-

-
o magnífico desejo que se levanta do teu sono
foi esperar pelas aves que simplificam o cheiro a morte
estas traziam numa asa a redenção e na outra um balde de maresia
pois o sal que vês não é saudade mas a singela verdade de querer partir de dentro de ti.
o que se quer transforma-se em fibras de vidro enrolado em carne.
o vidro que vê a luminosidade do desejo que se revolta contra o tecido de sangue
És todas as noites que não durmo
bocado de tijolo de muro de onde os gatos incendeiam as estrelas
tudo seca e é dor com pernas quando o ar que respiro me mente do que serei
Ocaso de dois sóis são convocados ao teu funesto odor de libertação
que não há vida,
só amor e espasmo
só surpresa e bebedeira ou mesmo loucura
nem doença nem política
viagem ou esperança.
r.r.

-

A esperança é o que representa cada milímetro cúbico de lágrima de Jesse Jackson durante o discuro de vitória de B. Obama em 3/11/2008.
r.r.
-
I
A camisa amarela do tempo da comunhão ainda emergia entre as mais recentes. Porque ficara aí ? Era a primeira intriga que sentia naquela manhã. Tudo se iria definir a partir da camisa amarelada. Mesmo a manteiga deveria ser vegetal, não existe naquele profundo frigorífico de fome e saudade pelos grandes dias. Já deprimido pensou que afinal tudo está ligado. Como a simplicidade reduz a esperança e a ilusão. Como a razão tem tanta capacidade para fazer parar uma música interminável do Satie, pensara ele.
II
O corpo ainda quente fazia-o mais seguro que afinal parecia. Três amigos conversavam, ao pé dele, sobre tudo o que mexia, a ideia era não falar dele porque já disseram em uma só voz que não merecia e que a vida vale bem uma segunda oportunidade, nem que seja por mais uma congestão e um exame à cabeça.
III
Maria de facto falseou os dados, na banca deu a vida porque acreditava que tinha pecados. Atirou-se ao chão só uma vez na vida, quando saiu de casa do xico. Os olhos já não vêem o que devem ver. Os olhos só vêem quando estão semicerrados como quando estamos a olhar para o sol que é a luz máxima, agora sim, tudo tem a luz máxima e por isso tudo deve ser visto com os olhos semicerrados. Aos ouvidos também acontece a mesma coisa.
IV
‘Como é que se entorna leite de mulher pela solidão e se corre pela noite até ao fim da cidade, ao mesmo tempo’. Um poema sincero deve iniciar desta maneira. Estamos sempre longe de tudo. A mente nem sequer chega a tocar a simplicidade das coisas. Somos seres que não trocamos com a matéria. Não comunicamos. Somente absorvemos. Consumimos. Quase tudo acontece por aquilo que nos aparece à cabeça. Voar para trás pelo sentido da diagonal. Ou isto existe ou tenho sido louco em não te auxiliar no teu secreto suicídio. A pele dos olhos que emanam da boca aberta, sou este.
r.r.
Continua…
-

Nasceu em 1071 (Sec. XI) a 22 de Outubro na Occitania, numa região que hoje
compreende a Catalunha, o sul de França (Languedoc-Roussillon) e parte a
Aquitânia (Toulouse) em
França. Escrevia numa lingua Occitana, eram poemas destinados
a serem cantados. Apesar de ser arriscado dizer ser o primeiro poeta medieval é
certamente o primeiro a descrever o amor tal como hoje o representamos de uma
forma generalizada. Os temas andavam em torno dos heróis, dos guerreiros e
raros argumentos sacros. A guerra era uma questão de salvação e por isso fez
parte da primeira cruzada em 1101.
A questão essencial da poesia de amor deste provençal é a mulher a sua
essência sensual como imagem divina. O amor nasce assim da rendição à
sensualidade feminina como transmutação do divino, em suma, de um amor
metafísico que mais tarde se conotou como o 'amor platónico'.
O mediavalismo foi assim sinónimo de uma intensíssima produção poética e
literária mas bipolar, entre a questão da salvação e a questão do amor. As
catedrais representavam a salvação mas a poesia tratava do amor. È por isso
perturbador o estereótipo de que o período medieval estar associado às ordens
religiosas como as únicas fontes do conhecimento escrito
Je n'adorerai qu'elle ! (Chanson)
|
(occitan)
Farai chansoneta nueva,
Ans que vent ni gel ni plueva:
Ma dona m'assaya e-m prueva,
Quossi de qual guiza l'am;
E ja per plag que m'en mueva
No-m solvera de son liam.
|
(français)
Ferai chansonnette nouvelle
Avant qu'il vente, pleuve ou gèle
Ma dame m'éprouve, tente
De savoir combien je l'aime ;
Mais elle a beau chercher querelle,
Je ne renoncerai pas à son lien
|
|
Qu'ans mi rent a lieys e-m liure,
Qu'en sa carta-m pot escriure.
E no m'en tenguatz per yure,
S'ieu ma bona dompna am!
Quar senes lieys non
puesc viure,
Tant ai pres de s'amor gran fam.
|
Je me rends à elle, je me
livre,
Elle peut m'inscrire en sa charte ;
Et ne me tenez pour ivre
Si j'aime ma bonne dame,
Car sans elle je ne puis vivre,
Tant de son amour j'ai grand faim.
|
|
Per aquesta fri e tremble,
Quar de tam bon'amor l'am,
Qu'anc no cug qu'en nasques semble
En semblan del gran linh n'Adam.
|
Pour elle je frissonne et
tremble,
Je l'aime tant de si bon amour !
Je n'en crois jamais née de si belle
En la lignée du seigneur Adam.
|
|
Que plus es blanca qu'evori,
Per qu'ieu autra non azori:
Si-m breu non ai aiutori,
Cum ma bona dompna m'am,
Morrai, pel cap sanh Gregori,
Si no-m bayza en cambr'o sotz ram.
|
Elle est plus blanche
qu'ivoire,
Je n'adorerai qu'elle !
Mais, si je n'ai prompt secours,
Si ma bonne dame ne m'aime,
Je mourrai, par la tête de Saint Grégoire,
Un baiser en chambre ou sous l'arbre !
|
|
Qual pro-y auretz, dompna
conja,
Si vostr'amors mi deslonja
Par que-us vulhatz metre monja!
E sapchatz, quar tan vos am,
Tem que la dolors me ponja,
Si no-m faitz dreg dels tortz q'ie-us clam.
|
Qu'y gagnerez-vous, belle
dame,
Si de votre amour vous m'éloignez ?
Vous semblez vous mettre nonne,
Mais sachez que je vous aime tant
Que je crains la douleur blessante
Si vous ne faites droit des torts dont je me plains.
|
|
Qual pro i auretz s'ieu
m'enclostre
E no-m retenetz per vostre
Totz lo joys del mon es nostre,
Dompna, s'amduy nos amam.
Lay al mieu amic Daurostre,
Dic e man que chan e bram.
|
Que gagnerez-vous si je me cloître,
Si vous ne me tenez pas pour vôtre ?
Toute la joie du monde est nôtre,
Dame, si nous nous aimons,
Je demande à l'ami Daurostre
De chanter, et non plus crier.
|
-
A pele dos olhos que emanam da boca aberta, sou este.
Tudo, por uma antologia de ódio às tardes.
Quando cheguei o mundo já não existia mas por isso mesmo esperei pelo teu medo.
Já não executo a travessia. A que estava estipulada.
Predestinação.
Palpita um coração amarelo por me considerar humano.
Ou, latejam-me corpos empilhados...por este mundo.
Assusto-me.
r.r.

Roy Fox Lichtenstein
-
-
Oqueoscarroscomunicamquandoatravessamemconjuntocomoutroscarrosnaauto-estrada ?
Oquedizamulherqueseapresentadesaltosaltoscomelevadaarrogânciadevuloptusidade?

Oquesemostramaisvalenteperanteascrianças?

r.r.
-
Aproveito este momento
para imaginar que vivo para sempre
depois
recorto a singela beleza desse tempo que se esboça por um funil serpenteado.
as mãos ?
estão perdidas no cais inundado pelas cheias que transbordam pela saliva das tuas palavras
que dizem 'cru-el'
que uma ave entusiasmada se aproxima do seu bando
que tudo retorna a seu ponto germinal
que te encontro e te fuzilo com as mãos secas de saudade
imagino que viverei para sempre
r.r.
-
De que és feito ?
De nada como pó.
O que vejo ?
O que te acontece.
O que perdi ?
Nada. Porque tudo o que te acontece é o melhor para ti.
O que tenho ?
O que mereces.
Quem vem ?
A quem deste.
Quem sabe o que quero ?
Ninguém.
O que quero ?
O que podes perder.
Fumamos um cigarro.
Encomendamos umas empadas e duas sagres.
Veio o engraxador e fixou-nos a cor dos sapatos.
Era tarde para os engraxar. Não valia a pena.
Tive pena do engraxador.
Perdeu a graça do brilho dos nossos sapatos.
O ultimo autocarro cruzara a esquina e desapareceu com as almas mortas.
Senti que estávamos a ser mastigados pela cidade amarela.
Deus é a maior obra da poesia ?
Encantado.
r.r.
-
De que és feito ?
De nada como pó.
O que vejo ?
O que te acontece.
O que perdi ?
Nada. Porque tudo o que te acontece é o melhor para ti.
O que tenho ?
O que mereces.
Quem vem ?
A quem deste.
Quem sabe o que quero ?
Ninguém.
O que quero ?
O que podes perder.
Fumamos um cigarro.
Encomendamos umas empadas e duas sagres.
Veio o engraxador e fixou-nos a cor dos sapatos.
Era tarde para os engraxar. Não valia a pena.
Tive pena do engraxador.
Perdeu a graça do brilho dos nossos sapatos.
O ultimo autocarro cruzara a esquina e desapareceu com as almas mortas.
Senti que estávamos a ser mastigados pela cidade amarela.
Deus é a maior obra da poesia ?
Encantado.
r.r.
-
O vermelho da noite bocejou de cansado. Uma noite que cai é uma noite que se ajoelha a uma mesa coberta de branco com doces de páscoa.
No meu coração uma rosa amarela traça o caminho dos répteis. O caminho do sul. Toda esta imensidão só para te dizer que adormeço.
A inspiração do poema vem da saudade das ruas sem fim. Dos beijos sem amanhã. Das crianças sem destino nem futuro.
Estou pasmado com o voo dos melros. Aliás nunca vi sequer um melro que voasse durante muito tempo. Vejo-o sempre, pela manhã, em cima do muro a tecer considerações impróprias às sombras. Porque o melro joga com a sombra como um toureiro com o seu touro. Que se confunde, e isto não serve de metafísica.
Um corpo de mulher deitado sobre a longa tarde de inverno. Odor a cera queimada.

r.r.
-
Tão clara é a demora do entendimento.
Por estar sentado no banco à espera do ruidoso comboio que fatiga o desenho da tarde.
Porque é sempre a última tarde.
Não conheço nem sei dizer que te amo.
Segurei na mão da mentira e contornei a miséria dos dias de razão. Tudo para te conhecer melhor.
Agora vêm todas as tardes.
Com o seu crepúsculo saltam do horizonte todos os comboios ruidosos de insegura imensidão de desencanto.
Nos vagões trazem a água que rega o meu milho.
Juno/ r.r.
Publicar
-
Depois de um instante
fiz um esforço por me lembrar de mim e de todos os dias que vivi 'não me importo ser o último'
se procurei um elixir encontrei uma anti-poesia
se adiei vi a escuridão.
O tempo é um recorte meticuloso de salvação
o meu peito respira leite, alimento.
tudo combina com tudo quando desejamos o limite.
Um sorriso é o que nos resta nesta estrada de roedores.
A salvação
A salvação
A salvação.
r.r.

Alessandro di Mariano Filipepi, 'Sandro Botticelli
-
Às vezes pergunto-me porquê fingir
Que algo nos acalmará a existência depois da despedida
Muitas vezes procuro, sozinho na noite, os rumores e murmúrios da memória indecisa
Só ouço um comboio ao longe a caminho do nada, a caminho de um lugar para depois partir verdadeiramente.
Somos seres relacionais, carnes que pertencem a uma só, dentes e unhas que são de ti e que em mim estão cravadas.
Por isso o comboio continuará a passar todas as noites, com o seu ruído, certo do vazio.
Para depois dormir...
r.r.

Marcel Duchamp, Sad Young Man on a Train (1911-12)