Conheci-o num comboio nocturno, que era para mim
a maneira ideal de viajar uma vez que se poupava em alojamento e podia visitar os locais onde passava de dia; passavam duas horas da meia-noite e acordei quando ele entrou no meu compartimento. Ao ver que me tinha acordado desculpou-se e perguntou se podia sentar-se no banco em frente ao meu, pergunta meramente cortês pois já tinha entrado com as duas malas e fechado a porta atrás de si. Olhei-o pelo canto do olho, era um fulano normal, pele branca, com o cabelo escuro cortado rente e barba por fazer. Pouco mais velho que eu, calças de ganga vulgar, sapatos de vela bastante velhos e um casaco grosso adequado para aquela altura do ano. Apesar de ser já bastante tarde, nenhum de nós tinha sono, principalmente eu após ele me ter acordado, e, primeiro timidamente, e depois como se fossemos velhos amigos, começámos a falar acerca de quase tudo, desporto, estudos, mulheres, do quotidiano, das nossas vidas.
Após termos conversado sobre esses assuntos banais e já não estarmos tão sóbrios quanto seria desejável uma vez que ele tinha o hábito de viajar sempre com a sua bebida preferida, o uísque, inclinou-se para a frente e com a voz bastante mais baixa pediu segredo sobre o que me ia contar de seguida, Sim claro que não digo nada a ninguém – disse eu; ele respirou fundo e disse, Eu não consigo sonhar há mais de um ano; e começou a chorar. Pensei em dizer-lhe que não chorasse, mas reflecti um pouco, achei desapropriado dizer isso a outro homem, com certeza que ele teria as suas razões. Então perguntei-lhe porque é que não conseguia sonhar, perguntei só para a conversa não acabar ali pois ele não deveria ter uma resposta para a minha questão. E ele de facto não respondeu à minha pergunta mas, sempre com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, contou a sua história:
“Acontece, como eu já disse, que há mais de um ano que não consigo chorar, um dia deitei-me, e sonhei que estava em cima de um muro a olhar para baixo, estava bastante escuro e não conseguia ver o chão, se é que o havia, e que depois saltava para o vazio, mas ao contrário do que normalmente acontecia quando sonho com quedas, dessa vez dormi durante a noite inteira. Após esse dia nunca mais sonhei, deito-me e é como se morresse e só acordasse na manhã seguinte.”
Fiquei colado ao banco. Realmente já não sabia o que lhe havia de dizer, ficámos a olhar um para o outro durante alguns momentos até que lhe propus algo que nunca proporia a um desconhecido se não fossem aquelas as circunstâncias. Perguntei-lhe se, uma vez que nenhum de nós tinha sono, ele não quereria descer na próxima estação e passearmos um pouco pela cidade e, depois, prosseguiríamos viagem quando quiséssemos. Ele aceitou, ambos pegámos nas nossas malas e dirigimo-nos para a porta do comboio pois já não deveria faltar muito tempo até chegarmos à cidade. Enquanto esperávamos que o comboio chegasse à estação pensei na minha situação. Não estaria eu a cometer um erro ao dar demasiada confiança a um estranho que conhecia há poucas horas? Afinal de contas porque estava eu, aqui encostado a uma janela do comboio, prestes a sair para uma cidade desconhecida com um novo amigo desconhecido e a horas também elas incertas? Mas eu tinha confiança nele, senti que já o conhecia há muito tempo, como a um amigo de infância, e por isso resolvi não voltar atrás. E, quando o comboio se imobilizou, saí atrás dele e caminhámos lado a lado até um hotel que um rapaz nos indicou.
Chegámos ao hotel pouco tempo depois, felizmente não ficava longe da estação. Era um edifício de tamanho médio com ar de ter cerca de trinta ou quarenta anos, entrámos e pedimos dois quartos à recepcionista que, com um ar de sono, nos pediu os documentos e tratou das formalidades. Enquanto o meu novo amigo preenchia os seus papéis ao balcão olhei para o relógio que se encontrava na parede do fundo, eram quatro horas da manhã, não admirava portanto que a rapariga estivesse cansada. Subimos aos nossos quartos, que eram no terceiro andar, o último do edifício, e deixámos lá as malas. Após tomar banho, enquanto me vestia, observava o meu quarto. Era um típico quarto de hotel, não tinha muita decoração, provavelmente para evitar roubos ou poupar dinheiro, mas estava bem limpo, aspecto que mais aprecio quando me alojo num destes estabelecimentos. Logo após ter arrumado os meus pertences ouvi bater na porta, fui abrir e era ele; Vamos dar uma volta? – perguntou; Sim, vamos – respondi eu. Despedimo-nos da recepcionista e saímos para a rua. Estava frio àquela hora da noite, e começámos a vaguear pela cidade. Era uma cidade com história, semelhante a Barcelona, Lisboa ou mesmo Buenos Aires. A cidade era demasiado grande para podermos visitar todos os seus lugares de interesse numa única noite, por isso caminhávamos sem um objectivo concreto e, enquanto andávamos em direcção a lado nenhum, fomos conversando e apercebi-me de que ele era mesmo uma pessoa comum. Foi então que ele resolveu falar-me mais acerca da sua deficiência, que era como ele se referia à sua incapacidade de sonhar. Ele dizia que teria que viver permanentemente, e até morrer, num de dois estados, o consciente quando estava acordado e o inconsciente enquanto dormia. Psicólogos dizem que os sonhos são fugas nas quais a nossa imaginação tem rédea solta e como ele não conseguia sonhar a imaginação do meu amigo estava condenada à censura dos tabus da consciência.
Cansados de andar, parámos num banco de jardim para recuperar fôlego e ficámos sentados por largos minutos. Foi então que ele me surpreendeu pela segunda vez naquela noite, ofereceu-me o seu relógio de pulso. Era prateado, com cronógrafo, e tinha um ar antigo, pareceu-me coisa valiosa de mais para se oferecer a alguém que conheceu num comboio na mesma noite. Recusei imediatamente mas ele insistiu para que eu aceitasse, disse que era o bem mais precioso que possuía o que só me fez sentir ainda mais que lhe estava a dever um grande favor. Aceitei o relógio e coloquei-o no pulso, parecia feito à minha medida, e agradeci sinceramente. Ele sorriu e acrescentou, É para que não te esqueças do desconhecido que encontraste um dia num comboio.
O banco no qual estávamos sentados ficava no meio de uma longa avenida interdita ao trânsito, ladeada por prédios de quatro ou cinco andares, o pavimento era calçada com alguns canteiros para árvores. Era Lua nova e por isso podiam observar-se mais estrelas do que é habitual. Ao fundo da avenida via-se um aqueduto enorme e imponente, feito de pedra tal castelo, os seus arcos em forma de ogiva terminavam num bico aguçado. Perguntou-me se não queria ir visitar o aqueduto e eu respondi que sim, apesar de ainda ficar longe, e rapidamente começámos a descer a avenida em direcção ao aqueduto. Àquela hora as ruas estavam desertas e todas as casas e lojas estavam fechadas, exceptuando claro, alguns bares e discotecas. Ao chegarmos ao aqueduto ficámos abismados com o seu tamanho, visto de baixo parecia ainda maior e mais imponente, era ele que dominava a paisagem urbana. Decidimos subir a colina onde começava o aqueduto para tentarmos andar por cima do gigante de pedra, se não houvesse nenhum muro ou portão que nos impedisse de o fazer. A subida foi extenuante mas ao chegarmos ficámos felicíssimos ao ver que para abrir o portão que protegia o aqueduto apenas era preciso rodar uma maçaneta, devia servir somente para evitar que entrassem animais para o aqueduto e permitir ao mesmo tempo a passagem de pessoas de uma colina para a outra com o objectivo de evitar o penoso trabalho de descer, atravessar a cidade, e subir a outra colina. Andámos algumas dezenas de metros no aqueduto, cautelosamente pois, embora o muro fosse grosso, ele era um pouco mais baixo que a minha cintura. Fazia um frio polar lá em cima e o vento ameaçava levar-nos com ele de modo que eu ia o mais encostado possível à parede. O aqueduto estava dividido em dois corredores que serviam para as pessoas andarem e a separá-los estava um muro pouco mais alto que nós que continha a canalização para transportar a água, verdadeira finalidade de um aqueduto. Do ponto em que nós estávamos, debruçados sobre o muro de pedra, que ficava mais ou menos a meio do aqueduto, conseguíamos ver a cidade quase toda, desde as casas por baixo do aqueduto até às casas fundo, nas margens do rio, víamos as estrelas brilhantes no céu preto e as luzes brilhantes dos postes de iluminação no negro do chão. O meu amigo afastou-se três passos de mim, inspirou profundamente, subiu o muro e ficou a contemplar a paisagem, à beira do abismo, e disse para mim, É como no meu sonho, agora tenho que saltar, de qualquer das formas não vale a pena viver sem poder sonhar, ou talvez não tenha podido sonhar para não me esquecer do meu último sonho que me dizia para me matar, é algo triste alguém matar-se por um sonho mas eu mato-me por ter tido um último sonho. Olhamo-nos nos olhos por algum tempo, e eu a vê-lo ali, prestes a suicidar-se, não o conhecia nem há um dia e nunca mais poderia falar com ele. Não saltes – disse eu. E ele respondeu com um adeus breve e saltou para o escuro da noite. Não ouvi nenhum som, só o vento a assobiar nos arcos do aqueduto e o barulho dos carros de quem tem que se levantar ainda o Sol não nasceu. Passaram-se largos minutos até que tive coragem de olhar para baixo, algo dentro de mim dizia para não o fazer mas mesmo assim olhei e não vi nada, a estrada imaculada, que passava por baixo do arco sobre o qual me encontrava, fazia-me duvidar de que uma pessoa se tinha lançado para ali.
Acordei numa cama que não era a minha e só momentos depois é que me apercebi que estava num hotel e já era dia. Levantei-me, tinha tido um sonho com um homem que eu tinha conhecido num comboio e que se tinha suicidado atirando-se de um aqueduto. Fui tomar um duche quando, ao rodar a torneira, reparei que tinha um relógio prateado no pulso esquerdo, tentei tirá-lo, mas não consegui; então reparei numa inscrição na bracelete que dizia, Este relógio só pode ser tirado para ser oferecido.
Nessa noite tive o meu último sonho.
GUSTAVO PINTO GALVEIAS, 10º B - 4º Escalão – 1º Prémio , Prosa
Clube de Poesia e Reflexão Filosófica – Jogos Florais Inter-Escolas