SOL
arte poética

  

  

GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS

  

Use o poema para elaborar uma estratégia

de sobrevivência no mapa da sua vida. Recorra

aos dispositivos da imagem, sabendo que

ela lhe dará um acesso rápido aos recursos

da sua alma. Evite os atolamentos

da tristeza, e acenda a luz que lhe irá trazer

uma futura manhã quando o seu tempo

se estiver a esgotar. Se precisar de

substituir os sentimentos cansados

da existência, reinstale o desejo

no painel do corpo, e imprima os sentidos

em cada nova palavra. Não precisa

de dominar todos os requisitos do sistema:

limite-se a avançar pelo visor da memória,

procurando a ajuda que lhe permita sair

do bloqueio. Escolha uma superfície

plana: e deslize o seu olhar pelo

estuário da estrofe, para que ele empurre

a corrente das emoções até à foz. Verifique

então se todas as opções estão disponíveis: e

descubra a data e a hora em que o sonho

se converte em realidade, para que poema

e vida coincidam.

  

  

Nuno Júdice

in revista NEO #9, 2009

o gato

     

Esticou-se a tarde toda ao calor do chão

e assim ficámos cada um em seu poiso

na intermitência do sol e ao gosto dos insectos.

Ri. Passaram-se letras e frases inteiras

pelos olhos quando eu não estava ali.

Conheço a dormência do animal

o esticar dos membros, das patas

e daquela boca dentada.

Sou-lhe absolutamente dispensável.

    

De repente, os dias achatados, os pressupostos

e as mudanças de lugar tomam presença

nos corredores arqueados do pensamento

e eu pareço um eterno monstro, irreflectido.

Ouvi o dia inteiro impropérios,

a minha humanidade calcada em ajuntamentos.

Onde os desabridos pitéus

a efabulação intensa da casa.

As vozes que se tocam são um fio esticado,

logro de acções.

Levaria sem pensar um poste

lamberia as patas como os gatos

para limpar-me pelo lado de dentro da albarda.

Farejo a noite tão igual por dentro

ao som e aos gestos de um lobo.

Permaneço nas couves, nas formigas e nos crisântemos.

Apesar do lagar entumecido e visceral

eu resisto na terra e no muro, lugar sem porta.

Às vezes dá uma paragem no pensamento

e eu sou um animal lambendo as patas

abro a boca em toda a extensão do espaço

aquieto-me.

   

    

José Maria de Aguiar Carreiro
in revista
NEO #9, 2009

NEO #9

A “Consciência”, segundo António Damásio

  

  

Embora eu não veja a consciência como o apogeu da evolução biológica, encaro-a como um ponto de viragem na longa história da vida. Mesmo quando recorremos à simples e clássica definição de consciência do dicionário — a percepção pelo organismo do seu próprio ser e do seu ambiente — conseguimos facilmente imaginar como a consciência deve ter permitido à evolução humana uma nova ordem de criações que não seriam possíveis sem ela: a consciência moral, a religião, a organização social e política, as artes, as ciências e a tecnologia. A consciência é a função biológica crítica que nos permite conhecer a tristeza ou a alegria, sentir a dor ou o prazer, sentir a vergonha ou o orgulho, chorar a morte ou o amor que se perdeu. Tanto o pathos como o desejo são produtos da consciência. Sem ela, nenhum desses estados pessoais poderia ser conhecido por cada um de nós. Não culpem a Eva pelo facto de conhecer, culpem a consciência mas agradeçam-lhe também.

  

Estou a escrever estas palavras em Estocolmo, enquanto observo pela janela um velho frágil que se dirige a um barco que está prestes a partir. O tempo é escasso, mas a marcha é vagarosa e a cada passo os tornozelos claudicam; o cabelo é branco; o casaco está gasto. Chove sem parar e o vento obriga-o a dobrar-se ligeiramente, como um arbusto solitário em campo aberto. Finalmente consegue chegar ao barco. Sobe com dificuldade o degrau alto que dá acesso à prancha de embarque e inicia a descida para o convés, receoso de ganhar demasiada velocidade na rampa, olhando com rapidez para a esquerda e para a direita, enquanto o seu corpo inteiro parece perguntar: «Estou no sítio certo? E agora, para onde vou?» Nessa altura, os dois marinheiros que se encontram no convés ajudam-no afirmar o último passo, conduzem-no para a cabina com gestos amigáveis e ele está, finalmente, em segurança. A minha preocupação acaba. O barco parte.

  

Deixe agora, leitor, que a sua mente vagueie. Pense o impensável e considere que, sem consciência, o nosso homem não poderia ter conhecido o seu desconforto e talvez humilhação. Sem consciência, os dois homens no convés não teriam reagido com a mesma simpatia. Sem consciência, eu não me teria preocupado e nunca teria pensado que um dia poderei estar nas mesmas circunstâncias, caminhando com a mesma dolorosa hesitação e o mesmo desconforto. A consciência amplifica o impacto destes sentimentos na mente dos personagens desta cena.

  

A consciência é, com efeito, a chave para uma vida examinada, para o melhor e para o pior; é a certidão que nos permite tudo conhecer sobre a fome, a sede, o sexo, as lágrimas, o riso, os murros e os pontapés, o fluxo de imagens a que chamamos pensamento, os sentimentos, as palavras, as histórias, as crenças, a música e a poesia, a felicidade e o êxtase. A consciência, no seu plano mais simples e básico, permite-nos reconhecer o impulso irresistível para conservar a vida e desenvolver um interesse por si mesmo. A consciência, no seu plano mais complexo e elaborado, ajuda-nos a desenvolver um interesse por outros si mesmos e a cultivar a arte de viver.

  

  

In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio,

Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.), pp. 23-24.

Título Original: The Feeling of What Happens.

Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada, em parte, numa tradução de M.F.M.

  

  

  

Da Consciência Nuclear à Consciência Alargada

  

  

[…] a consciência não é monolítica, pelo menos nos seres humanos: pode ser dividida em espécies simples e complexas e a evidência neurológica torna esta divisão transparente. A espécie mais simples, a que chamo consciência nuclear, fornece ao organismo um sentido do si num momento — agora — e num lugar — aqui. O âmbito da consciência nuclear é o aqui e agora. A consciência nuclear não ilumina o futuro, e o único passado que nos permite vagamente vislumbrar é o que ocorreu no instante exactamente anterior. Não corresponde a nenhum algures, não corresponde a nenhum antes, nem corresponde a nenhum depois. Por outro lado, a espécie mais complexa de consciência, a que chamo consciência alargada e da qual existem vários níveis e graus, fornece ao organismo um elaborado sentido de si — uma identidade e uma pessoa, o leitor ou eu — e coloca essa pessoa num determinado ponto da sua história individual, amplamente informada acerca do passado que já viveu e do futuro que antecipa, e agudamente alerta para o mundo que a rodeia.

  

Em resumo, a consciência nuclear é um fenómeno biológico simples; possui um único nível de organização; é estável ao longo da vida do organismo; não é exclusivamente humana; e não está dependente da memória convencional, da memória de trabalho, do raciocínio ou da linguagem. Por outro lado, a consciência alargada é um fenómeno biológico complexo, possui vários níveis de organização, e evolui ao longo de toda a vida do organismo. Embora acredite que a consciência alargada também se encontra presente de forma elementar em alguns seres não humanos, ela só atinge o seu auge nos seres humanos. A consciência alargada depende da memória convencional e da memória de trabalho. Quando atinge o seu apogeu humano, é largamente reforçada pela linguagem.

  

O super-sentido da consciência nuclear é o primeiro passo para a luz do conhecimento e não ilumina um ser na sua totalidade. Por outro lado, o super-sentido da consciência alargada traz finalmente para a luz o edifício inteiro do ser. Na consciência alargada, tanto o passado como o futuro antecipado são sentidos em simultâneo com o aqui e agora, numa visão abrangente cujo alcance é tão vasto como o de uma história épica.

  

Se é verdade que a consciência nuclear constitui o rito de passagem para o conhecimento, é igualmente verdade que os níveis de conhecimento que abrem caminho à criatividade humana são permitidos pela consciência alargada. Quando pensamos no esplendor da consciência e quando pensamos que a consciência é especificamente humana, estamos a pensar na consciência alargada no seu momento de zénite. No entanto, como veremos, a consciência alargada não é uma variedade independente da consciência: pelo contrário, é edificada sobre os alicerces da consciência nuclear. O bisturi da doença neurológica revela que as alterações da consciência alargada deixam incólume a consciência nuclear. Pelo contrário, as alterações que se iniciam ao nível da consciência nuclear arrasam todo o edifício da consciência, e a consciência alargada colapsa também. O esplendor da consciência requer ambas as formas de consciência. Porém, se queremos esclarecer essa gloriosa combinação, devemos começar por compreender a sua forma mais simples e básica: a consciência nuclear.

  

A propósito, os dois tipos de consciência correspondem a dois tipos de si. O sentido do si que surge na consciência nuclear é o si nuclear, uma entidade transitória, recriada incessantemente para todos os objectos com os quais o cérebro interage. Todavia, a nossa noção tradicional do si está ligada à ideia de identidade e corresponde a um conjunto não transitório de factos e modos de ser singulares que caracterizam uma pessoa. A minha designação para essa entidade é a de si autobiográfico. O si autobiográfico depende de memórias sistematizadas de situações em que a consciência nuclear permitiu o conhecimento das características mais invariantes da vida de um organismo: quem foram os pais, onde se nasceu, quando, de que coisas se gosta e que coisas se detestam, a reacção habitual face a um problema ou conflito, o nome, etc. Utilizo o termo memória autobiográfica para designar o arquivo organizado dos principais aspectos da biografia de um organismo. […]

  

  

  

  

  

 

              O SENTIMENTO DE SI, António Damásio

  

  

  

  

  

  

O TRANSITÓRIO E O PERMANENTE

  

  

A organização da consciência que proponho resolve o aparente paradoxo que William James identificou — segundo o qual, na corrente da nossa consciência, o si muda continuamente à medida que se desloca no tempo, embora, de certo modo, esse si permaneça o mesmo à medida que a existência prossegue. A solução deste aparente paradoxo vem com o facto de o si aparentemente mutável e de o si aparentemente permanente, embora intimamente relacionados, não serem uma só entidade, mas duas. O si em constante mudança identificado por James é o si da consciência nuclear, transitório, efémero, constantemente refeito e renascido. O si que parece permanecer o mesmo é o si autobiográfico, o que se baseia num repositório de memórias biográficas individuais parcialmente reactivadas, que dão assim continuidade e aparente permanência às nossas vidas.

  

Esta organização dupla requer os mecanismos da consciência nuclear e a disponibilidade da memória. A consciência nuclear fornece-nos um si nuclear, mas a memória convencional é necessária para a construção do si autobiográfico, tal como a consciência nuclear e a memória de trabalho são necessárias para tornar o si autobiográfico explícito, isto é, para manifestar os conteúdos do si autobiográfico na consciência alargada. As espécies cuja memória é limitada não enfrentam o paradoxo de James. Habitam um mundo situado num degrau acima da inocência. Têm, com toda a probabilidade, a experiência aparentemente contínua de momentos de individualidade consciente, mas não estão nem sobrecarregadas nem enriquecidas pelas memórias de um passado pessoal e muito menos pelas memórias de um futuro antecipado.

  

Na minha proposta, a consciência nuclear constitui uma faculdade central, produzida por um sistema mental e neural circunscrito. O facto de a consciência nuclear ser central não significa que dependa de uma estrutura única. Já vimos que é necessário um grande número de estruturas neurais para a ocorrência da consciência nuclear. Porém, a complexidade do sistema, a multiplicidade dos seus componentes e a cooperatividade necessária para a sua operação normal, não devem fazer esquecer o seguinte facto: à escala anatómica do cérebro inteiro, o sistema que permite à consciência nuclear (a combinação das regiões que apoiam o proto-si e das regiões que apoiam o relato de segunda ordem) está confinado a um conjunto de regiões anatómicas. Não está uniformemente distribuído por todo o cérebro. Existem muitas regiões cerebrais que não estão de todo relacionadas com a produção da consciência nuclear.

  

A robustez da consciência nuclear provém da sua centralidade anatómica e funcional e do facto de qualquer conteúdo mental, quer seja processado activamente numa interacção directa, quer seja recordado da memória, poder levar o sistema da consciência nuclear a actuar, provocá-lo, por assim dizer, e, ao fazê-lo, gerar uma pulsação de consciência nuclear. A consciência nuclear não está dividida por modalidades sensoriais, por exemplo, consciência nuclear «visual» ou consciência nuclear «auditiva». Pelo contrário, a faculdade central da consciência nuclear pode ser usada por qualquer modalidade sensorial e pelo sistema motor, de modo a gerar conhecimento acerca de qualquer objecto ou movimento.

  

Os conteúdos do si autobiográfico — as memórias organizadas e reactivadas dos factos fundamentais da biografia individual — são os principais beneficiários da consciência nuclear. Sempre que um objecto X provoca uma pulsação de consciência nuclear e o si nuclear emerge em relação ao objecto X, são também consistentemente activados, sob a forma de memórias explícitas, certos conjuntos de factos autobiográficos implícitos que provocam as suas próprias pulsações de consciência nuclear.

  

A qualquer momento da nossa vida, geramos pulsações de consciência nuclear para um ou mais objectos e para um conjunto de memórias autobiográficas reactivadas que os acompanham. Sem estas memórias autobiográficas não teríamos qualquer sentido de passado ou de futuro, não existiria uma continuidade histórica para as nossas pessoas. Mas sem a narrativa da consciência nuclear e sem o si nuclear transitório, que nasce no seu interior, não teríamos qualquer conhecimento do momento presente, do passado memorizado e do futuro antecipado. A consciência nuclear é uma necessidade fundamental. Tem precedência, evolutiva e individualmente, sobre a consciência alargada que agora possuímos. No entanto, sem a consciência alargada, a consciência nuclear nunca teria a ressonância do passado e do futuro. A interdependência da consciência nuclear e alargada é completa.

  

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Espécies de si

    

  

  

  ESPÉCIES DE SI, segundo António Damásio

  

             

      

   A seta entre o proto-si não consciente e o si nuclear consciente representa a transformação que ocorre como resultado do mecanismo da consciência nuclear. A seta em direcção à memória autobiográfica indica a memorização de experiências repetidas do si nuclear. As duas setas em direcção ao si autobiográfico significam a sua dependência dupla, em relação quer às pulsações contínuas da consciência nuclear, quer às reactivações contínuas das memórias autobiográficas.

  

  

  

   

    

In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.). Título Original: The Feeling of What Happens. Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada, em parte, numa tradução de M.F.M.

  

  

  

  

Leia ainda “Uma Recensão Direccionada de O Sentimento de Si: Da Consciência Nuclear à Consciência Alargada. Da Memória Autobiográfica à Identidade Pessoal” in http://metafisica.no.sapo.pt/cardim.html

  

E Tu És a Música, Mas Só Enquanto a Música Dura: O Si Transitório

  

  

O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o protagonista do acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas incessantemente, acima da linha de água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado em cada novo instante, graças a toda e qualquer coisa que afecte a sua maquinaria sensorial, vinda do exterior ou recordada da memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página porque a história da consciência narra um personagem — o leitor no acto de ver. O leitor sabe agora de si, e a primeira base para o si consciente é um sentimento que surge na re-representação do proto-si não consciente, no processo de ser modificado. O primeiro truque da consciência é a criação do relato desta modificação, e a sua primeira consequência é o sentimento do conhecer.

  

O conhecimento nasce nesta história, está embutido no padrão neural transitório que constitui o relato não verbal de segunda ordem. O leitor mal se apercebe do contar da história, porque as imagens que dominam a manifestação mental são as das coisas a que agora está a prestar atenção ‑ os objectos que vê ou ouve, as coisas que dizemos «ter na consciência» ‑ e não aquelas que prontamente constituem o sentimento do si no acto de conhecer. Por vezes apenas se apercebe do sussurro da subsequente tradução verbal duma inferência que resulta deste relato: sim, sou eu que vejo, sou eu que ouço ou que toco. Porém, por muito ténue que seja o contar da história, por muito semiadivinhado que o indício seja, quando o contar da história é suspenso por uma doença neurológica, a consciência suspende-se também e a diferença é abissal. (1)

  

T. S. Eliot pode bem ter pensado em qualquer coisa de semelhante quando escreveu, nos Quatro Quartetos, sobre uma «música ouvida tão profundamente que nem sequer é ouvida» e quando disse «tu és a música enquanto a música dura». Pelo menos deve ter pensado no momento fugidio em que um conhecimento profundo emerge ‑ uma união ou encarnação, tal como Eliot lhe chamou.

  

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(1)                O leitor poderá pensar que o relato não verbal é uma ficção e que conhecer e si são apenas ilusões. Essa questão é interessante e tem mais de uma resposta possível, mas a minha resposta é que não são ficção. Conseguimos verificar independentemente, a posteriori, no nosso ser e nos outros seres, que os personagens do enredo primordial como, por exemplo, os organismos vivos individuais, os objectos e as relações ilustradas no enredo, são de facto ocorrências consistentes e sistemáticas. Nesse sentido não são ficcionais porque respeitam a verdade. Por outro lado, é difícil imaginar que ilustrem qualquer verdade absoluta. À escala do universo, o feito da consciência é modesto e o que nos permite entrever é limitado.

  

  

  

   

  

  

  

   

  

  

  

   

  

Espécies de si

  

  

O SI AUTOBIOGRÁFICO: O si autobiográfico baseia-se na memória autobiográfica, constituída por memórias implícitas de múltiplos exemplos de experiência passada individual e de futuro antecipado. Os aspectos invariantes da biografia de um indivíduo formam a base da memória autobiográfica. A memória autobiográfica aumenta continuamente através da vida, mas pode ser parcialmente remodelada, de modo a reflectir novas experiências. Conjuntos de memórias que descrevem identidade e pessoa podem ser reactivados sob a forma de padrões neurais e, sempre que necessário, tornados explícitos sob a forma de imagens. Cada uma das memórias reactivadas funciona como «uma-coisa-que-está-para-ser-conhecida» e gera o seu próprio pulso de consciência nuclear. O resultado é o si autobiográfico, do qual estamos conscientes.

  

O SI NUCLEAR: O si nuclear é inerente ao relato não verbal de segunda ordem que ocorre sempre que um objecto modifica o proto-si. O si nuclear pode ser desencadeado por qualquer objecto. O mecanismo de produção do si nuclear sofre modificações mínimas ao longo de uma vida. Temos consciência do si nuclear.

  

CONSCIÊNCIA

  

O PROTO-SI: O proto-si é um conjunto interligado e temporariamente coerente de padrões neurais que representam, a cada momento, o estado do organismo, a múltiplos níveis do cérebro. Não temos consciência do proto-si.

  

  

  

  

In O Sentimento de Si. O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, António Damásio, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2000 (1ª ed.). Título Original: The Feeling of What Happens. Versão portuguesa do original americano revista pelo autor e baseada, em parte, numa tradução de M.F.M.

  

  

  

a capacidade cerebral que nos sobra

  

  

[…]

— Julgava que isso do eu era coisa que não existia.

  

— E não existe mesmo tal coisa, se está a referir-se a uma entidade bem determinada e distinta. Mas claro que há vários eus. Estamos sempre a inventá-los… como você inventa as suas histórias.

   

— Está a dizer que as nossas vidas são meras ficções?

   

— De certa forma. Essa é uma das coisas que fazemos com a capacidade cerebral que nos sobra. Inventamos histórias a respeito de nós próprios.

[…]

Após uma pausa Helen pergunta: — O que quis dizer com aquilo da capacidade cerebral que nos sobra?

  

— Ora bem, o cérebro humano é muito maior do que o de qualquer outro animal do planeta. O nosso ADN é apenas diferente em um por cento do dos chimpanzés, os nossos parentes mais próximos, mas o nosso cérebro é três vezes maior. Como é óbvio isso deu aos nossos antepassados primitivos uma enorme vantagem na escala evolutiva. Aprendemos a fazer armas e ferramentas, a comunicar através da linguagem, a resolver problemas através do processamento de várias opções pelo nosso computador mental em vez de nos limitarmos a reagir instintivamente. Fomos capazes de ir além dos quatro Cês. Combater, comer, copular e... defecar.

  

— Ah... — Helen deixou escapar uma risadinha.

  

— Mas as potencialidades do cérebro humano excedem muitíssimo o avanço que temos em termos evolutivos sobre as outras espécies. E isso que eu quero dizer com a capacidade que nos sobra. O homem primitivo era como um tipo a quem deram o último modelo em computadores e se limita a usá-lo para simples operações aritméticas. Mais tarde ou mais cedo vai começar a brincar com ele e acabará por descobrir que pode fazer também muitíssimas outras coisas. Foi o que, com o tempo, acabámos por fazer com o nosso cérebro. Desenvolvemos a linguagem. Começámos a reflectir sobre a nossa própria existência. Tomámos consciência de nós próprios como criaturas com um passado e um futuro, com histórias individuais e colectivas. Desenvolvemos a cultura: a religião, a arte, a literatura, o direito... a ciência. Mas existe a outra face da autoconsciência. Sabemos que vamos morrer. Imagine o choque que isso deve ter sido para o Homem de Neandertal ou para o Homem de Cro-Magnon ou para quem quer que tenha sido o primeiro a descobrir a terrível verdade: que um dia seria apenas carne. Os leões e os tigres não sabem disso. Os macacos não sabem disso. Mas nós sabemos.

  

— Os elefantes devem saber — interpõe Helen. — Têm cemitérios.

  

— Receio que isso seja um mito — diz Ralph. — O homo sapiens foi o primeiro e o único ser vivo na história da evolução a descobrir que era mortal. E depois como é que ele reage? Inventa histórias para explicar como se meteu nesta embrulhada e como poderá sair dela. Inventa a religião, desenvolve ritos funerários, inventa histórias sobre a vida para além da morte e a imortalidade da alma. Com o passar do tempo estas histórias vão-se tornando cada vez mais elaboradas. Mas na etapa mais recente do desenvolvimento cultural, apenas há uns segundos atrás em termos da história da evolução, a ciência desabrocha repentinamente e começa a contar uma história bem diferente acerca do modo como viemos aqui parar, uma história muito mais credível que ganha de longe à religiosa. Hoje em dia já são muito poucas as pessoas inteligentes que acreditam na história contada pela religião, embora continuem a agarrar-se a ela e a procurar consolo em alguns dos seus conceitos, tais como a alma, a vida para além da morte, e por aí fora.

  

— Penso que é precisamente isso que o incomoda, não é? — diz Helen. — Que a maior parte das pessoas continue teimosamente a acreditar que existe um espírito dentro da máquina por mais que os cientistas e os filósofos lhes digam que não.

  

— Não me «incomoda» propriamente — diz Ralph.

  

— Incomoda, sim — diz Helen. — É como se estivesse apostado em eliminá-lo da face da terra. Que nem um inquisidor determinado a pôr fim às heresias.

  

— Só acho que não devemos confundir aquilo que gostaríamos que fosse com aquilo que realmente é — diz Ralph.

  

— Mas admite que temos pensamentos que são privados, secretos, conhecidos apenas de nós próprios.

  

— Sim, claro.

  

— Admite que a minha experiência deste momento, estar aqui refastelada na água quente a contemplar as estrelas, não é exactamente a mesma que a sua?

  

— Estou a ver aonde quer chegar — diz ele. — Está a dizer que existe algo que lhe pertence só a si, ou a mim, uma certa qualidade da experiência que é exclusivamente sua ou minha, que não pode ser descrita com objectividade nem explicada em termos puramente físicos. Aquilo a que poderíamos chamar um eu imaterial ou alma.

  

— Sim, penso que sim.

  

— Pois eu digo que continua a ser uma máquina. Uma máquina virtual dentro de uma máquina biológica.

  

— Então é tudo uma máquina?

  

— Tudo o que processa informação é, sim.

  

— Acho essa ideia aterradora.

  

Ele encolhe os ombros e sorri. — Você é uma máquina que foi programada pela cultura para não reconhecer que é uma máquina. […]

  

  

In Pensamentos Secretos, David Lodge, Porto, Ed. Asa, 2002, pp. 114-116

tradução do original inglês (Thinks…, 2001) por Ana Maria Chaves e Rita Pires.

  

  

  

CONSCIENCIA

  

  

[…] a investigação da consciência é uma investigação àquilo que nos torna humanos, à forma como sabemos aquilo que sabemos. Ou pensamos que sabemos. Seremos nós animais ou máquinas, ou uma combinação das duas coisas, ou alguma coisa diferente de cada uma delas? Compreender a consciência, ocorreu-me este fim-de-semana, é para a ciência moderna o que a pedra filosofal foi para a alquimia: a última maravilha na demanda do saber.

  

A busca de uma substância capaz de transformar em ouro o vil metal era, claro está, uma busca vã, porque não existe um tal composto, nem pode ser fabricado; mas, no decurso do processo experimental, muitas descobertas genuínas foram feitas — da porcelana à pólvora. Talvez nunca cheguemos a compreender cabalmente a consciência — sei que há especialistas que têm esta perspectiva, e devo dizer que a acho intuitivamente apelativa — mas o esforço para o conseguir já deu azo a muitas descobertas fascinantes sobre o cérebro e a mente […].

  

Foram, porém, muito poucas as referências feitas à literatura durante os trabalhos. O que me surpreende, porque a literatura é um registo escrito da consciência humana, porventura o mais rico que possuímos. Vou radicar as minha observações num pequeno texto literário, um poema — ou, para ser mais exacta, três estâncias do meio de um poema. O poema chama-se O Jardim, foi escrito por Andrew Marvell, um poeta inglês do século XVII, e é uma espécie de ode extasiada à alegria de se experimentar a natureza cultivada. A primeira dessas três estâncias descreve os prazeres sensuais de um jardim ideal. […]

  

  

Que doce Vida levo aqui neste lugar!

Maduros Pomos me cercam a balouçar;

Voluptuosos cachos, qual miragem,

Na minha boca em vinho se desfazem;

Os damascos e os pêssegos, curiosos,

Para as minhas mãos se estendem, ansiosos;

Tropeço nos melões, meu passo erra,

Enleado em flores caio por terra.

What wondrous life is this I lead!
Ripe apples drop about my head ;
The luscious clusters of the vine
Upon my mouth do crush their wine ;
The nectarine and curious peach
Into my hands themselves do reach ;
Stumbling on melons as I pass,
Insnared with flowers, I fall on grass.

  

  

Ouvimos falar muito dos qualia […]. Vejo que as opiniões se dividem quanto a serem uma proeza do cérebro ou uma proeza da mente, fenómenos na primeira pessoa, eternamente inacessíveis ao discurso científico na terceira pessoa, ou padrões regulares da actividade neurológica que apenas se tornam problemáticos quando os traduzimos para a linguagem verbal. Não sou competente para arbitrar neste assunto. Mas deixem-me chamar a vossa atenção para um paradoxo contido na estância de Marvell, o qual se aplica à poesia lírica em geral. Embora fale na primeira pessoa, Marvell não está a falar apenas em seu nome. Ao lermos esta estância extrapolamos para a nossa experiência dos qualia de fruto e de fruição. Vemos o fruto, sentimos-lhe o gosto e o perfume, e saboreamo-lo com aquilo que foi designado por a excitação do reconhecimento, embora o fruto não esteja presente, embora seja apenas a realidade virtual de um fruto invocada pelos qualia do próprio poema, uma combinação única e subtil de sons, ritmos e significados, que eu poderia tentar analisar se houvesse mundo e tempo que chegassem, para citar um outro poema de Marvell — mas não há.

  

Na próxima estância Marvell volta-se para a natureza privada, subjectiva, da consciência. […]

  

  

Enquanto isto, a Mente, de Prazer esgotada,

Recolhe-se à Felicidade encontrada:

A Mente, esse Oceano onde cada ente

Logo encontra o seu equivalente,

Cria porém, transcendendo todos,

Outros Mundos e outros Mares a rodos;

Reduzindo tudo o que foi criado

A um conceito verde em verde sombra olhado.

Meanwhile the mind, from pleasure less,
Withdraws into its happiness :
The mind, that ocean where each kind
Does straight its own resemblance find ;
Yet it creates, transcending these,
Far other worlds, and other seas ;
Annihilating all that's made
To a green thought in a green shade.

  

  

Há uma alusão no quarto verso a uma crença bizarra, mas muito comum na época, de que todas as criaturas tinham os seus correlativos no mar, o que coloca o poema numa era pré-científica. Mas isto não passa de um tropo, o que não afecta, creio eu, a validade da proposição central da estância: que a consciência humana é a única capaz de imaginar aquilo que não é fisicamente apreensível pelos sentidos, capaz de imaginar coisas que não existem, capaz de criar mundos imaginários (como os romances) e capaz de ter pensamentos abstractos — de distinguir por exemplo a ideia de cor (um conceito verde) da sensação de cor (em verde sombra olhado).

  

É isto dualismo? Bem, se qualquer distinção entre mente e corpo é dualismo, então suponho que é, se bem que me pareça difícil evitá-lo, tão profundamente enraizado está na linguagem e hábitos de pensamento. Mesmo os mais tenazes opositores da teoria do espírito dentro da máquina acabariam, contrariados embora, por nos deixarem usar os termos, mente e corpo, desde que ficasse entendido que a primeira é uma função do segundo e dele inseparável.

  

Todavia, Marvell, como todos os homens da sua época, era dualista num sentido muito mais forte do que esse, o que se torna evidente na estância seguinte. […]

  

  

Aqui, nas Fontes de pedra escorregadia,

Ou entre as Arvores que o musgo acaricia,

Do Corpo a Veste enfim despindo

Minha Alma para os ramos vai subindo:

Neles pousa, como um Pássaro e, trinando,

As argentinas Asas com o bico vai alisando;

E, até estar preparado para voo mais alongado,

Reflecte em suas Plumas os Matizes variegados.

Here at the fountain's sliding foot,
Or at some fruit-tree's mossy root,
Casting the body's vest aside,
My soul into the boughs does glide :
There like a bird it sits and sings,
Then whets and combs its silver wings ;
And, till prepared for longer flight,
Waves in its plumes the various light.

  

  

Descartes, segundo tenho ouvido dizer, acreditava na imortalidade da alma, porque era capaz de imaginar a sua mente a existir separada do corpo. Marvell expressa essa ideia na belíssima imagem do pássaro. Ele imagina a sua alma a deixar temporariamente o corpo para se empoleirar no ramo de uma árvore, onde alisa as penas e se prepara para o voo final até ao céu. Não estou à espera de vos levar com ele até lá. Uma tal ideia da alma seria hoje fantasiosa, mesmo para os cristãos mais crentes. Mas a ideia cristã da alma está ligada à ideia humanista do eu, isto é, o sentimento de identidade pessoal, o sentimento de que a vida mental e emocional tem uma unidade, uma extensão no tempo e uma responsabilidade ética por vezes denominada consciência.

  

A ideia do eu está hoje debaixo de fogo, não só em grande parte do debate científico sobre a consciência, mas também nas humanidades. Dizem-nos que é uma ficção, uma construção, uma ilusão, um mito. Que cada um de nós não passa de um saco de neurónios, ou de uma encruzilhada de discursos convergentes, ou de um computador a funcionar sozinho em paralelo, sem operador. Como ser humano e como escritora, considero essa visão da consciência abominável — e intuitivamente nada convincente. Quero continuar agarrada à ideia tradicional de um eu autónomo e individual. Tanto do que prezamos na civilização parece depender dela — a lei, por exemplo, e os direitos humanos — incluindo os direitos de autor. Marvell escreveu O Jardim antes de ter surgido o conceito de direitos de autor, mas uma coisa é certa, mais ninguém o poderia ter escrito e mais ninguém voltará a escrevê-lo — excepto na acepção trivial de o copiar palavra por palavra.

  

O poema é uma celebração, centra-se na consciência como um estado de felicidade. É um poema acerca da felicidade plena. Há, porém, uma dimensão trágica na consciência que também quase não foi aflorada nesta conferência. Há a loucura, a depressão, a culpa e o pavor. Há o medo da morte — e, mais estranho que tudo o resto, o medo da vida. Se os seres humanos são as únicas criaturas vivas que realmente sabem que vão morrer, são também as únicas que, conscientemente, põem termo à vida. Para certas pessoas, em certas circunstâncias, a consciência torna-se tão insuportável que se suicidam para lhe pôr fim. Ser ou não ser? é uma pergunta peculiarmente humana. A Literatura também nos pode ajudar a compreender o lado negro da consciência.

  

  

In Pensamentos Secretos, David Lodge, Porto, Ed. Asa, 2002, pp. 339-343

tradução do original inglês (Thinks…, 2001) por Ana Maria Chaves e Rita Pires.

  

  

  

  

  

o amor aparece assim de repente

   

   

   

   

   

“o amor, afinal, aparece assim de repente (como a chuva)”

in Grande Reportagem, “O Sexo e a Cidália”, 28/8/2004.

   

   

   

   

assim de repente como o amor a chuva afinal

parece sexo

como a chuva de repente o amor é sexo, aparece

parece chuva de repente como amor

   

   

José Carreiro

   

   

   

   

   

O soneto é uma casa poética.

 

 

 

 

«Falemos de casas

[…]

pensamentos nas pedras de alguma coisa

celeste como fogo exemplar.»

 

 

Herberto Hélder, A Colher na Boca

 

 

 

 

 

«O soneto é uma casa poética. Em nenhuma outra forma fixa o lirismo sabe conter-se tão amoldado, tão justo na medida que o veste e tão livre nos movimentos de respiração e de gesto que lhe apontam o exterior de que é abrigo e olhar. Medidas e casas são gosto e desejo de cada um, mas sempre se pode determinar o maior ou menor espaço que delimita o canto habitável e a maior ou menor folga que define a propriedade ou o empréstimo. Formas de rigor no estar livre, em suma. Com as adaptações subjectivas que sempre condicionam a liberdade dos outros (a do género) pela nossa e lhe conferem o rigor do exacto momento que vivemos. Assim o soneto, depois da grande fortuna clássica e simbolista que soube conquistar, se vê preterido pelas formas anárquicas da des-“ocupação do espaço” contemporâneo, num sistema de substituições[…]».

 

Mª Alzira Seixo, Discursos do Texto,

Amadora, Livraria Bertrand, 1977, pp. 283-284.

 

 

 

Medeia

              

   

MEDEIA

     

(Recitando o texto de Eurípedes.) «Jasão, perdoa-me o que disse. Tens de suportar este génio violento. Partilhamos tantas recordações do nosso amor!» Eu ralho comigo mesma, «Como és doida, Medeia, teimas em te queixar, quando o que os outros pretendem é levar a vida da melhor maneira possível, teimas em te queixar, erguendo-te contra o Rei e contra o teu próprio marido.»

[…]

«A vossa mãe está fora do Mundo», dizes calmamente enquanto enches o cachimbo, «e há quase vinte anos que anda agarrada como um abutre à carcaça de Medeia. Como e dorme com os seus demónios, de que outra coisa quer ela saber?» E os pequenos ouvem-te. O mais velho pelo menos ainda te presta atenção, vendo no pai aquilo que pretende ser, um «pragmático» com a ambição toda que cabe nesta palavra»

[…]

«A chuva desta noite espalhou pela terra as azeitonas antes que amadurecessem.» O texto de Eurípedes não contém, mas deveria conter, uma fala assim. Bem mais felizes terão sido essas mulheres antigas, descidas de um reino de taças de veneno e de tronos derrubados, desgrenhando a cabeleira no ventre dos seus amantes. Pariam em sangue, em sangue assassinavam.

[…]

Durante muitos anos tive aquele pesadelo. O homem, jovem de mais para mim, erguia-se na última fila da plateia. Disparava três vezes. Eu caía na grande luz do palco. E o público levantava-se para me aplaudir.

    

    

MÁRIO CLÁUDIO, MEDEIA
Lisboa, Publ. Dom Quixote, 2008

    

   

  

  

  

  

  

  

  

  

 

       

     

   

É só um vazio imenso

            

              

               

ANOS DEPOIS DE SEPARAR-NOS

         

Eram duas estrelas sobre um cenário, cada uma actuando diante de um público de duas pessoas: a paixão com que jogavam a mascarada criava a realidade.

         

FRANCIS SCOTT FIFZGERALD

         

          

Restam sim, cidades, paisagens, sensações de calor ou de frio, a neve de Nova Iorque, o sol implacável de Cartagena das Índias.

Restam quadros perdidos em museus ou em casas,

como postais de outro tempo, sem brilho,

conversações com amigos ou talvez inimigos,

encontros que por um momento deram valor à nossa vida,

tardes de touros, filmes, canções,

copos vazios, cães, casas abandonadas, bugigangas mexicanas.

Resta um cenário perfeito,

com todos os detalhes cuidados até ao limite,

para representar a obra tanto tempo ensaiada,

a parelha estelar enfim triunfadora.

Mas hoje, todos o sabem, nem tu nem eu actuamos.

E uma cenografia, por brilhante que seja,

nada é sem palavras, sem um alento humano.

É só um vazio imenso ou, sejamos modestos,

uma cartolina cinzenta onde irreflectidamente se cola

— nem vaias nem aplausos — os bilhetes da estreia,

velhas fotografias que a ninguém interessam, de dois rostos idos.

E as luzes apagam-se e fecham-se as portas.

            

JUAN LUIS PANERO, ANTES QUE CHEGUE A NOITE
Versões de António Cabrita e Teresa Noronha

Lisboa, Fenda, 2000, p. 40.

          

         

              

António Botto

"Canções e Outros Poemas", António Botto 

      

      

      

Não queiras vê-lo,

Nem perguntes o que eu fiz

Quando há pouco fui olhar-me

Depois de falar contigo

E em que chorei de saudade!

    

Quebrei-o porque não quero

Aceitar a realidade!

      

Não digas, — não vás supor

Que foi uma cobardia,

Ou nervos, ou pessimismo,

Ou uma simples fantasia!...

      

Não, amor: o nosso drama

— O meu!, tem essa tragédia

Da consciência que eu ponho

Sem querer, sem a chamar,

Para ouvir o que eu digo

E para ver o que eu faço...

      

Sou o rastro de um sorriso,

Um gesto do teu cansaço...

 

Sou a música perdida

De um lamento que foi alma

Na letra de uma cantiga

Cantada por um mendigo

Numa estrada solitária

Onde não passa ninguém!

      

Quebrei-o e fiz muito bem.

      

Quebrei-o como quem parte

A vida que idealizou:

      

— Não posso ver-me qual fui,

Não quero ver-me qual sou.

       

António Botto, Curiosidades Estéticas (1924) poema 24
in Canções e Outros Poemas, Ed. Quasi, 2008

    

     

 

O caso clínico de Fernando Pessoa



Fernando Pessoa, por Sábat




  

FERNANDO PESSOA OU ANTÓNIO MORA, O OFICIALMENTE LOUCO.

         

Cascais, disse Pessoa, Cascais, que belo sítio, eu também lá passei alguns dias, não mais de duas semanas, é a primeira vez que falo disto a alguém e de boa vontade lhe confesso a si que é meu amigo, meu caro Soares, fui a uma consulta na clínica psiquiátrica de Cascais; foi lá que conheci António Mora, o filósofo panteísta, e devo dizer que passei nessa pequena vila os dias mais serenos da minha vida, porque uma onda negra tinha-se abatido sobre mim e tinha-me arrastado e eu só tinha vontade de morrer, mas conheci António Mora, que me deu confiança na Natureza.

       

António Mora?, perguntou Bernardo Soares. Nunca me tinha falado nele, gostaria de saber alguma coisa a seu respeito.

       

Bem, disse Pessoa, António Mora é louco, pelo menos oficialmente é louco. Mas é um louco lúcido, que reflectiu muito sobre o paganismo e o cristianismo. Posso dizer-lhe que se veste com uma túnica como os antigos romanos, uma túnica branca que lhe desce até aos pés, calça sandálias à maneira antiga e raramente fala, mas comigo falou.

       

E o que é que ele lhe disse?, perguntou Bernardo Soares.

       

Disse-me muitas coisas, respondeu Pessoa. Disse-me primeiro que os deuses voltarão, porque essa história de uma alma única e de um único deus é uma coisa passageira que está a acabar no final de um curto ciclo de história. E quando os deuses voltarem perderemos essa unicidade da alma, e a nossa alma poderá de novo ser plural, como a Natureza quer.

       

Antonio Tabucchi, in Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa,

Quetzal Editores, 1994, pp. 48-50






                                                             







O CASO CLÍNICO DE FERNANDO PESSOA

       

       

A sua poesia exprime sempre os seus sentimentos ou as suas crenças, sejam no que for. Fernando Pessoa não sabe e não quer mentir, embora minta e se contradiga. Não é então ele que fala ou escreve, porque realmente não existe ele.

       

Quando afirma ou nega pronuncia-se somente uma parte dele, uma fracção ocasional do seu eu. A dissociação mental de que é vítima despersonaliza-o. Então a perda da integridade psíquica fá-lo sentir-se outro, ou outros, conforme as fracções próprias que o determinam.

       

Vivem em nós inúmeros,
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma
Há mais eus que eu mesmo.[1]

       

Na normal evolução da doença esquizofrénica[2] vai-se acentuando a progressão da dissociação psíquica até chegar à dissolução completa da personalidade, que é a demência ‑ Fernando Pessoa, falecendo aos 47 anos de idade, não teve tempo de chegar lá.

       

Sendo um psicopata hebefrénico[3], está implicitamente entendido que Fernando Pessoa não era o que se chama um louco. Padecia dessa nosofobia[4] porque, como é próprio da hebefrenia, conservava a inteligência e a lucidez do seu estado a agravar-se progressivamente e sabia o fim evolutivo que fatalmente o aguardava no avanço da idade.

       

No sofrimento atroz que lhe provocava à consciência da desagregação do pensamento, provavelmente terá (ainda que temido) desejado a loucura, porque a perda de lucidez do seu estado lhe seria uma libertação. No relâmpago de uma crise, algures chegou a exclamar: «Graças a Deus que estou doido!» Não o estava, claro. Nenhum doido (demente) diz que o é, pois que não reconhece o seu estado. Mas estava, isso sim, no caminho da demência e, nalguns momentos, muito próximo dela.

       

Psicopata profundamente atingido, e com a obstinação de escrever, fatalmente que Fernando Pessoa haveria de transmitir ao papel as vicissitudes dramáticas do seu espírito.

       

Mário Saraiva (médico), O caso clínico de Fernando Pessoa
Lisboa, Edições Referendo, 1990 – texto com supressões





[1] Fernando Pessoa/Ricardo Reis

[2] Esquizofrenia: do grego skhízein, «fender» + phrén, «mente; espírito» + -ia.

[3] Hebefrenia: uma categoria de esquizofrenia que começa, habitualmente, na adolescência e é caracterizada por inércia, embotamento da afectividade, autismo, bizarria de comportamento, delírios, dissociação intelectual da coesão íntima da personalidade.

[4] Nosofobia: horror excessivo às doenças; medo mórbido de adoecer. (Do gr. nósos, «doença» + phobe¸n, «ter horror a» + -ia)

 





                              






EXPLICAÇÕES POSSÍVEIS DA HETERONÍMIA

       

       

Vários caminhos convergentes, assinaláveis nas prosas inéditas, nos levam a explicações possíveis da heteronímia – como se a pluralidade estivesse realmente no cerne do "caso" literário de Fernando Pessoa e a consciência disso manejasse os fios do seu pensamento.

       

Eis algumas dessas explicações:

       

1ª) A constituição psíquica de Pessoa, instável nos sentimentos e falho de vontade, teria gerado a multiplicação em personalidades ou personagens do drama em gente.

       

Pessoa explica o aparecimento dos heterónimos dizendo que a origem destes reside na sua histeria, provavelmente histeroneurastenia[1], logo numa "tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação".

       

Vários fragmentos das Páginas Íntimas atendem "à dispersão do eu".

       

2ª) A qualidade de poeta de tipo superior levá-lo-ia à despersonalização. Com efeito, na concepção de Fernando Pessoa, segundo um fragmento inédito, há quatro graus de poesia lírica e no cume da escala, onde ele se coloca, o poeta torna-se dramático por um dom espantoso de sair de si.

       

No segundo grau, o poeta ainda mais intelectual, começa a despersonalizar-se, a sentir, não já porque não sente, mas porque pensa que sente, a sentir estados de alma que realmente não tem, simplesmente porque os compreende. Estamos na antecâmara da poesia dramática, na sua essência íntima. O temperamento do poeta, seja qual for, está dissolvido pela inteligência. A sua obra é unificada só pelo estilo, último reduto da sua unidade espiritual, da sua coexistência consigo mesmo.

       

“O quarto grau da poesia lírica é aquele muito mais raro, em que o poeta, mais intelectual ainda, mas igualmente imaginativo, entra em plena despersonalização."

       

Não só sente, mas vive os estados de alma que não tem directamente, supondo que o poeta, evitando sempre a poesia dramática, externamente, avança ainda um passo na escala da despersonalização.

       

Certos estados de alma, pensados e não sentidos, sentidos imaginativamente e por isso vividos tenderão a definir, para ele, uma pessoa fictícia que os sentisse sinceramente.

       

Não se detém Pessoa precisamente no limiar do seu caso excepcional de poeta múltiplo, autor de autores?

       

A heteronímia seria o termo último de um processo de despersonalização inerente à própria criação poética e mediante o qual Pessoa estabelece uma axiologia literária.

       

O poeta será tanto maior quanto mais intelectual, mais impessoal, mais dramático, mais fingidor – é o sentido pleno da "Autopsicografia".

       

O progresso do poeta dentro de si próprio, realiza-se pela autoria sobre a sinceridade, pela conquista (lenta, difícil), da capacidade de fingir: "A sinceridade é o grande obstáculo que o artista tem de vencer. Só uma longa disciplina, uma aprendizagem de não sentir senão literariamente as coisas, pode levar o espírito a esta culminância. "

       

Exprimir poeticamente significa fingir.

       

3ª) A qualidade de português levaria o poeta a despersonalizar-se, a desdobrar-se em vários.

"O bom português é várias pessoas – reza um fragmento inédito. Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa e quantos mais haja havidos ou por haver".

       

Se um indivíduo deve despersonalizar-se para seu progresso interior, uma Nação deve desnacionalizar-se – e esta é em particular a vocação portuguesa.

       

O ideal que Pessoa inculca a Portugal, é consequentemente o que se propõe a si próprio: "Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa" – o pluralismo, o politeísmo.

       

4ª) A multiplicidade do escritor seria o produto necessário de uma nova fase de civilização – fase que Fernando Pessoa caracteriza ao explicar o Orfeu e o sensacionismo dum ângulo sociológico.

       

A decadência da fé, quebra de confiança na ciência, a complexidade de opiniões traduz-se pela ânsia actual de "ser tudo de todas as maneiras".

       

A poesia poderá entender-se também como resposta a um estado colectivo de crise, mas em sentido diferente, isto é, como antídoto, como bálsamo espiritual.

       

Caeiro, libertador imaginário, um remédio (provisório) para a dor de pensar de que sofre Pessoa ortónimo, uma fuga.

       

Pessoa ter-se-ia dividido para se compensar.

       

Heteronímia seria um modo de suprir a carência, verificada na época, de personalidades superiores, e em especial de grandes personalidades na literatura portuguesa: "Com uma tal falta de literatura, como há hoje, que pode um homem de génio fazer senão converter-se ele só em literatura?".

       

http://www.ufp.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=191%3Ahipermedia-pessoano-fernando-pessoa-o-poeta-dos-heteronimos&catid=21%3Auniversidade&Itemid=68




       



[1] No seu Tratado de Psiquiatria Clínica, vol. I, o inglês W. Mayer Gross diz, na página 401: «Os hebefrénicos podem seguir um caminho por largos tempos diagnosticados de "neurasténicos" e "neuróticos"... Sentem-se atraídos por ideias pseudo-científicas e pseudo-filosóficas, sentem-se capazes de grandes descobrimentos e invenções.» Por sua vez, afirma-se no Dicionário Enciclopédico de Medicina (p. 871) que «os enfermos (esquizofrénicos na forma hebefrénica) entregam-se a excessos de romantismo, de filosofismo ou de misticismo.»





  

      

            

FERNANDO PESSOA E OS CONTEMPORÂNEOS

páginas de intertextualidade

          

Evocações

Fernando Pessoa, ele mesmo, revisitado

Cartas a Ofélia

Mensagem

Heterónimos

Alberto Caeiro

Ricardo Reis

Álvaro de Campos

Ricardo Reis

Bernardo Soares

António Mora e o caso clínico de Fernando Pessoa

        




Bernardo Soares





Sou a cena viva onde passam vários actores representando várias peças.

Bernardo Soares         







            “O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas cousas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual […]”

    

Fernando Pessoa, Carta a Adolfo Casais Monteiro

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935








Ora, se Pessoa pouco nos diz desta sua "personalidade literária", dele ficamos a conhecer, pela leitura do Livro, a condição de ajudante de guarda-livros, vivendo e trabalhando na Baixa lisboeta, contactando com o universo cinzento da paisagem que o rodeia, a citadina e a humana, a dos cafés que frequenta, a do escritório da Rua dos Douradores, com o patrão Vasques, o Moreira ou o moço de fretes.Vivia num quarto alugado e conversava sobre literatura com Fernando Pessoa, tendo mostrado apreço pela revista Orpheu. Ter-lhe-ia confessado mesmo que, “não tendo para onde ir, nem amigos que visitasse, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também”. Da sua escrita resultaram os fragmentos do que viria a ser o Livro do Desassossego.

      

Jorge de Sena, um dos primeiros a estudar o Livro do Desassossego, afirma que Soares representaria um heterónimo mais próximo de Pessoa do que os outros, por “assumir a meditação dispersa e fragmentária de uma sociedade de heterónimos na disponibilidade. O livro dele era uma espécie de refugo de tudo o que não chegava a ser de ninguém dos outros; e uma espécie de depósito da fragmentária tristeza de Pessoa, que, até certo ponto, para que ele existisse, sofria a suspensão existencial deles.” E acrescenta: “Se nem todos os trechos são de igual valor, alguns serão da mais bela prosa da língua portuguesa. Neles perpassam os temas, às vezes mesmo fantasmas de estrutura, dos poemas de todos os heterónimos e ortónimos. Tudo o que a poesia plenamente realizada, ou a diversificada prosa, deles todos foi - está presente nestes fragmentos feitos da análise espectral das vivências que pululavam dentro do homem Fernando Pessoa, acotovelando-se e atropelando-se para serem, ou, pouco a pouco, desvanecendo-se nas trevas inferiores, como espíritos que se cansam de comparecer à mesa de pé de galo a que os convocaram demasiadamente. O racionalismo transcendental de Fernando Pessoa; o misticismo irónico e frio de outro Fernando Pessoa; a meditação existencial de Álvaro de Campos; o empiriocriticismo de Alberto Caeiro; a consciência cansadamente hedonística da fugacidade de tudo, que era de Ricardo Reis; o neo-positivismo espiritualista do autor dos 35 Sonnets; a lascívia reprimida do autor de Antinous; o anarquismo paradoxal do Banqueiro , etc., etc.- e, sob tudo isto, como uma maldição, de que todos são filhos, como um pecado original a que todos devem o ser, a terrível incapacidade de amar, a medonha demonstração de que o homem existe pelos seus actos e não é outro senão eles, e que não existe, senão como ficção, quando, em lugar de aceitar ir sendo, escolhe fixar-se na pedagogia monstruosa de ser por conta alheia, de perder-se na floresta do alheamento”

    

    

INTERTEXTUALIDADE COM OS OUTRO(S) PESSOA(S)

- O MESMO E O OUTRO

    

Ao lermos o Livro do Desassossego somos sensíveis à presença no Eu/escrita de Soares os outros Pessoas já nossos conhecidos.

    

Por exemplo, Fernando Pessoa ortónimo:

    

Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.” [f.154] - cf.este poema com, por ex.:”Entre o sono e o sonho”

    

E tudo se me confunde num labirinto onde, comigo, me extravio de mim.” - cf. com "Há no firmamento”

    

Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim?” [f.21]

    

“[...] E num delírio intersticiado de certezas, leve, breve, suave, o murmúrio das águas de todos os parques nasce, emoção, do fundo da minha consciência de mim.” [f.98] - cf. com “Leve, breve, suave”

    

     

Ou Ricardo Reis:

    

Nada pesa tanto como o afecto alheio - nem o ódio alheio, pois que o ódio é mais intermitente que o afecto; sendo uma emoção desagradável, tende, por instinto de quem a tem, a ser menos frequente. Mas tanto o ódio como o amor nos oprimem; ambos nos buscam e procuram, não nos deixam sós” [f.382]- cf. com “Não só quem nos odeia ou nos inveja”.

    

Nunca amamos ninguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma é a nós mesmos - que amamos” [f.416] - cf. com “Ninguém a outro ama, senão que ama”.

    

O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente” [f.418] - cf. com “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo” e com “Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia”.

    

    

...Alberto Caeiro:

    

Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável [?] o sol que vê todos, a lua que a malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.” [f.16] - cf. com qualquer poema de “O Guardador de Rebanhos”.

    

Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade - a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma - pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua.” [f.67] - idem, especialmente com o poema II.

    

“Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como se não tivesse com ele mais relação que o vê-lo - contemplar tudo como se fora o viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na expressão que têm separadamente da expressão que lhes foi imposta. Poder conhecer na varina a sua realidade humana independente de se lhe chamar varina, e de se saber que existe e que vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em tudo pela primeira vez, não apocalipticamente como revelação do Mistério, mas directamente como floração da Realidade.” [f.87] - idem, especialmente com poema XXIV.

    

    

...Álvaro de Campos:

    

“Sentir tudo de todas as maneiras; saber pensar com as emoções e sentir com o pensamento; não desejar muito senão com a imaginação; sofrer com coquetterie; ver claro para escrever justo; conhecer-se com fingimento e táctica, naturalizar-se diferente e com todos os documentos; em suma, usar por dentro todas as sensações, descascando-as até Deus; mas embrulhar de novo e repor na montra como aquele caixeiro que de aqui estou vendo com as latas pequenas de graxa da nova marca”. [f.30] - cf. com “A melhor maneira de viajar é sentir” e “Passagem das Horas”

    

Escrevo atentamente, curvado sobre o livro em que faço a lançamento a história inútil de uma firma obscura; e, ao mesmo tempo, o meu pensamento segue, com igual atenção, a rota de um navio inexistente por paisagens de um oriente que não há.” [f.118] - cf. com “Ode Marítima”

    

Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos dispersos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! [...] Quantos Césares fui, mas não dos reais. [...] Quantos Césares fui, aqui mesmo na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação[...] Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto.” [...] - [f. 132] - cf. com “Tabacaria” e “Pecado original” - versos 16, 21 a 23: "Quantos Césares fui!"

    

Estou hoje lúcido como se não existisse.” [f. 416] - cf. com “Tabacaria”.

    

Doem-me a cabeça e o universo.” [f.430] - cf. com “Tenho uma grande constipação” - último verso: "Preciso de verdade e de uma aspirina."

    

De certo modo, Soares vem-se-nos revelar como alguém que está por detrás de todos os outros Pessoa(s), que existe com todos e em todos, como todos existem em si- o que, necessariamente, vem colocar a questão da heteronímia em moldes diferentes, vem dizer-nos que somos todos o mesmo e o outro - nesse sentido poderão entender-se as palavras, atrás referidas, de Eduardo Lourenço sobre o Livro do Desassossego como texto-rasura e como texto suicida, texto do ser/não ser que permanentemente se descobre como impossibilidade.

    

    

ALGUNS DOS TEMAS  ABORDADOS NO LIVRO DO DESASSOSSEGO:

    

Amor

Arte literária

Consciência/Inconsciência

Decadência

Eu vário e múltiplo

Indiferença/abdicação

Inércia/acção

Leituras

Língua-linguagem

Lisboa - cidade; Lisboa - ciclos do dia; Figuras da cidade; Quotidiano da cidade;

Morte

Noite

O Eu de Bernardo Soares

Paisagem

Passado-infância

Relação Eu/outros

Sensacionismo

Sensações

Ser e (des)conhecer-se

Sonho /realidade

Tédio

Trovoadas

Viagem-viagens

Viagens

AMÉLIA PINTO PAIS

in Para Compreender Fernando Pessoa, Porto, Areal Editores, 1996



 


 


 


 


 


 







a presença de Bernardo Soares
nos escritores contemporâneos:


 


 


 


 


 





 

BOA NOITE, SENHOR SOARES

    

    

Declarariam depois que o senhor Soares se não distinguia de qualquer outro sujeito, mas a verdade é que ele dera sempre mostras de ser um bocadinho esquisito. Espiávamo-lo no seu posto com uma ruga na testa, a tentar traduzir nas cartas que redigia aquelas designações antigas, e aqueles números que era indispensável reduzir a jardas, a polegadas e pés. Nos dias em que se achava menos aborrecido o senhor Soares gostava de falar com os rapazes sobre certos tecidos que eram a seda, originária de Samarcanda, ou os brocados, provenientes de Isphaham, e ficava, muito pensativo, a fumar os seus cigarros de onça que lhe crestavam os dedos. Ele olhava para nós com toda a atenção, fixando a vista no senhor Moreira, no senhor Borges, nos caixeiros, no moço, e até mesmo no gato Aladino, com uma espécie de ternura que nos assustava, e acendia outro cigarro, e voltava à sua escrita. Não faltava quem lhe fizesse notar que como tradutor andava a ser explorado, pagando-lhe o patrão Vasques muito menos do que aquilo que ele se recusava a que me trocassem por um novo, e mergulhava nele a pena com o maior dos vagares enquanto ia pensando em coisas que não deveriam ser deste Mundo. Perto do sítio onde o senhor Soares trabalhava, e por cima do lugar onde costumava sentar-se o Alves, um maluquinho que tivera alta do Miguel Bombarda, e a quem por esmola consentíamos que nos dobrasse as folhas de papel pardo, e enrolasse os retroses das encomendas que recebíamos, estava um calendário de 1931 que ninguém quisera tirar da parede. O senhor Soares punha-se a fitá-lo com grande concentração, e acabava por sorrir para aquela gravura da rapariga de lábios vermelhos, de fita rosa nos negros cabelos, de blusa de decote aberto, e a abraçar um molho de papoulas. Surpreendíamo-lo noutras ocasiões, a examinar com minúcia o mata-borrão, e percebíamos que o senhor Soares se sentia fascinado pelos rabiscos que tinham sido mal absorvidos, todos negros porque ele só usava tinta dessa cor, e salpicados de borrões que se assemelhavam a ilhas no meio do nevoeiro. Cheio de curiosidade, atrevi-me a ir verificar uma vez o que lá se encontrava estampado, e descobri a assinatura dele, do senhor Soares, às avessas, e ao invés, mas fui-me logo embora com a ideia de que tinha cometido urna indiscrição que não se desculpava. A minha maior surpresa aconteceu porém numa tarde em que estávamos apenas os dois no escritório, e o senhor Soares saiu sem uma palavra, deixando-me sobre a secretária um barquinho de almaço pautado, e com este nome no casco, desenhado a lápis, António. Nunca o meu pai construíra para mim fosse o que fosse que a isso se comparasse, e eu guardei o barquinho durante longo tempo na gaveta onde tinha o fio de oiro que me oferecera a minha mãe, e o terço branco da comunhão solene. Mas havia momentos mais raros em que o senhor Soares nos causava bastante sobressalto, atirando de repente com a caneta para a secretária, e divertindo-se a vê-la rolar pelo declive do tampo. Foi isso o que sucedeu na manhã em que descortinou na borda do tinteiro uma mosca-varejeira nojenta, e em tons de verde e azul-escuro. O senhor Soares levantou-se do banco, e dirigiu-se à porta das escadas sem se virar para o espelho como se o espelho pudesse assassiná-lo. Tirou o chapéu do cabide, e nem sequer se despedindo como era seu hábito, fui eu quem disse muito em surdina, «Boa noite, senhor Soares.»



Mário Cláudio,

in Boa Noite, Senhor Soares, Publ. Dom Quixote, 2008













O MODO FUNCIONÁRIO DE VIVER[1]

    

    

(à memória de Bernardo Soares)





O mundo dos pequenos funcionários
lembra-nos no fervor o patrão Vasques
e traz aos nossos actos mais diários
a poesia do mundo sem disfarces.

Quando longe do jogo das intrigas
(deram aos nossos dias emoção),
lembramos em agendas mais antigas
o que ficou aquém da ilusão.

Este mundo é perfeito como um ovo
de si suficiente e não merece
poder ser corrompido pelo novo.

Aqui em bom rigor nada acontece.
E vemos flutuar à nossa volta
um rumor sem um eco de revolta.

Luís Filipe de Castro Mendes,

 in O Jogo de Fazer Versos, Quetzal Ed., 1994



 


 

[1] «o modo funcionário de viver» (Alexandre O’Neill).








 

NATUREZA MORTA COM BERNARDO SOARES

     

    

Esta mesa de mármore
mó absorvente onde
as folhas espadanam,
põe-me na rota dessoutro
bojo calipígio onde o poeta
ele-mesmo copiava a escrita.

Vagueia a paisagem, irradiando-me;
embaciado sol me localiza,
sou eu, é minha a mesa,
meu o sossego, e mói.

Sobre o ringue sem patinadores,
cisterna seca à minha frente,
poluídas tílias em flor.
Ousarei invocar outro terreiro,
o sol-a-sol do só, a poluída vida,
os duplicados que o poeta fez?

Plagiadas arcadas:
e o meu olhar margina
as águas, pródigas águas
que redemoinham após a seca.



Luiza Neto Jorge,

 in A Lume, Assírio & Alvim, 1989








            











      

            

FERNANDO PESSOA E OS CONTEMPORÂNEOS

páginas de intertextualidade

          

Evocações

Fernando Pessoa, ele mesmo, revisitado

Cartas a Ofélia

Mensagem

Heterónimos

Alberto Caeiro

Ricardo Reis

Álvaro de Campos

Ricardo Reis

Bernardo Soares

António Mora e o caso clínico de Fernando Pessoa

        


 

Ricardo Reis





uma arte de viver









Fernando Pessoa, por Sábat






O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

   

   

Na biografa criada por Fernando Pessoa, Ricardo Reis partiu para o Brasil em 1919 e não houve mais notícias dele. Mas José Saramago, com a sua prodigiosa imaginação, fê-lo regressar a Lisboa, em 1935, quando soube da morte de Pessoa. E os dois encontraram-se. É um desses encontros que aqui se transcreve.




RICARDO REIS ENCONTRA FERNANDO PESSOA

   

   

Vai Ricardo Reis a descer a Rua dos Sapateiros quando vê Fernando Pessoa. Está parado à esquina da Rua de Santa Justa, a olhá-lo como quem espera, mas não impaciente. Traz o mesmo fato preto, tem a cabeça descoberta. [...] Fernando Pessoa sorri e dá as boas-tardes, respondeu Ricardo Reis da mesma maneira, e ambos seguem na direcção do Terreiro do Paço, um pouco adiante começa a chover, o guarda-chuva cobre os dois, embora a Fernando Pessoa o não possa molhar esta água, foi o movimento de alguém que ainda não se esqueceu por completo da vida, ou teria sido apenas o apelo reconfortador de um mesmo e próximo tecto, Chegue-se para cá que cabemos os dois, a isto não se vai responder, Não preciso, vou bem aqui. Ricardo Reis tem uma curiosidade para satisfazer, Quem estiver a olhar para nós, a quem é que vê, a si ou a mim, Vê-o a si, ou melhor, vê um vulto que não é você nem eu, Uma soma de nós ambos dividida por dois, Não, diria antes que o produto da multiplicação de um pelo outro, Existe essa aritmética, Dois, sejam eles quem forem, não se somam, multiplicam-se, Crescei e multiplicai-vos, diz o preceito, Não é nesse sentido, meu caro, esse é o sentido curto, biológico, aliás com muitas excepções, de mim, por exemplo, não ficaram filhos, De mim também não vão ficar, creio, E no entanto somos múltiplos, Tenho uma ode em que digo que vivem em nós inúmeros, Que eu me lembre, essa não é do nosso tempo, Escrevi-a vai para dois meses, Como vê, cada um de nós, por seu lado, vai dizendo o mesmo, Então não valeu a pena estarmos multiplicados, Doutra maneira não teríamos sido capazes de o dizer. Preciosa conversação esta, paúlica, interseccionista, pela Rua dos   Sapateiros abaixo até à da Conceição, daí virando à esquerda para a Augusta, outra vez em frente, disse Ricardo Reis parando, Entramos no Martinho, e Fernando Pessoa, com um gesto sacudido, Seria imprudente, as paredes têm olhos e boa memória, outro dia poderemos lá ir sem que haja perigo de me reconhecerem, é uma questão de tempo. Pararam ali, debaixo da arcada, Ricardo Reis fechou o guarda-chuva, e disse, não a propósito, Estou a pensar em instalar-me, em abrir consultório, Então já não regressa ao Brasil, porquê, É difícil responder, não sei mesmo se saberia encontrar uma resposta, digamos que estou como o insone que achou o lugar certo da almofada e vai poder, enfim, adormecer, Se veio para dormir, a terra é boa para isso, Entenda a comparação ao contrário, ou então, que se aceito o sono é para poder sonhar, Sonhar é ausência, é estar do lado de lá, Mas a vida tem dois lados, Pessoa, pelo menos dois, ao outro só pelo sonho conseguimos chegar, Dizer isso a um morto, que lhe pode responder, com o saber feito da experiência, que o outro lado da vida é só a morte, Não sei o que é a morte, mas não creio que seja esse o outro lado da vida de que se fala, a morte, penso eu, limita-se a ser, a morte é, não existe, é, Ser e existir, então, não são idênticos, Não, Meu caro Reis, ser e existir só não são idênticos porque temos as duas palavras ao nosso dispor, Pelo contrário, é porque não são idênticos que temos as duas palavras e as usamos. Ali debaixo daquela arcada, disputando, enquanto a chuva criava minúsculos lagos no terreiro, depois reunia-os em lagos maiores que eram poças, charcos, ainda não seria desta vez que Ricardo Reis iria até ao cais ver baterem as ondas, começava a dizer isto mesmo, a lembrar que aqui estivera, e ao olhar para o lado viu que Fernando Pessoa se afastava, só agora notava que as calças lhe estavam curtas, parecia que se deslocava em andas, enfim ouviu-lhe a voz próxima, embora estivesse ali adiante, Continuaremos esta conversa noutra altura, agora tenho de ir, lá longe, já debaixo da chuva, acenou com a mão, mas não se despedia, eu volto.



José Saramago,

O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ed. Caminho, 1984











Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                  (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                  Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                  E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                    Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
                    Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis








HOMENAGEM A RICARDO REIS

    

   

I

   

Não creias, Lídia, que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
            Oferecendo a flor
            Que adiámos colher.

Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
             Não existe piedade
             Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
              Longo indelével rasto
              Que o não-vivido deixa.

Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
                Vai sempre mais à frente
                Do que o teu próprio passo




Sophia de Mello Breyner Andresen,

 in Dual, Moraes Ed., 1972













Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supôr o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor — muito melhor! —
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espêlho se vê.


Mário Cesariny Vasconcelos,

O Virgem Negra, Assírio & Alvim, 1989










Uma noite acordarei junto ao corpo infindável
da amada, e meu sangue não se encantará.
Então, rosa a rosa murcharão meus ombros.
Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos
de distância, como se tudo fosse o cheiro
que as ervas pungentemente perdem
através do silêncio.
Plácido chegarei à mesa, e de súbito
meu coração se atravessará de gelo puro.
O vinho? Perguntarei. Flores de sal cobrirão
a luz poderosa do meu olhar.
Tempo, tempo. Eu próprio perguntarei no recente
pasmo da minha carne: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.

Então lembrarei a vermelha resina, o espesso
murmúrio do sangue,
o ocre e sobrenatural aroma das acácias.
Tentarei encontrar uma forma.
Com beijos antigos um momento ainda queimarei
o corpo solitário da amada, direi palavras
de uma ternura azebre.
E uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?
Rosa a rosa murcharão meus ombros.


Herberto Hélder,

in A Colher na Boca, 1961






“Pormenor da Cabeça de Ricardo Reis”, Costa Pinheiro (1981)

   

“Pormenor da Cabeça de Ricardo Reis”, Costa Pinheiro (1981)





      

      

            

FERNANDO PESSOA E OS CONTEMPORÂNEOS

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Fernando Pessoa, ele mesmo, revisitado

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Ricardo Reis

Bernardo Soares

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