por se inverter a escolha final, face ao anterior referendo. Ganhou o “SIM”, mas as discussões não se esgotaram na campanha pré-eleitoral. Reacendeu-se sob um manto diáfano do descontentamento e do afastamento de muitos intervenientes mais activos nas suas campanhas. Tendo as mulheres, nas circunstâncias referendadas, sido despenalizadas, não se compreende porque querem agora humilhá-las, obrigando-as a autodenunciar as suas legítimas decisões, ou então serem obrigatoriamente submetidas a consulta de aconselhamento com a finalidade de as dissuadir de abortar, conforme propõe o PSD num projecto de lei, entregue no Parlamento. Isto não passaria a ser uma violentação? Acaso alguma mulher, ou seu conivente no acto de abortamento, pretenderão publicitar o seu desejo? Mesmo sob a alçada da despenalização criminal, não acredito que queiram dar a conhecer as suas intenções.

Creio ser mais importante lutar para que as mulheres recorram menos ao aborto (dentro e fora das 10 semanas de gravidez) e, acima de tudo, prepará-las e mentalizá-las para protecção e evicção de gravidezes indesejadas. A prevenção, pela educação, é concerteza a melhor forma de se diminuir o número de abortos, e, nas inevitáveis gravidezes, a ajuda económica e outros apoios logísticos serão também as melhores formas de evitar recurso à IVG. As campanhas neste sentido deverão aumentar, com apoio sócio-económico e a tal educação de base, pois continuo a dizer que o aborto deverá ser evitado sempre que possível, mas sem recurso a denúncias e imposições mesquinhas duma sociedade arvorada em “big brother” dos pecados sociais e familiares. O julgamento destes problemas de consciência não nos cabe na sua essencialidade, e a falsa moralidade deveria estar já banida duma sociedade que se pretende culta e civilizada, no século XXI. Mas, continuará sempre válido o provérbio: “presunção e água benta, cada um toma a que quer”.

                                                       urgencia (CM) 

 

3) – SAÚDE:

Mal me ficaria, como médico militante, não abordar a controversa remodelação das Urgências Hospitalares. Sem pretender aprofundar o assunto, já tão politizado e esgrimido, apenas direi que não estou, em absoluto, de acordo com as medidas a tomar, apesar de algumas atitudes terem já sido amenizadas com promessas que poderão, mais tarde, por eventual incumprimento, reavivar novas feridas, quiçá mais difíceis de sanar.

Continuo a defender que urge reformar o Sistema Nacional de Saúde, mas sem prejuízo duma população maioritariamente empobrecida e carente de cuidados sociais. Mas o que tem vindo a acontecer, não passa realmente duma medida de cariz economicista e político, sem olhar as dificuldades do nosso povo, essencialmente os que pagam o preço da interioridade territorial e as áreas de maior desemprego e envelhecimento. Porquê?

Todos sabemos que os grandes centros, como Lisboa, Porto, Coimbra e Braga, possuem transportes públicos com mobilidade e horários extremamente favoráveis às suas populações, quer pela frequência quer pelos trajectos e interligações. Qualquer pessoa que queira, mesmo vivendo nas periferias próximas desses grandes centros, recorrer a um Serviço de Urgência Médico-Cirúrgica ou Polivalente, tem facilidades enormes, pois aí tudo existe numa proximidade indiscutível. Já no caso das pessoas que vivem nas regiões do interior, sabemos que são essencialmente populações envelhecidas, tendo a maioria dos jovens imigrado para o litoral, e os serviços de transportes públicos são poucos e com longas demoras. Assim, doentes essencialmente idosos, com raridade de transportes, muitos sem possibilidades de recurso aos privados, acabam por não ter atendimento dentro do tempo mínimo necessário para a resolução das suas agudizações de doenças ( a maioria crónicas), além de não terem próximas Urgências Médico Cirúrgicas (SUMC) e muito menos Urgência Polivalente (SUP). Basta ver que só em Lisboa e arredores, com melhores e mais eficazes serviços de transportes públicos, existirão três Serviços de Urgência Polivalentes e relativamente perto o de Almada, para além dos SUMC periféricos, o que facilita a vida dos doentes aí residentes, mas se olharmos para o interior Norte do País, por exemplo, só existe um SUP em Vila Real, e  um SUMC em Bragança, para todo o nordeste transmontano, com pior rede viária e serviços transportes públicos que os grandes centros. Não será realmente necessário haver pelo menos mais um SUMC nesta área ( e noutras não referidas), para socorrer atempadamente e com maior eficácia as suas populações? Pessoalmente acho que sim, mas creio que as intenções reformistas baseadas no economicismo doentio vão prejudicar aqueles doentes, que barafustam e com muitas razões.

Dos quatorze Serviços de Urgência Polivalente previstos para o País, metade ficam na área de Lisboa e Porto, estando as outras sete esparsas pelo resto do território mas com carência desproporcionada nas zonas do interior que, apesar de menos populosas, têm, como se disse, maior pobreza, pior serviço de transportes e rede viária mais precária. Assim, com desaparecimento de estruturas vitais de apoio social na velhice e na doença, estas áreas tenderão, obviamente a desertificar, ficando para paisagem temporária de pacíficas férias de gente relativamente abastada.

Sei que muitos políticos têm casas de família e de férias nessas áreas de interioridade e similares, onde procuram, temporariamente, o sossego e melhores ares, mas não terão eles maior capacidade de mobilidade e poder económico para resolver qualquer crise de saúde que os acometa, nessas localidades, do que a pobre e envelhecida população aí residente todo o ano? É caso para ser pensado, meditado e, só depois as medidas reformistas. Um médico que trabalha nas áreas do interior, mesmo nas menos ruralizadas, tem muito melhor noção dos problemas e necessidades populacionais que aquele grupo que elaborou, mesmo a título gratuito (?), o tal estudo recomendado para reorganização da rede de Serviços de Urgências nacional.

Reformas destas deverão ser efectuadas com os médicos e autarcas locais, passando pela informação, participação e discussão das populações locais, para que não sejam posteriormente tomadas medidas populistas de descontentamento como as que se vão verificando. Tal não sucedeu concerteza. O dinheiro fala mais alto, mas é precisamente na saúde de um povo, que se pretende mais forte e produtivo, que não se deverá poupar despesas. A saúde e bem-estar de um Povo, traduz a energia e produtividade do mesmo. Racionalizem-se os gastos, fiscalize-se o desperdício, mas não se mate um povo por falta ou ineficácia de cuidados assistenciais. Deve-se suster é o enorme e supérfluo despesismo com a máquina governativa, onde continuam a existir mordomias e regalias inexplicáveis, que o comum dos cidadãos, mesmo que simples funcionário público, não têm. Custa imenso alimentar este monstro formado por políticos e gestores públicos ( a maioria desnecessária) e ver um Povo ser tratado como “aquela coisa” que deve produzir riqueza, mas não usufruir dela. É simplesmente uma tristeza! E parece que vai continuar eternamente igual...

SIM e NÃO... Responder à questão e não ao seu envolvimento

   

Se me perguntam se quero comer um peixe, responderei se "sim" ou "não", e não vou questionar se algum pescador morreu na pesca desse peixe, ou se a mesma pesca é fruto de tanto e penoso sofrimento, quer no acto em si, quer nos salários e condições de vida dos pescadores. Se na mesma pergunta me questionarem se quero o peixe pescado por um pescador "ignorante e com Tuberculose ou Sida" ou por um "saudável", talvez chame nomes feios a quem mo pergunte, pois para o caso não me parece que seja importante em relação ao que pretendo comer. Na questão objectiva fala-se da minha "vontade ou não" (apetite) de comer um peixe”.

Como já repararam, pois o facto está na berlinda e enche páginas de jornais e revistas, apregoa-se em rádios, televisões, conferências (e até sessões religiosas), a questão acima pretende ser um paralelo com a questão colocada para a "despenalização de interrupção voluntária da gravidez se realizada... nas primeiras dez semanas". É óbvio que a primeira parte da questão é mesmo essa, o verdadeiro objectivo de "descriminalizar o acto" de aborto até àquele período de gestação fetal. Sem qualquer dúvida interpretativa, ali não se pergunta se pretendemos "liberalizar o aborto cometido até às 10 semanas".

A palavra liberalizar implica um certo sentido de libertinagem social, neste caso, de irresponsabilidade e generalização do acto de "abortar", em si mesmo. Creio que não deveremos tomar a generalidade pelos casos objectivos e parciais, de forma a pensarmos que se vai verificar um autêntico" boom" de abortos, por "dá cá aquela palha", como se todas as mulheres em idade fértil, só porque a maioria da consciência colectiva nacional lhes permitia, legalmente, optar por "aborto", sem criminalização, começassem a "abortar por desporto", transformando o seu útero num necrotério permanente e dando cabo da sua própria saúde. Será que essas mulheres serão anormais e irresponsáveis? Haverá realmente quem pense que abortar é um verdadeiro desporto, que se pratica "livremente" (entenda-se "em libertinagem"), tentando lançar lama e vergonha nos rostos das mulheres em idade fértil?

Abortar é sofrer física e psiquicamente,  fazer outros sofrer, para além do estigma da perda do feto que poderia transformar-se num ser humano de grandioso valor para a sociedade e humanidade. Todavia procurem-se nas listagens de abortantes voluntárias, até hoje, quantas dessas gestações eram desejadas. Podem apontar nos vossos canhenhos que NENHUMA GRAVIDEZ DESEJADA LEVA AO ABORTO VOLUNTÁRIO. Quem pensar o contrário anda simplesmente enganado. Quem deseja a sua gravidez leva-a até ao fim. Claro que algumas das abortantes até desejariam chegar ao fim da gravidez, mas outras circunstâncias adversas as levam à quebra do seu forte desejo. E serão estas circunstâncias adversas que as levam ao actual "crime" da prática abortiva.

E quem as ajuda a levar o seu desejo (quando existe) até ao fim? Serão os que tanto apregoam o NÂO à descriminalização? Podem crer que não acredito, pois hoje andam, na sua maioria, cheios de força e entusiasmo a travar-se de razões da sua escolha, mas amanhã esse entusiasmo vai desaparecer do coração de quase todos eles, embora pudessem realmente continuar a lutar para que as gravidezes indesejadas  fossem reduzidas. Acho que não sou injusto ao dizer isto, pois há oito anos atrás ganhou o NÃO, e tudo ficou na mesma ou até pior. E que fizeram de notório os que nessa altura lutaram pela sua opção "NÂO"? Alguém os viu, em número e actos dignos de se ver? Acho que não.

Mesmo agora, se o NÃO ganhar, será que vão fazer essa luta social e informativa que até agora tão poucos fizeram e fazem... mesmo com ajuda dos do SIM? Esqueçam, pois as mulheres continuarão a ser olhadas de viés, com dardos de reprovação e vergonha, caso sintam "necessidade" de cometer aborto. Foi sempre mais fácil criticar e castigar do que ajudar, pois o egoísmo leva ao desinteresse e este ao esquecimento.

                                  de Nelson Drawing

Porquê a opção pertencer à mulher?

Todos sabemos que só ela poderá decidir se quer ou não levar a termo a sua gravidez, pois mesmo que ninguém a ajude nos seus desígnios ela acabará por abortar, mesmo com perigo de vida, por muito que isso custe aos outros, incluindo o pai da futura criança e todos os seus familiares e amigos. É inevitável, pois só ela decidirá se quer ou não quer o filho, sempre que este seja indesejável. Logo, teremos que admitir que a questão colocada, com opção da mulher, está correcta. Aliás, nunca será demais repetir que a totalidade de abortos correspondem a gravidezes indesejadas, eivadas de “pecado” ou “fortes impossibilidades” de as consumar.

Há dias ouvi alguém dizer que a mulher não “peca” quando lhe retiram do corpo parte ou totalidade de um qualquer dos seus orgãos (apêndice ileocecal, vesícula biliar, etc.), porque não lhe são alheios e fazem parte do seu próprio organismo. Contudo dizem que o feto até às dez semanas não faz parte do seu corpo, pois será já uma segunda identidade. Tem algo de verdade, mas não corresponde totalmente à verdade. Porquê?

O embrião às dez semanas tem 6,1 a 9 cm de tamanho e a maioria dos orgãos estão formados, em amadurecimento, excepto o cérebro e a espinal medula. Não tem viabilidade, pois não consegue, por si só, sem o corpo da mãe, sobreviver. Quer isto dizer que se a mãe morrer acidentalmente até esta fase fetal, o embrião, como inviável que é, morrerá também. Tal significa que é ainda um apêndice da própria mãe e sem qualquer autonomia. Para que tivesse viabilidade fora do útero materno, teria que ter minimamente 24 a 25 semanas, caso contrário MORRERÁ SEMPRE que A MÃE MORRER, tal como a vesícula biliar, apêndice ileocecal e demais orgãos corporais da sua mãe. Eis a grande verdade que NINGUÉM poderá negar ou escamotear.

Aliás, ainda recentemente Mário Sousa, investigador e professor de Biologia Celular no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, disse:”... até às 24 semanas, o feto é um anexo sem autonomia, sem capacidade de sobrevida e sem consciência, pelo que a primazia deve ser dada à mulher...”.

Trata-se pois de um ser em transformação, sem consciência, sem alma, sem viabilidade possível. Ainda está “descerebrado”, não podendo ser considerado indivíduo humano, com cérebro funcional, coisa que nos diferencia dos restantes seres. Só a partir da 24ª semana surgem a percepção dolorosa e função cerebral... está cientificamente provado. Não deveremos esquecer que o feto se move nessa fase por acto reflexo, não consciente, como vemos mexer outros seres vivos, não racionais.

Porventura já se viu, como muitos dizem e com razão, a nível religioso, proceder-se ao baptismo ou funeral de um feto, mesmo até às 24 semanas? Já que a Igreja tanto preza, e bem, a vida, porque não fala com racionalidade e conhecimento de causa, sendo, pelo contrário, o maior motor de resistência à questão da despenalização, com informações a raiar o terror e o libelo acusatório às “pobres mulheres”. Afinal esquece que levando as mulheres ao aborto sem condições de segurança (pois disso é que se trata no referendo) acaba por apoiar a sua possível morte por falta dessas condições, pelo que, a sermos racionais, deduzimos que a Igreja e seus seguidores nesta causa, apoiam a cultura da morte das mulheres, em detrimento da do embrião. Onde está pois a lógica e a moralidade?

Estamos de acordo que a realizar-se um aborto, o mesmo seja feito com assistência médica e segurança clínica e higiénica. Logo, o ideal serão os hospitais, ou clínicas autorizadas para o facto. Discute-se se com dinheiro dos nossos impostos, mas eu questiono: não vivem os toxicodependentes, com ou sem SIDA, Hepatite C, ou Tuberculose, e a maioria das comunidades ciganas, para já não falar dos “penduras” da segurança social, à custa dos nossos impostos? E, já agora, não são os nossos impostos que pagam as mordomias exageradas de todos os governantes e gestores públicos? Esqueceram-se disso, ou não convém falar?

Dentro do conceito de Vida/Morte, será que um embrião, até às dez semanas de gestação, tem direito ao mesmo Estatuto de protecção Jurídica e Ética que um ser humano, ou seja, a sua mãe? Pelo acima descrito, creio que nesse campo, haverá concerteza diferenças indiscutíveis, que obviamente favorecerão a Mãe.

Pretendi, à luz da razão e da justiça, emitir alguns dados polémicos, mas que me parecem indiscutíveis na sua maioria. Acho que NINGUÉM é defensor da MORTE, embora alguns deixem, injusta e irracionalmente, transparecer isso na sua campanha à actual “descriminalização da IVG” sob certos condicionalismos.

Não podemos, como é óbvio, estar todos do mesmo lado da barricada, face à nossa diversidade e diferentes formas de pensar e agir. Todavia não nos cabe o direito de vilipendiar e estigmatizar terceiros, só porque não pensam como nós. O nosso entendimento deverá ser feito de discussão sadia, com adversidade , mas sem inimizade, caso contrário alimentaremos o caos entre a humanidade e, consequentemente a sua auto-destruição.

Uma coisa é certa, quer os defensores do NÃO, quer os do SIM, deverão lutar para que sejam criadas futuramente as melhores condições que favoreçam o mínimo recurso possível ao aborto, procurando criar uma consciencialização de todas as pessoas, e não só das mulheres férteis, para a grandiosidade e generosidade que é o acto da maternidade.

Dever-se-á é lutar contra a actual “libertinagem” de comportamentos sexuais, que me parecem ser uma das primeiras barreiras a vencer.

 

 

Divagação sobre a Vida "pré-embrionária"

 

Após uma inevitável ausência regresso para animar hostes e amigos, abordando assunto em voga e polémicas necessárias. Nada que não se vá falando e gritando por descampados e esquinas, com maior ou menor entusiasmo. 

O próximo referendo sobre a IVG (interrupção voluntária da gravidez)  vem já sendo objecto de muitas atitudes e conjecturas, com repetidas e  habituais afirmações próprias de quem defende, de alma e coração, a  sua dama. Uns mais ousados e agressivos, pretendendo de qualquer forma  e a qualquer custo impor as suas ideias, outros algo medrosos e  moderados tentando fazer jus dos seus pontos de vista, sem grandes acometimentos e tropelias. Nada poderei dizer de melhor ou mais esclarecedor que aquilo que vem sendo propalado nos media, encontros de ocasião e nos púlpitos e adros de igrejas. Todavia  entendo que a desfaçatez se vai instalando em alguns grupos e  defensores de certas opiniões, quer seja o Sim ou o Não, embora me  pareça que neste último grupo militam alguns que se julgam os únicos  arautos da verdade e da moral, essencialmente “in nomine Dei” e da Vida. Neste mesmo blogue, em 8 de Dezembro, fiz uma breve referência ao tema  do aborto. Já aí me pronunciei contra toda e qualquer forma de  destruição de Vida, quer “in-utero” quer “ex-utero”, já que não  encontro forma de avaliar e ponderar parâmetros de dimensionamento e intensidade  da “criminalidade” em qualquer dos actos cometidos. Se houver alguns  iluminados capazes de responder à questão, até poderei tornar-me o maior  defensor dos seus argumentos. A Vida existe, mas em convivência inegável  com a Morte. Ambas têm cabimento no trajecto existencial da  humanidade, mas cada uma tem a sua própria filosofia e concepção.  Existe o culto de cada uma, embora haja diversas formas de Vida e, de  igual modo, de Morte. Todos o sabemos, embora a visão ontológica e deontológica  seja diversa para os ocidentais e orientais, sendo estes últimos, ao  que julgo, mais cultores da Morte, o que lhes está inerente nos  princípios religiosos e filosóficos que professam. Todavia nenhuma  religião, de bom senso, é defensora da Morte, e muito menos em nome de  Deus ou deuses menores. Da morte física, sabemos que começa onde acaba o último suspiro vital, mas da vida creio sabermos mal onde começa, já que o espermatozóide e o óvulo, isoladamente, já são vida, cada um per si, e existem para a perpetuar. Gâmetas mortos não poderão gerar vida, como é óbvio, logo o referido anteriormente é inegável. Sendo assim, e sem pretensiosismos de linearidade científica  macabra, como chamaremos a quem deixa morrer todos os gâmetas que se  encontraram e não produziram vida humana? Onde começa afinal o aborto,  fora do coito ou nele próprio? Que moralidade haverá em todo e  qualquer acto que impeça a gestação do embrião humano? Que metodologia preconizam os  defensores do Não à IVG, para evitar a morte dos gâmetas  potencialmente geradores de vida humana e já eles dotados de vida  ”pré-embrionária”? Informar as pessoas? Acerca de quê? Da forma de transformar em embrião todo o relacionamento sexual humano, não permitindo perdas de fusão gamética? Na sua essência o problema reveste feições de utopia. A menos que não consideremos a vida “pré-embrionária”, existente em cada um dos gâmetas: o espermatozóide e o óvulo. Assim seremos, obvia e indesmentivelmente, assassinos de embriões potenciais. E isto não me parece que seja pura demagogia, a menos que optemos por mera clonagem, hoje possível em civilizações avançadas, mas impossível à luz da vida na sua originalidade e essencialidade.

Parece um absurdo e até “sacrilégio” de vida, mas não será maior  sacrilégio apregoar-se defensor da Vida Humana quem evita a fecundação  ”in vivo”? Podem crer que do espermatozóide ao óvulo, num acto de fecundação, vai a distância de um querer ao poder aceitar-se uma nova Vida Humana.  Nesta quase ridícula simplicidade se reúne uma luta entre o Sim e o  Não à IVG, por muito que o fanatismo e a religiosidade doentias se  travem de razões.

Que precisa então o Homem para evitar o ónus da destruição da Vida  Humana? Talvez deixar-se de moralismos doentios e hipócritas e enfrentar a crueza duma  inevitável dicotomia Vida/Morte, que eternamente haverá de coabitar no  nosso Universo, embora sob a disciplina de leis, criadas pelo próprio  Homem (e nunca divinas!), a fim de minimizar todos os malefícios dos  excessos a que a fragilidade humana poderá ceder.

Voltarei a falar do Sim e do Não, mas acredito que a razão poderá, por  motivos diferentes e defensáveis, assistir às duas partes. É que  existem os problemas ético-morais e os físico-sociais, que não poderão  ser dissociados, doa a quem doer.

Embora, sem linearidade comparativa, se possa afirmar que o “ovo” não é a “galinha”, todos sabemos que não existe o animal novo, sem que a vitalidade do primeiro seja despoletada. A menos que queirámos, como referi, entrar no científico campo da clonagem, e aí abdicaremos do ovo, do óvulo e do espermatozóide, mas dando razão ao princípio de que uma célula e o seu conteúdo genético já são vida e potenciais embriões humanos, no caso de células humanas. Às tantas até seria matéria para nova questão a referendar, já que se referenda por tudo e por nada, ao sabor de ideologias político-partidárias, e sem qualquer nexo racional.

Acabarei esta minha prosa com um belo poema e imagem:

                                   

FECUNDAÇÃO 

Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.

Gilka Machado (1893 - 1980)

 

Do conhecimento do Homem

 

                                

Hoje vou, mais uma vez, reviver algo que escrevi, faz precisamente amanhã um ano, num outro blog cujo encerramento forçado me deixou alguma tristeza. Procuro mitigar parte dessa tristeza revivendo, revisitando e retocando um ou outro post, sempre que entenda oportuno.

No seu romance, “As Intermitências da Morte”, Saramago recorre ao “Livro das Previsões” transcrevendo:«Saberemos cada vez menos o que é um ser humano».

Sem dúvida uma grande, talvez a mais sábia e maior previsão sobre o futuro da humanidade e do mundo que habita.

Afinal todos os dias nos esquecemos do homem, esse ignoto símio que se cruza connosco, que sofre dores e vive emoções, tal qual como nós, que miramos e não miramos, conforme a disposição e humor que nos invade. É facto que, por vezes, reparamos na presença do outro semelhante, mas ignoramos ou desdenhamos sua existência. É mais um!...pensamos nós. Amigo? Adversário? Indiferente? Queremos lá saber! O egoísmo invade-nos até ao tutano existencial e limitámo-nos a cumprir o ritual desassombrado da eterna indiferença perante os outros.

Mas quando existem interesses no interesse por esse “outro”? Ah!, aí calma! O “outro” poderá ser fonte de lucro para nós...convirá não ignorá-lo. Agiotas das almas, vendilhões de hipocrisia, valsamos ridículos salamaleques em redor do “outro” que nos interessa...até que os nossos objectivos sejam alcançados. Bem, depois, se o “outro” já não for útil...esquece-se, ignora-se...ultraja-se, se tal for necessário, para o desenlace, logo que oportuno.

E é assim que vamos seguindo as normas de milhares de anos de convívio existencial, descrito e documentado em tantos outros milhares de cartapácios quase dogmáticos, escritos por outros, que já foram “outros”, e deixaram depoimentos e ideias...para esquecer e deixar empoeirados em estantes e gavetas, na surdez e miopia dos tempos de deslumbramento passado. Escritos sedimentados na lama dos tempos e rotulados, muitas vezes, de “Livro das Previsões”, mas que dizem o que dizem, transmitem o que cada um pretende lhe seja transmitido, mesmo que a deturpação factual e literal seja necessária...para os nossos interesses.

Não só nos adaptamos às tessituras dos tempos, como procuramos adaptar os tempos às nossas teias de interesses... muitos e condicionados por cada momento factual.

Então que conclusão tirar, neste epílogo de 2006, acerca desse outro animal, simiesco e rotulado de HOMEM, animal de origem transmilenar? É, como sempre foi e será (?), um animal de interesses...logo, um INTERESSEIRO.

Continuaremos com essa certeza, mas na realidade “saberemos cada vez menos o que é um ser humano”.

Bom Ano 2007 para toda a "blogsolosfera"

           BOM ANO 2007

 

Não queria passar um fim de Ano 2006, sem deixar uma onda de amizade neste vasto ancoradouro que é este nosso espaço - a Blogsolosfera.

Apesar de presenças virtuais, passamos e deixamos hoje as impressões de amizade que desabrocharão em amanhãs de esperança e sorrisos revitalizados.

Cada momento passado tornar-se-á nova raíz de união e, em uníssono, construiremos uma verdadeira comunidade, unida pelas múltiplas diferenças e divergências que nos cimentam.

Diferentes, mas unidos numa infinita amizade de quem vive para altruísmos puros e sem interesses mesquinhos.

Para não me tornar longo e maçador, acabarei transcrevendo um belíssimo poema de Camilo Pessanha (1867-1926):

                                                  

ROSAS DE INVERNO

Corolas, que floristes

Ao sol do Inverno, avaro,

Tão glácido e tão claro

Por estas manhãs tristes.

 

Gloriosa floração,

Surdida, por engano,

No agonizar do ano,

Tão fora da estação!

 

Sorrindo-vos, amigas,

Nos ásperos caminhos,

Aos olhos dos velhinhos,

Às almas das mendigas!

 

Desse Natal de inválidos

Transmito-vos a benção,

com que vos recompensam

Os seus sorrisos pálidos.

(Clepsydra)

José e o Ministro... Natal em Santo Tirso.

                    

Após um breve  e inevitável período de hibernação, eis-me chegado de novo a este espaço de muitos amigos, a fim de participar nas festas que se aproximam, e contribuir para a alegria e solidariedade comuns.

Não tenho visitado os amigos deste espaço, coisa que adoro fazer, mas vou procurar no próximo ano intervir um pouco mais.

Como estamos na época festiva natalícia, com transbordo de ano à biqueira, não queria deixar de me aliar, sem alienação, ao enorme grupo dos que, sem a hipocrisia própria da época, desejam ardentemente que o Mundo melhore e as pessoas vivam numa Paz duradoira. Que as oportunidades de usufruto de bens, neste nosso recanto planetar, sejam iguais para todos, mas que todos participem plenamente para tal merecimento. Com tanta riqueza global, creio, como muitos (utópicos sonhadores?...), que a pobreza e desgraça humanas poderiam ser infinitamente mais reduzidas.

Hoje não quero deixar em branco este espaço, pelo que me ocorreu a ideia de um conto de Natal, engendrado encima do joelho, mas oportuno, creio eu, apesar de verdadeira ficção. Trata-se de factos que tanto poderiam ocorrer em Santo Tirso, local eleito para a cção, como noutro local com iguais condicionalismos. Aí vai a cena.

No seu humilde lar, fronteiro ao Hospital Conde S. Bento, em Santo Tirso, viviam os dois septuagenários com a sua filha deficiente. Era mais um Natal a três, como acontecera durante os trinta e poucos anos de vida daquela filha com Trissomia 21, que nascera quando a mãe era quase cinquentenária. Sabia, na altura, que tal poderia suceder, mas o gosto de ter uma criança, fruto de um amor cediço e casamento tardio venceu-os. O obstetra avisara-os, mas tinham necessidade de companhia para a velhice que se aproximava.

Naquele Natal, José, com doença pulmonar crónica obstrutiva, e insuficiência cardíaca congestiva, sequelas de profissão nas profundezas da terra, desencadeou uma súbita e progressiva dispneia, que o deixou com extremidades e mucosas cianosadas, e envolto em sudorese profusa. Havia dias que se sentia mais inchado das pernas e com maior edema das pálpebras. Não era costume. Todavia nunca tinha sofrido tamanha falta de ar e angústia. Era uma autêntica panela a fervilhar-lhe na garganta e no peito, uma opressão como nunca imaginara vir a ter. Necesiitava urgente ajuda.

Como pedir socorro, nessa noite de consoada, em que os táxis desapareceram da frente do Hospital, e este já não tinha Serviço de Urgência, por força de anterior decreto ministerial. O telemóvel que possuíam tinha-se avariado e quebrado com enorme tombo, dois dias antes. A esposa, reduzida à cadeira de rodas, após atropelamento grave havia sete anos, nada poderia fazer. Restava-lhe a filha, a deficiente, que triste e plangente mirou seu pai e saiu disparada porta fora, em busca de ajuda. Quem àquelas horas podê-los-ia auxiliar? Noite de Natal, nem vivalma na cidade. Apenas o frio e o silêncio da gélida noite.

Lembrado da sua medicação habitual, José, perdido por cem, perdido por mil, apesar de já ter tomado medicação anterior, recordou os conselhos de um médico na última urgência que teve, em que este lhe aconselhou a tomar mais um “LASIX” se estivesse mais inchado e com falta de ar. Assim fez. Até duplicou a dose, deixando-se ficar sentado frente à janela aberta do seu quarto, na esperança que a frescura e pureza do ar fresco da noite lhe aliviasse tamanha angústia. Nem o brilho da iluminação de Natal o fascinava.

Momentos depois, chegara a filha acompanhada de dois bombeiros e uma maca. Pedira ajuda ao porteiro que estava na entrada hospitalar. Este telefonara aos bombeiros de serviço.

José não pretendia deitar-se na maca porque a abafação era maior. Trouxeram-lhe cadeira de rodas e, mal entraram na ambulância, foi-lhe colocado oxigénio. Perante a inexistência de Serviço de Urgência local, que pouco tempo antes fora extinta, lá foram rumo ao Hospital de Vila Nova de Famalicão. Pelo caminho, o doente teve enorme vontade de urinar... era o diurético a fazer efeito. Pediu que parassem, mas nem foi preciso, pois arranjaram-lhe um urinol. Encheu-o até ao topo do gargalo. Ficou muito mais aliviado e respirava já com menor dificuldade.

Mesmo assim, lá o levaram ao Serviço de Urgência, onde foi atendido por um médico tarefeiro de Leste, muito gentil e que logo o avaliara com sorriso de empatia natalícia. Deixou-o sentado, com medicação apropriada em curso, através de soro pendente. Estava quente e confortável a Urgência e as melhoras não tardaram.

Bem perto da cidade, na encosta do monte da Senhora da Assunção, numa belíssima e ancestral quinta do século XVIII, uma família abastada e ligada ao Governo vigente, celebrava a ceia de Natal. Como convidado tinham o senhor Ministro da Saúde e família. Enormes laços de amizade e algum parentesco os ligavam, para além das labutas partidárias e políticas ao serviço do mesmo partido, o do Governo.

Mesa farta, álcool e fumo à fartazana, conversas desinteressantes e enfadonhas. Às duas por três alguém se sente mal. Uma dor epigástrica intensa, quase cortante e irradiando, via retro-esternal, pelo peito acima até aos maxilares. Suores profusos e uma enorme vontade de vomitar toda a jantarada. A dispneia começava também a instalar-se, e o doente cirandava entre o quarto de banho e as várias salas do palacete. Talvez fosse uma indisposição do abuso alimentar, pensava. Quiçá o que o povo apela de “congestão”. Mas, a coisa não melhorava e pensaram: que raio, pode ser algo pior. Todos eram doutores, mas ninguém era clínico ali, e só a vítima estava ligada à Saúde, mas não passava de um Ministro sem experiência médica, pois era um tecnocrata da Saúde, apenas habituado a calcorrear os corredores dos hospitais para visitas desinteressantes. Mesmo assim solicitou ajuda e todos se prontificaram levá-lo ao Hospital. Um iluminado lembra-se de telefonar a um amigo, Clínico Geral que possuía uma clínica na cidade, mas este, quando lhe disseram que se tratava do Ministro da Saúde, logo adiantou que, na sua clínica, não dispunha de meios técnicos para tratar o que lhe parecia, sem dúvidas, um enfarte agudo do miocárdio. Melhor seria recorrer à urgência do Hospital mais próximo, ou seja, o de Famalicão a poucos mais de nove quilómetros, já que o da cidade já não tinha Serviço de Urgência.

Sem mais demora, meteram-no num confortável automóvel de família e de imediato começaram todos os telemóveis a avisar que o senhor Ministro ia com um enfarte do miocárdio para aquele Serviço de Urgência. Por artes mágicas a movimentação e corrupio começaram naquele Serviço de Urgência.

José, já normalizado do seu Edema do Pulmão, diagnóstico que o ucraniano escrevera na folha de atendimento, estava espantado com tamanho frenesi naquele momento e ali. Até o senhor Administrador e o Director Clínico do hospital foram contactados e acabavam de chegar, coisa que muito espantava José. Quem seria o "passarão" cuja visita ao Serviço de Urgência movimentava tanta gente importante e causava tamanho burburinho. 

Já estavam os maqueiros à porta do S.U., quando chegou o “espadão” com o senhor Ministro. De imediato, muito acompanhado, já com médicos e enfermeiros surgidos não se sabe de onde, lá foi conduzido, muito mal, para a sala de reanimação. Já não respirava normalmente, e a amplitude torácica era diminuta. Escorria suor, e a palidez do rosto era nívea. Gelado como aquela noite fria de Natal.

Na sala de Reanimação, tudo lhe foi feito para ressuscitação, uma vez que mesmo ao chegar perto do Hospital desfalecera com fibrilação ventricular, entrando em paragem cardio-respiratória. Desde cardioversão eléctrica a injecções intracardíacas,  de massagem cardíaca a ventilação endotraqueal, nada resultara. O Ministro da Saúde morreu, com Enfarte Agudo do miocárdio, complicado.

Entretanto, José, reabilitado, subiu para o Serviço de Medicina, a fim de convalescer e melhorar da sua insuficiência cardíaca e respiratória, após o Edema Agudo do Pulmão.

Dia seguinte no meu velho Mercedes 190 D, a caminho do quiosque dos jornais, ouço a TSF: “ devido a um enfarte agudo do miocárdio, quando ceava com a familiares, em Santo Tirso, o Ministro da Saúde faleceu quando chegava ao Serviço de Urgência de Vila Nova de Famalicão. Apesar de ser tentada reanimação, nada evitou o desfecho fatal. Segundo o Cardiologista que o recebeu, a morte poderia ter sido evitada se fosse mais cedo socorrido. O fecho do Serviço de Urgência da cidade de Santo Tirso foi-lhe fatal...”

E lá segui, matutando noutras paragens, como Fafe, Lamego, etc., que também ficaram sem Serviço de Urgência hospitalar. Pensei: afinal sempre é verdade, “Deus não bate, mas castiga”.

José melhorou, teve alta dias depois, e entendeu mais algumas coisas que por ele não tinham passado. Vale a pena estar atento às vozes sábias que emitem seus conhecimentos.

Pura ficção, é certo. Mas poderia ser realidade.

A todos um bom Natal e Feliz Ano Novo.

Mortes "in-utero" e "ex-utero"... eis o dilema.

                                      

 A pergunta que o Parlamento aprovou visando um novo referendo é :

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".
A última decisão coube ao Presidente da República, Cavaco Silva, que, na campanha eleitoral para Belém, adiantou que, como "posição de princípio", daria seguimento a qualquer pedido de convocação de referendo aprovado pela Assembleia da República. Assim o fez.

São sobejamente conhecidas as várias posições parlamentares sobre a questão já anteriormente referendada e sempre recusada.
É clara, e por demais reconhecida, a religiosidade ancestral e anquilosada do nosso povo eivado de uma fé Católica doentia e alimentada por séculos de medos e ameaças, sequelas de uma Inquisição abominável. Há um subconsciente nacional impregnado de misticismos e espiritualidade doentia, no que concerne a essa feroz catolicidade.
Ninguém terá dúvidas que o aborto é sempre um acto abominável e censurável, onde quer que se esteja, e seja qual for a fase evolutiva da gestação.Todos conhecemos o princípio elementar ético e filosófico de que só quem dá a vida tem o direito de a tirar. É óbvio e linear, não sendo necessário ter demasiados conhecimentos para o saber.
Mediante os media ninguém, hoje, porá em causa as mortes, "ad libitum" e sem qualquer pudor, que se provocam em nome da defesa das democracias e fim do terrorismo mundial. Só não se apodam de "aborto" porque os que são mortos já não se encontram "in-utero", apesar de muitas grávidas serem vítimas das guerras em nome de tudo e de nada.
Porventura todos aqueles que condenam o "aborto" considerarão relevantes estas perdas de seres humanos, na sua maioria já nascidos e crescidos? Tal facto não será tão "chaga" quanto o aborto? Valerá, para tais moralistas, mais uma vida "in-utero" que "ex-utero"? Será mais criminoso quem destrói uma ou outra? Papistas sim, mas não tanto!...Basta de hipocrisia! Ou dar-se-á o caso que para a destruição de vidas "ex-utero" a moralidade é peneirada e nunca vista à luz da deontologia e da ética universais?
Se afirmativo, todos os que cometeram genocídios, mortes nas guerras (Iraque, Vietname, Darfur, Angola, Guiné, etc., etc...), e assassinatos por motivos não belicosos, etc., serão, ignominiosamente, dignos de um nome igual ao dos que provocam o "aborto". Destruir uma vida é sempre praticar um crime, independentemente da idade da pessoa destruída e do País em que o acto é praticado. Acima de tudo convirá frisar que tão criminoso é quem mata, como quem manda matar. Nunca deveremos culpabilizar a mulher que abortou, por razões óbvias, sem procurarmos saber quem está conivente e quiçá com maior culpabilidade, mesmo não sendo submetido ao sofrimento directo e à vergonha social e remorsos dum acto, quase sempre indesejado. Nenhuma mulher pratica aborto por desporto, sabendo quanto vai sofrer, por dentro e por fora. Só pessoas mal formadas e mal intencionadas pensarão tal facto. Por detrás de um aborto está sempre uma causalidade que deverá ser bem dissecada e compreendida.
E já que se fala em morte e matadores deveremos questionar com isenção: que dignidade terá Bush, quando "mata", sem que haja "referendo" internacional para tal facto, e até desrespeito para as resoluções da ONU? E quem diz Bush, diz toda essa plêiade de "assassinos" que muitos apoiam, e aos quais se concede dúbio aval para a carnificina. Ou será que o seu pecado de assassinato é mais desculpálvel do que o de uma mulher, com ou sem cúmplices, que aborta? Pensemos bem no assunto! Nada de hipocrisias, nem conceitos de religiosidade doentia e bafiosa, própria de farisaicos comportamentos.
Que credibilidade e autoridade teremos para usar e defender dois pesos e duas medidas. Tão crime é aborto "in-utero" como mortandade criminosa "ex-utero", ou seja, em guerras e assassinatos por questões de poder, económicas e de imposição de governos e comportamentos sociais.

Finalizando só gostaria de deixar aberta uma simples questão:
Será que a consciência de uma mulher que aborta (seja qual for o motivo) ficará mais pesada que a de um estadista que manda "matar" os seus filhos da Pátria (soldados) e os seus adversários ou inimigos políticos?
É bom que se pondere a questão de forma estandardizada e padronizada, sem subterfúgios e sem apoio em teses de catolicismo doentio e balofo.
"A Deus o que é de Deus, a César o que é de César", Jesus "dixit"... e não condenou ninguém. Até incitou que o primeiro que dentre todos não tivesse pecado, atirasse a primeira pedra.
E as pedras não caíram...ficaram "in situ". Os acusadores...foram-se.

 

 

Poder político...riqueza pessoal...exploração dos pobres

                                                        

Hoje revisitando um post do ano transacto decidi retocá-lo e republicá-lo. Não por falta de temas e ideias, mas porque me parece sempre oportuno repisar os problemas sociais que persitem no nosso quotidiano.

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É sempre difícil a autopenalização política quando são os próprios governantes a tratar seus próprios problemas. A gente, numa plenitude de promessas e ansiada votação, coloca-os no poder, mediante expectativas de melhoria das condições sociais, económicas e políticas. No entanto, mal se encontrem instalados, parece que as águas deixaram de correr, tudo regressa ao inerte imobilismo do passado, as promessas não passaram disso mesmo, as condições sociais, económicas e políticas estagnaram e, quase sempre, pioraram. A felicidade de quem os colocou no poder virou em profunda desilusão, e todos ouvem falar do maldito défice, do excesso de trabalhadores na Função Pública, da necessidade de revolução tecnológica, de sacrifícios sempre solicitados, enfim, de uma mão cheia de desgraças que se desejam fazer desaparecer, mas que teimam em recrudescer. E quem estava mal pior ficará, quem estava muito bem, bem continuará ou até melhor. Nos media vão-se lançando os milhões de lucro que muitas empresas ainda conseguem neste contexto de miséria e pobreza global...como será possível, senhores políticos? Se têm tanto lucro, porque será? Alguém lho dá... e à custa de quem? De certeza que não são apenas "bons gestores", pois a boa gestão não deve visar lucros a expensas da miséria de quem produz o que é rentável. Esse lucro deve ser uma forma de se melhorar as condições de vida daqueles que, na dureza da produtividade, conseguem tal lucro...há que partilhar, embora racionalmente, essa riqueza que não deverá parar toda nas mãos dos donos das empresas e seus "bons gestores", gerando apenas bem-estar sócio-económico nestes últimos, que assim, à custa do suor alheio, usufruem de todas as benesses e benefícios. É deveras confrangedor ver tantos operários, que labutam quotidianamente e se desgastam nas empresas, não partilharem das alegrias de uma vida feliz e verem os valores resultantes do seu trabalho a ser esbanjados pela exacerbada opulência dos seus dirigentes....patrões e políticos, vendidos ao poder económico. Quando se trata de reduzir às despesas logo a classe política se vinga nos pequenos trabalhadores, essencialmente da Função Pública (e os privados, que roubam fugindo aos impostos esbanjando e desviando riqueza, estão impunes!) e não se querem retratar nesses excessivos gastos da Administração Pública, em que eles, políticos, os seus boys e correligionários, levam ao maior dispêndio do bolo global do Orçamento da Função Pública. Por acaso estarão os políticos tão cegos, ou não querem ver o óbvio, que são eles, autênticos funcionários públicos efémeros (só enquanto em tarefas de Estado!...) que nem pertencem ao quadro efectivo, que gastam a maior fatia do Orçamento Público? Quanto ganham extra remuneração base? Quantas mordomias, desde automóveis por conta, telefones, cartões de crédito, (ainda agora o Tribunal de Contas alertou para os casos do Metro...) subvenções de reforma para além desta e ainda duplicações de contagem de tempo de serviço, etc., fora as ajudas por tráfico de influências? Acharão eles que nós estamos a dormir, que não sabemos destas...e doutras benesses? Que se cuidem e, acima de tudo, sem receios de autopenalizações, que cortem nas suas exageradas benesses e não mexam nos empregos e ordenados dos já e sempre sacrificados funcionários públicos (pelo menos os mais modestos)...pois nem todos são preguiçosos ou oportunistas, enquanto quase todos os políticos bem acondicionados, não passam de oportunistas que, em nome do Povo, se governam desavergondamente e sem qualquer sentido de justiça social. Raros serão os políticos sérios e desprovidos da vontade de explorar o Povo, e se há corrupção deverá ser primariamente procurada nesta classe política e nas suas relações com o mundo dos grandes e médios empresários, contra os quais, pessoalmente, nada me move. Todavia veja-se como se degladiam aqueles que já estiveram e continuam em lugares politicamente "apetitosos", e se desvinculam dos partidos, mesmo após se provar que foram transgressores, para poderem, em nome duma pseudo-independência, continuar a sugar o Povo. Admira-me que muitas vezes este mesmo Povo explorado, lhes continue a dar o aval e legitimidade da continuidade de exploração e usurpação. É razão para se apelar à ignorância e simplicidade do Povo, e acordá-lo para a realidade. Fazê-lo ver que está a lidar com pessoas "influentes", mas movidas por falsas paixões e avidez de riqueza à custa de tanta humildade e respeito popular. Porventura já repararam que praticamente todos os que se metem nos altos cargos políticos acabam por se guerrear entre eles quando não lhes voltam a dar continuidade ou outro cargo influente dentro da organização económica e política? Porquê?...Tirem as vossas ilações, mas não sejam ingénuos. Gostaria ainda que pensassem um pouco no destino e a quem foi dado todo aquele dinheiro que a União Europeia deu aos portugueses para que o aplicassem no desenvolvimento global do País. Podem crer que se sumiu...e só os políticos que estavam no poder sabem a quem o deram. Amigos? Familiares? Eles próprios? Quem?...Eu não...e você?... Quem de vocês, povo (des)governado, realizou umas férias no Dubai, ao preço de quatro mil euros por dia (800 contos/dia) como o Dr. Paulo Portas, recentemente, quando governante? Com que dinheiro?...E outros que fazem e fizeram semelhantes despesas, mas não se soube? Não importa...o Zé Povinho continua e continuará a pagar impostos para tais benesses dos bem instalados. Acabando como comecei, repito: é sempre difícil a autopenalização política quando são os próprios governantes a tratar seus próprios problemas, (juízes em causa própria) pois não têm qualquer vontade política (nem outra) de perder as regalias, mordomias e alcavalas de que são usufrutuários, por enviesadas leis que nunca foram referendadas (e deveriam sê-lo) pela VOX POPULI. Legalidades que apenas benefeciaram e beneficiam os detentores do poder e do dinheiro.

E assim, numa lenta agonia de um País inacabado, eternamente adiado, lá vamos cantando e rindo, ao sabor da batuta de pseudo-políticos, venerados pela humilde subserviência de um povo que se auto-flagela em masoquismos e delíquios de miséria consentida.

 

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