Todos sabemos, os que vivemos pouco ou algum tempo no
interior, como era a vida, que dificuldades, mesmo quando se tinha muitas terras
e, como suposto, de tudo para viver. No
entanto, era legítimo que se quisesse experimentar uma vida, “lá fora”, pensadamente, melhor..!
Há tempos numa visita a uma das muitas e belas paisagens do
nosso país interior, tive o grato prazer de conhecer uma família que, natural
dessa bela região, terão emigrado para África, como tantos nossos compatriotas
o fizeram durante o século passado.
Conversa puxa conversa, ou a conversa é como as cerejas…, e
entre apanhá-las e comê-las, esses belos frutos, directamente da árvore, ia
ouvindo a história dessa família emigrante e, migrante, actualmente, na
capital.
Aquele Beirão de alma e coração estava ali com uma bela casa
inserida, de resto, numa paisagem rica em vestígios arqueológicos, dos nossos
primeiros habitantes da península, não me esqueço de uma pedra escavada pelo
uso que teria sido uma “parideira”, ou uma outra bem maior que teria sido uma
piscina. Um espaço bem cuidado, onde todos os grãos de terra arável, estavam
aproveitados com árvores de fruto, cultura de primores e jardim.
O dia estava chuvoso, tipo “molha tolos”, mas a temperatura
estava amena e convidativa a andar pela rua. O nosso anfitrião, não parava,
aliás bastava olhar aquele espaço que, logo se adivinhava o temperamento de
quem o fazia verdejar, não obstante estar a mais de 300 quilómetros a maior
parte do sua actual vida.
A certa altura, quando os restantes elementos do grupo se
preparavam para uma sedentária tarde no sofá, depois de uma boa feijoada à
transmontana servida ao almoço, ele calçou e vestiu qualquer coisa mais
impermeável e fez um desafio a quem o quisesse seguir, dizendo que nos iria mostrar
uma coisa.
Eu, que gosto de surpresas, e então numa zona onde os monumentos
megalíticos abundam e me aguçam a curiosidade, embora não tivesse a melhor indumentária
para um dia de chuviscos, imagine-se que até estava de calças brancas, mas,
fiquei logo a postes e alinhei no “safari”. Deixámos a aldeia e lá fomos por
entre picadas de castanheiros seculares e outra flora que deu origem às minhas
mil perguntas, sobre as espécies que desconhecia.
Depois de alguns solavancos no todo terreno, encosta abaixo,
eis que chegávamos perto de uma ribeira, naquela altura farta de água, qual
rio, e parámos junto a umas ruínas, onde vegetação e paredes de robustas pedras
talhadas e encaixadas umas nas outras se confundiam com o bosque circundante. O
nosso guia saiu do jipe, desceu sobre algumas pedras, já soltas e dispersa na assentada de
terreno na margem esquerda da ribeira e ficou ali a olhar por uns instantes.
Um dos amigos, seu conterrâneo e cúmplice, conhecia bem o
sítio, mas nós, ficámos a imaginar porque nos levaria ali.
É verdade, a história daquelas ruínas, não é risonha, mas é
uma de muitas que terão ocorrido no nosso país interior e gerado a sua desertificação durante
o século XIX e XX. 
Eu tinha levado a minha máquina fotográfica, que carrego
sempre à mão pelo que, já sou conhecida como a que dispara sobre tudo e
qualquer coisa.
Fazia algumas fotografias às tais ruínas quando o nosso amigo
começou a pensar alto.
-Isto, é o que resta de um moinho de água e da casa dos meus
pais e onde vivi até ir para a tropa (Ultramar);

- Isto, por esta margem fora é o
que resta de uma chã de terras que dava moios (medida de capacidade) de pão, e de tudo, com fartura.
Depois, virou-se mais para o interior do que restava das
paredes daquelas ruínas, de resto, extensas e, recomendando cuidados, com o chão
e as silvas, mandou-nos “entrar”, explicando:
_ Aqui era o quarto dos meus pais, aqui, o nosso quarto…., meu e dos irmãos.
Continuando, procurando não meter o pé nalgum buraco, fez
outra pausa:
- Este era o forno onde se fazia a boroa e algo mais em dias especiais.

E, continuando a visita guiada, chegávamos junto aos restos
do que sobrara do moinho de água. Ainda lá estava a conduta de água tapada (tardiamente),
com extensas lages de granito, levada de água que constituía a força motriz
para fazer girar as mós de pedra que moíam o grão. E mais um silêncio do nosso guia…:
- Aqui, na levada, caíram dois irmãos meus, crianças ainda, e
foram arrastadas…!
Senti - me a gelar..! Não da chuva que até parecia mais um dia
de sauna, mas imaginando tão dolorosa e
arrepiante situação.
Continuando, dizia:
-Foram tempos difíceis, para fazer a instrução primária, na
sede de concelho, todos os dias fazia este trajecto serra acima, serra abaixo,
calcorreando quilómetros, sempre na expectativa de uma boleia de alguma carroça
de burro que fosse na minha direcção.
Talvez o acumular de acontecimentos e sofrimentos que a certa
altura, aparentemente, já eram corriqueiros e naturais, mas não o foram o
suficiente para me fazer parar e pensar, deram-me coragem para sair daqui para
fora. A ida para a tropa e depois para a guerra colonial, foi o pretexto. Fiz
bem? Fiz mal? Quem pode responder com exactidão?
Este sítio faz parte
de mim, apesar do que resta dele, aqui está a minha essência…!
- Vamos embora, dizia,
enquanto entrava no jipe.
É lá regressámos aquela aldeia histórica, monumento nacional,
mas não sem antes ainda nos levar a ver um belíssimo souto de castanheiros que
tinha mandado plantar, havia uns cinco anos.
Afinal, há raízes que nunca se
extinguem...!