SOL
Flor de Chuva

Havia um qualquer sentimento de inconformidade naquele autismo a que se obrigava. Não sabia se por medo, se por incapacidade de comunicar. Sentia-o, apenas e sofria deixada, displicentemente, ao abandono de si própria. Nesses instantes de angústia e de desentendimento, o egoísmo falava mais alto e cercava-se de muros de solidão e de pactos de silêncio. Consumia-a aquela inépcia para desatar pontas aos nós que as partidas da vida lhe pregavam. Era um sentimento letal, abrasivo que raiava o intolerável. Mas também, que conforto poderia existir quando o frio, chegado de mansinho, se aninhava, sem decoro, no sofá da própria vida?

Num jogo de toca e foge perscrutava o espelho mas não havia forma de encontrar o sorriso. Tudo quanto distinguia era um rosto baço, um olhar sem brilho e um rol de pedaços desfeitos dos sonhos que se permitira sonhar. Confinada à exiguidade daquele reflexo, esquadrinhava porquês. Todavia, não se detinha. Era um esforço inútil, pensava. Conhecia, de antemão, todas as respostas…

O inferno, nunca seria a urbe. O inferno era ela própria. Ela e aquela coisa enorme e funda, sem nome nem sentido, que abjurava mas que a incendiava, que ardia e se propagava dentro dela, como um tenebroso foco de infecção…

À beira do abismo, vacilava, entregue aos seus pensamentos. Os olhos cerrados cediam sob o peso das pálpebras. Sentia-se uma flor de chuva plantada no topo mais íngreme de uma falésia violentamente açoitada pelo mar. A partir da praia, era um minúsculo ponto sem importância, muitos poderiam observá-la mas só com um enorme esforço alguém a poderia alcançar…

Tendergirl

(In “Ilhas de Solidão – Estórias da Vida de Uns e Outros”)

No dia em que a manhã se perdeu

 

No dia em que a manhã se perdeu nos olhos desorbitados da insónia

O rumor ainda persistia

 O coração ainda derramava sementes de dúvida

 O sangue ainda bombeava amor ferido…

 

 Em todas as pedras do caminho soluçavam as razões sem razão da discórdia

 E em todas havia um lastro de tragédia antiga por explicar

 Uma espécie de dor fina reatada de entre a folhagem ressequida da memória

 Gemendo mazelas de percursos já gastos, a contas com os sulcos do rosto.

 

 No dia em que a manhã se perdeu no roldão das palavras interditas

 A esperança era um pássaro ferido, de asas cortadas

 Que se arrastava penosamente no fio do pensamento

 E em todos os lugares da cidade o riso era um cravo a trespassar o silêncio.

 

 No dia em que a manhã se perdeu entre a cinza e os destroços da saudade

 A tristeza desceu furtiva sobre as brandas águas do rio

 E amanheceu de noite!

 

Tendergirl

 

A um só tempo, sou verbo e sou engenho…

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A um só tempo, sou verbo e sou engenho…

Menina-sobressalto e mulher-serenidade,

Anjo de asas decepadas e fera ferida acossada

Silêncio cavo e rouco e eco de grito esquecido.

 

 A um só tempo, sou rodopio e sou vertigem…

Vagar contemplativo e pressa de partir,

Seixo risível na farta poeira dos caminhos

e frágua resistente à erosão febril dos tempos.

 

A um só tempo, sou raiva surda e sonho alinhavado…

E assim avanço, desafiando lobos e abocanhando a desdita!

Submersa na luz que se ergue das sombras

Expondo em rimas nuas e tácteis o húmus abundante e intangível da alma

neste navegar constante entre a ausência e a dor.

 

A um só tempo, sou a esfinge lunar e o trilho luminoso da manhã…

E assim avanço, na invenção clara dos dias!

Desenhando asas coloridas para os bailados tristes de todas as borboletas insípidas

que sobrevoam a Primavera

Mergulhando, a pique, na branca espuma dos oceanos turbulentos da vontade,

Qual âncora lançada, entre as verdades interditas e o verdume arrastado dos sofismas…

 

 Ambas, alegria e plangência, estampadas no rosto!

 

A um só tempo, sou maré viva e onda desfeita na orla morena da praia…

Mas é sempre de verde-água que cubro a nudez difícil das horas em que o desespero me vence

E é sempre de promessas floridas e de sorrisos frescos que me visto

quando todas as noites me ergo do meu leito em chamas

e a passos firmes caminho pelo ventre da vida

Serenamente…

A sede tomada ao tempo, fintando as farpas do destino!

 

Tendergirl

 

Em Tudo E Nada Me Vejo

Em vorazes carícias

ou no breve arrepio do vento

 

Nas esquinas do silêncio

ou na discreta tremura da mão

 

No sal que adensa o mistério

em marés de contradição

 

e tantas vezes, ao desacerto…

em quentes rumores de momento!

 

Em tudo e nada me vejo,

singelo bater de asa

 

Em tudo e nada, sorvendo

poesia e madrugada

 

Em tudo e nada papoila

de rubros ardores, germinada

 

Travo forte a amêndoa amarga…

língua à solta num céu em brasa!

 

Tendergirl

 

 

Poema da Iniciação

                        

 

Primeiro fui vínculo de parto sem nexo

Matriz de prantos,

Reflexo

Secreto assombro,

Sublimação

 

Das veredas da alma pari flores de poesia

Fui quimera distante,

Raiz de ousadia

Tracei rotas de sol em ruas de solidão.

 

Depois, fiz-me guerreira do tempo

Sem forte, nem escudo

Fui advento

Bailarina em pontas,

Ginete em contra-mão

 

Nas muralhas do silêncio aprendi a ser gaivota

Ateei fogo ao cansaço,

Briguei contra a derrota

Fiz da míngua, intemperança

Quebrei regras… fui excepção!

 

Tendergirl

Versos

Há versos que nos vestem de relento

Que nos espreitam entre rimas

Na paisagem

Que galgam rios

Aos silêncios de uma margem

Quando soletram

Letra a letra, trovas ao vento.

São versos como vertigem, em noite fria…

Que o luar desprende

De prantos e de cansaços

Pontes erguidas entre palavras,

Como abraços…

Versos com olhos de dizer a sombra

E de dizer o dia! …

 

Tendergirl

 

Muito Mais Brisa Que Gente

Muito mais brisa que gente, adjacente ao que se tece

Sou na alma inquieta do vento, quando sibila arredio

O poema convulso, fremente, lume que arde sem pavio

E no verbo, em contra mão, sangue e grito que estremece

 

Mas logo que em mim se anuncia, essa ânsia desmedida

Asseguro que me redimo, renasço da minha cruz

Promessa talhada a versos em diáfano corpo de luz

Ferro forjado á pressa, no esbraseado acinte da vida …

 

Tendergirl

 

A Sombra

Habita-me, a sombra,

Insidiosa como intrusa

Sulcando mágoas

Nas dores sentidas de outras eras

Dúbio acerbo,

Letal veneno,

Círculo de feras…

Promessa ignóbil,

Gérmen d’enganos em terra escusa.

E sem pudor, lança-se astuta

Sobre o meu Ser

Enraivecida, quebra vontades,

Vilipendia…

Esquissando pontes

Justapõe tristeza à agonia…

Evoca febres de cem mil vidas por viver!

 

Tendergirl

 

O Poeta

Finando,

O poeta invoca alento

Á alma

Onde a poesia dança e ri

E a cada despedida

Pulsa em si

O apuro com que sente

E esculpe o tempo.

 

Afunda-se nas feridas,

Forja o unguento

Sublima a comoção,

Oculta a sombra

Revela-se nas estocadas

Em que tomba

Fintando de improviso

O desalento.

 

Se chora … Se desespera …

…É sentimento!

E é tantas vezes vergado

Pelo que sente

Que sonha e vive a vida

Alheio… Ausente…

Do que vive enquanto sonha

Cada momento!

 

Tendergirl

 

Dualidades

   

Vem de lá ditosa,

a Alma

em diáfanos pezinhos de lã

sussurrar-me doçura e calma

aos mansos fulgores

da manhã

 

Mas logo que o Sol se desenha

sangrado,

na linha esbatida

cede a Alma,

enfeitiçada e prenha

ao desnude

de uma Lua atrevida

 

Tendergirl

 

Os Sons da Tua Ausência

        

Ao fundo, em silêncio dolorido

Estilhaço envenenado

Embuste de presente

Revolve-se o queixume

Acre,

Desprevenido…

Punhal que nesta ausência

Me esventra

E crava o dente

Tendergirl

Momentos

Cumpro-me de olhos cerrados

No mistério que embala e alenta

Quando o vento desliza em afagos

Na pele que o prazer reinventa

 

E sob os crus rigores do silêncio

Em horas que sangram a vontade

Aprimoro o Amor no incenso

Que furto ao verbo Saudade

 

Tendergirl

O Meu Reino

No sibilar livre do vento

peregrina sem chão nem idade

desenlaço as pontas ao tempo

rasgo as teias à saudade

 

E em meu reino de bruma e ilusão

entre charnecas de girassóis sem fim

sou rio basto de fulgor e paixão

da Nascente, à Foz... de mim!

 

Tendergirl

Closed...

Back again in September!!!! Have a wonderful time… Be happy!

 

Tendergirl

 

Insularidade

Este desalento

de bradar aos céus e cortar o vento

 

Esta rebeldia

de me saber ambígua… nem noite, nem dia

 

Este profuso suplício

de me sangrar à toa:

- Ossos do ofício!

 

Este fundo calabouço

mais fundo que a raiva, mais cavo que um poço

 

Esta verdade insofismável

Sede e fome de vínculo… gérmen de coisa instável

 

Esta louca intifada,

em mim doída, em mim cravada

 

Veneno doce, letal…

Projecto incerto… nem bem, nem mal

 

Esta praga que vai e volta…

Esta cruenta guerrilha…

Este sentir que sou mar, sentindo sempre que sou ilha! …

 

Tendergirl

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