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Conheci a Rosinha há mais de 20 anos, quando Herman José a desafiou para fazer parte do seu grupo de actores. Eu era uma miúda e a Rosinha ultrapassara os 50. O seu carisma era já fortíssimo e reinava como um véu de bonomia por entre todos os que com ela trabalhavam e conviviam.
Voltei a dar-me com ela uma década mais tarde, depois de ter lido os seus romances – a escrita foi sempre a sua maior paixão – e nunca mais esqueci um conselho que me deu.
Naquele tempo, o meu primeiro editor não me pagara os direitos de autor devidos, portanto eu vivia com os tostões contados, apesar do meu primeiro sucesso literário. Tinha-me convidado para lanchar em sua casa para trocarmos impressões sobre o que viria a ser o meu segundo romance. Bebemos chá e conversámos abertamente sobre o amor, o prazer, os filhos, a família, o amor e o casamento, a nossa condição de mulheres. O sentido de observação cirúrgico e o humor cortante combinados com a sua beleza intemporal, a voz suave e determinada e o sorriso longo provocavam um efeito hipnótico. Ela era uma espécie de super mulher e de super mãe de todos os de quem gostava. Estava sempre ocupada, mas tinha sempre tempo para nos ouvir e para ler o que escrevíamos. As suas críticas, ferozes ou encorajadoras, eram sábias e iluminadas, tal como ela.
A Rosa Lobato Faria era um observatório vivo da sociedade portuguesa, muito mais do que um espelho, porque andou sempre à frente do seu tempo e talvez por isso nunca ninguém se lembrasse da sua idade. A verdade é que quando vi noticiado no início desta semana que se encontrava internada devido a uma forte anemia, nem me passou pela cabeça que não resistisse. Há poucos meses, no lançamento do livro 13 Gotas ao Deitar, que escreveu em parceira com outras escritoras, confidenciou-me que estivera doente nos últimos dois anos e que tinha sido «uma grande maçada até conseguir resolver o assunto». Estava muito bonita, como sempre, lembro-me de pensar que talvez fosse imortal.
Quando soube que já não estava entre nós, fui bebê-la aos seus romances e adormeci a olhar para a memória nítida da sua cara tão bela; os olhos enormes, a boca de actriz de cinema e o cabelo sempre muito bem penteado, as mãos serenas e os seus abraços felizes e generosos.
A Rosinha nunca teve idade, tinha apenas estatuto, segurança, firmeza e coragem. Há poucos anos fomos convidadas para ir a uma feira do livro em Bragança e viajámos num ‘teco-teco’. Eu ia aterrorizada e foi ela que me serenou durante o voo, enquanto eu imaginava que queria amadurecer assim: com graça e suavidade, sem nunca perder a leveza nem a coquetterie.
Deixei para o fim o conselho porque este se transformou num lema para a minha vida. «Se descobrires qual a tua missão na terra e acreditares nela, nada te faltará. São aqueles que esquecem a sua missão que partem mais cedo». Penso muitas vezes nisto, penso no António Alçada e na sua missão de abrir a mentalidade burguesa, penso no Raul Solnado, o pai do humor em Portugal, e claro, agora penso na Rosinha e na sua vida cheia, tão cheia e tão completa que perdurará para lá da sua passagem na terra. Para mim, ela será sempre a Super Rosinha.
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A diferença entre ter sexo e saber fazê-lo é mais ou menos a mesma entre apanhar o metro do Intendente para o Rossio e atravessar o Atlântico num voo de longo curso em classe executiva. O sexo pelo sexo resume-se a uma função básica que se cumpre em poucos minutos. O sexo elaborado é outra coisa; é como entrar numa nave espacial, ultrapassar a velocidade da luz e pairar indefinidamente pelo cosmos.
Nem tudo o que dá trabalho também dá prazer e nem tudo o que dá prazer tem de dar trabalho, mas com o sexo, sem um não existe o outro. Para ser bem feito, requer tempo, devoção, técnica, talento e inspiração. Não é para despachar, é para cultivar. Não é para ir a correr, é para fazer devagar. E não é para quem quer receber, mas para quem sabe dar.
Uma amiga minha chama à prática cuidada e actos de prazer exercícios de amor. Dois corpos, mil gestos, um todo. Se o tempo pára mesmo ou os ponteiros invertem o seu sentido, isso nunca vi. Mas acredito, proclamo, professo e subscrevo que na cama, como em tantas outras coisas, o óptimo é inimigo do bom e quem já experimentou seda só volta ao algodão se não tiver outro remédio. Seda é seda. Tão bom como seda só veludo cristal. E o bom sexo tem esse toque, essa magia, esse je ne sais quoi de perfeição que a pele nunca esquece. Ainda que o desejo hiberne, a memória das células está lá, pronta para ser acordada ao primeiro gesto. E são muitas células a chamar para o mesmo lado.
O Bolero de Ravel não é das minhas peças sinfónicas preferidas, mas a sua arquitectura musical agrada-me: a mesma melodia vai sendo repetida languidamente à medida que cada instrumento entra na dança. O início é suave, pianíssimo, como uma canção de embalar, desenvolvendo-se em crescendo, até ao clímax, com a orquestra inteira em toda a sua pujança, terminando em fortíssimo. Em termos musicais chama--se um desenvolvimento amplificador.
O sexo bem executado pode ser isto, uma sucessão de pequenos gestos serenos e sincopados que vão formando um todo cada vez mais forte, cada vez mais intenso, cada vez mais belo. Não interessa tanto o que se faz, mas a maneira como se faz. O que prevalece não é o objectivo, mas tudo o que foi feito para o alcançar. Não há um fim, apenas uma pausa, porque nunca se fez tudo, ainda que o corpo sinta que foi muito longe, para lá da velocidade da luz, algures entre o Olimpo e o Nirvana, o ponto mais alto da meditação que dissolve o ego, no qual o ser consegue abandonar a solidão individual para se abandonar à entrega total.
A sensação de dissolução não tem preço nem explicação. É como o talento, que não tem culpa nem mérito. A prática de sexo de alta qualidade encerra uma sabedoria intuitiva que se vai cultivando com tempo e dedicação. E, se no meio de tudo isto, ainda houver amor, então chegamos ao Pleno, essa terra prometida entre o Olimpo e o Nirvana, que existe dentro de nós. Mas não basta querer, é preciso saber. E o Ravel é que sabia.
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Nunca fui ao deserto, por isso, tudo o que este me transmite vem da literatura e do cinema. Parece que é uma sensação única; quem lá vai nunca mais deixa de pensar naquilo, como se a areia entrasse para o sistema sanguíneo. Os seus habitantes são bravos, livres e indómitos. Mas eu, que não sou dada a grandes espaços, não sinto esse apelo, até porque acredito que há outros desertos difíceis de atravessar, em relação aos quais o ser humano não tem outra escolha que não a de encher o cantil do optimismo, de respirar fundo, de se proteger do vento e do sol o melhor que puder e de seguir em frente, mesmo que não queira.
Durante a vida há muitas viagens que não se escolhem. A travessia do deserto emocional é uma delas – viuvez, divórcio, fim de uma relação, mudança de cidade ou de país; seja qual for o motivo, a verdade é que a vida às vezes nos obriga a passar algum tempo sem ninguém ao lado. Um amigo meu escritor que passou vários anos da sua existência sem uma relação estável dizia que a maior liberdade, e também a mais triste, é chegar ao fim do dia e não ter ninguém à nossa espera. Afinal, quer queiramos quer não, não nascemos para a solidão, ainda que escritores, músicos, pintores e artistas em geral não possam viver sem ela. Uma coisa é escolher a solidão para poder trabalhar melhor, outra coisa é uma pessoa escolher casar-se com ela. Não conheço nenhuma alma criativa e brilhante que tenha encontrado na solidão o seu par. E aqueles que caíram nas suas malhas não são felizes. Vivem conformados, mas todos admitem que a felicidade está noutro lugar.
O Miguel Esteves Cardoso escreveu que é de duas solidões escolhidas que nasce a melhor companhia. Atravessar um deserto, seja ele qual for, implica disciplina, defesas, bons livros e bons amigos. Nunca é igual a travessias anteriores, nem mais fácil, nem mais difícil. É apenas o que tem de ser, para se poder chegar ao outro lado da vida quando alguém não quis ou não soube ficar do nosso lado. Pessoalmente, prefiro uma travessia tranquila, com oásis e sem camelos, com bússola e sem mapas, um dia atrás do outro, devagar e sem miragens. Acredito que o importante é fazer tudo com calma, contrariando o tempo com lentidão e perícia.
Os rios, ao contrário dos desertos, ensinam-me mais coisas; correm sempre para um lugar qualquer e, mesmo quando secam, os sulcos permanecem à espera das próximas chuvas. A água que neles corre nunca é a mesma e se correr demasiado depressa, não conseguimos ver o fundo.
Existe um lago africano cujo nome agora me escapa que, na estação das chuvas, cresce seis vezes de tamanho e pode inverter o curso do rio que o alimenta. Também devem existir histórias de amor assim, gosto de acreditar que afinal tudo é possível.
É verdade que nem todos os desertos vão dar ao mar, mas é bom saber que por baixo da areia correm rios subterrâneos. Quem sabe, um dia, vou mesmo ao deserto e gosto daquilo. O melhor da vida é nunca sabermos o que vem a seguir.
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Jorge Luis Borges, considerado por muitos o pai da literatura moderna, dizia que o escritor escreve sempre o mesmo livro. Talvez isso também se aplique a alguns realizadores de cinema que conseguem declinar em diferentes filmes os mesmos temas. Falo de Wong Kar-Wai, celebrizado com Disponível para Amar, de 2000, que continua a história do mesmo herói em 2046, de 2004, retomando o tema dos amores perdidos em My Blueberry Nights de 2007. Revisitar filmes que amamos é igual a reler livros que nos marcaram; a memória arquivou o essencial, o simples acto de a reavivar já nos traz prazer e conforto.
O herói de Disponível para Amar é um homem abandonado pela mulher que se apaixona por uma vizinha bela, casada com o mesmo homem que fez com que a sua mulher partisse. É um filme de uma extrema poesia e beleza que encerra a tristeza inerente a uma grande história de amor.
Todos os grandes amores são invariavelmente trágicos, porque quem ama muito sofre sempre mais, como se amar mais implicasse sempre angústia, quer enquanto o vivemos plenamente e sentimos que o podemos perder, quer depois do amor, quando não queremos e nem sequer sabemos como encarar os dias. Há quem descreva o fim de um grande amor como uma derrocada, porque a sensação de não ficar pedra sobre pedra é a mais comum. Ao longo do filme, este homem é bem educado, belo, afável, atencioso e meigo.
Tem o coração partido de orgulho, mas sente amor por uma outra mulher e é isso que o salva do desespero. Em 2046, o mesmo homem já não é o mesmo: como o coração passa a ser apenas um músculo, o seu corpo e espírito actuam em conluio para seduzir mulheres que não ama e que acaba por desprezar emocionalmente. A natureza mostra-nos que um animal só ataca quando está com fome ou ferido. É o medo que nos faz avançar, atacamos para não sermos atacados, enquanto lambemos as feridas na caverna. As mulheres choram com as amigas, os homens magoados embebedam-se e desenvolvem mecanismos de evasão fácil: a noite é propícia a equívocos e encontrões sexuais, o álcool e a droga emprestam uma sensação de leveza e amanhã é outro dia.
Um homem que não consegue amar vive encarcerado numa cela de solidão cuja chave se perdeu. É um homem diminuído porque até pode gostar de mulheres, mas não gosta das mulheres. Um homem com o ego ferido é como um leão com uma pata partida; ele não admite ajuda de ninguém e, quando se levanta, não quer que o vejam a coxear. Atacará por medo, por orgulho, por desespero. Voltando ao filme, o maior desespero do herói é a incapacidade de se entregar. Pior do que não ser amado é não ter capacidade para amar. A alma seca, como uma árvore morta.
Em My Blueberry Nights encontramos outro homem, conformado com a ausência do amor. De certa forma, ele concluiu o processo de aprendizagem que somos obrigados a fazer quando a solidão se torna o único caminho possível. Essa serenidade triste irá permitir-lhe apaixonar-se novamente. Devagar, um bocadinho de cada vez, como quem avança num terreno que pode estar minado.
Quanto tempo precisa,afinal, um homem para voltar a estar disponível para amar? Ninguém sabe, muito menos ele. A única coisa que todos sabemos é que amanhã é outro dia.
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Ando um bocado em baixo. A chuva não se cansa de cair, o frio prende-me os movimentos, o Jorge Palma nunca mais lança o disco novo e já ninguém faz festas de garagem com papel celofane envolto em abat-jours de veludo e dois pratos de pick-up onde os slows alternavam entre os pirosos e os muito bons. A isto chama-se nostalgia da juventude. Já dou comigo a dizer frases como ‘no meu tempo’ ou ‘quando os telefones tinham fios’. Embirro com tecnologias sofisticadas, usar um iPhone ainda me parece tão complicado como pilotar uma nave espacial, não me entendo com agendas electrónicas e por isso teimo no velho filofax cujas recargas felizmente ainda se fabricam, ainda gosto de andar de mão dada, de escrever cartas de amor, de sonhar que o Mister Right existe e tenho muitas saudades de dançar slow.
Onde estão os Chicago, os 10CC, a Roberta Flack, o Cat Stevens e o Gilbert O’Sullivan? O que é feito dos Bee Gees, dos Barclay James Harvest e dos Supertramp? Porque é que já ninguém me canta ao ouvido ‘how deep is your love’? No Verão passado, assisti a um concerto da Jacinta e nem queria acreditar quando ela começou a entoar os primeiros versos ‘I know your eyes in the morning sun/I feel you touch me in the pouring rain’. Entrei imediatamente em êxtase. E foi quando chegou ao verso ‘You belong to you and me’ que dei por mim a pensar há quanto tempo é que não dançava um slow, a não ser em casamentos, e deu-me vontade de chorar. E como a Jacinta estava lá ao fundo e não me podia ver, chorei mesmo, mas nunca lhe contei porque ela é boa rapariga e depois ficava preocupada com estes meus ataques de sensibilidade que têm tanto de sinceros como de fulminantes.
Por que já ninguém dança slow? As pessoas ainda se apaixonam, os livros que contam histórias de amor continuam no top de vendas, as comédias românticas mantêm as plateias cheias e os meios modernos de comunicação virtual estão pejados de corações a bater e de flores a nascer. O amor continua a vender, na moda, nas campanhas de perfumes, nas séries da Fox e nas novelas. Parece que andamos todos à procura do mesmo – todos queremos amar e ser amados, todos sonhamos com momentos cinéfilos perfeitos, um a correr em direcção ao outro em câmara lenta num prado verdejante ou numa praia tropical, e a magia desses eternos clichés mantém o nosso coração fresco e em constante processo de reciclagem. Mas, então, por que passamos mais tempo a conversar por chat do que sentados no sofá ao lado uns dos outros, por que nos é cada vez mais fácil teclar ‘amo-te’ e mais difícil dizer a quatro olhos ‘gosto de ti’?
Devia ser formado um movimento mundial em favor da recuperação dessa brilhante instituição que é o slow. As pessoas deviam ser obrigadas por lei a dançar pelo menos um por semana, uma vacina contra a falta de graça do dia-a-dia cinzento. Cada país podia financiar campanhas publicitárias que apelassem à prática do mesmo com mensagens do género ‘um slow por dia dá saúde e alegria’. O mundo desacelerava um bocado, criava-se um dia para o slow, à semelhança da casual friday. E tenho quase a certeza de que seríamos todos mais felizes. Talvez mais ridículos, mas, no fim do dia, mais felizes.
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O Natal trouxe-me a nostalgia dos filmes antigos portugueses nos quais Vasco Santana, Maria Matos, Ribeirinho e António Silva desfilam como pérolas e as intrigas de bairro são o prato forte dos argumentos. Em todos eles existe uma menina prendada, um pai extremoso, um galã de cabelo empastado, uma velha invejosa e A Menina da Rádio não é excepção. A heroína é Maria Eugénia, talento descoberto pelo realizador Artur Duarte, que se lança na ribalta em grande estilo depois do sucesso do seu primeiro filme.
Afita, como diria a minha avó se ainda fosse viva, estreou no S. Luís a 3 de Julho de 1944, poucas semanas depois do desembarque das tropas americanas nas praias da Normandia. Enquanto o resto do mundo se esforçava para desmantelar as Forças do Eixo, a máquina de propaganda do Estado Novo fazia passar um documentário antes do filme sobre a inauguração do Estádio Nacional, com desfiles de mais de 10 mil atletas de braço estendido e olhar vítreo para Salazar e Carmona, num espectáculo que teria feito as delícias do Fuhrer.
Voltemos à heroína feita estrela: Maria Eugénia, que nem sequer era muito bonita nem tinha uma grande voz, torna-se popular graças ao seu sorriso ingénuo e ao inequívoco ar de boa rapariga, daquelas que as senhoras da Mocidade Portuguesa Feminina gostariam de ver desfilar entoando com militância o hino «Lá vamos, cantando e rindo/levados, levados sim ».
Maria Eugénia, que completou 17 anos durante as rodagens, foi levada por um sonho. A seguir rodou mais alguns filmes em Portugal e em Espanha e poderia ter sido a nossa Ginger Rogers, se não tivesse nascido portuguesa. É que, chegada aos 21 anos, urgia assentar e seguir os trâmites de todas as meninas que naquela época queriam ser vistas como prendadas e virtuosas, modelos sociais de um regime obcecado com a disciplina, a moral e os bons costumes.
Por um lado, teve mais sorte do que a maior parte das suas contemporâneas: depois de viver o seu momento de glória preparou-se de corpo e alma para enfrentar as glórias domésticas, dando e exemplo à sua geração, pois nessa época parecia não haver maior realização do que a do matrimónio e constituição de família. Porém, ao ouvir o depoimento da ex-actriz, senti uma enorme revolta por ela, a mesma que sinto quando penso em Alma Maher, a quem Gustav exigiu que renunciasse à música para ser sua esposa e que nunca deixarei de sentir sempre que oiço ou presencio destinos de mulheres que sacrificam o seu talento individual por um casamento.
Porque é que ainda hoje há mulheres que se sentem condenadas a aceitar que um homem lhes ponha a pata em cima, impedindo-as de se realizarem profissionalmente? Porque ainda há homens que continuam a acreditar que, não só têm o direito de exercer tal prepotência sobre as mulheres, como o dever de o fazer?
Em casa dos meus pais, enquanto íamos para o liceu, a minha mãe ia para a faculdade, onde concluiu a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. E não foi por isso que deixou de ter tempo para nós. O valor da independência sempre falou mais alto. As patas, essas eram só as do cão, quando voltava da rua num dia de chuva.
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Não conheço nenhuma mulher da minha geração que não fantasie com o George Clooney e que não sonhe com um homem com sentido de humor. Muitas procuram um pai que as oriente e as proteja, outras um provider que as sustente e lhes pague todos os caprichos, outras ainda apenas um que as ature, mas a maior parte afirma não prescindir de uma companhia com sentido de humor, como se este sentido desse sentido aos outros sentidos da vida em comum de casal.
É verdade que um homem com graça pode tornar-se a melhor das companhias, mas é se não tiver a mania que é engraçado. Os que estão sempre a dizer piadas e que fazem gala em contar anedotas à razão de uma por cada três minutos de convívio podem tornar-se muito cansativos.
Um homem que diz a piada inesperada no momento certo é bem vindo, já o espertinho que tem uma graça na manga para cada situação do dia-a-dia, qual coelho mecanizado que salta da cartola, é uma seca. E dentro desta categoria existem duas subespécies terríveis: o Agradador e o Presumido.
O primeiro é charmoso, melífluo, meloso e graxista; nunca se esquece de comprar trouxas de ovos para os sogros e afirma sempre com grande entusiasmo que o bacalhau ainda está melhor do que no ano anterior. Finge que adora a família da mulher, distribui presentes vistosos por todos os sobrinhos e primos afastados da dita e encara a quadra natalícia como uma missão que deve ser cumprida com zelo e sucesso, ambicionando receber da mulher um bónus no final do ano.
O presumido é aquele tio, primo ou sobrinho que aproveita a época natalícia para se tornar o centro das atenções, monopolizando todas as conversas com o seu tema preferido, o próprio, gabando-se dos seus feitos profissionais ou destilando piadas parvas e fáceis sobre o Governo, o casamento entre homossexuais e a cimeira de Copenhaga. Nem sempre é alto, bonito e espadaúdo, mas acha-se estupendo, o que o faz caminhar de peito inchado e olhar para o próximo de sobrolho ligeiramente levantado, qual fidalgo falido saído directamente de um romance do Eça.
Agradador e Presumido não raro entendem-se às mil maravilhas porque o primeiro identifica o segundo assim que passa a fazer parte de uma nova estrutura familiar, e desde logo aprende a dizer-lhe o que este quer ouvir, criando entre si um forte laço simbiótico que consiste em ‘eu afago o teu o teu ego e tu afagas o meu’, com carinho semelhante aos dos símios quando catam a piolhada uns aos outros.
Na verdade, até há mulheres que aturam tanto uns como os outros, accionando um mecanismo feminino apurado ao longo dos milénios – a negação. Ou seja, elas sabem que eles são insuportáveis, mas fingem que não percebem.
Já eu, que não fantasio com o Clooney, prefiro o strong silent type, que quando abre a boca é para dizer algo pertinente e subtil. Peru, só assado, recheado e no prato, acompanhado com arroz de passas.
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Os homens sentem-se frequentemente ameaçados com os amigos das mulheres, a não ser que tenham, também eles, mulheres entre os que consideram bons amigos. E conheço cada vez mais mulheres que não dispensam o seu leque de amigos do sexo masculino, uma espécie de harém casto que é gerido com sabedoria e amizade. São em geral independentes, pouco treinadas nas práticas inerentes à conjugalidade e intolerantes a qualquer tentativa de jugo masculino, com uma vida profissional absorvente e pouca vocação doméstica. O harém pode incluir relações antigas que se converteram em amizades, relações fraternas que nunca pisaram o risco, primos, irmãos e gays.
Mas, afinal, por que é que as mulheres precisam tanto de ter amigos homens? Porque, ao contrário do que acontece com o universo masculino, elas têm mais dificuldade em encontrar um grupo coeso, a irmandade da qual os homens tanto se orgulham. Sendo por natureza mais individualistas e mais competitivas em termos afectivos do que os homens, as mulheres acabam por sentir mais a solidão. É comum uma mulher ter duas ou três grandes amigas que são apenas conhecidas entre si. Já os homens operam muitas vezes pela lógica de grupo. Estando muito mais habituados à convivência, seja a jogar ou a ver futebol, chegam a movimentar-se em bandos e, mesmo depois de assumir uma vida familiar, escapam-se com frequência para se juntarem à manada que sempre foi o porto seguro.
As mulheres não têm a mesma sorte. Quando os filhos chegam, já está instituído que são elas a tomar contas deles e da casa, tenham ou não um homem por perto. Há, no entanto, factores que as unem : vizinhança, filhos da mesma idade, experiências semelhantes, interesses comuns. Mas estes factores nem sempre chegam para criar laços de amizade profundos. A verdade é que as mulheres dispõem de muito pouco tempo para elas e, quando finalmente o encontram, o cansaço vence a vontade. Por isso é tão importante ter amigos do sexo masculino, com quem seja possível construir uma amizade límpida e reparadora. Alguém que nos conhece bem, a quem não precisamos de fazer charme, que já nos viu chorar algumas vezes, que partilha as nossas vitórias e nos oferece ombro e companhia nos momentos mais áridos das nossas vidas.
Enquanto os homens procuram esse mesmo conforto em conversas curtas com os seus pares entre a quarta e a quinta imperial na cervejaria da esquina, as mulheres preferem muitas vezes uma companhia masculina que lhes consiga explicar como funciona o cérebro masculino, ao mesmo tempo que nos faz sentir que somos interessantes e atraentes, sem que para isso ponham a mão na nossa perna.
Os bons amigos homens são tão importantes na vida de uma mulher como um bom advogado, um bom contabilista ou um bom cabeleireiro. Sem eles, a nossa vida seria infinitamente mais difícil. Mas para que essa amizade não se estrague, há que separar as águas e deixar o sexo de fora. Mais vale uma sólida amizade a preto e branco do que uma idílica amizade colorida. É que o tempo tende a esbater as cores e há misturas que acabam quase sempre por correr mal. É tão arriscado como experimentar sardinhas com chantilly.
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Sinto-me sempre um bocado defraudada cada vez que dou uma entrevista a um jornalista que não leu o meu livro. É mais ou menos como ter sexo sem dar beijos. Há coisa mais sensaborona do que usufruir do corpo de outra pessoa sem começar pelo início? O beijo é a porta de entrada, o começo da viagem, o passaporte carimbado, o indício certo para o que pode acontecer. A forma como se dá e como se sente um beijo diz quase tudo sobre o que pode vir a seguir. É como uma clave numa pauta de música, que queremos que seja sempre de sol.
Ainda era uma miúda quando o filme Pretty Woman fez sucesso. Lembram-se do que a protagonista fazia aos seus clientes? Então relembro o que ela não fazia: não lhes dava beijos. Os beijos estavam guardados para alguém especial, tornando a boca o último reduto do seu corpo. A recusa em dar beijos, ainda que se pratiquem as mais variadas acrobacias sexuais, tornou-se um mito urbano e reforçou ainda mais a mística do beijo. Quem não se lembra da maravilhosa colagem de beijos no fim de Cinema Paraíso? Todos os beijos cortados e proibidos foram ali recuperados num dos mais belos e comoventes momentos do cinema. Não sei quantos eram, mas nunca me pareceram demais. Dar beijos é uma das minhas actividades preferidas. Acredito que os beijos têm poderes curativos, milagrosos, mágicos e insondáveis. E se conseguisse descrever o que se pode sentir quando se dá um bom beijo, acreditem que me sentiria uma escritora vitoriosa, pois o mais simples e o mais sensitivo constitui a matéria mais difícil para quem trabalha com palavras, logo, abstracções.
Não quero desfiar adjectivos nem alinhar metáforas para tão belo acto, quero antes lançar a seguinte questão: porque é que os jornalistas, cujo trabalho básico é investigar, nem sequer se dão ao trabalho de ler o livro que serve de motivo para a entrevista? É como ir entrevistar o Jorge Palma sem ter ouvido o seu ultimo disco, ou fazer um perfil ao António-Pedro Vasconcelos sem ter assistido a nenhum dos seus filmes.
António Lobo Antunes, conhecido pelo seu mau feitio, a partir de certa altura deixou de dar entrevistas a jornalistas que não tivessem lido o livro que acabara de lançar. E por isso chegou a abandonar conversas bem intencionadas, porém ignorantes, com entrevistadores que não tinham cumprido a sua parte.
Eu também gostava de ter mau feitio, de me levantar e de virar as costas a quem tem a lata de me entrevistar a propósito do meu novo livro sem o ter lido e que argumenta com grande desplante, não li, mas a entrevista também não é só sobre o livro. Então é sobre quê? Sobre a minha maravilhosa colecção de sapatos? Sobre a febre reumática que tive aos 9 anos? Sobre como aprendi a fazer crepes com chocolate?
Caros colegas, já chega de tanta incompetência. Um jornalista que não leu o livro do autor que vai entrevistar é como um parceiro que não sabe o que está a fazer, e que nem sequer percebe que tudo começa num beijo. Os resultados, esses não enganam, uma má entrevista é tão chata e sensaborona como uma má queca. Com a agravante de ficar impressa.
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Nunca percebi o fascínio de praticar actividades lúdicas a dois em locais esdrúxulos, a não ser que a necessidade imperiosa assim o dite. É claro que todos tivemos as nossas aventuras do tempo da adolescência em bancos traseiros de carros, vãos de escadas, barraquinhas de praia, miradouros e WC’s, mas convenhamos que a partir de uma certa idade não há nada que se compare a uma cama.
A cama é espaçosa, é plana, é confortável, é quentinha e é nossa, mesmo que seja a de um hotel. E a cama está num quarto que tem porta, porta esta que pode ser fechada à chave, evitando assim invasões menos desejadas por parte da descendência ou da empregada que precisa de uma assinatura para recepcionar uma carta registada. Sempre fui a favor da cama. Para dormir, para curar gripes, para ler, para tomar o pequeno-almoço ao fim de semana ou durante as férias, e claro, para o resto. E, já agora, se passamos um terço da nossa vida na cama, que seja numa das boas, com um colchão nem demasiado mole que nos ataque as cruzes, nem demasiado duro que nos faça sentir a mulher de um faquir; camas de pregos até podem constituir uma experiência interessante, mas tais ousadias só se recomendam a quem tenha outras tendências mais originais.
Uma boa cama é um clássico que nunca passa de moda: é como o Dean Martin ou o Sinatra. Não digo que o Cincotti não seja bom músico e há duas décadas que aprecio o talento do Harry Connick, Jr., mas o Dean é o Dean e resto é conversa. Basta ouvir um dos seus grande clássicos, Sway, com versos tão extraordinários como bend with me, sway with ease, only you have the magic technique, when we sway I go weak, I can hear the sound of violins long before it begins, sway me smooth, sway me now para ficar logo com vontade de ir dançar com o nosso par, primeiro na vertical e depois na horizontal.
Uma boa cama é como um bom standard americano: nunca envelhece, nunca enjoa, nunca farta e nunca passa de moda. Podemos mudar as capas do edredon, acrescentar mais almofadas, comprar colchas novas ou mesmo renovar-lhe a cabeceira, mas uma cama clássica nunca perde o seu encanto, seja em que língua for. A Amália também cantava lindamente em inglês e o Dean dava cartas sempre que interpretava baladas do seu país de origem. Quem não se lembra da eterna canção Volare?
Voltando ainda ao grande Dean, não resisto a recordar nesta crónica recheada de boa disposição outro verso de um êxito que o celebrizou, Ain’t That a Kick in The Head, quando ele explica how lucky can one guy be quando encontramos quem goste de nós, exemplificado com versos de grande sabedoria, if this is just the beginning, my life’s gonna be beautiful, she’s telling me we’ll be wed, she’s picked out a king size bed, I couldn’t feel any better or I’d be sick.
Ora cá está, uma cama king size, sólida e firme, de preferência com seis pés, para muitas noites de alegria, prazer e risota, não vale mais do que uma de corpo e meio com dois séculos e meio de existência, velha e a ranger por todos os lados? Afinal, se é um terço da nossa vida que está em jogo, ao menos que seja passado o melhor possível.
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Gosto dos instantes em que sentimos que nos podemos apaixonar por aquela pessoa que conhecemos há 30 segundos, há seis meses ou há um ano e com quem intuímos desde o primeiro instante uma espécie de construção do mundo anterior à nossa própria existência, como se em uma qualquer encarnação anterior já tivéssemos sido alguma coisa um ao outro – marido e mulher, irmão ou irmã, tanto faz –, provocando uma imediata sensação de bem-estar que nos faz sentir em casa.
A sensação de familiaridade instantânea é um dos primeiros passos para a verdadeira intimidade, embora quase nunca se chegue tão longe. Isto porque entre os instantes mágicos que fazem de um serão de conversa uma noite perfeita, e o que se pode, ou não, construir a seguir, vai uma distância sempre impossível de prever. A construção de um caso que pode vir a tornar-se uma história de amor tem muito de alquímico e pouco de entendível: ou há clic, ou não há, ou no dia seguinte nós acordamos e sentimos ‘é isto que eu quero’, ou então ficamos sem saber o que pensar até que a vida se encarrega de arrumar as peças do puzzle e pôr tudo no seu devido lugar. Ainda assim, o tal clic também nos pode enganar: às vezes desejamos tanto apaixonar-nos que o nosso subconsciente força esse clic; outras vezes temos tanto medo de nos entregarmos, que tapamos os ouvidos para não o escutar. O que há mais para aí são corações partidos, com lesões invisíveis que nenhum cirurgião cardio-toráxico pode curar. Só o tempo e grandes doses de amor continuadas conseguem apagar as lesões mais profundas.
Depois do clic, ou do desclic, o melhor é guardar para sempre esses momentos únicos e relembrá-los sempre que isso nos traz alegria, ou arrumá-los numa gaveta ordeira da memória se nos perturbam. Em tempos chamei-lhe guardar a doçura, mas depois enjoei-me do substantivo para sempre, e do adjectivo então é melhor nem falar – sempre que alguém me diz que sou uma pessoa muito doce, dá-me logo vontade de pegar numa G3 e de me transformar num mercenário em causa própria. Por isso, agora uso apenas o verbo guardar, de mãos dadas com o verbo ganhar, porque acredito que tudo o que se vive em paz e de coração aberto é sempre uma mais-valia, mesmo que o desfecho não seja aquele com que sonhámos.
Incorrendo na prática pirosa da auto-citação, regresso às páginas do meu último romance, onde escrevi: «Uma das melhores coisas da vida é que ela muda. Nem sempre muda quando queremos ou desejamos, mas muda». Há muito que aprendi a aceitar que a realidade é evolutiva; o que é verdade hoje pode não o ser amanhã. Assim, há clics que anunciam um amor homérico, o qual mais tarde se transforma em pó, cinzas e nadas, e outros, mais tímidos, que se vão repetindo até se transformarem numa grande história de amor.
Gosto de acreditar que entre projecções, sonhos e desejos, entre clics enganadores e desclics trapalhões, há os abençoados, os que duram para sempre.
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Chega hoje às livrarias O Dia em que Te Esqueci, romance em forma de carta de amor que constitui a segunda parte do que foi um dos livros que mais tocou os meus leitores, O Diário da Tua Ausência, publicado em 2006.
Não é apenas o tempo real que separa as duas obras que conta, mas sobretudo o tempo interior vivido entre uma e a outra narrativa. É que, ao longo destes três anos de aprendizagem do mundo, sinto que amadureci mais do que em toda a década anterior. Será disto que falam as pessoas quando se referem ao encanto dos 40? Não faço ideia, nunca me apercebi de que já tinha 40 anos, nem quando os fiz, nem sequer agora. O que sinto é que o tempo passa devagar quando estamos a aprender alguma coisa, mesmo que mais tarde pareça ter voado à velocidade da luz. O tempo é o maior ladrão jamais conhecido, escrever é uma das poucas formas de o conseguir enganar.
Atravessamos um período bizarro no qual os comportamentos de fuga para a frente já são um traço comum em todas as gerações. Na literatura multiplicam-se as histórias em que a fantasia e a paranormalidade são prato do dia. Para mim tudo se resume ao fenómeno de virtualidade generalizada – ou deveria chamar-lhe ‘virtualite’, patologia caracterizada por um comportamento de reclusão sistemática do indivíduo que comunica com o mundo exterior através de um computador? O problema é que o mundo exterior também se encontra atrás de um ecrã. A amizade corpórea foi substituída pelas redes sociais que parecem ser hoje a única forma de conhecer pessoas, e é preciso saber navegar. No entanto, vejo à minha volta muita gente à deriva, sem rumo nem destino, à procura de qualquer coisa que já ninguém sabe bem o que é.
Este mundo virtual não entra em O Dia em que Te Esqueci. O romance descreve os sentimentos de uma mulher que luta para esquecer uma paixão idealizada, enquanto a vida lhe vai apresentando outras formas de amor e de amar. Será ficção, como sempre são todas as histórias que qualquer escritor cria, recria, inventa ou recicla, e por isso mesmo irreal. E no entanto, enquanto escrevia a história e descrevia o que ela sentia, também eu, enquanto actriz da escrita, vivi debaixo da sua pele, também eu fui aquela mulher.
Flaubert disse «Madame Bovary c’est moi», para explicar que entre autor e personagens se criam laços de reciprocidade que mais parecem armadilhas. O papel do escritor é transfigurar sentimentos e vivências e redimensioná-los à luz de um novo entendimento. Cada autor tem os seus instrumentos de expressão, tal como cada músico escolhe o seu. A minha matéria-prima é a infinita riqueza dos sentimentos humanos, para lá da alegria e da tristeza, do amor e da inveja, da gratidão e da angústia, da amizade e do ciúme. O ser humano é eterno na medida em que o seu mundo interior se revela ilimitado. E é por isso que esquecer alguém que já amámos se torna tão difícil. Esquecer é uma forma de morrer, ninguém quer viver a morte ainda vivo.
Falar e escrever sobre os sentimentos será sempre o princípio, o meio e o fim, razão primeira e última da minha escrita. Afinal, vampiros, segredos e fantasmas, todos vivem dentro de nós.
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Há certas coisas em relação às quais nós, mulheres, somos mesmo chatas; não gostamos de homens que falam alto, não gostamos de homens que mentem e não gostamos de homens que usam as calças debaixo dos braços. Quanto mais velho é um homem, mais puxa as calças para cima, chegando a apertar o cinto à altura do esófago. Mas o pior é quando eles têm 30 anos e já o fazem: dá vontade de as puxar para baixo, até estas se situarem na linha do razoável. Pessoalmente, gosto de ver os jeans descaídos ao nível do ilíaco, desde que a rapaziada tenha volume para os segurar, mas se estiverem um pouco acima também estão bem, presas aos sovacos é que não.
Outro ponto fraco dos homens com o qual nós embirramos é o calçado, vulgo sapatos. Ou porque são foleiros, ou porque estão velhos, ou porque não vêem graxa há três estações, ou porque são quadrados à frente, ou porque são demasiado grandes e fazem lembrar os dos palhaços, ou então demasiado pequenos e por isso pouco inspiradores… Um homem que não anda bem calçado não merece descalçar-se no nosso tapete.
E há ainda a questão das gravatas: demasiado berrantes, de má qualidade, de padrões inconcebíveis, com o nó demasiado pequeno, mais compridas atrás do que à frente… e, por fim, a roupa interior.
A roupa interior de um homem diz tudo sobre ele: se são boxers largos, de pano e com coelhos, carrinhos ou foguetões, estamos perante um beto clássico da Lapa; se são pretos, justos e insinuantes, estamos perante um homem moderno com uma profissão semi-artística; se são brancos, de popelina, à antiga, então trata-se de um tio em estado puro, daqueles que usam e abusam do binómio Porsche-charuto e que ouvem Julio Iglesias na A5. E se, por azar, se apresenta de slips, então nenhuma mulher no seu perfeito juízo voltará a atender-lhe o telefone.
Embora a maior parte das mulheres ligue muito mais à roupa do que a maior parte dos homens, o facto é que eles gostam de nos ver bem vestidas, mas estão 90% do tempo a pensar como é que seremos despidas, pelo que é muito mais importante o que mostramos do que o que vestimos. Um decote bem estudado é capaz de provocar muito mais impacto do que uma bela gabardina da Prada comprada nos saldos e que mesmo assim custou uma fortuna.
Os homens são nisto, como em tantas outras coisas, muito mais fáceis de agradar: eles gostam de um sorriso simpático, de um cabelo bonito e pouco elaborado, de uma pele fresca e de roupa que deixe insinuar algumas formas, mas não em demasia.
No entanto, há um aspecto em que também eles são sensíveis: os sapatos. Vale a pena investir em bons sapatos e boas botas, porque o que calçamos pode ter um alcance erótico que nós, mulheres, nem sempre medimos. Nunca esquecerei o que disse um amigo meu no dia em que conheceu uma amiga minha, muito bonita e elegante, que vestia uma saia comprida e um camisola de gola alta: só lhe deixava ficar as botas, sussurrou o garanhão entre dentes, enquanto a fixava de longe, protegido pelo véu das baforadas de um cigarro. No caso relatado, o predador não levou a sua presa em sorte, mas foi sem dúvida um daqueles momentos em que aprendi um pouco mais sobre o sexo masculino. Eles querem-nos vestidas para nos poderem despir, e o resto é paisagem.
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W HEN I’m with you I’m immortal. Há frases nas quais tropeçamos para sempre. A questão da imortalidade ligada ao amor sempre me fascinou. Não acredito na imortalidade, embora não ponha de parte a ideia de que outras dimensões existirão, para as quais a nossa alma poderá ir depois da morte física. Mas vejo-a sob outro prisma, enquanto capacidade de perdurar no tempo, de poder falar ao coração de novas gerações através das palavras que deixarei escritas, depois de o meu invólucro voltar a ser pó e cinzas. No entanto, este é apenas o aspecto menos importante: para mim, tem mais a ver com os instantes vividos aqui e agora que nos fazem elevar-nos a ponto de vivermos a ilusão de tocar a eternidade.
Quando os nossos filhos nascem, quando sentimos que finalmente amamos alguém incondicionalmente, quando um abraço nunca acaba ou um olhar não mais se desprende, imaginamos que estamos perto, muito perto de tocar uma força maior, superior a nós, que domina a existência. E essa força é uma forma de imortalidade.
Vejo a imortalidade como algo impossível de dissociar do amor, sinto que existe uma ligação profunda entre o amor físico ou espiritual e a eternidade. A vivência de um amor pleno torna-o imortal. Como disse o sábio poeta Vinicius, «o amor é eterno enquanto dura». O problema é que, ao vivermos um amor pleno, recusamo-nos a encarar a finitude inevitável desse amor, aspiramos a viver para sempre nessa nuvem que nos protege do mundo e nos preserva em paz e harmonia. Viver um amor pleno impele-nos a cumprir a via sacra dos passos ditos como fundamentais para que os alicerces desse amor sejam lançados à terra e a partir deles se edifique toda uma nova vida. Estamos todos mais ou menos socialmente formatados para pensar que é preciso casar, que é preciso procriar, que é preciso mostrar ao outro e aos outros que existe um compromisso assumido, tantas vezes sem limites, ‘até que a morte nos separe’, esquecendo-nos que não são estatutos nem papéis que nos asseguram o que mais desejamos. Uma certidão de casamento não funciona como uma garantia bancária; se as coisas correrem mal, não temos onde ir recuperar todo o investimento perdido.
ACREDITO que o futuro nunca está escrito. Acredito que o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã. Acredito que quando iniciamos uma viagem nunca sabemos onde chegaremos nem como vai acabar. Que o que vivemos hoje, aqui e agora, é que conta, e que o que recusamos viver em nome de um futuro incerto que desconhecemos nos vai trazer mais arrependimento do que se o vivermos. Não acredito em promessas para a vida, em relações perfeitas, no mito dos contos de fadas que apregoa a máxima ‘felizes para sempre’. Prefiro pensar que serei feliz enquanto conseguir amar incondicionalmente, enquanto puder ver o meu filho a rir, enquanto sonhar que posso voltar a ser mãe, enquanto os abraços dos que amo nunca terminarem.
Tocar a eternidade é tocar os momentos perfeitos que vivemos, agarrá-los com ganas e vivê-los sem medo e com liberdade, sem pensar no depois, sem equacionar se estamos certos ou errados, se o que sentimos é verdade ou mentira.
Verdade é o que se sente e o resto não passa de um conjunto de cogitações cartesianas inventadas para nos complicar a existência. Um amor pleno está acima de qualquer cogitação, está acima de nós e é por isso mesmo que vale e pena vivê-lo.
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Olho em volta e assisto a um fenómeno recorrente: pessoas solteiras ou divorciadas ‘encaixam’ com a primeira pessoa que aparece, desde que esta se mostre disponível para se dedicar a elas. É uma espécie de jogo das cadeiras, a ver quem é que se aguenta mais tempo sem ficar de fora. Hoje em dia, estar só, no sentido de não ter uma relação amorosa, ainda é um handicap; é como se uma pessoa tivesse perdido a sensibilidade nos dedos de uma mão por causa de um desastre de carro ou a Natureza a tivesse privado de três quartos da audição.
Não ter alguém acaba por funcionar como uma espécie de estigma de solidão e de abandono, qual carta transviada de um baralho extinto. E, com o tempo, quase se assemelha a uma doença crónica. Finalmente, quando alguém aparece, amigos e família rejubilam porque ter alguém representa uma conquista, uma vitória, um troféu que se exibe em reuniões familiares e eventos sociais.
É CLARO que é óptimo ter alguém, mas não por estes motivos. Não há nada melhor do que acordar todos os dias de manhã, olhar para quem ainda dorme na almofada ao lado e sentir aquele conforto de sabermos que amamos alguém que também nos ama.
E quando chega o fim do dia, depois do trabalho, do trânsito, dos imprevistos e de todas os pequenos nadas que nos carregam a existência, é bom ouvir o ruído tranquilizador da chave à porta. Essa chave significa que o nosso alguém também teve um dia cheio de pequenos dramas quotidianos e que, no regresso a casa, tem tanta vontade de descansar da vida lá fora como nós.
Mas isso só é mesmo bom se quem estiver ao nosso lado não for uma solução de recurso, uma substituição preguiçosa, uma segunda escolha. Não basta que seja boa pessoa, que vele por nós, que nos faça companhia e nos troque as lâmpadas e a água ao cão. É preciso mais e melhor.
É preciso que esse alguém seja quase tudo na nossa vida e não apenas uma presença passageira que nos distrai mas não nos alimenta, como uma comédia romântica ou uma casa de Verão alugada ao ano. É preciso que o conforto e o prazer se misturem nas doses certas: só prazer, cansa. Só conforto, entedia.
AS SEGUNDAS escolhas podem trazer-nos a ilusão da segurança, mas se o coração, a cabeça e o estômago não estão lá por inteiro, mais tarde ou mais cedo, a miragem ganhará contornos daquilo que é: a projecção torpe de uma quimera sonhada. E quem escolhe por defeito – por medo da solidão, por pensar que não merece melhor, porque não quer sentir-se a tal carta do baralho extinto –, mais cedo ou mais tarde, será obrigado a enfrentar os seus próprios fantasmas.
Não acredito em segundas escolhas, nem acredito que elas nos tragam a verdadeira paz. Uma paz conformada não resiste muito tempo ao desafio de uma nova guerra. E, para quem não sabe estar só, o melhor é ir aprendendo. Mais vale só do que acompanhado por um alguém qualquer que tanto podia estar ao nosso lado como ao lado de outro alguém. Refugo, só nas lojas de velharias.