Equinócios e Solstícios - 30 de Outubro de 2009
Avaliação
Perder como perdi não custa muito
Procuro falar o menos possível neste espaço sobre os combates políticos em que estou envolvido. Mas agora, terminado o processo eleitoral autárquico, julgo que aceitarão que faça aqui um balanço breve do que se passou.
Tenho dito aos meus amigos que «perder assim, não custa!». Na verdade, têm sido generalizados os comentários e as análises que demonstram muito apreço pelo trabalho realizado, pelas propostas apresentadas, pela campanha feita e pelo resultado obtido.
Ao princípio até achei estranho. Mas depois, quando comecei a analisar o que se tinha passado, confirmei as razões dessa satisfação. Sendo tão objectivo quanto possível, passo a enumerar:
1. Tudo começou numa sondagem publicada pelo Expresso em 28 de Dezembro passado, encomendada pelo Partido Socialista. Título do Expresso: Sondagem do PS dá 15 pontos de vantagem a António Costa. Ora, para além desta diferença, o Expresso dava 10 pontos aos Cidadãos por Lisboa, de Helena Roseta, e 4 ao CDS, com uma candidata hipotética, Teresa Caeiro.
Fazendo as contas (somando os votos de Roseta e António Costa, e juntando os meus e os de Teresa Caeiro), dava 21 pontos de diferença. Isto sem fazer referência aos votos do PCP, que a sondagem admitia poder atingir os 9,6%. Como se sabe, houve cerca de 15.000 votos da CDU que foram para António Costa.
2. O combate foi com um presidente de Câmara em funções, em primeiro mandato e, mais ainda, só com metade do tempo desse mandato;
3. Foi uma campanha sem debates sobre Lisboa. A mão invisível do sistema político fez tudo para que se falasse o menos possível de Lisboa.
Ao contrário do que possam achar os que reagem epidermicamente ao que digo ou escrevo, nada disto são desculpas. São factos.
Houve dois debates, um antes da campanha, em Julho, entre António Costa e eu próprio, e outro a dois dias do final, com nove candidatos. E a opinião da generalidade dos comentadores sobre quem ganhou esses debates é conhecida.
Volto a falar do assunto para sublinhar que se percebe a razão pela qual não quiseram fazer os debates, ao contrário do que aconteceu nos outros concelhos.
E note-se que, a partir do Verão, não se ouviu o candidato do PCP nem o do Bloco de Esquerda protestarem pelo facto. Na linha, aliás, da enorme discrição e contenção das campanhas levadas a cabo por estes dois partidos.
Pode ser dito que é a democracia – e que as pessoas de ‘esquerda’ tinham o direito de rejeitar a minha candidatura.
Só é estranho que também tenham querido rejeitar a de Manuel Falcão, candidato à Assembleia Municipal, porque a diferença de votação das listas que encabeçámos foi só de cerca de 100 votos. Fará sentido? Não há nenhuma razão para existir essa rejeição quanto a Manuel Falcão.
Em minha opinião, houve concertação nesse desvio de votos. O que, sublinhe-se, é legítimo – mas não pode ser considerado transparente. Não conheço nenhuma situação igual no país todo.
Reposição
Tive honra em ser candidato pelo partido que me tinha proscrito
Na segunda parte deste balanço quero também deixar claro que foram atingidos os objectivos políticos a que me propus quando aceitei esta candidatura.
Dou como exemplo a questão das finanças da Câmara Municipal de Lisboa.
Com o decorrer da campanha, foi ficando progressivamente mais claro que não era só minha, nem fundamentalmente minha, a responsabilidade pelo passivo da Câmara. Nem pouco mais ou menos. Só isso teria valido uma candidatura. Porque a verdade, no que se refere ao sentido de responsabilidade na gestão pública, tem um valor inestimável.
Podem continuar a usar todos os argumentos que quiserem. Mas as pessoas perceberam que, no meu mandato, foram assumidos muitos milhões de dívidas que não eram do meu tempo e que transitavam de mandatos anteriores. Nomeadamente da Expo-98 e do Casal Ventoso, quando vigorava a regra legal do endividamento zero para as autarquias. Nesta gestão, pelo contrário, foi com empréstimos que se pôde pagar aos fornecedores.
A propósito da reabilitação urbana, também ficou patente o valor e a dimensão da obra feita nos diferentes mandatos.
E ainda no que respeita à correcção de procedimentos na gestão urbanística, nomeadamente em termos comparados.
AS PESSOAS tiveram de suportar três campanhas eleitorais seguidas, mas vão apanhando o essencial. 44% dos votantes deram a vitória a António Costa. Mas quase 40% confiaram na candidatura que encabecei. Ora, tendo sido eu apresentado durante anos quase como ‘a encarnação do Diabo’ na política portuguesa, tendo sido apontado como o causador de muitos males da Pátria, tendo sido condenado por vários ‘tribunais de espíritos brilhantes’, à ‘morte política’, ou pelo menos ao ‘degredo político’, compreenderão a razão pela qual me sinto mesmo satisfeito.
Aliás, agora que passaram as eleições, sublinho a ideia de que a maior honra e o motivo de maior satisfação não foi o resultado – foi ter sido de novo candidato pelo meu partido, que quatro anos antes me tinha proscrito. Ao que se somou a alegria que senti pelo apoio espontâneo das concelhias e direcções nacionais do CDS-_-PP, do MPT e do PPM. E, como dizemos às vezes coloquialmente, ‘o resto é conversa’...
Podem escrever e dizer o que quiserem, até que são consolos de quem perdeu, porque depararão sempre com um sorriso genuíno como resposta.
Decisão
Vou ficar como vereador a lutar pelo que acredito
Durante toda a campanha eleitoral disse sempre que só me candidatava a presidente de Câmara. Durante grande parte desse período acrescentei que não concorria a vereador.
Mas, à medida que o tempo passava e que ia percebendo o que estava (e vai estar) em causa nos próximos anos – e que passará, em boa medida pela Câmara Municipal de Lisboa –, mudei de resposta.
Quando os jornalistas me perguntavam o que faria depois das eleições caso perdesse, respondi que, em combate, só falo de vitória… E, por vezes, acrescentei a tal ideia de que só estava a concorrer para presidente. Deixei de falar nas funções de vereador.
Pensei muito no assunto durante estas semanas – e é curioso como tanta gente, quando ando nas ruas, quando estou na minha actividade profissional ou no meu círculo de relacionamento pessoal, me pede para que fique como vereador.
Por que será? Foi isso que tive de ponderar – e cheguei à conclusão de que esses quase 40%, mais muitas outras pessoas pelo país fora, entenderam o nosso projecto para Lisboa. tem causas pelas quais vale a pena lutar. Causas que, no seu conjunto, representam um desígnio estratégico para a cidade, envolvendo processos de decisão a nível nacional e local.
E esse desígnio estratégico pode ficar muito comprometido se forem por diante algumas decisões anunciadas por José Sócrates e António Costa.
Só essa possibilidade faz-me sentir o dever de ‘não virar a cara’ e de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que façam mal a Lisboa.
Quero fazer tudo para que Lisboa não fique sem aeroporto. Para que mais contentores não ocupem o lugar de cruzeiros turísticos. Para que a terceira travessia Chelas-_-Barreiro não traga carros para Lisboa. Para que a ligação do túnel do Marquês à António Augusto Aguiar seja feita o mais rápido possível. Para que a recuperação do Parque Mayer se concretize. Para que os Planos de Pormenor em falta e a revisão do Plano Director Municipal fiquem concluídos. E, principalmente, para que a reabilitação dos bairros históricos e a requalificação dos bairros sociais sejam assumidas como prioridade cimeira.
Naturalmente não posso impor o nosso programa a quem ganhou as eleições. Mas posso lutar por ele.
Há pessoas que acham estranho que alguém que exerceu altos cargos do Estado aceite ser vereador. Faço-o com toda a honra. Quando perdi as eleições legislativas, em 2005, assumi logo que pude o meu lugar de deputado – e fui, durante uma sessão legislativa, líder parlamentar do maior partido da oposição.
Agora, não tendo ganho as eleições em Lisboa, terei a mesma atitude – procurando representar, no respeito pela sua pluralidade interna, o projecto da coligação ‘Lisboa com Sentido’. Noutros países, quem ocupa altos cargos do Estado pode sempre acumular com cargos de poder local ao serviço da terra a que esteja ligado.
É assim que eu gosto de estar na vida em geral – e, portanto, também na política. Sem vaidades e preconceitos. E com respeito pelas causas que considero importantes para a minha cidade, para o meu país, para o mundo em que vivemos.