SOL
Salbru publish
21 January 09 09:04 AM

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fibras
17 January 09 02:39 AM

o magnífico desejo que se levanta do teu sono

foi esperar pelas aves que simplificam o cheiro a morte

estas traziam numa asa a redenção e na outra um balde de maresia

pois o sal que vês não é saudade mas a singela verdade de querer partir de dentro de ti.

 

o que se quer transforma-se em fibras de vidro enrolado em carne.

o vidro que vê a luminosidade do desejo que se revolta contra o tecido de sangue

 

És todas as noites que não durmo

bocado de tijolo de muro de onde os gatos incendeiam as estrelas

tudo seca e é dor com pernas quando o ar que respiro me mente do que serei

 

Ocaso de dois sóis são convocados ao teu funesto odor de libertação

que não há vida,

só amor e espasmo

só surpresa e bebedeira ou mesmo loucura

nem doença nem política

viagem ou esperança.

 

r.r.

 

 

 

 

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A esperança !
08 November 08 01:55 AM

A esperança é o que representa cada milímetro cúbico de lágrima de Jesse Jackson durante o discuro de vitória de B. Obama em 3/11/2008. 

r.r.

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Morreu, faz um mês.
08 November 08 01:23 AM

I

A camisa amarela do tempo da comunhão ainda emergia entre as mais recentes. Porque ficara aí ? Era a primeira intriga que sentia naquela manhã. Tudo se iria definir a partir da camisa amarelada. Mesmo a manteiga deveria ser vegetal, não existe naquele profundo frigorífico de fome e saudade pelos grandes dias. Já deprimido pensou que afinal tudo está ligado. Como a simplicidade reduz a esperança e a ilusão. Como a razão tem tanta capacidade para fazer parar uma música interminável do Satie, pensara ele.

II

O corpo ainda quente fazia-o mais seguro que afinal parecia. Três amigos conversavam, ao pé dele, sobre tudo o que mexia, a ideia era não falar dele porque já disseram em uma só voz que não merecia e que a vida vale bem uma segunda oportunidade, nem que seja por mais uma congestão e um exame à cabeça.

III

Maria de facto falseou os dados, na banca deu a vida porque acreditava que tinha pecados. Atirou-se ao chão só uma vez na vida, quando saiu de casa do xico. Os olhos já não vêem o que devem ver. Os olhos só vêem quando estão semicerrados como quando estamos a olhar para o sol que é a luz máxima, agora sim, tudo tem a luz máxima e por isso tudo deve ser visto com os olhos semicerrados. Aos ouvidos também acontece a mesma coisa.

IV

Como é que se entorna leite de mulher pela solidão e se corre pela noite até ao fim da cidade, ao mesmo tempo’. Um poema sincero deve iniciar desta maneira. Estamos sempre longe de tudo. A mente nem sequer chega a tocar a simplicidade das coisas. Somos seres que não trocamos com a matéria. Não comunicamos. Somente absorvemos. Consumimos. Quase tudo acontece por aquilo que nos aparece à cabeça. Voar para trás pelo sentido da diagonal. Ou isto existe ou tenho sido louco em não te auxiliar no teu secreto suicídio. A pele dos olhos que emanam da boca aberta, sou este.

r.r.

Continua…

 

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Guillaume IX de Poitiers. O nascimento da poesia e a origem do amor occidental.
30 October 08 02:06 AM


 

Nasceu em 1071 (Sec. XI) a 22 de Outubro na Occitania, numa região que hoje compreende a Catalunha, o sul de França (Languedoc-Roussillon) e parte a Aquitânia (Toulouse) em França. Escrevia numa lingua Occitana, eram poemas destinados a serem cantados. Apesar de ser arriscado dizer ser o primeiro poeta medieval é certamente o primeiro a descrever o amor tal como hoje o representamos de uma forma generalizada. Os temas andavam em torno dos heróis, dos guerreiros e raros argumentos sacros. A guerra era uma questão de salvação e por isso fez parte da primeira cruzada em 1101.

A questão essencial da poesia de amor deste provençal é a mulher a sua essência sensual como imagem divina. O amor nasce assim da rendição à sensualidade feminina como transmutação do divino, em suma, de um amor metafísico que mais tarde se conotou como o 'amor platónico'.

O mediavalismo foi assim sinónimo de uma intensíssima produção poética e literária mas bipolar, entre a questão da salvação e a questão do amor. As catedrais representavam a salvação mas a poesia tratava do amor. È por isso perturbador o estereótipo de que o período medieval estar associado às ordens religiosas como as únicas fontes do conhecimento escrito

Je n'adorerai qu'elle ! (Chanson)

(occitan)

Farai chansoneta nueva,
Ans que vent ni gel ni plueva:
Ma dona m'assaya e-m prueva,
Quossi de qual guiza l'am;
E ja per plag que m'en mueva
No-m solvera de son liam.

(français)

Ferai chansonnette nouvelle
Avant qu'il vente, pleuve ou gèle
Ma dame m'éprouve, tente
De savoir combien je l'aime ;
Mais elle a beau chercher querelle,
Je ne renoncerai pas à son lien

Qu'ans mi rent a lieys e-m liure,
Qu'en sa carta-m pot escriure.
E no m'en tenguatz per yure,
S'ieu ma bona dompna am!
Quar senes lieys non puesc viure,
Tant ai pres de s'amor gran fam.

Je me rends à elle, je me livre,
Elle peut m'inscrire en sa charte ;
Et ne me tenez pour ivre
Si j'aime ma bonne dame,
Car sans elle je ne puis vivre,
Tant de son amour j'ai grand faim.

Per aquesta fri e tremble,
Quar de tam bon'amor l'am,
Qu'anc no cug qu'en nasques semble
En semblan del gran linh n'Adam.

Pour elle je frissonne et tremble,
Je l'aime tant de si bon amour !
Je n'en crois jamais née de si belle
En la lignée du seigneur Adam.

Que plus es blanca qu'evori,
Per qu'ieu autra non azori:
Si-m breu non ai aiutori,
Cum ma bona dompna m'am,
Morrai, pel cap sanh Gregori,
Si no-m bayza en cambr'o sotz ram.

Elle est plus blanche qu'ivoire,
Je n'adorerai qu'elle !
Mais, si je n'ai prompt secours,
Si ma bonne dame ne m'aime,
Je mourrai, par la tête de
Saint Grégoire,
Un baiser en chambre ou sous l'arbre !

Qual pro-y auretz, dompna conja,
Si vostr'amors mi deslonja
Par que-us vulhatz metre monja!
E sapchatz, quar tan vos am,
Tem que la dolors me ponja,
Si no-m faitz dreg dels tortz q'ie-us clam.

Qu'y gagnerez-vous, belle dame,
Si de votre amour vous m'éloignez ?
Vous semblez vous mettre nonne,
Mais sachez que je vous aime tant
Que je crains la douleur blessante
Si vous ne faites droit des torts dont je me plains.

Qual pro i auretz s'ieu m'enclostre
E no-m retenetz per vostre
Totz lo joys del mon es nostre,
Dompna, s'amduy nos amam.
Lay al mieu amic Daurostre,
Dic e man que chan e bram.

Que gagnerez-vous si je me cloître,
Si vous ne me tenez pas pour vôtre ?
Toute la joie du monde est nôtre,
Dame, si nous nous aimons,
Je demande à l'ami Daurostre
De chanter, et non plus crier.

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Ansiedade e Virtude
16 October 08 12:33 AM

A pele dos olhos que emanam da boca aberta, sou este.

Tudo, por uma antologia de ódio às tardes.

Quando cheguei o mundo já não existia mas por isso mesmo esperei pelo teu medo.

Já não executo a travessia. A que estava estipulada.

Predestinação.

Palpita um coração amarelo por me considerar humano.

Ou, latejam-me corpos empilhados...por este mundo.

Assusto-me.

r.r.

 

 

Roy Fox Lichtenstein

 


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SALTOSALTOS
04 October 08 02:18 AM
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hostilidade pelo caminho
04 October 08 02:03 AM

Oqueoscarroscomunicamquandoatravessamemconjuntocomoutroscarrosnaauto-estrada ?

 

Oquedizamulherqueseapresentadesaltosaltoscomelevadaarrogânciadevuloptusidade?


Oquesemostramaisvalenteperanteascrianças?

 

r.r.

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saudosa natividade
24 September 08 01:02 AM

Aproveito este momento

para imaginar que vivo para sempre

depois

recorto a singela beleza desse tempo que se esboça por um funil serpenteado.

as mãos ?

estão perdidas no cais inundado pelas cheias que transbordam pela saliva das tuas palavras

que dizem 'cru-el'

que uma ave entusiasmada se aproxima do seu bando

que tudo retorna a seu ponto germinal

que te encontro e te fuzilo com as mãos secas de saudade

 

imagino que viverei para sempre

 

r.r.

 

 

 

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conversa com Deus
24 July 08 02:43 AM

De que és feito ?

De nada como pó.

O que vejo ?

O que te acontece.

O que perdi ?

Nada. Porque tudo o que te acontece é o melhor para ti.

O que tenho ?

O que mereces.

Quem vem ?

A quem deste.

Quem sabe o que quero ?

Ninguém.

O que quero ?

O que podes perder.

 

Fumamos um cigarro. Encomendamos umas empadas e duas sagres. Veio o engraxador e fixou-nos a cor dos sapatos. Era tarde para os engraxar. Não valia a pena. Tive pena do engraxador. Perdeu a graça do brilho dos nossos sapatos. O ultimo autocarro cruzara a esquina e desapareceu com as almas mortas. Senti que estávamos a ser mastigados pela cidade amarela.

Deus é a maior obra da poesia ?

Encantado.

r.r.

 

 

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conversas com DEUS
23 July 08 02:21 AM

De que és feito ?

De nada como pó.

O que vejo ?

O que te acontece.

O que perdi ?

Nada. Porque tudo o que te acontece é o melhor para ti.

O que tenho ?

O que mereces.

Quem vem ?

A quem deste.

Quem sabe o que quero ?

Ninguém.

O que quero ?

O que podes perder.

 

Fumamos um cigarro.

Encomendamos umas empadas e duas sagres.

Veio o engraxador e fixou-nos a cor dos sapatos.

Era tarde para os engraxar. Não valia a pena.

Tive pena do engraxador.

Perdeu a graça do brilho dos nossos sapatos.

O ultimo autocarro cruzara a esquina e desapareceu com as almas mortas.

Senti que estávamos a ser mastigados pela cidade amarela.

 

Deus é a maior obra da poesia ?

Encantado.

r.r.

 

 

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miniaturas nocturnas
16 July 08 12:59 AM

O vermelho da noite bocejou de cansado. Uma noite que cai é uma noite que se ajoelha a uma mesa coberta de branco com doces de páscoa.

No meu coração uma rosa amarela traça o caminho dos répteis. O caminho do sul. Toda esta imensidão só para te dizer que adormeço.

A inspiração do poema vem da saudade das ruas sem fim. Dos beijos sem amanhã. Das crianças sem destino nem futuro.

Estou pasmado com o voo dos melros. Aliás nunca vi sequer um melro que voasse durante muito tempo. Vejo-o sempre, pela manhã, em cima do muro a tecer considerações impróprias às sombras. Porque o melro joga com a sombra como um toureiro com o seu touro. Que se confunde, e isto não serve de metafísica.

Um corpo de mulher deitado sobre a longa tarde de inverno. Odor a cera queimada.

 

r.r.

 

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fio da tarde
27 June 08 12:24 AM

Tão clara é a demora do entendimento.

Por estar sentado no banco à espera do ruidoso comboio que fatiga o desenho da tarde.

Porque é sempre a última tarde.

Não conheço nem sei dizer que te amo.

Segurei na mão da mentira e contornei a miséria dos dias de razão. Tudo para te conhecer melhor.

Agora vêm todas as tardes.

Com o seu crepúsculo saltam do horizonte todos os comboios ruidosos de insegura imensidão de desencanto.

Nos vagões trazem a água que rega o meu milho.

 Juno/ r.r.

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salvação
04 June 08 01:23 AM

Depois de um instante

fiz um esforço por me lembrar de mim e de todos os dias que vivi 'não me importo ser o último'

se procurei um elixir encontrei uma anti-poesia

se adiei vi a escuridão.

 

O tempo é um recorte meticuloso de salvação

o meu peito respira leite, alimento.

tudo combina com tudo quando desejamos o limite.

 

Um sorriso é o que nos resta nesta estrada de roedores.

A salvação

A salvação

A salvação.

 

r.r.

 


 Alessandro di Mariano Filipepi, 'Sandro Botticelli

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comboio nocturno
07 May 08 12:01 AM

Às vezes pergunto-me porquê fingir

Que algo nos acalmará a existência depois da despedida

Muitas vezes procuro, sozinho na noite, os rumores e murmúrios da memória indecisa

Só ouço um comboio ao longe a caminho do nada, a caminho de um lugar para depois partir verdadeiramente.

Somos seres relacionais, carnes que pertencem a uma só, dentes e unhas que são de ti e que em mim estão cravadas. 

Por isso o comboio continuará a passar todas as noites, com o seu ruído, certo do vazio.

Para depois dormir...

 r.r.

 

 

Marcel Duchamp, Sad Young Man on a Train (1911-12)
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