SOL
Teoria e prática do esquecimento
20 November 09 12:00 PM

Chega hoje às livrarias O Dia em que Te Esqueci, romance em forma de carta de amor que constitui a segunda parte do que foi um dos livros que mais tocou os meus leitores, O Diário da Tua Ausência, publicado em 2006.

Não é apenas o tempo real que separa as duas obras que conta, mas sobretudo o tempo interior vivido entre uma e a outra narrativa. É que, ao longo destes três anos de aprendizagem do mundo, sinto que amadureci mais do que em toda a década anterior. Será disto que falam as pessoas quando se referem ao encanto dos 40? Não faço ideia, nunca me apercebi de que já tinha 40 anos, nem quando os fiz, nem sequer agora. O que sinto é que o tempo passa devagar quando estamos a aprender alguma coisa, mesmo que mais tarde pareça ter voado à velocidade da luz. O tempo é o maior ladrão jamais conhecido, escrever é uma das poucas formas de o conseguir enganar.

Atravessamos um período bizarro no qual os comportamentos de fuga para a frente já são um traço comum em todas as gerações. Na literatura multiplicam-se as histórias em que a fantasia e a paranormalidade são prato do dia. Para mim tudo se resume ao fenómeno de virtualidade generalizada – ou deveria chamar-lhe ‘virtualite’, patologia caracterizada por um comportamento de reclusão sistemática do indivíduo que comunica com o mundo exterior através de um computador? O problema é que o mundo exterior também se encontra atrás de um ecrã. A amizade corpórea foi substituída pelas redes sociais que parecem ser hoje a única forma de conhecer pessoas, e é preciso saber navegar. No entanto, vejo à minha volta muita gente à deriva, sem rumo nem destino, à procura de qualquer coisa que já ninguém sabe bem o que é.

Este mundo virtual não entra em O Dia em que Te Esqueci. O romance descreve os sentimentos de uma mulher que luta para esquecer uma paixão idealizada, enquanto a vida lhe vai apresentando outras formas de amor e de amar. Será ficção, como sempre são todas as histórias que qualquer escritor cria, recria, inventa ou recicla, e por isso mesmo irreal. E no entanto, enquanto escrevia a história e descrevia o que ela sentia, também eu, enquanto actriz da escrita, vivi debaixo da sua pele, também eu fui aquela mulher.

Flaubert disse «Madame Bovary c’est moi», para explicar que entre autor e personagens se criam laços de reciprocidade que mais parecem armadilhas. O papel do escritor é transfigurar sentimentos e vivências e redimensioná-los à luz de um novo entendimento. Cada autor tem os seus instrumentos de expressão, tal como cada músico escolhe o seu. A minha matéria-prima é a infinita riqueza dos sentimentos humanos, para lá da alegria e da tristeza, do amor e da inveja, da gratidão e da angústia, da amizade e do ciúme. O ser humano é eterno na medida em que o seu mundo interior se revela ilimitado. E é por isso que esquecer alguém que já amámos se torna tão difícil. Esquecer é uma forma de morrer, ninguém quer viver a morte ainda vivo.

Falar e escrever sobre os sentimentos será sempre o princípio, o meio e o fim, razão primeira e última da minha escrita. Afinal, vampiros, segredos e fantasmas, todos vivem dentro de nós.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 1 Comentário(s)    
Uma questão de estilo
13 November 09 12:00 AM

Há certas coisas em relação às quais nós, mulheres, somos mesmo chatas; não gostamos de homens que falam alto, não gostamos de homens que mentem e não gostamos de homens que usam as calças debaixo dos braços. Quanto mais velho é um homem, mais puxa as calças para cima, chegando a apertar o cinto à altura do esófago. Mas o pior é quando eles têm 30 anos e já o fazem: dá vontade de as puxar para baixo, até estas se situarem na linha do razoável. Pessoalmente, gosto de ver os jeans descaídos ao nível do ilíaco, desde que a rapaziada tenha volume para os segurar, mas se estiverem um pouco acima também estão bem, presas aos sovacos é que não.

Outro ponto fraco dos homens com o qual nós embirramos é o calçado, vulgo sapatos. Ou porque são foleiros, ou porque estão velhos, ou porque não vêem graxa há três estações, ou porque são quadrados à frente, ou porque são demasiado grandes e fazem lembrar os dos palhaços, ou então demasiado pequenos e por isso pouco inspiradores… Um homem que não anda bem calçado não merece descalçar-se no nosso tapete.

E há ainda a questão das gravatas: demasiado berrantes, de má qualidade, de padrões inconcebíveis, com o nó demasiado pequeno, mais compridas atrás do que à frente… e, por fim, a roupa interior.

A roupa interior de um homem diz tudo sobre ele: se são boxers largos, de pano e com coelhos, carrinhos ou foguetões, estamos perante um beto clássico da Lapa; se são pretos, justos e insinuantes, estamos perante um homem moderno com uma profissão semi-artística; se são brancos, de popelina, à antiga, então trata-se de um tio em estado puro, daqueles que usam e abusam do binómio Porsche-charuto e que ouvem Julio Iglesias na A5. E se, por azar, se apresenta de slips, então nenhuma mulher no seu perfeito juízo voltará a atender-lhe o telefone.

Embora a maior parte das mulheres ligue muito mais à roupa do que a maior parte dos homens, o facto é que eles gostam de nos ver bem vestidas, mas estão 90% do tempo a pensar como é que seremos despidas, pelo que é muito mais importante o que mostramos do que o que vestimos. Um decote bem estudado é capaz de provocar muito mais impacto do que uma bela gabardina da Prada comprada nos saldos e que mesmo assim custou uma fortuna.

Os homens são nisto, como em tantas outras coisas, muito mais fáceis de agradar: eles gostam de um sorriso simpático, de um cabelo bonito e pouco elaborado, de uma pele fresca e de roupa que deixe insinuar algumas formas, mas não em demasia.

No entanto, há um aspecto em que também eles são sensíveis: os sapatos. Vale a pena investir em bons sapatos e boas botas, porque o que calçamos pode ter um alcance erótico que nós, mulheres, nem sempre medimos. Nunca esquecerei o que disse um amigo meu no dia em que conheceu uma amiga minha, muito bonita e elegante, que vestia uma saia comprida e um camisola de gola alta: só lhe deixava ficar as botas, sussurrou o garanhão entre dentes, enquanto a fixava de longe, protegido pelo véu das baforadas de um cigarro. No caso relatado, o predador não levou a sua presa em sorte, mas foi sem dúvida um daqueles momentos em que aprendi um pouco mais sobre o sexo masculino. Eles querem-nos vestidas para nos poderem despir, e o resto é paisagem.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 9 Comentário(s)    
Tocar a eternidade
06 November 09 12:00 AM

W HEN I’m with you I’m immortal. Há frases nas quais tropeçamos para sempre. A questão da imortalidade ligada ao amor sempre me fascinou. Não acredito na imortalidade, embora não ponha de parte a ideia de que outras dimensões existirão, para as quais a nossa alma poderá ir depois da morte física. Mas vejo-a sob outro prisma, enquanto capacidade de perdurar no tempo, de poder falar ao coração de novas gerações através das palavras que deixarei escritas, depois de o meu invólucro voltar a ser pó e cinzas. No entanto, este é apenas o aspecto menos importante: para mim, tem mais a ver com os instantes vividos aqui e agora que nos fazem elevar-nos a ponto de vivermos a ilusão de tocar a eternidade.

Quando os nossos filhos nascem, quando sentimos que finalmente amamos alguém incondicionalmente, quando um abraço nunca acaba ou um olhar não mais se desprende, imaginamos que estamos perto, muito perto de tocar uma força maior, superior a nós, que domina a existência. E essa força é uma forma de imortalidade.

Vejo a imortalidade como algo impossível de dissociar do amor, sinto que existe uma ligação profunda entre o amor físico ou espiritual e a eternidade. A vivência de um amor pleno torna-o imortal. Como disse o sábio poeta Vinicius, «o amor é eterno enquanto dura». O problema é que, ao vivermos um amor pleno, recusamo-nos a encarar a finitude inevitável desse amor, aspiramos a viver para sempre nessa nuvem que nos protege do mundo e nos preserva em paz e harmonia. Viver um amor pleno impele-nos a cumprir a via sacra dos passos ditos como fundamentais para que os alicerces desse amor sejam lançados à terra e a partir deles se edifique toda uma nova vida. Estamos todos mais ou menos socialmente formatados para pensar que é preciso casar, que é preciso procriar, que é preciso mostrar ao outro e aos outros que existe um compromisso assumido, tantas vezes sem limites, ‘até que a morte nos separe’, esquecendo-nos que não são estatutos nem papéis que nos asseguram o que mais desejamos. Uma certidão de casamento não funciona como uma garantia bancária; se as coisas correrem mal, não temos onde ir recuperar todo o investimento perdido.

 

ACREDITO que o futuro nunca está escrito. Acredito que o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã. Acredito que quando iniciamos uma viagem nunca sabemos onde chegaremos nem como vai acabar. Que o que vivemos hoje, aqui e agora, é que conta, e que o que recusamos viver em nome de um futuro incerto que desconhecemos nos vai trazer mais arrependimento do que se o vivermos. Não acredito em promessas para a vida, em relações perfeitas, no mito dos contos de fadas que apregoa a máxima ‘felizes para sempre’. Prefiro pensar que serei feliz enquanto conseguir amar incondicionalmente, enquanto puder ver o meu filho a rir, enquanto sonhar que posso voltar a ser mãe, enquanto os abraços dos que amo nunca terminarem.

Tocar a eternidade é tocar os momentos perfeitos que vivemos, agarrá-los com ganas e vivê-los sem medo e com liberdade, sem pensar no depois, sem equacionar se estamos certos ou errados, se o que sentimos é verdade ou mentira.

Verdade é o que se sente e o resto não passa de um conjunto de cogitações cartesianas inventadas para nos complicar a existência. Um amor pleno está acima de qualquer cogitação, está acima de nós e é por isso mesmo que vale e pena vivê-lo.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 9 Comentário(s)    
Segundas escolhas
30 October 09 12:00 AM

Olho em volta e assisto a um fenómeno recorrente: pessoas solteiras ou divorciadas ‘encaixam’ com a primeira pessoa que aparece, desde que esta se mostre disponível para se dedicar a elas. É uma espécie de jogo das cadeiras, a ver quem é que se aguenta mais tempo sem ficar de fora. Hoje em dia, estar só, no sentido de não ter uma relação amorosa, ainda é um handicap; é como se uma pessoa tivesse perdido a sensibilidade nos dedos de uma mão por causa de um desastre de carro ou a Natureza a tivesse privado de três quartos da audição.

Não ter alguém acaba por funcionar como uma espécie de estigma de solidão e de abandono, qual carta transviada de um baralho extinto. E, com o tempo, quase se assemelha a uma doença crónica. Finalmente, quando alguém aparece, amigos e família rejubilam porque ter alguém representa uma conquista, uma vitória, um troféu que se exibe em reuniões familiares e eventos sociais.

 

É CLARO que é óptimo ter alguém, mas não por estes motivos. Não há nada melhor do que acordar todos os dias de manhã, olhar para quem ainda dorme na almofada ao lado e sentir aquele conforto de sabermos que amamos alguém que também nos ama.

E quando chega o fim do dia, depois do trabalho, do trânsito, dos imprevistos e de todas os pequenos nadas que nos carregam a existência, é bom ouvir o ruído tranquilizador da chave à porta. Essa chave significa que o nosso alguém também teve um dia cheio de pequenos dramas quotidianos e que, no regresso a casa, tem tanta vontade de descansar da vida lá fora como nós.

Mas isso só é mesmo bom se quem estiver ao nosso lado não for uma solução de recurso, uma substituição preguiçosa, uma segunda escolha. Não basta que seja boa pessoa, que vele por nós, que nos faça companhia e nos troque as lâmpadas e a água ao cão. É preciso mais e melhor.

É preciso que esse alguém seja quase tudo na nossa vida e não apenas uma presença passageira que nos distrai mas não nos alimenta, como uma comédia romântica ou uma casa de Verão alugada ao ano. É preciso que o conforto e o prazer se misturem nas doses certas: só prazer, cansa. Só conforto, entedia.

 

AS SEGUNDAS escolhas podem trazer-nos a ilusão da segurança, mas se o coração, a cabeça e o estômago não estão lá por inteiro, mais tarde ou mais cedo, a miragem ganhará contornos daquilo que é: a projecção torpe de uma quimera sonhada. E quem escolhe por defeito – por medo da solidão, por pensar que não merece melhor, porque não quer sentir-se a tal carta do baralho extinto –, mais cedo ou mais tarde, será obrigado a enfrentar os seus próprios fantasmas.

Não acredito em segundas escolhas, nem acredito que elas nos tragam a verdadeira paz. Uma paz conformada não resiste muito tempo ao desafio de uma nova guerra. E, para quem não sabe estar só, o melhor é ir aprendendo. Mais vale só do que acompanhado por um alguém qualquer que tanto podia estar ao nosso lado como ao lado de outro alguém. Refugo, só nas lojas de velharias.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 13 Comentário(s)    
Princesas bravas
23 October 09 12:00 AM

A culpa é da princesa Aurora que esperou 100 anos pelo Príncipe Filipe. O mito do Príncipe Encantado atravessa toda a existência feminina, tal como o da princesa atravessa a masculina. Se nós sonhamos com um rapaz alto e espadaúdo, bem educado, que tenha qualidades de bom pai e até saiba fazer o jantar sem deixar a cozinha em clima de profunda revolução bolchevique, eles também imaginam a mulher perfeita, com a altura certa, a boca certa, a idade certa, o peito certo, o rabo certo e tudo no lugar.

Não sou contra os mitos: pelo contrário, acredito na sua força motora e impulsionadora e concordo com o poeta quando ele diz que de cada vez que um homem sonha o mundo pula e avança. Até pode avançar, mas enquanto isso também roda sobre si mesmo e é essa rotação perpétua que nos mantém vivos e com os pés bem assentes na terra.

 

Os amores platónicos são óptimos para a literatura, para a poesia, para escrever canções e pintar quadros, para fumar charros e ficar a vegetar em casa a olhar para o ontem que já passou e para o amanhã que ainda não chegou – e que se revela incerto e vazio quando o nosso objecto amoroso mora longe ou já não dá notícias há mais de uma semana –, mas depois não têm nenhuma utilidade prática. De que nos serve um príncipe extraordinário se não reina no nosso lar? Qual o interesse de desejar ardentemente um homem que não dorme na nossa cama? Tempo gasto a sonhar com quimeras impossíveis de concretizar é tempo perdido; como eu costumo dizer às minhas amigas solteiras, divorciadas, viúvas ou simplesmente encalhadas: «Stop looking for Mister Right and start looking for Mister Right Now».

 

Afinal, se calhar nem sequer existe essa coisa definitiva da Pessoa Certa Para a Vida. A pessoa certa para agora pode não ser a pessoa que vai ficar ao nosso lado no futuro, da mesma forma que há uns anos não teríamos tido a capacidade de apreciar naquele que nos acompanha as qualidades que agora nos são tão preciosas. Esta mania de querer tudo para a vida é um vício burguês e redutor; andamos todos à procura da casa da nossa vida, da viagem da nossa vida, do livro da nossa vida e do homem ou da mulher da nossa vida. Para quê? O melhor de uma viagem é viajar, tal como o melhor de amar é descobrir e aceitar, sem ter de prender o outro com promessas, papeladas, alianças ou anilhas, até porque quem ficar connosco por outras razões que não sejam as do coração, nem merece o nosso amor, nem nós merecemos o amor que possa ter por nós.

Por acaso até sou daquelas que acredita no Príncipe Encantado, embora reconheça alguma falhas de  base  no  mito  em  questão: porque é que ele demorou 100 anos a chegar? Então é porque ainda nem tinha nascido. Ou seja, podia  ser  bisneto  de  Aurora.  E não  esqueçamos  que,  durante 100  anos,  Aurora  e  todo  o  seu reino estiveram a dormir, o que lhe  fez  certamente  bem  à  pele. Seria este mito o advento da criogenização humana?

 

Entre passar 100 anos congelada à espera de um senhor que não se conhece nem do eléctrico e 50 anos a viver a vida com tudo o que ela tem de bom e de mau, quem é que escolhe ir para a arca congeladora? Só uma mulher muito parva, ainda que seja uma verdadeira princesa.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 23 Comentário(s)    
Balões e pedestais
16 October 09 12:00 AM

A minha amiga Maria Adelaide Amaral, portuguesa residente no Brasil, excelente escritora e argumentista premiada, costuma dizer que os homens sobre os quais escrevemos são muito mais interessantes nos romances do que na vida real. Segundo ela, a nossa tendência é para os idealizar, sobretudo quando na vida real não corresponderam às nossas expectativas.

Querida Adelaide, quanto mais tempo passa sobre a sua sábia observação, mais lhe dou razão. Quando amamos alguém, a idealização e inevitável: de repente, aquele homem, aparentemente semelhante a tantos outros, adquire as formas de um deus e a dimensão de um mito. Ele é o melhor em tudo, e por isso incomparável a qualquer comum mortal, entrando directamente para o campeonato das figuras mitológicas que vão de Apolo a Brad Pitt.

 

A idealização é um dos maiores alimentos da alma. Ao idealizarmos alguém, estamos não só a colocar o nosso objecto amoroso num pedestal, como nos pomos a jeito para a autopromoção; se o outro é, afinal, assim tão excepcional, é porque nós também somos. Nisto as mulheres são muito menos modestas do que os homens. Enquanto eles quase sempre sentem que não estão à altura de servir uma deusa, nós acreditamos quase sempre que somos as melhores do mundo. Ou seja, o amor provoca-lhes inseguranças e obriga--os a reconhecer as fraquezas ao espelho, ao passo que nós inchamos como balões sempre que pensamos que estamos a ser amadas.

 

A lição a tirar é que devíamos aprender a ser mais modestas, aceitando que nem todos os homens têm de nos amar, ainda que nos desejem. Amor e desejo confundem-se e fundem-se nas cabeças masculinas com grande facilidade, mas isso não impede que uma coisa seja uma coisa e a outra coisa seja outra coisa. Se nos desejam ao mesmo tempo que nos idealizam, então isso já pode ser um caminho para o amor. Mas ainda não é, porque o amor pode nascer de uma idealização, mas não sobrevive eternamente na estratosfera do imaginário; quando chega o momento em que o balão começa e esvaziar e os defeitos de um e de outro ressaltam à vista, ou se opera uma descida graciosa do pedestal, ou este cai como um castelo de cartas e ficamos reduzidos a pó, cinzas e quase nada.

A passagem do sonho para a realidade é dura e por vezes amarga. «Ele, afinal, fuma muito, ressona e esquece-se sempre de deitar a roupa suja no cesto», resmunga ela com as amigas. «Ela, afinal, nunca quer jantar fora e quando chego a casa tem a mania de já estar de pijama», remói ele enquanto está parado no trânsito.

 

O grande truque talvez esteja em nunca deixar de idealizar. Pensar que o outro pode melhorar nos defeitos que mais nos irritam. Mas para que isso aconteça, é preciso dizer-lhe o que sentimos, porque é que isto ou aquilo nos incomoda, em vez de deixar acumular a frustração até que esta nos devore a existência. Pelo sim, pelo não, mais vale falar. «Gosto disto mas não gosto daquilo, prefiro que faças isto em vez de aquilo, conto contigo para seres assim e não assado». Até porque se não o fizermos, como podemos esperar que o outro adivinhe o que pensamos?

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 11 Comentário(s)    
Uma questão de varão
09 October 09 12:00 AM

Antigamente as meninas casadoiras aprendiam a cozinhar, a fazer tricô, a bordar, a educar crianças e a governar o lar, treinavam um conjunto de qualidades que faziam as delícias do futuro marido. Ainda me lembro de uma iniciativa promovida pela Mocidade Portuguesa Feminina para incentivar as meninas prendadas da sociedade do antigo regime – o concurso da rapariga ideal.

Hoje as meninas continuam a sonhar com o casamento, mas em vez de cursos de bordados e de culinária, procuram outras formas de agradar aos homens e é aqui que entra em campo a dança do varão. O varão democratizou-se, deixou de ser feudo dos clubes de strip e de outras casas de fama incerta. Apesar do eterno estigma sobre as actividades lúdicas, nos meios mais evoluídos, uma prostituta não é exactamente o mesmo do que uma stripper e uma stripper não é exactamente o mesmo do que uma dançarina exótica, embora no final tudo venha a dar ao mesmo: fomentar o desejo sexual nos homens. Ora se umas botas altas, uma lingerie sexy e uma coreografia à volta de um varão de aço fazem os homens felizes, por que não fazer um show privado, surpreendendo a nossa cara-_-metade com uma exibição caseira, semiprofissional, esforçada e dedicada? É o conceito do home cinema, do ‘faça você mesmo’ ao serviço do prazer doméstico, a bem da harmonia do casal.

Há quem core de vergonha, se escude no pudor e diga ‘nem pensar’ enquanto tapa a boca com a mão, e há também quem se dedique de alma e corpo a entrar na dança. A frequência destes cursos é eclética: tanto podem ser candidatas a trabalhadoras de clubes nocturnos como contabilistas, professoras universitárias, advogadas, gestoras e até educadoras de infância. O varão faz com que as mulheres possam encarnar uma personagem, vestir a pele da outra, que é a sedutora, a amante, a devassa, a louca, a que usa o seu corpo para seduzir os homens e fazer deles o que quer. O mais irónico é que muitas das mulheres que frequentam as aulas do varão com devoção e afinco são as mesmas que receberam uma educação esmerada, intoxicada de preconceitos, que professava que uma senhora não faz isto e aquilo porque parece mal, bebendo desde pequenas, juntamente com o leite com chocolate, uma série de ideias feitas, entre as quais não consta enquanto qualidade a de saber pendurar-se no varão e descer de cabeça para baixo com as pernas abertas para depois se rebolar no chão, sempre de rabo espetado, e voltar a levantar-se para mais 30 voltas em redor do aço erecto.

 

Então por que razão aderem estas mulheres à dança exótica? Porque se querem sentir poderosas, porque querem libertar a fera que há nelas, porque se sentem livres, porque se divertem. E, já agora, porque os namorados e os maridos adoram. Nem sempre o assumem, poucas vezes o partilham com os amigos, mas a verdade é que também eles se divertem. Afinal, a teoria de Marco Paulo da lady na mesa e da louca na cama é sábia e certeira; se for possível juntar o dois em um, porque não? É tudo uma questão de varão.

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Em frente, direcção poente
02 October 09 12:00 AM

Eu tenho uma tartaruga que vive há quatro anos sozinha num pequeno aquário, em cima de uma mesa de vidro, em frente à televisão. Chama-se Porsche, porque sempre que a solto, palmilha a casa de uma ponta à outra com uma rapidez impressionante. Tenho quase a certeza de que se fizesse uma corrida entre a Porsche e um coelho federado em atletismo seria ela a vencedora. Porquê? Porque eu conheço bem a minha tartaruga, sei do que é capaz. E além disso não vive nenhum coelho em minha casa, federado ou amador.

As relações de amor também funcionam assim: também vivemos dentro de um aquário que nem sempre tem o perímetro e as condições que desejamos, também assistimos ao que se passa no mundo lá fora, também saboreamos o conforto de uma vida sedentária, mas se saltarmos para territórios por desbravar, podemos percorrê-los tão rapidamente quanto a Porsche. A questão que levanto, depois de uma dissertação aparentemente tão absurda como a da existência da minha tartaruga, é a maneira como encaramos o nosso aquário: enquanto ele representar o nosso habitat natural, o nosso território, aquele lugar do mundo onde nos sentimos em casa e onde sabe bem adormecer e acordar, está tudo bem. Mas o que a acontece se o aquário se transformar numa prisão domiciliária na qual mal nos podemos mexer? O que fazer quando o mundo lá fora pula e avança enquanto vivemos condenados a nunca sair do mesmo lugar?

 

Enquanto escrevo, a Porsche executa a sua corrida diária. Todos os dias ela nada em seco – que é como quem diz, sem sair do mesmo sítio – sempre em direcção a Poente. Já experimentei alterar a posição do aquário, mas a minha corredora de fundo não se desorienta, é o Poente que a chama, como se a corrida a levasse a algum lugar.

Quantas vezes não sentimos o mesmo numa relação amorosa? Quantas vezes não nos repetimos, na esperança de que o outro oiça e entenda o que lhe queremos dizer? Quantas vezes não pedimos coisas, para nós tão importantes, à espera que se tornem também importantes para o outro? E o que fazer quando o outro não ouve, ou ouve mas não entende, ou entende mas no fundo não respeita, porque não muda a sua actuação em função dos nossos desejos?

Eu sou parecida com a minha tartaruga; enquanto acreditar que se o meu caminho é por ali, vou continuar a seguir em frente, em direcção ao meu Poente. Prefiro manter-me no meu aquário, ainda que o mundo lá fora se agite, pule e avance. Prefiro saborear o meu território conquistado, aproveitar tudo o que há de bom no meu habitat natural e dar tempo ao tempo, ser paciente e não saltar da minha redoma, até porque o mundo cá fora nunca é exactamente como parece. As praias paradisíacas que vêm na capa do catálogo afinal têm muito vento, tubarões em vez de golfinhos e a água é mais fria do que a do meu aquário. Se um dia o vidro se partir, então desisto, não terei então outro remédio. Mas até lá, sigo em frente, mano-a-mano com a Porsche, sem entrar em competição com coelhinhos federados ou amadores.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 16 Comentário(s)    
O preço e o valor
25 September 09 12:00 AM

O que ganharam as mulheres com a independência financeira? Antes de pôr esta questão, gostaria de saber quantas mulheres podem afirmar que são, de facto, financeiramente independentes. Tirando as herdeiras, as bem divorciadas – ser bem divorciada também é uma vocação – e as que trabalham com sucesso por conta própria ou em cargos de chefia, as mulheres não estão ainda no patamar desejável de independência. Com a crise instalada, o retrocesso é inevitável. Há hoje muitos casais que não se separam porque não podem; o embate financeiro seria demasiado grande, sendo mais fácil viver – ou sobreviver – debaixo do mesmo tecto e rachar contas e responsabilidades, sobretudo quando há filhos.

Voltando às mulheres que já alcançaram o patamar tão desejado da independência, afinal o que ganharam elas? Autonomia quanto às decisões, liberdade total de movimentos, gestão livre do seu tempo, espaço e voz para fazer valer as suas vontades e desejos. Mas tudo isto tem um preço a pagar. O reverso da medalha é que os homens, das duas uma: ou se sentem ameaçados com tanta independência porque estão geneticamente programados para proteger e para dominar, ou então aproveitam para extrair alguns dividendos.

 

O que os homens ainda não entenderam é que as mulheres independentes são muito menos perigosas do que as outras, porque regem a gestão dos seus afectos de forma livre, não permitindo nenhum tipo de prostituição subliminar ou de subjugação financeira. Não se deixam vender a um tipo gordo e sem graça só porque anda de Porsche e vive numa casa de mil metros quadrados, nem admitem atitudes que revelem negligência, prepotência ou maus tratos baseados na velha lei: ‘eu é que pago por isso eu é que mando’.

Um casamento é juridicamente um contrato, mas não pode ser um contrato de trabalho. Um homem que se casa com uma mulher julgando que, por pagar as contas todas, faz dela gato-sapato, merece um bom advogado do lado dela quando chegar a hora da verdade – pois, se pensa que a comprou, então terá de pagar por ela até ao fim da vida, ainda que esta deixe de lhe aquecer os pés e de lhe fazer as vontades. E como qualquer jogo de interesses tem sempre os dois lados do espelho, também é legítimo que uma pistoleira profissional que se casa para ter um bom nível de vida e sacar ao marido tudo o que pode, saia do ringue com as mãos a abanar.

Então porque é que há ainda tantos homens que preferem uma pistoleira a uma mulher independente? Porque, em primeiro lugar, e por mais que lhes custe admitir, ou não percebem que estão a ser usados ou, ainda que o reconheçam, consideram mais seguro ter uma mulher com preço do que com valor.

 

A velha lei machista de ‘quem manda lá em casa é ela e nela quem manda sou eu’ ainda serve os homens. Eles estão geneticamente programados para proteger e mandar. Preferem saber que mandam do que não saber se mandam, sem perceber que, afinal, também está no código genético de uma mulher deixar-se proteger, ainda que não goste que mandem nela. Uma mulher com valor não está à venda por nenhum preço. Já uma senhora com preço pode ir parar ao outlet em dois tempos.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 16 Comentário(s)    
A armadilha da perfeição
18 September 09 12:00 PM

NA MINHA família conta-se a história de uma certa prima alta, magra, loira, muito bonita, fidalga dos quatro costados, que sonhava em casar-_-se com um homem alto, bonito, espadaúdo e abastado, também ele de pedigree imaculado, diplomata, e que guiasse um descapotável.

Naquele tempo, as meninas só saíam de casa acompanhadas pelos irmãos mais velhos e eram alvo de apertada vigilância. No entanto, ao que parece, a vigilância surtia nas raparigas o efeito contrário ao desejado; aos 20 anos queriam todas casar, quanto mais não fosse para sair debaixo da alçada de um pai severo e de uma mãe beata e obcecada pelas aparências. Muitas terão pago um preço muito alto, quando se depararam com maridos marialvas à antiga portuguesa que lhes diziam: «Eu caso-me mas continuo a fazer a minha vida». Para bom entendedor, meia palavra basta e dou graças a Deus por não ter nascido nessa época porque, das duas uma: ou tinha a sorte rara de encontrar um par que me respeitasse ou, então, enfiava um par de tabefes ao primeiro palerma que dessa forma se posicionasse e depois ninguém me passava o atestado de bom comportamento necessário para poder casar.

 

INFELIZMENTE, o homem ibérico é dado a este tipo de prepotências, tal como o árabe, o turco e o sul--americano, e engane-se quem pense que isso já não é bem assim; basta ler o último romance de Lucía Etxebarría, Cosmofobia, para perceber que há coisas que nunca mudam. A tendência dos homens para abusar das mulheres não escolhe época nem idade. Hoje apenas se fala – e escreve – mais sobre o assunto do que antigamente.

Voltando à prima alta, loira e bonita, uma espécie de Lauren Bacall em versão lusitana, ela esperou, avaliou pretendentes, desdenhou este porque lhe faltavam os brasões, o outro porque guiava um boca de sapo e outros tantos, que, embora reunissem algumas das condições desejadas, não preenchiam todos os requisitos por ela desejados, sonhados e idealizados. Não sei porquê, mas esta história remete-me para alguns directores de marketing que conheci ao longo da vida profissional, também eles obcecados em colocar o símbolo do certo em todos os itens de uma longa lista de atributos ou requisitos pretendidos para o sucesso de um determinado produto.

O creme Nivea nunca precisou destas parvoíces, já existia antes, servia para curar as assaduras provocadas pelas fraldas nos rabos dos pais destes directores de marketing. Isto para chegar ao ponto que me interessa e que é o seguinte: quem procura a pessoa perfeita baseando a sua busca num modelo abstracto acaba a sua vida emocional no abstracto, que é o limbo dos sonhadores que nunca conseguem cumprir os seus sonhos.

 

NÃO escolhemos por quem nos apaixonamos e, depois da paixão consumada, não escolhemos amar esta ou aquela pessoa. Podemos encontrar força suficiente para nos afastarmos de alguém que amamos e que nos faz mal, mas é impossível fingir que amamos alguém só porque essa pessoa preenche todos os itens da nossa folha de Excel. Da mesma forma que quem fica à espera que a pessoa certa apareça, corre o risco de acabar os seus dias solteiro e sozinho, como a bela prima.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 20 Comentário(s)    
Um homem não é um peixe
11 September 09 12:01 PM

Quem diz que é impossível uma mulher ter bons amigos homens? Eu tenho os melhores do mundo, entre maridos de amigas minhas, um ex-namorado da adolescência e vários homens com quem nunca troquei sequer um beijo, embora a nossa amizade seja feita de abraços.

O meu primeiro amigo foi o meu irmão mais velho. Ele tinha sempre tempo e paciência para me levar ao cinema e para me ir buscar às festas quando já estava farta de estar lá. Todos os dias apanhávamos o mesmo autocarro, o 33, ele saía na minha paragem, levava-me à porta do liceu e depois ia a pé para o liceu onde andava. Mais tarde, quando já tinha carta de condução e eu ainda não, dava-me boleia para a faculdade e saíamos à noite.

 

O MEU irmão foi o meu primeiro grande amigo homem e ainda hoje guarda esse estatuto intocável e inalterável. Talvez tenha sido com ele que aprendi a confiar na amizade masculina. Depois, vieram os amigos da praia onde passava férias desde miúda, os amigos da faculdade, amigos que fui conhecendo aqui e ali. A maior parte entrou na minha vida há 20 anos, os que sobram, há dez. E todos os anos vou às festas de aniversário deles e estão sempre presentes quando lanço um livro, ou em outros momentos importantes da minha vida.

Eles fazem parte do meu património emocional. Tenho a sorte rara de apenas ter perdido um, o António Alçada. Todos os outros estão vivos e de boa saúde. Alguns vivem longe, outros a dez minutos da minha casa. Quando tenho um problema ou preciso de conversar, sei que o João, o Luís, o Jorge, o Miguel, o Gonçalo e o António terão tempo para me atender, para vir ter comigo, para me ouvir e para me ajudar. Eles estão presentes na minha vida desde sempre, já fazem parte da mobília.

 

A AMIZADE entre sexos não é evidente, mas é possível. Tem regras de ouro que devem ser respeitadas. Deve ser sincera, sem cerimónias e completamente a preto e branco, para que tudo seja claro e sem ambiguidades. Não há outra forma. Se um dos lados quiser colorir o cenário, corre o risco de estragar tudo. Deve ser como um filme mudo: nunca é preciso dizer tudo e as cores nunca se alteram, nem mesmo quando a película é restaurada. É o chamado preto no branco, agora e sempre, sem preço nem prazo de validade.

 E agora a pergunta que se desenha na cabeça de todos os leitores é: como se lida com a atracção física quase sempre inerente a uma relação onde existem pontos de vista em comum, proximidade e intimidade?

A resposta é simples: com bom senso e disciplina. Os peixes é que comem tudo o que se lhes atira para o aquário. Segundo a teoria da evolução de Darwin, já largámos as escamas há demasiado tempo para sermos assim tão básicos. Se a regra do preto no branco é quebrada, então não estamos a falar de uma verdadeira amizade.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 7 Comentário(s)    
Tudo azul
04 September 09 12:00 PM

O amor dá prazer, mas também dá muito trabalho. Uma relação a full time requer concentração, bom senso, paciência, tolerância e disponibilidade. A empatia é uma grande aliada, enquanto o sentido crítico e o confronto directo se podem revelar armas perigosas, funcionando como paus de dois bicos.

Na fase do encantamento inicial é tudo muito fácil, muito fluído, olhamos para o outro sob o véu da paixão e do desejo, estamos a descobrir em cada pormenor um universo inteiro de prazer, procuramos identificar-nos com ele em gostos, estilo de vida e interesses, desejamos a fusão de corpo e alma e acreditamos que, juntos, somos invencíveis.

Essa é a fase mais fácil, em que tudo é azul, às bolinhas e às florinhas. A vida é uma comédia romântica e somos nós quem escolhe a banda sonora. Pergunto-me frequentemente se é possível não abandonar esse estado de graça que existe no encanto mágico de todos os inícios.

Será que nós, que com a idade carregamos um porta-aviões de histórias antigas, traumas, medos e sonhos, podemos desenvolver a capacidade de atirar para trás das costas o que já sofremos ou o que não conseguimos, e recomeçar do zero, dando a volta por cima aos nossos problemas sem passar pela casa da partida?

 

Esse é um dos grande desafios das novas relações. Agora que o mundo das mulheres e dos homens já não é feito de ilhas, que é esperado que todos saibamos aceitar e perceber as nossas diferenças, será possível cruzar os nossos universos em função de um bem comum maior e mais harmonioso? O que é preciso mudar para aguentar os choques, as diferenças, as discussões parvas sobre assuntos menores, a guerra clássica do ‘eu quero isto e tu aquilo’, ‘o que é importante para mim não é para ti’?

Alguns casais de longa duração com quem convivo recomendam calma, ponderação, tempo e espaço se tal for necessário. Ainda que discutam, há sempre um dos elementos que cede temporariamente, esperando o momento certo para retomar a conversa. Cobardia ou dissimulação? Prefiro chamar-lhe habilidade e astúcia. Ao aceitarmos que o outro, por mais que nos ame, nem sempre está no nosso comprimento de onda, estamos a respeitá-lo. A paciência é irmã da empatia e prima da tolerância. Como me disse o meu querido pai há muitos anos, impotente perante a minha rebeldia adolescente: «Tenho de te aceitar como és, mesmo que não te perceba».

 

Apredemos a amar com os nossos pais, são eles que nos carregam (ou não) as baterias do amor. Depois apaixonamo-nos, enganamo-nos, desistimos, voltamos atrás, vamos ao tapete, passamos uma temporada no estaleiro das almas e voltamos à estaca zero quando nos apaixonamos outra vez e o mundo volta a ser azul.

Em cada desilusão há uma aprendizagem, em cada ruptura dá-se um passo em frente. O segredo em manter a capacidade de sonhar e de continuar a ver tudo azul, afinal, só depende de nós.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 3 Comentário(s)    
Setas e rotundas
28 August 09 12:00 PM

Ainvenção do GPS trouxe mais harmonia a uma vida a dois. Agora, em vez de mapas ilegíveis e de tentativas frustradas de adivinhar rotas, os homens ligam o aparelhómetro mágico e uma voz, geralmente feminina, vai indicando o melhor percurso. Os homens deliram, primeiro porque se trata de um brinquedo tecnológico sofisticado, e depois porque já não têm de passar pelo vexame de abrir a janela e perguntar a quem passa se o destino desejado é ou não por ali.

 

Nunca percebi porque é que os homens são tão relutantes em perguntar por onde é o caminho, da mesma forma que eles não devem conseguir entender porque é que embirramos com o GPS. É que nós, as mulheres, não gostamos de gadjets, gostamos de vestidos, de sapatos e de carteiras. Os homens divertem-se com o futebol e com corridas de automóveis, e nós com idas às compras e séries da Fox.

 

PARA eles, a fantasia é imediata e explícita, para nós, vem embrulhada em personagens como Mc Dreamy. Nós achamos o James Bond um grande cliché, enquanto eles acreditam que é o herói perfeito e sonham em ser como ele, em conduzir os mesmos carros, em viver as mesmas aventuras, em possuir as mesmas mulheres e, já agora, os mesmos gadjets.

 

Num mundo ideal, também existiria um GPS para os desentendimentos e discussões entre um casal. Porém, o que geralmente acontece é que um dos membros consegue dar a volta ao outro, ou ao assunto, ou aos dois, elas com perícia e habilidade, eles com paciência ou com prepotência.

Por outro lado, se existisse um sistema de GPS para orientar as discussões, com o tempo perderíamos a capacidade de encontrar os caminhos possíveis que conduzem ao entendimento tão desejado. Embora nem sempre se chegue a bom porto, uma discussão pode ser saudável se conseguirmos alargar o nosso grau de empatia no sentido de perceber o que é que o outro quer, o que é que é de facto importante para ele, e vice-versa.

 

Felizmente, há homens muito mais flexíveis e empáticos do que outros.

Um homem que não nos consegue ouvir é como uma parede de uma prisão: mais tarde ou mais cedo, só pensamos como a trepar para fugir. Já um homem que nos ouve e faz o esforço de nos entender, merece que façamos o mesmo por ele. Ainda que por vezes seja preciso dar três voltas à rotunda até escolher a melhor saída, o que ele nos diz pode ser a seta que indica o melhor caminho, mesmo que não nos pareça o mais evidente.

O importante é saber ouvir, fazer-se ouvir e deixar para a menina do GPS a orientação para outras rotas e os outros destinos.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 5 Comentário(s)    
Marte e Vénus
21 August 09 12:00 PM

Quando me pedem uma fórmula para definir o mundo masculino por oposição ao mundo feminino, costumo apontar como exemplo a diferença de conteúdos entre as publicações dirigidas a eles e a elas, pois estas são um espelho fiel dos fantasmas, medos e sonhos de cada um; nas femininas, fala-se de sexo, amor, comportamento, dietas, beleza, moda e sociedade; ao passo que, nas masculinas, são os carros, os gadjets, os jogos de computador, os vinhos, os casos de sucesso e heróis nacionais e internacionais, os gangsters e os terroristas e, claro, as mulheres bonitas e curvilíneas que enchem as páginas, onde aparecem anúncios de relógios e de bebidas misturados com curas milagrosas para a impotência e para  a disfunção eréctil.

 

A grande diferença está no approach e no tom utilizados. Enquanto nas revistas femininas os artigos revelam os medos e as fraquezas do mundo feminino, explicando como não envelhecer, como não engordar, como manter o casamento, como poupar nas despesas domésticas e como não perder o controlo dos filhos adolescentes, nas masculinas o discurso é vitorioso e optimista: o carro que tem mais cavalos, o melhor desportista do mundo, o bandido que andou mais tempo fugido, o maior golpe de todos os tempos. Tudo é épico, tudo é absoluto e tudo parece fácil para proporcionar ao leitor alguma adrenalina alternada com shots de segurança. Os problemas masculinos acima apontados só aparecem em pequenos anúncios, não sendo tratados como conteúdos. E  as mulheres são quase sempre vistas como brinquedos, objectos de prazer. Mesmo nas entrevistas mais sérias, o toque da visão masculina está sempre presente.

 

Às vezes, apetece-me fazer o exercício ao contrário e imaginar uma publicação em que nós, as mulheres, tratássemos os homens da mesma forma: eles seriam retratados em poses sensuais com sungas* coladas à pele, acompanhados por uma ficha técnica com indicação de altura, medidas de cintura, ancas e peito, cor de cabelo e de olhos, que música ouvem no ipod e qual o  hobby preferido – como se estas duas últimas informações  interessassem para alguma coisa.

 

Sejamos francos; por mais que os movimentos feministas continuem a tentar impor a igualdade dos sexos legítima e desejável no que respeita a direitos, o mundo nunca se organizará de outra forma. O máximo a que podemos aspirar é a uma atitude mais generalizada de respeito por parte dos homens em relação às mulheres, educando os nossos filhos nesse sentido, sem esperar dos homens comportamentos ou preocupações que são do foro feminino. De uma vez por todas, as mulheres têm de aceitar que, para eles, não é importante o que vestimos, mas o que mostramos e que, apesar de já dominarem a técnica de mudar fraldas, nunca poderão dar de mamar.

 

Somos de planetas diferentes e a proximidade possível tem mais a ver com colisão do que com fusão. A arte está em saber transformar em proximidade aquilo que pode chocar, aceitando que eles vão sempre perder horas a lavar o carro enquanto nós as gastamos nos saldos do fim de estação.

 

* Sungavocábulo brasileiro para designar fato de banho de homem com dimensões reduzidas.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 9 Comentário(s)    
Todo-o-homem
14 August 09 12:00 PM

Ao volante do novíssimo GLK que, segundo me foi explicado, pertence à categoria dos todo-o-terreno, dei comigo a pensar que bom que seria se os homens também tivessem mudanças automáticas.

Percebo pouco de carros, apenas o suficiente para nunca ter batido e para ligar o cruise control na auto-estrada, uma vez que, quando se trata de uma bomba com potência e segurança, a tentação de carregar no pedal é quase irresistível. Por isso, ando finalmente a descobrir o prazer e o conforto das tecnologias modernas. Termos como bluetooth, mãos livres e GPS parecem-me mais próximos de um filme de ficção científica do que da minha realidade. A minha lua é outra, mas, já agora, se isto me facilita a vida, então o melhor é aprender a usar e a tirar partido.

 

Tenho repetidamente divulgado a minha convicção de que as mulheres estão com algumas voltas de avanço em relação aos homens. Acredito que a nova mulher, independente em quase tudo, já percebeu que nunca deixará de precisar afectivamente do homem, enquanto este ainda não sabe muito bem onde se situar desde que deixou de ser o provider. Talvez a filosofia de um todo-o-terreno da nova geração, suave e sofisticado e ao mesmo tempo grande e robusto, seja uma chave para a solução. Talvez o novo homem também seja mais flexível e mais completo, obedecendo a critérios de segurança e de conforto sem descurar o lado racing de uma relação.

 

Acredito que existem homens assim, porque conheço alguns. São homens que juntam o conforto da fiabilidade com o prazer da adrenalina, que é como quem diz, em bom português, nem bandido nem choninhas, nem sacana nem capacho, nem tirano nem banana, nem polígamo nem frouxo. Há uma característica encantadora que os atravessa: a tolerância para com as mulheres. É certo que eles nem sempre nos entendem, mas pelo menos tentam e, quando não chegam lá, nem se chateiam, nem perdem tempo com isso. É aquilo a que se chama dar o desconto, mas de uma forma benévola, por vezes paternal, sem ser paternalista. Eles sabem que a nossa má disposição pode estar relacionada com questões tão fúteis como um mau corte de cabelo ou tão invariáveis como o TPM. Aliás, estes homens sabem o que é o TPM.

 

E o caro leitor, sabe? Não procure a reposta em nenhum manual dos automóveis, já que estes nada ensinam sobre as mulheres. Pode perguntar – desde que não seja ao GPS – e, se é daqueles que já desistiu de as entender, então tente aceitá-las como são, que é o mesmo que nós, mulheres, procuramos fazer com os homens.

Publicadopor MargaridaRebeloPinto | 17 Comentário(s)    
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