SOL

Os poetas escondem-se

na penumbra do desespero fervoroso

que brota palavras em jeito de sons

de uma sinfonia desamparada, descompassada;

fazem-se da espera, da noite,

das luzes apagadas do                      

desconhecimento. Fervem-se

nos olhares, nos gestos descontrolados

de uma orbe disfarçada de vulgaridade;

crescem-se na carência,

temem o ar, a água

e o fogo da própria essência,

desesperam-se na impaciência

da busca dos significados;

resguardam-se nos Poetas que não são,

aspiram palavras censuradas

ou sem criação.

Desenredam subindo falésias perdidas

ambicionando a concepções sumidas

de mil tons de treva.

Presos no calabouço da repetição,

crêem-se em algo superior

ao que sentem,

escrevem maior

do que eles são.

 

 

Helena Couto- Poesia, 5º Escalão, 2º lugar

Clube de Poesia e Reflexão Filosófica, Jogos Florais 2009

Quarenta e um anos de Estado Novo, em Portugal, foram como que uma câmara de gás para a liberdade. Tal como os Judeus, que morreram e viram extinguir as suas ideias ou qualquer tipo de manifestações, a liberdade também sofreu um verdadeiro asfixiamento e repressão.                 

     Foram quarenta e um anos sem se poder fazer nada que se opusesse às ideias do regime. Compor músicas, escrever e editar livros, artigos ou textos ou até mesmo pronunciar as palavras “não concordo”, foram actos completamente aniquilados por aqueles que não concordavam com a extensão da palavra liberdade.

     Mas quem pensa que o pior foi isto, está enganado! O pior é que o povo português evoluiu sem perceber o verdadeiro sentido do termo LIBERDADE, e tal como quando soltam um animal que está preso há muito tempo, o nosso povo também correu muito, correu esbaforido à procura de nada; e quando se apercebeu, já tinha ultrapassado uma série de limites fundamentais ao uso da Liberdade.

     Ensinam-nos na escola, que a liberdade é a capacidade de fazermos aquilo que achamos certo e que verdadeiramente queremos, mas para isso, é preciso que não afectemos negativamente os outros, pois a nossa liberdade acaba, quando a do próximo começa. Aprendemos também que não vivemos sem os outros.

     E foi aqui que as coisas começaram a correr mal. Após o 25 de Abril a vontade de dizer tudo, de fazer tudo e de querer tudo, tornou-se obsessiva e em vez de cultivarmos a liberdade como um bem essencial, denegrimos o verdadeiro significado desta dádiva.

     Passámos a pensaar que podíamos fazer tudo o que nos apetece, mentir, manipular e vigarizar os outros, enganar o Estado… e esquecemo-nos do respeito pelos limites, olvidámos a velha máxima, “ a tua liberdade acaba, quando a do outro começa”.

     Então, a liberdade começou a ser usada como pretexto para fazer tudo o que as pessoas ambicionavam. Tal como diz o poema “Cantiga de Maio” de Jorge de Sena, “Muitos correndo apressados/querem ter-te só p´ra si;/ e gritam tão de esganados/ só por tachos cobiçados/ e não por amos de ti”. Estes versos espelham o uso que é feito da capacidade de agirmos livremente, pois a maioria das pessoas age numa ganância de querer chegar a tudo, a todo o custo e usando qualquer método. E nem os fins nem os meios de tais comportamentos dizem a liberdade que podemos ser. Não se ama a liberdade no nosso país. E é triste. Para muitos a liberdade é a expressão do “deixa andar”, típico de tanta gente. Mas será que não há forma de travar esta atitude e estes abusos a que assistimos?             

     Obviamente que há, chama-se Justiça e em pleno funcionamento assegura o viver em plenitude da Liberdade. Ou tenta assegurá-la.

     Porém, tal como Clara Ferreira Alves refere num dos seus artigos, “ A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.” E é verdade. A justiça portuguesa permite que haja uma vergonhosa descredibilização do valor da liberdade, pois quem no nosso país infringe os limites normais impostos pela educação, pelas leis e por qualquer outro tipo de norma, consegue passar muitas vezes impune, ou então, assistimos a um escândalo ainda maior, que é o facto de essas pessoas nem irem a julgamento e os crimes prescreverem.

     Com esta cultura de desresponsabilização das pessoas, deste típico “banho-maria” em que andam mergulhados os nossos valores, estamos perante a maior crise valorativa de sempre; e a situação tende a piorar.

     Para quem andou de cravos postos em armas, fazendo uma Revolução que pretendia viver a Liberdade no sentido melhor da palavra, 35 anos depois, vimos que nos afastámos muito desse objectivo. E recordando novamente dois versos do poema “Cantiga de Maio” de Jorge de Sena, podemos perceber o quão frágil está a nossa LIBERDADE: “ Liberdade, liberdade,/ tem cuidado que te matam.”

 

 Francisco da Fonseca Chambel, 12º B

           

Paráfrase

 

“Antes ser na Terra escravo de um escravo

Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras”

                                                                                 Odisseia – Homero

 

Antes ser sob a terra abolição e cinza

Do que ser neste mundo rei de todas as sombras

  O Nome das Coisas,  Sophia de Mello Breyner Andresen,1973/74

                                                                                                                 

Sábado, 30 de Maio de 2009

                                                                                    

Ainda com os olhos semi-cerrados lá nos concentrámos frente ao portão da nossa escola. Não, não tivemos aulas nem foi nenhum encontro conspirativo. À nossa espera, um autocarro. Pequeno, é certo, mas confortável. E assim nos pusemos à estrada, destino certo mas desconhecido. As auto-estradas conduziam-nos alegremente na direcção da capital, discretos entre a multidão de carros. Mudámos de direcção mesmo antes da Ponte 25 de Abril, no sentido do primeiro destino, a Trafaria. Esta vila de pescadores pode não ter nada para ver, mas é certo que não íamos visitar monumentos. Encontrámos, enfim, o nosso professor de Educação Física perto da FCL que nos guiou até ao campo, no meio de uma pequena colina onde parecia não haver nada. Mas havia. E o melhor ainda estava para acontecer.

O Paintball tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos. E lá estávamos nós, o Professor Pedro Matos e a directora de turma que bem atentámos a participar e quisemos arrastar para o campo de Paintball. Mas nada. E nós que tínhamos umas contas a ajustar Smile. Mas enfim, ajustámo-las com o professor de Educação Física e vice-versa. Felizmente ele era da minha equipaJ. Baleados fortemente, sentiamos a fantástica adrenalina a subir em flecha. Vagueávamos pelo meio de silvados cruéis e campos minados mas conseguimos chegar, sãos e salvos, ao almoço. Um pouco improvisado, é certo, mas tudo foi uma aventura neste dia (era esse o nome da actividade: aventura).

À medida que o Sol se empertigava altivo, a sede pelas águas turbulentas da Caparica aumentava. Mal havíamos chegado à Praia da Cornélia já se tornava claro o principal motivo da nossa excitação: Surf. Mas antes de vestirmos os fatos, um banho de mar em conjunto. Risotas, mergulhos, matar sede de águas vivas. Depois, foi vestir fatos e fazer o aquecimento. O que, além de necessário e útil, só aumentou o  nosso suspense. “Finalmente!” pensávamos, chapinhando os pés na água. Já um pouco instruídos – pelo nosso professor Pedro – atirámo-nos às pranchas e domámos as ondas da Caparica. Foi um dia inesquecível. Cansativo é certo, mas reconfortante. Quebra de rotina necessária, novas experiência, sei lá que mais… E claro, finalizámos com um magnífico lanche, onde as cerejas do Miguel foram UM SUCESSO, e outro banho geral nas águas atlânticas. Nós e os nossos professores. Juntos e em harmonia.

E como, infelizmente para nós, e parece que para bem dele, o professor Pedro vai deixar a escola, desejamos-lhe felicidades e que nunca se esqueça destes alunos, como nós não vamos esquecê-lo. A todos os que nos têm acompanhado no nosso blog eu, como delegado do 11.ºA, agradeço a companhia, amizade e participação. Também nós não vamos  esquecer. Um dia, ainda vão ouvir os nossos nomes na televisão J.  Ou não…

Pedimos desculpa por qualquer coisinha e pelo atraso do artigo. MAS É QUE ANDÁMOS A ESTUDAR PARA OS EXAMES, que só acabaram ontem.

Boas férias a TODOS

Um abraço da turma do 11º A

E outro meu. Muito especial.

Valentino Cunha

Hoje é o teu Dia SEMPRENOVA, dia de quem é puro de coração.

Com um abraço dos teus netinhos virtuais

 

UMA PARTILHA NO TEMPO DE EXISTIR

 

 

Na existência do existir…

No sentimento do sentir…

No bater forte do Amor…

Nas palavras do viver…

No desejo de descoberta…

 

 

Conviver, partilhar,

Sonhar no luar

Lembrar recordações

Ser um espelho de alegria

Numa nuvem de magia…

 

 

Olhares que se cruzam,

Sentimentos que vagueiam

No seio de uma Vida vivida

 

 

Tela de Pinturas

Pinturas na tela…

Cores da vida

Raios de SOL…

Coração de menina

Menina dos nossos corações

Símbolo de ternura e amor…

Palavras que se tornam gente

Na doce e Sempre Nova vovó Milu

 

Com carinho…

Da netinha Inês

 

Uma das frases mais batidas, que se apregoa pelos quatro cantos do Mundo; ou, pelo menos, do Mundo Ocidental. A democracia defende-a com unhas e dentes.

            “Somos todos iguais”.                                                                           

            Até que ponto será esta ideia verdadeira? Seremos nós todos iguais – homens, mulheres, pretos, brancos, criminosos? Somos, de facto, todos constituídos por protões, neutrões e electrões – mas os pinguins também o são. E os cães. E os malmequeres (e até, se quisermos considerar, o computador onde escrevo estas linhas). Então o que nos distingue dos restantes seres vivos? Nós raciocinamos. Mas raciocinaremos todos de igual forma? Em que se basearam os primeiros para afirmar que somos todos iguais?

            Estudos, investigações, conferências e coscuvilhices foram feitos. Eu depreendo: não há ninguém superior. Aqui concordo, ainda que parcialmente, com aquela pequena afirmação. Isto porque todos erramos; mas no que toca à intensidade do erro, e posterior aprendizagem, nem todos somos iguais. Nem todos, salvo seja – ninguém. Cada humano é único e o seu comportamento não pode ser comparado a nenhum outro humano. Assim, ninguém é igual.

            Todos temos os mesmos direitos. Todos temos direito à vida, a um emprego, uma casa e cuidados de saúde. Depende. Vão dizer isso aos pais de uma filha violada. Vão dizer isso à família que perdeu um ente querido num acidente causado por um condutor alcoolizado. Vão dizer isso ao marido da senhora que estava no lugar errado à hora errada, quando alguém se lembrou de assaltar o banco. É assim que, por um lado, prezo tanto o trabalho de juízes e advogados. Por outro, considero as suas acções deploráveis – debruço-me principalmente sobre os advogados de defesa de tais pessoas. A incapacidade de ser imparcial torna-me totalmente incapaz de exercer tais profissões. Provavelmente, será essa a razão de as condenar tão facilmente.

            Gostaria de ter um diálogo com alguém que afirme, sem margem para dúvida, que somos todos iguais. Eu sou igual a alguém que matou a mulher e os filhos e se suicidou a seguir? À partida, já não seria igual a ele – dado que ele estaria morto e eu vivo. Então e se ele não se matasse? Seria preso, sujeito a julgamento e, talvez, sentenciado num bom par de anos de cadeia. Mas antes de tal desfecho, gastou-se tempo e dinheiro, porque o senhor tem direitos. O problema é não lhe terem dito, antes da acção, que, além dos direitos, tem também deveres. E matar alguém não está na lista. Mas o respeito pela vida humana, e pela própria sociedade, estão. São os restantes cumpridores da lei, iguais a este sujeito? Pois. Quando as pessoas deixam de ser iguais devem ser punidas com o mesmo peso e medida com que cometeram o crime. A questão é que, ora se exagera, ora não se faz nada.

            Mas não tomemos exemplos tão drásticos. As infracções ao código da estrada também dão que falar. É do conhecimento geral que existem autênticos atentados à ordem pública, contudo, é sempre o condutor que acelera um pouco mais porque vai atrasado para o emprego, que é apanhado. Mais uma vez não estou a defender a existência de santos. Com franqueza, existem uns mais santos que os outros. Temos direito a ter um carro, mas temos o dever de cumprir a lei. As leis são iguais para todos, o que cada um faz com elas já não é. Os que usam o dinheiro para se colocar acima da lei constituem então o exemplo mais berrante em como não somos todos iguais.

            Outra grande falha na admissão de igualdade para todos é a distinção entre os sexos. Se formos para as forças armadas veremos condições diferentes para homens e mulheres. Mas então não somos todos iguais? Poder-se-á dizer que as condições físicas de uns e de outros são diferentes, logo, distinções terão de ser feitas. Porém, como parece vivermos numa sociedade onde ou é 8, ou é 80, as mulheres são beneficiadas.

            Não só de diferenças físicas somos feitos. As mais importantes, e até mais notórias, são mesmo as psicológicas. E penso ser nestas gerações mais recentes, a partir da segunda metade do século XX, que isso se vai revelar um verdadeiro problema – porque hoje em dia, e na nossa sociedade ocidental, as diferenças de oportunidades para homens e mulheres são cada vez menores. O facto é que, considerar sermos todos iguais, está puramente errado. Aceitá-lo só irá trazer problemas, rejeitando a realidade e vivendo num Mundo utópico. Seríamos todos iguais se não fossemos humanos – infelizmente, como o somos, devemos encarar a questão tal como ela é, e não como gostaríamos que fosse.

FRANCISCO OLIVEIRA - Triciclo”-  5º Escalão – Reflexão Filosófica, 3º Prémio -  Jogos Florais Inter Escolas, Clube de Poesia e Reflexão Filosófica

 

Aos amigos que estão no encontro de bloguers, in the flesh. Com o nosso abraço 

*

No breve do teu sorriso                                                      

Há um patamar de água clara                          

Que apetece

E na praia onde aportámos

Conversas de ir e voltar

São rasos sussurros de onda

Doces canções de embalar

Onde se espraia o mistério

Histórias do fundo do mar

Rumor de búzios secretos

Portos de nunca chegar...

E enquanto assim mergulhamos

Na frescura do olhar

Encantos puros

Discretos

Pousam de leve na alma

Tu és onda

Hás-de sempre regressar

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Ai da Luísa que geme,

escurecida no quarto encafuado,                                        

ai dela que da vida não se lhe espera

o céu e o menino já não berra amuado,

e fora ela abandonada na alardeada

vendeta do céu castigado com os perfumes

que não lá tocam,

que fizera ela?, ai dela,

que mesmo os ventos lhe sopram

a casa enlameada dos ciúmes

de bairro inteiro, pobre dela,

da Luísa, só e magricela,

porque não a arrastam já,

monte acima, ao julgamento

de cada fado, onde, finalmente

a pobre da Luísa, ai dela pobre dela,

se pudesse desculpar, ai,  justificar

que a culpa era de outrem,

ai, não sabia quem,

mas que ela, infeliz Luísa,

nada mais tinha onde se amparar.

Quê Luísa?, que gemes tão baixinho,

crê-te no poder da garganta

que o vizinho vem de caminho,

ai da Luísa, pobre da Luísa,

sofrem-se-lhe as dores

e o tecto apodrecido

corrompeu-lhe o casamento,

trabalhados tantos anos

nem tostão para o sustento.

Ai Luísa, pobre Luísa, triste luisa

da Luísa, sem a luz da Luísa que era,

que agora a Luísa geme

o pranto da infeliz Luísa, ai Luísa

ai Luísa.

HELENA COUTO – Poesia, 5º escalão, Menção Honrosa

Clube de Poesia e Reflexão Filosófica, Jogos Florais 2009

 

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  Conheci-o num comboio nocturno, que era para mim a maneira ideal de viajar uma vez que se poupava em alojamento e podia visitar os locais onde passava de dia; passavam duas horas da meia-noite e acordei quando ele entrou no meu compartimento. Ao ver que me tinha acordado desculpou-se e perguntou se podia sentar-se no banco em frente ao meu, pergunta meramente cortês pois já tinha entrado com as duas malas e fechado a porta atrás de si. Olhei-o pelo canto do olho, era um fulano normal, pele branca, com o cabelo escuro cortado rente e barba por fazer. Pouco mais velho que eu, calças de ganga vulgar, sapatos de vela bastante velhos e um casaco grosso adequado para aquela altura do ano. Apesar de ser já bastante tarde, nenhum de nós tinha sono, principalmente eu após ele me ter acordado, e, primeiro timidamente, e depois como se fossemos velhos amigos, começámos a falar acerca de quase tudo, desporto, estudos, mulheres, do quotidiano, das nossas vidas.      

                Após termos conversado sobre esses assuntos banais e já não estarmos tão sóbrios quanto seria desejável uma vez que ele tinha o hábito de viajar sempre com a sua bebida preferida, o uísque, inclinou-se para a frente e com a voz bastante mais baixa pediu segredo sobre o que me ia contar de seguida, Sim claro que não digo nada a ninguém – disse eu; ele respirou fundo e disse, Eu não consigo sonhar há mais de um ano; e começou a chorar. Pensei em dizer-lhe que não chorasse, mas reflecti um pouco, achei desapropriado dizer isso a outro homem, com certeza que ele teria as suas razões. Então perguntei-lhe porque é que não conseguia sonhar, perguntei só para a conversa não acabar ali pois ele não deveria ter uma resposta para a minha questão. E ele de facto não respondeu à minha pergunta mas, sempre com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, contou a sua história:

Acontece, como eu já disse, que há mais de um ano que não consigo chorar, um dia deitei-me, e sonhei que estava em cima de um muro a olhar para baixo, estava bastante escuro e não conseguia ver o chão, se é que o havia, e que depois saltava para o vazio, mas ao contrário do que normalmente acontecia quando sonho com quedas, dessa vez dormi durante a noite inteira. Após esse dia nunca mais sonhei, deito-me e é como se morresse e só acordasse na manhã seguinte.”

 Fiquei colado ao banco. Realmente já não sabia o que lhe havia de dizer, ficámos a olhar um para o outro durante alguns momentos até que lhe propus algo que nunca proporia a um desconhecido se não fossem aquelas as circunstâncias. Perguntei-lhe se, uma vez que nenhum de nós tinha sono, ele não quereria descer na próxima estação e passearmos um pouco pela cidade e, depois, prosseguiríamos viagem quando quiséssemos. Ele aceitou, ambos pegámos nas nossas malas e dirigimo-nos para a porta do comboio pois já não deveria faltar muito tempo até chegarmos à cidade. Enquanto esperávamos que o comboio chegasse à estação pensei na minha situação. Não estaria eu a cometer um erro ao dar demasiada confiança a um estranho que conhecia há poucas horas? Afinal de contas porque estava eu, aqui encostado a uma janela do comboio, prestes a sair para uma cidade desconhecida com um novo amigo desconhecido e a horas também elas incertas? Mas eu tinha confiança nele, senti que já o conhecia há muito tempo, como a um amigo de infância, e por isso resolvi não voltar atrás. E, quando o comboio se imobilizou, saí atrás dele e caminhámos lado a lado até um hotel que um rapaz nos indicou.

                Chegámos ao hotel pouco tempo depois, felizmente não ficava longe da estação. Era um edifício de tamanho médio com ar de ter cerca de trinta ou quarenta anos, entrámos e pedimos dois quartos à recepcionista que, com um ar de sono, nos pediu os documentos e tratou das formalidades. Enquanto o meu novo amigo preenchia os seus papéis ao balcão olhei para o relógio que se encontrava na parede do fundo, eram quatro horas da manhã, não admirava portanto que a rapariga estivesse cansada. Subimos aos nossos quartos, que eram no terceiro andar, o último do edifício, e deixámos lá as malas. Após tomar banho, enquanto me vestia, observava o meu quarto. Era um típico quarto de hotel, não tinha muita decoração, provavelmente para evitar roubos ou poupar dinheiro, mas estava bem limpo, aspecto que mais aprecio quando me alojo num destes estabelecimentos. Logo após ter arrumado os meus pertences ouvi bater na porta, fui abrir e era ele; Vamos dar uma volta? – perguntou; Sim, vamos – respondi eu. Despedimo-nos da recepcionista e saímos para a rua. Estava frio àquela hora da noite, e começámos a vaguear pela cidade. Era uma cidade com história, semelhante a Barcelona, Lisboa ou mesmo Buenos Aires. A cidade era demasiado grande para podermos visitar todos os seus lugares de interesse numa única noite, por isso caminhávamos sem um objectivo concreto e, enquanto andávamos em direcção a lado nenhum, fomos conversando e apercebi-me de que ele era mesmo uma pessoa comum. Foi então que ele resolveu falar-me mais acerca da sua deficiência, que era como ele se referia à sua incapacidade de sonhar. Ele dizia que teria que viver permanentemente, e até morrer, num de dois estados, o consciente quando estava acordado e o inconsciente enquanto dormia.               Psicólogos dizem que os sonhos são fugas nas quais a nossa imaginação tem rédea solta e como ele não conseguia sonhar a imaginação do meu amigo estava condenada à censura dos tabus da consciência.

                Cansados de andar, parámos num banco de jardim para recuperar fôlego e ficámos  sentados por largos minutos. Foi então que ele me surpreendeu pela segunda vez naquela noite, ofereceu-me o seu relógio de pulso. Era prateado, com cronógrafo, e tinha um ar antigo, pareceu-me coisa valiosa de mais para se oferecer a alguém que conheceu num comboio na mesma noite. Recusei imediatamente mas ele insistiu para que eu aceitasse, disse que era o bem mais precioso que possuía o que só me fez sentir ainda mais que lhe estava a dever um grande favor. Aceitei o relógio e coloquei-o no pulso, parecia feito à minha medida, e agradeci sinceramente. Ele sorriu e acrescentou, É para que não te esqueças do desconhecido que encontraste um dia num comboio.       

                O banco no qual estávamos sentados ficava no meio de uma longa avenida interdita ao trânsito, ladeada por prédios de quatro ou cinco andares, o pavimento era calçada com alguns canteiros para árvores. Era Lua nova e por isso podiam observar-se mais estrelas do que é habitual. Ao fundo da avenida via-se um aqueduto enorme e imponente, feito de pedra tal castelo, os seus arcos em forma de ogiva terminavam num bico aguçado. Perguntou-me se não queria ir visitar o aqueduto e eu respondi que sim, apesar de ainda ficar longe, e rapidamente começámos a descer a avenida em direcção ao aqueduto. Àquela hora as ruas estavam desertas e todas as casas e lojas estavam fechadas, exceptuando claro, alguns bares e discotecas. Ao chegarmos ao aqueduto ficámos abismados com o seu tamanho, visto de baixo parecia ainda maior e mais imponente, era ele que dominava a paisagem urbana. Decidimos subir a colina onde começava o aqueduto para tentarmos andar por cima do gigante de pedra, se não houvesse nenhum muro ou portão que nos impedisse de o fazer. A subida foi extenuante mas ao chegarmos ficámos felicíssimos ao ver que para abrir o portão que protegia o aqueduto apenas era preciso rodar uma maçaneta, devia servir somente para evitar que entrassem animais para o aqueduto e permitir ao mesmo tempo a passagem de pessoas de uma colina para a outra com o objectivo de evitar o penoso trabalho de descer, atravessar a cidade, e subir a outra colina. Andámos algumas dezenas de metros no aqueduto, cautelosamente pois, embora o muro fosse grosso, ele era um pouco mais baixo que a minha cintura. Fazia um frio polar lá em cima e o vento ameaçava levar-nos com ele de modo que eu ia o mais encostado possível à parede. O aqueduto estava dividido em dois corredores que serviam para as pessoas andarem e a separá-los estava um muro pouco mais alto que nós que continha a canalização para transportar a água, verdadeira finalidade de um aqueduto. Do ponto em que nós estávamos, debruçados sobre o muro de pedra, que ficava mais ou menos a meio do aqueduto, conseguíamos ver a cidade quase toda, desde as casas por baixo do aqueduto até às casas fundo, nas margens do rio, víamos as estrelas brilhantes no céu preto e as luzes brilhantes dos postes de iluminação no negro do chão. O meu amigo afastou-se três passos de mim, inspirou profundamente, subiu o muro e ficou a contemplar a paisagem, à beira do abismo, e disse para mim, É como no meu sonho, agora tenho que saltar, de qualquer das formas não vale a pena viver sem poder sonhar, ou talvez não tenha podido sonhar para não me esquecer do meu último sonho que me dizia para me matar, é algo triste alguém matar-se por um sonho mas eu mato-me por ter tido um último sonho. Olhamo-nos nos olhos por algum tempo, e eu a vê-lo ali, prestes a suicidar-se, não o conhecia nem há um dia e nunca mais poderia falar com ele. Não saltes – disse eu. E ele respondeu com um adeus breve e saltou para o escuro da noite. Não ouvi nenhum som, só o vento a assobiar nos arcos do aqueduto e o barulho dos carros de quem tem que se levantar ainda o Sol não nasceu. Passaram-se largos minutos até que tive coragem de olhar para baixo, algo dentro de mim dizia para não o fazer mas mesmo assim olhei e não vi nada, a estrada imaculada, que passava por baixo do arco sobre o qual me encontrava, fazia-me duvidar de que uma pessoa se tinha lançado para ali.

                Acordei numa cama que não era a minha e só momentos depois é que me apercebi que estava num hotel e já era dia. Levantei-me, tinha tido um sonho com um homem que eu tinha conhecido num comboio e que se tinha suicidado atirando-se de um aqueduto. Fui tomar um duche quando, ao rodar a torneira, reparei que tinha um relógio prateado no pulso esquerdo, tentei tirá-lo, mas não consegui; então reparei numa inscrição na bracelete que dizia, Este relógio só pode ser tirado para ser oferecido.

 Nessa noite tive o meu último sonho.

GUSTAVO PINTO GALVEIAS, 10º B - 4º Escalão –   1º Prémio , Prosa

Clube de Poesia e Reflexão Filosófica – Jogos Florais Inter-Escolas

Ontem, ainda a manhã pequeno-almoçava, e já nós à porta da escola. A escola. Que aos fins-de-semana se fecha em copas e disfarça de edifício público. Cheia de não me toques e cepticismos de janela corrida. Por detrás das grades eternizava o amuo, olhos no chão, átona. Em nós, antecipava-se o futuro do dia, Feira do Livro, Museu Berardo. E o íntimo do tempo ainda por gastar: devir do possível. No caminho, entre conversas e música, projectos- serpentina   acotovelavam o sono                                   

 - Vai, deixa-nos tomar conta, fluir.

 E o sono a mais, sem espaço

- Adeusinho, até logo, fiquem bem.

Sozinhos com o dia, passámos a ponte, o próximo da água a veranear-nos o pensamento. Abraçava-nos um desejo líquido, memória lisa dos nossos baptismos de mar, no fresco da água, a leveza do corpo; o sermos densidade de sentidos, livres da interpretação. Parasitas do alcatrão, navegávamos, a estrada um rio.

No Berardo, a primeira surpresa deixou-nos suspensos: Peter Kogler. Num ápice de intuição, mergulhámos. Logo de início, o Fantástico. O Fantástico sempre. Nada sabíamos deste austríaco que parece ter uma fixação por formigas e cérebros. Apreciámos os seus labirínticos caminhos, redes intrincadas de padrões que nos lembram comportamentos repetidos. Etérea e vulnerável, a estética de todas as coisas. O artista a ganhar distância na apreciação conjunta das idênticas sequências de banalidades. Nós nas cadeias a preto, na grossura dos nós, no fino dos arabescos. À tona, o profundo de sermos banais. E a sobrevoar tudo, a beleza do emaranhado, o sentido, só captável no observador e no criador, momento que nos une ao artista. Acreditamos no acaso que nos juntou a Kogler, aos seus recortes infindos, às ratazanas de luz que correm o compartimento à procura de nada. Kogler. Que não mais nos abandona a vida e o desconhece. Em quem a arte diz, para ser escutada. Impressionou-nos a inédita estrutura dos seus cérebros, memória de modelos cristalográficos, diamante lapidado em que um silêncio de dedos apetece, desmaio da ternura que os olhos sabem e a mão não ousa. Formigas e cérebros. É o que somos: acção e pensamento. Demos a mão a Kogler. Quanta gente a quem estamos ligados e não o sabemos. Depois o BesFoto.  Embaciado por Formigas e Cérebros, mas ainda assim  agradável. O trabalho fotográfico do premiado em clara mostra. Muito português, limitado à exposição de três artistas.

E, à tarde, como sempre acontece, a Feira do Livro. Saíamos do Metro e já gotas de chuva grossa antecipavam a ausência de chapéus. E nós, manga curta a olhar o verde desalentado dos jacarandás, a brisa húmida suspirando pedidos de desculpa

-É muito cedo para sermos flor…

Enquanto atravessávamos a rotunda do Marquês,

- Não faz mal, – mas fazia -  guardamos o verde e o vagar sinuoso  dos vossos ramos.

E eles

- Ninguém nos avisou, para o ano florimos a tempo. Podem escrever.

E oxalá que eles não tenham sabido de nós presos ao impressionismo lilás de todos os anos. Oxalá que nós convincentes e seguros da protecção dos jacarandás envergonhados. E, lá no meio, um roxo vago, debrum de coragens imprecisas, que nos fez sorrir de leve.

Depois, duas horas de livros em chuva e de chuva nos livros. Tempo breve. Coisa de pessoas que se encontram nas letras de outros. A impossível ousadia; o tudo querer a colidir com poderes esgarçados à bolsa dos pais. A autora, Rosa Lobato Faria, a rir-se nas barbas que não temos por lhe pedirmos um autógrafo num papel. Rosa Lobato que, se calha, só conhece o Poema dos Amantes Sem Dinheiro e não sabe de estudantes; a duvidar que guardássemos o autógrafo, olhos em esquadria. Rosa que nem tudo conhece, mas se deixou fotografar connosco enquanto assinava. Obrigadas, Rosa, as nossas meninas agradecem. E Luís Sepúlveda. Sério e grave a assinar gatos em livros sobre gaivotas. Chileno cortês, abridor de gretas nas feridas da revolução. Que apreciámos e a quem gastamos a prosa. O que sentiriam os autores, sentados em cadeiras de plástico, tão disponíveis que incomoda, a incluir na bagagem abraços flagrantes e palmadas nas costas de fãs que desconhecem a tortura da escrita?! Fãs que lhes compram o nome na feira, ao preço do livro do dia. Como entendemos Lobo Antunes! Parámos, sem um cêntimo, na fila de livros usados.  A três e cinco euros. E a vontade de voltar atrás e devolver tudo para começar de novo. Mas escolher, pesa.  O desejo preso às capas, a iludir fixações do conteúdo. O aliciante de outras mãos que já neles se demoraram, um pensamento que ali se pensou. André Malraux, Hemingway, James Joyce.  E tantos. Os livreiros desatentos,

 - Quer, escolher um?

 A nossa inadvertida mão a escapar-se para A Casa Grande de Romarigães; nós a recolhermos o cúbito e o rádio,

 - Não,  obrigado.

E saímos vagarosos. A Feira, recomposta e regada, reanimava. O sol de novo. Na última volta, um vislumbre tímido de adeus, embaraço de saudade de  quem não aprende despedidas.

Os jacarandás cautelosos,

- Não se esqueçam, até para o ano. E florimos. Prometemos.             

E nós

- Até logo.

Na nossa cabeça o Rui cantava,  “O prometido é devido”. E, de braçado, as palavras que escolhemos levar para casa para domesticar. À solta. Docemente Selvagens.

 

 

O Passeio dos Jogos Florais - Clube de Poesia e Reflexão Filosófica

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Este ano é que foi. Os nosso “meninos” ganharam mesmo o concurso Inês de Castro, do Plano Nacional de Leitura. Babamos de orgulho. É claro que não fizemos nada. Que nem temos nada a ver com o concurso. Mas eles são dos ‘meninosdocoro’. E da nossa turma. E da nossa escola. E MERECEM!

         Já no ano passado o nosso Francisco (pois, pois, o Francisco dos ‘meninos’) arrecadou um segundo lugar. E o Francisco não é rapaz de se ficar à espera que as coisas caiam do céu. E pronto. Deu no que deu.

Parabéns à equipa da biblioteca da nossa escola que apostou neles e com eles trabalhou. E aos Cinco Magníficos: a Helena Couto, poeta maior que o nosso chão pisou; O Valentino e a sua verve alinhada, vontade de ser que não esmorece; o Francisco, nosso pirilampo mágico da informática, o geniozinho que o habita espreitando-lhe a escrita de troça subtil; o Manel, calado como ele só, lendo em silêncios remançosos que desconhecíamos; o Pedro e seu ar sério de rapaz sonhador, alma de poeta entretecida nas palavras que alinha em prosa tão contida quanto expressiva.

 WELL  DONE!!!

Queiram ficar com o princípio do poema de seis folhas que a Helena escreveu. O trabalho, em toda a sua extensão, podem consultá-lo em http://inesdecastro.pt.vu/

Amada eternidade

A história que agora conto

supera anos de lendas,

décadas de enredos de amores roubados,

séculos de lembranças de encontros encantados,

milénios de juras, de flores entregues

em vez das palavras imperfeitas

que não expressam tamanho sentimento,

de felicidade enfeitiçada

nas eternas memórias de enamoramento.

Não fossem as palavras dos antigos,

esta história teria sucumbido havia muito,

tal a grandiosidade da paixão, tão impossível,

não tivesse sido este um amor

superior a uma concepção compreensível.

Bebam-me as palavras,

imaginem os risos,

suspirem os encantos,

componham cada cena tortuosa

de grandiosidade tremente,

cada segundo amado, entre tantos,

e não será suficiente.

Logo verão,

admirarão,

algo que a razão vez alguma supõe,

que o entendimento não alcança.

1339, já mulher do infante português

a dama de Castela chamada Constança,

nascida entre o ouro da fidalguia,

joga-se o destino à tentação

e, superior aos fascínios da beleza,

a aia galega que lhe servia

arrebata o herdeiro do trono da pátria portuguesa.

Impuseram-se, arrogantes,

os rumores desconfortáveis entre

os sons do julgamento,

escondido em cada troca de olhares,

nos vestígios do desejo indecente.

As chamas do constrangimento

da superioridade moral inexistente

foram por demais incapazes de

de derrubar o que o acaso juntou

até aos limites da imortalidade.

A D. Afonso IV cabia a reprovação,

como Pai e chefe da nação,

que assim condenou o filho Pedro

pela libidinosa imoralidade.

A urgência entrosou-se no aparato,

que as imperiosas cortesias políticas

deviam ser preservadas, pelo bem da diplomacia.

As vozes da riqueza ditaram-lhes o fim imediato;

em Castela crescia a impaciência da fidalguia

e as vozes severas do Paço

cresciam tementes da revolução nunca feita,

(…)

HELENA COUTO

 

(…) A minha mãe é uma espécie de sol, ou de morte, é o horizonte, esse é o tamanho da sua realidade. Eu não sou capaz de descrever a minha mãe em poucas linhas. Outro poderia fazê-lo, mas duvido que o fizesse bem. Quando eu era pequeno, houve uma vez em que me perdi dela. De repente, deixei de vê-la e estava numa cidade que não conhecia. Lembro-me de mulheres a baixarem-se para falar comigo, tinha quatro ou cinco anos, e lembro-me de acreditar que poderia não voltar a vê-la; lembro-me de ter essa idade, estar perdido e sentir essa angústia negra. A minha mãe é o contrário disso. A minha mãe existe em tudo, é infinita.

 

José Luís Peixoto,  “As Alziras”, in Revista Visão Nº 841, pág. 10

O Luís também tinha arranjado namorada. Sentia-me aborrecido e irritado, tinha inveja do Luís e dos outros: Porque é que eu era o único que não era capaz? Porque é que eu não conseguia encontrar uma rapariga com quem me sentisse bem e quisesse estar? Porque é que não havia nenhuma de quem eu gostasse?                                                                           

Todos os meus amigos me foram abandonando. As tardes bem passadas a assistir a um bom jogo de futebol, no bowling e no ginásio foram sendo cada vez menos, até que desapareceram… As desculpas eram sempre as mesmas: as miúdas - as idas ao cinema e as compras. “ Como era possível trocar as nossas famosas tardes por idas ao shopping, a carregar sacos, e idas ao cinema, a assistir a comédias românticas (em que os nossos ombros servem de lenços de papel)?”.

Estava morto para que o Verão acabasse. Acho que tinha esperança que as hormonas de todos amainassem e eu pudesse ter as minhas tardes de volta.

As aulas começaram e as hormonas, em vez de se acalmarem, ficaram ainda mais agitadas. As idas ao cinema e ao shopping de braço dado passaram a ser diárias…

Tinha sete dias por semana para ocupar. As minhas notas subiram - pelo menos enquanto estudava esquecia-me que tinha sido abandonado pelos amigos de longa data, que tinham sido sequestrados pelas miúdas: ”E ainda dizem que elas não nos dão a volta a cabeça…” – ; as minhas sextas à noite eram passadas a fazer companhia à minha avó que decidiu transformar-me numa Cinderela: aprendi a bordar (o ponto de cruz era o meu bordado preferido), a fazer biscoitos e salame, a passar a ferro e a encerar o chão; aos sábados via as novelas com a minha mãe ou ia para a tasca ver futebol, como os homens.

Foi então que no fim do primeiro período chegou o Xavier, um rapaz problemático que tinha sido “despachado” pelos pais para casa da avó, pelo menos foi o que me contaram.

Lembro-me que estava doente na altura. Foi a Laura – uma rapariguinha do décimo ano que era doida por mim há dois anos – que me contou numa das suas abundantes visitas cá a casa.

Só conheci o Xavier depois das férias do Natal. O Xavier integrou precisamente o 12ºD: a minha turma.

Assim que o vi, achei-o lindo, tinha olhos azuis e cabelo preto, era elegante e tinha mais ou menos um metro e oitenta, era um pouco mais alto do que eu. Perfeito. Soube logo que era ele, a Laura tinha-me falado dos inúmeros piercings e da tatuagem no pescoço.

Nesse dia não consegui passar o intervalo na biblioteca - nem nesse nem nos outros todos que se seguiram. Sentia a necessidade estúpida de andar a seguir o Xavier, de sentir os seus olhares e os seus sorrisos sobre mim, faziam-me sentir único, especial. Quando o perdia de vista faltava-me o ar, sentia-me nervoso.

Demorei semanas, possivelmente meses a averiguar aquilo que não queria averiguar: estava apaixonado.

Fiquei doente. Sentia-me nojento, o meu ser causava-me repulsa, estava louco, louco pelo Xavier.

Tentei voltar à escola mas não fui capaz. Os meus pais não sabiam o que fazer comigo eu próprio não sabia. “Porque é que eu não podia ser como o Luís e os outros? Sentir-me atraído por raparigas? Amar a Laura, se ela gostava tanto de mim?!”

Os exames finais estavam à porta, eu tinha perdido quase um período de aulas e se continuasse a faltar certamente perderia o ano. Jurei a mim mesmo que ia voltar à escola, não podia ficar para trás por uma estupidez.

Assim fiz. Voltei. O Xavier não foi à escola, nem no primeiro, nem no segundo nem em mais dia algum. Não tive coragem de perguntar a ninguém porque é que ele tinha desaparecido e onde raios estava.

Tal como estava à espera, perdi o ano.

Passei o Verão fechado em casa, tinha vergonha. Não podia enfrentar nenhum dos meus amigos, tinha medo que se notasse…. tinha medo que percebessem que eu… amava o Xavier.

A Laura passou a ser a minha única amiga. Era a única que sabia o meu segredo, era a única que sabia que eu era… uma aberração… Mesmo sabendo, ela nunca me abandonou. Garantiu que me ia ajudar a superar. Eu acreditei. Fingi que acreditei. Amava muito o Xavier para parar de pensar nele.

Em Setembro voltei à escola, desta vez não ia falhar. Tinha a Laura do meu lado e o Xavier estava na universidade, como todos os meus amigos e eu ia conseguir acabar o ano.

O primeiro dia de aulas um sucesso, sentia-me feliz e consegui parar de pensar no Xavier, ainda que por breves instantes.

Quando cheguei a casa a minha mãe disse-me que tinha visitas: o Xavier estava na sala, com um sorriso imenso e de braços abertos para mim. Abraçamo-nos. Sentia-me a explodir de alegria, tinha sonhado tanto com aquilo…

MARIA BUENO, 11º A

Nós, dizem os nossos pais, nascemos já fora do clima de Abril. Foram  eles que nos ensinaram a respeitar o Dia da Liberdade, nos disseram e contaram tanta coisa que nos fez entender as diferenças e condenar todos os que, nem que seja só por insensatez das palavras, arriscam dizer quem me dera o antes.  Falaram-nos de mãos dadas pelas ruas, das casas desertas, do povo encantado com a novidade de poder dizer e contar, de não ir morrer num mundo que era nosso e parece que nunca foi, de abraçar enfim tanta gente que nessa altura passeou sem medo pelas “ruas da nossa cidade” e estivera fechada em prisões que muitos dos nossos pais nem sonhavam que existiam. O nosso sonho é repetir, pelo menos dentro de nós, a madrugada desse “dia inicial inteiro e limpo” de Sophia. E que  volte ao Povo a confiança.  

**

O  que dói não é um álamo.

Não é a neve nem a raiz

Da alegria apodrecendo nas colinas.

**

O que dói

Não é sequer o brilho de um pulso

Ter cessado,

E a música que trazia

Às vezes um suspiro outras um barco.

**

O que dói é saber.

O que dói

É a Pátria que nos divide e mata

Antes de se morrer.

**

EUGÉNIO DE ANDRADE, Setembro de 72

                Tempos houve em que Portugal vivia sobre a rigidez e as restrições do Estado Novo. Num período tão fértil em técnicas dissuasoras, censuradoras e torturadoras havia aqueles, que sem medos nem receios, usavam o seu dom para combater o regime asfixiante em que Portugal vivia. Cantaram bem alto pela liberdade perdida, procuraram a igualdade, gritaram pelo direito, trautearam versos de esperança, renasceram Portugal na sua voz. Agradecemos, de bom grado, o seu papel determinante na libertação nacional. A minha geração, diria, é quem mais grata deve estar. O viver em Portugal tem, para nós, um outro sentido. Hoje não almejamos por liberdade, não nos sentimos reprimidos, expressamo-nos (por vezes demais,bem sei) livremente, não temos fronteiras, conhecemos o presente e ignoramos o passado. A nós o que nos importa é viver. Lá nos interessa Carlos do Carmo. Quem? Carlos do Carmo. Ignoramos o passado, mesmo. Será injusto referenciar Carlos do Carmo e não referenciar Manuel Alegre, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Ary dos Santos e tantos outros. Foram importantes. E palavras me faltam para os descrever, para lhes atribuir o adjectivo mais correcto.
                O 25 de Abril chega com as recordações do velho Portugal. Ao som da Tourada toureámos, ombro a ombro, as feras. A Pedra Filosofal ensinou-nos que o “sonho comanda a vida”. “O povo é quem mais ordena” mostrou-nos Zeca Afonso e acordámos, ao sabor de “E depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, para um novo Portugal. Muito devemos àqueles que com a voz e a palavra ajudaram as armas a derrubar um regime. Aqueles que, desenfreadamente, pediram em voz alta e em uníssono a Liberdade. Sim, a Liberdade. Algo que nunca me fartarei de amar: LI-BER-DA-DE.
 
                Às vozes da resistência, obrigado

Valentino Cunha, 11º A

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