Podem ser estas as últimas palavras do mesmo sofrimento que me acompanha há muito nestas linhas. Não existem vidas perfeitas, apenas momentos perfeitos e pessoas que nos proporcionam esses momentos.
Assim a vida faz sentido, o mesmo que uma a abraçar um filho. Hoje olhei para os momentos que passei na tua companhia, fazer uma espécie de resumo dos sorrisos e lágrimas derramadas por ti. O sal das lágrimas derramadas nas noites de solidão e medo em que o escuro do meu quarto e a minha almofada me acompanhavam consegue ser esquecido quando recordo os sorrisos parvos de paixão infantil.
Sentado sozinho de olhos fechados a ouvir o silencio do calor de uma paisagem amarelada e carregada de abandono. Os pássaros não voam porque ali em cima é ainda mais difícil respirar, o vento tórrido não me ajuda a pensar melhor.
Todas as paisagens ganham outra beleza quando estamos apaixonados, todas as melodias tocam amor, qualquer cidade tem encanto, acredito com convicção que o mundo só precisa de amor para se tornar perfeito. Perfeito como tu.
Foi estranho descobrir o vazio do Mundo depois de perceber o significado de quem nos enche o dia, quem nos alimenta a alma com o melhor dos alimentos. Que caminho difícil tive que percorrer para chegar até aqui e que caminho tenebroso ainda tenho para correr.
Volta o mesmo medo que me atormentou noutros momentos, entender o vazio tem o mesmo problema de tratar a dor por tu, já não conseguimos viver sem a adrenalina dos momentos de solidão, é a nossa reza, é assim que nos encontramos com um tal de ser criador que nos guia, gostamos de chorar, e quando olhamos em volta, a vida passou a correr e não chegámos a sair da nossa zona de conforto emocional, ainda que tormentosa.
Volta a mim o sentimento doentio, a obsessão pela perfeição divina idealizada em dias de sol à beira mar ao ritmo de notas geniais tocadas sem amor. Fica vazio o meu pensamento encantado por uma sereia, tão real que nem consigo acreditar, tão metafórica que não consigo encontrar.
Caminho difícil o da felicidade, lugar escondido no ultimo recanto da nossa alma, envolto em futilidade, vazio de razão.
Finalmente sei como lá chegar, descubro que a felicidade nos faz sofrer com sentido e razão, a única diferença é que encontro conforto em ti.
Tenho frio. Agora tenho calor. Estou doente. Deitado na cama que tantas doenças me ajudou a curar. Enrosco-me nos lençóis, cúmplices da minha solidão, responsável pela minha loucura.
Volto a ter calor, um arrepio de frio. Estou doente. O quarto está escuro, não preciso de luz, a luminosidade fere-me os olhos ressecados que denunciam as duas noites passadas em claro.
Estou a constipar-me, constipação não é doença. Contínuo doente porque sinto o gelo a derreter no meu corpo. Não é tarde. Se ligar a televisão ainda passam anúncios de iogurtes no intervalo da novela.
Estendo a mão no escuro e pego no telefone, estou doente. Procuro a cura numa mensagem tua. Fico pior.
Ontem não estava doente. Não recebia mensagens tuas antes de adormecer. Não estendia a mão à procura do telefone, estava abraçado a ti.
Não dormi, nem fiquei doente. Hoje posso dormir mas não consigo, nem quero. Tenho medo de acordar doente e não te poder voltar a abraçar.
Como explicar o que sentimos sem parecer só mais um lamento desesperado e um grito entre lágrimas derramadas em noites sem fim.
Não foi por acaso que me encontrei contigo, pode ter sido o destino ou apenas a brisa que me trouxe o teu cheiro de volta, o desejo de voltar a dormir ao teu lado e acordar com os teus beijos é mais forte que os rasgos que ainda tenho da última vez que me perdi em ti. Sei que em breve voltaremos a estar juntos.
As recordações do nosso tempo ainda me atormentam na hora de dormir, fecho os olhos e vejo o teu olhar perdido numa nuvem que nos segue cada vez que tentamos desaparecer e começar de novo, recomeçar, acho mesmo que depois de ti nada voltou a ser igual, gosto cada vez mais da solidão que me acompanha nos dias em que não estou com vontade de amar.
Posso fazer de conta que o Mundo começa e acaba em cada uma das noites em que não me consigo apaixonar, ser feliz contigo dura o mesmo que as 3 pedras de gelo que tornam o meu Johny Walker mais suave, as mesmas que me refrescam a alma e me acompanham durante horas, olho em volta e todos me parecem tão banais como a musica que polui as melodias perfeitas que normalmente me adormecem, as vozes experientes e vividas de mendigos forasteiros que habitam as ruas das cidades.
Não sei porque esperar, és tu a que me abre a porta cada manhã e me acolhe depois de horas a deambular por entre néons azuis e vermelhos, restos de nada cheios de tudo. As dúvidas de ontem são certezas agora e voltarão talvez amanhã. Mas que mágoas estas que elevam a razão aos sentimentos e que no fim, me trazem sempre de volta aos braços de alguém.
Acabou. Como sempre termina já com o Sol na segunda metade do céu e a descer para o fundo do mar, volto a caminhar sozinho pela tenebrosa incerteza do ser. Os solitários não são os que caminham sozinhos, esses estão sós, solitários são os que não encontram companhia no colo de alguém, são os que se levantam sem abraçar ninguém e fogem para a multidão, sozinhos.
Tu no lo piensas, mi vida,
Pero sufro por te amar,
Tu te vas y perdido,
Me quiero tirar al mar.
Porque me han dicho,
K ay muy cerca,
En en fundo del oceano,
esta Una sirena,
A la que pudedo pedir un deseo,
Solo volver amar
Mi niña lola te llamo,
Com mis manos en tu piel,
El olor de tu mirada,
Com sabor a miel
Una noche en tu cama,
No te pido mas,
Deja-me soñar a tu lado,
Y ser feliz por ultima vez
En esse monologo
te vi reir por primera vez
tu mirada indiscreta me dijo k si
pero mi timidez tonta
en esa misma noche en la marcha de copas,
la plaza nos junto y no dude,
la semana seguinte lo dejava todo asi atrás,
las sabanas frias de camas estranjeras,
los nombres olvidados en noches de locura,
la vida de soltero k tanto yo cante…
dice Ramiro “eres perfecta”
digo yo que tu tambien
dice loco y reloco por vos
lo siento yo tambien
y me dejas,
me vuelvo a casa en Portugal,
tu habitacion es mi cúmplice,
sabe lo quanto te quiero,
y lo se yo en mi corazon.
A estrada que me leva até ti é feita de recordações,estímulos que me varrem o pensamento e me fazem desviar da estrada da razão.Deixo terras de outros sentimentos e casas onde muitas noites amei e parti,quartos onde conheci o sabor da paixão servida através de roupas curtas ebeijos rápidos, mulheres a quem nunca dirigi palavras dóceis nem dediqueiestrofes de um qualquer poema inspirado naqueles momentos.
A meio caminho penso voltar à vida de copos meio vazios enoites dormidas à pressa em camas que não conheço, manhã despertas em cheirosdesconhecidos, pequenos-almoços em varandas de vistas deslumbrantes sobre ohorizonte, em locais de nomes pomposos que não recordo. Meio caminho entre o Céu e o Inferno.
Os nomes ainda me trazem também a inspiração de outro tempoem que dedicava palavras a essas memórias, musas bem vestidas que me fizeramsonhar por entre o mágico nascer do dia e os neons de avenidas que nãodescansam e musicas que falam de amores eternos.
As cartas de amor que deixei de receber à medida que asmarcas das viagens pelas ruas da melancolia descontrolada, são as únicasrecordações vivas do tempo em que a falava em tom claro e sem a rouquidão comque te falo hoje.
Estou cada vez mais perto e dedicado a amar um só rosto àmedida que envelhece, recuperar o sorriso pelo qual me apaixonei apesar da meialuz que iluminava o teu rosto, fecho os olhos e recordo a tua sombra no velhosofá da casa onde tantas vezes para ti cozinhei e onde a lua nos encontravasempre nus e as nossas sombras se fundiam.
Aquela rua com nome de virgem era o local escolhido paraabandonar a roupa apertada e negra e recomeçar, à porta do número 12beijaste-me pela última vez. A viagem terminou ali, no regresso parei em todosos bares das ruas com nomes de pecadores históricos, voltei à maldição dasluzes que anunciavam felicidade.
A linha que me separa da loucura é tão ténua quanto a quesepara o rio do mar, às vezes não consigo resistir e a loucura toma conta demim mais cedo que o normal e não consigo acordar porque não me deixei adormecer.
Se conseguisse projectar aquilo que sou agora ao longo do tempo, diria que sou dos que acaba sozinho no final da vida, com os olhos abrilhar e um leve sorriso ao fazer a soma dos momentos que ficam gravados na memória como riscos em pedras da montanha. Os cheiros e os locais fazem-me continuar com o ar de quem sozinho, mas feliz, deixa tudo num último suspiro.
Recordo os teus lábios a falar-me ao ouvido e as tuas palavras a sussurrar um tímido quero voltar a sentir o teu corpo no meu, quero acordar nos teus braços e voltar a ouvir a tua voz.
Era apenas mais uma noite como tantas outras em que me perdiao sabor do malte que percorre o meu sangue e se apodera da razão. Ao baixar ocopo e com o ácido ainda fresco olhei-te nos olhos. Fugiste, mas eu não e voltei a levantar o olhar e a procurar o teu brilho. Nessa noite fui ao balcão mais vezes que as que devia só para me cruzar contigo e poder sentir o teu corpo que com elegância movias.
Fiquei a ver-te partir com a sensação de que fugia parte demim, desisti.
Mais tarde o teu olhar já era diferente. Não esperavas voltar a encontrar-me mas algo nos uniu por entre a noite que já ia longa. Não resistimos e ficámos sozinhos no bar. Depois ficou o vazio da tua ausência. Osdias passaram e não parecia passar de mais uma de muitas conversas que a noite nos traz.
A distância está para as relações como o deserto para os exploradores, começamos com muita vontade de vencer mas quando olhamos em volta e toda a areia se apodera de nós, decidimos voltar ao ponto de partida eprocurar uma nova e mais aliciante aventura.
Mas nós seguimos a aventura e apesar da areia que ameaçava criar uma tempestade e não nos deixar avançar, levámos a loucura até ao fim, eas luzes que mantinham a cidade acordada em noite de chuva foram testemunhas do que sentimos e toda a gente que percorria a cidade olhava para nós como quem vê a chama da felicidade. Houve ainda tempo para voltar à poesia, voltar a sentir, voltar a amar e partir perdendo parte de nós nas mãos de quem fica.
Talvez encontre a explicação na voz cigana do flamenco cantado e dançado à nossa frente, almas abertas a chamar por sentidos escondidos por entre capas negras de problemas vulgares e distantes. O canto da raça cigana desperta-me paixões, os rituais e movimentos seduzem-me, sinto-me enganado mas feliz e acredito nas estórias de homens que foram abandonados e demulheres que morrem por amor es impossíveis.
A noite terminou. A loucura percorreu os nossos corpos e adormecemos. O cigano deixou o tablao e terminou a função, mas vai voltar a subir com a mesma paixão para contar outras histórias e incendiar outros corações.
Ando às voltas, perdido por entre ruas e avenidas, cheiros e olhares que não reconheço. Corro sem direcção e não consigo perceber como pode o amor ser tão louco. Não consigo perceber e elas também não. Será possível um simples e moral coração ter duas paixões ao mesmo tempo sem estar louco…
Estava esquecido da promessa que fiz a ultima vez que respirámos juntos, depois de saíres e me deixares caído prometi que me ia esquecer de ti. E agora, esquecido de me esquecer, eu que sempre te deu tudo, foste mais que uma vida e agora não recordo o teu nome, mas não me esqueço da tua pele, hoje esqueci o teu nome.
Estás longe, muito longe de mim, já nem me recordas mas a ferida voltou a sangrar, não sei porque esqueci-me que te tinha esquecido, eu que nunca esqueço nada, eu que apenas me perco nas estradas na vida sem vontade de me encontrar.
A recordação daqueles dias de frio passados em casa, foste muito para mim, o que gostava de ficar ali a olhar para o teu corpo nú enquanto dormias, mas hoje não recordo o teu nome. Não te encontro escondida por entre a sombra das nuvens que trazem o frio de volta.
Agora apareces tu, que enches tudo de paixão e juventude, de beleza e de sorrisos, de fantasmas em noites de luar, vai-te embora. Não te pares ao olhar-me quando sais, eu já lutei demais contra toda a neblina, não te peço mais nada e esquece-me agora, não te quero.
Como foi este coração deixar-se levar outra vez pela tua pele morena, agora que já batia ressuscitado das cinzas em que me deixaste, depois de romper todos os meus poemas de tristeza e pena decidi plantar uma nova árvore e esperar pelos frutos.
Hoje sonhei com outro mundo, a teu lado.
É tão fácil sonhar, procurar um dia ser aquilo que imaginamos, viver cada um dos segundos como se tudo fosse perfeito. Eu também sonho. Sonho passear contigo de mão dada, mentira, eu nem gosto de andar de mãodada, não gosto de sentir que toda a gente percebe a minha felicidade, sou egoísta. Chega mesmo a parecer-me frase feita, fazer compras de mãos dadas ou braço pelos ombros. Os sentimentos demonstram-se na intimidade.
Tu sabes isso.
O fogo acende-se entre quatro paredes, podemos percorre-las todas, derramar suor de prazer sobre o sofá, gelar na pedra da cozinha enquanto percorro o teu corpo e te tempero com o sal dos meus beijos.Terminar no chão ao lado da cama onde tantas vezes demonstrámos sentimentos.
Não consegues imaginar o que daria para ter a tua bocaperto da minha, hoje tenho vontade de ti. Apetece-me sentir a tua pele como nas fotografias que esta manhã revi e me fizeram sentir assim.
Depois de tantas viagens pelos sentidos, depois detanto derramar lágrimas em colo alheio, tantas verdades contadas com mentiras perfeitas em que até eu acreditei, de tão perfeitas que são as mentiras acabamos por viver na ilusão de que nunca se tornam verdadeiras.
Vou continuar a percorrer o caminho dos espinhos, que eu próprio espalho no chão que tantas vezes percorro.É a minha forma de fazer justiça, peço-te para ficar uma só noite, prometo quesó quero acordar a olhar para ti, não nego a vontade de te voltar a pecar, sóassim termino a minha hipócrita busca pela felicidade. Descubro que é impossível ser feliz todos os dias, desisto. Apaixono-me por isso cada dia quepassa pelo que passa no meu dia.
A poesia faz-me acreditar,volto a mentir, nem eu consigo encarnar na personagem de principe vestido deazul capaz de te fazer descer do pedestral para o qual eu mesmo te ajudei a subir. Desisto, já nem eu faço por cada ser melhor, já não me brilham os olhos aver-te sorrir, pior o sorriso que tantas vez procurei já me parece amarelo. É a paixão efémere ou o poeta cantor deslumbrado com a luz já subiu ao cume e descobriutodas as paisagens do Mundo.
Lá em cima, de braço esticado grito bem alto que estou zangado com os Deuses que levam os artistascedo demais e deixam na Terra tantos Filhos da p***.
acabo de chegar a casa e tenho vontade de sair. É o que vou fazer, mais uma noite sem dormir na procura de ti. Vou percorrer o areal sem resposta, o mar é meu confidente...
O meu vicio de ti mantém-se aqui...
noites ao luar, contigo a piscar o olho entre as ondas do mar que transportam o teu sorriso até à areia onde de espero, sentado, como quem não tem pressa de ver chegar a luz do dia.
Há semanas que desafio a natureza e teimo em não querer viver com o calor do sol que me incha as pupilas e me obriga a fechar os olhos e desvendar as rugas à volta dos olhos que já se fazem notar no rosto que denuncia uma vida a pisar os limites da resistência humana.
É só mais uma noite, o verão está a chegar ao fim e Setembro vai trazer o quotidiano citadino longe deste sorriso que as marés me mostram. Não vai ser fácil trocar a vida que levo contigo pelo fato e gravata que me espera no outono.
Cada grão de areia encerra a cumplicidade de estórias de amor e ódio que nunca vivi, aprendi contigo a ouvir a música das sereias, o som das gaivotas que desmentem o final feliz interpretado por um Deus que nos quer levar a conhecer um oceano perfeito sem tubarões que destroem a felicidade dos seres sem sentimentos que habitam o fundo do mar.
Caminho na rua sem pressa de chegar. O destino não é certo, foge à velocidade do vento em dia de tempestade. Olho para cima e o negro é pressagio de dor e solidão.
Continuo com um natural desejo de encontrar sempre o caminho mais doloroso. O tempo ainda não apagou as marcas de um mau inverno e já procuro uma má primavera, com raios de sol seguidos de trovoada, dias nublados e tardes de praia a rebolar na areia ao som do mar que parece afinado numa eterna melodia para nós. Encontro depois uma lágrima na areia e uma turbulenta tempestade volta a lembrar-me que ainda é cedo para amar.
O melhor dos pecados foi ter-te conhecido. Ter que cuidar das estrelas parece-me um bom castigo, sempre foi na noite que encontrei resposta e energia para novas viagens ao fim do mundo e ao principio da vida.
Não sei onde estás, talvez à distância de um olhar ou na proximidade do abraço que te faz feliz, um aroma que não o meu, uma praia onde não vou, uma música que não ouço.
O teu Mundo está longe do meu.
Entraste sem pedir e conseguiste baralhar a minha existência. Hibernado no meu estado líquido de quem navega num rio sem ondas sem querer chegar ao mar, os naufrágios de outrora afastam-me de ondas perigosas e que não controlo. Numa sequência lógica de vida repetir será um erro. Não repito, vivo novos sentimentos que me afastam as tormentas e me alimentam o ego em direcção ao futuro.
A explicação para este estado que me impede renovar o ar que me mantém vivo é simples, tão simples como o teu sorriso, tão cúmplice como aquele olhar que me desconcentrou e me enlouquece, hoje, muitas noites depois. É sempre mais difícil quando só a ilusão nos permite caminhar é mais fácil quando a realidade nos magoa e nos impede de continuar.
Gostava de chorar, as lágrimas libertam a dor que carregamos, os gritos são levados pelo vento e aterram noutro qualquer lugar, inflamam almas mais puras que a minha capazes de decifrar as chamas de a mim me consomem, existem almas que transformam estas chamas em paixão e vivem com intensidade esse calor. Existem.
É tão estranho este meu regresso. Não controlo o que me motiva, desde aquele final de tarde com o rio como fundo onde o sol parecia sorrir com ar de quem sabia o que estava a acontecer, que transporto a dor de te perder sem nunca te ter tido.
Dois dias já passaram sem que os teus olhos se voltasse a cruzar com os meus. Poderia ter sido apenas mais uma circunstância das muitas que a multidão me tem dado, um sinal de alerta para a necessidade de continuarmos vivos. Podia.
Mas porque sinto o medo. A incerteza, não me esqueço de lembrar cada segundo que passou. Inicio uma contagem rumo ao infinito até te voltes a olhar com as mesmas duas flechas que me atingiram e causaram dados irreparáveis no tesouro mais bem guardado pela fortaleza da vida.
A prepotência de batalhas antigas, as feridas do passado frio e sombrio, as memórias dos becos sem saída onde tantas vezes entrei e me recusei a sair, faziam-me acreditar na imunidade para a paixão. Hipocrisia egocêntrica imatura e irresponsável. Agora será pior.
E se tu não me olhares mais? Volto a entrar nos labirintos de onde nunca quis sair, volto à praia contar grãos de areia até me dar conta que o tempo passou e o mar levou as minhas mágoas para bem longe? o que faço eu quando os teus olhos procurarem outra luz, nem sei para onde olhas agora.
Voltaste a pensar que és capaz de caminhar pela corda e chegar ao outro lado sem cair. E se cais? Não há rede que te traga de volta aos braços de alguém.
Vais voltar a dar tudo, sem pedir quase nada porque o aroma dessa paixão é mais forte que a razão, a razão que escreve aqui e agora, a emoção de dizer o quanto se gosta de alguém.
Quatro da manhã de um dia especial. Só tu me fazes escrever a esta hora. São muitas as noites passadas em branco até chegar este momento. Recordo o instante, a hora e o local em que chegaste. Há muito pouco tempo, tão pouco que ainda não quis parar para pensar. Não quero parar agora. Não vou cair no mesmo erro humano de estragar o momento. A vida são momentos e a soma deles o caminho para a eternidade, feliz ou não, mas eterna.
A lucidez que me permite articular letras, conjugar palavras e gerar pensamentos é a mesma com que antes outros génios lidaram. Só uma inspiração divina provoca tal emoção não possível de exprimir de outra forma. A razão tenta explicar o que a emoção define com gestos, expressões e sorrisos estúpidos de quem pela primeira vez vê a luz que ilumina o futuro.
O medo afasta todas as hipóteses de seguir. Percorro a memória e encontro dor. Mágoas de outras viagens fazem de mim um ser diferente. Ainda tenho as marcas dos outros erros humanos, pensamentos usados e roubados a encenações perfeccionistas de sociedades entusiastas de sentimentos efémeres e inundados de ocasião.
O silêncio das paredes que me fecham na solidão toma conta de mim. A tua presença transforma o meu sentido, apetece-me sair e procurar-te pela cidade que dorme. O cheiro é o único aliado que me resta para continuar, se paro de respirar sei que me abandonas. Como acontece sempre.
Não tenho receio, só saudade do futuro. E hoje não me apetece partilhar mais, a noite vai continuar até o sol me ensinar a iluminar o teu caminho.
Hoje quero encontrar-te no meu caminho. Há semanas que caminhamos lado a lado sem nos cruzar. Não é a primeira vez que me acontece, que nos acontece. Entras em mim sem pedir, baralhas toda a minha existência, mudo, procuro o trilho que constróis com o teu olhar, para no fim me deixares sempre a caminhar sozinho e sem direcção.
Não me posso arrastar mais, devo correr, devemos correr. Para onde o tempo nos levar, para onde o vento nos pedir. Não. Desta vez será diferente. Juntos ou a sós, mas será diferente, vou correr e procurar alguém que se movimente como eu. Consigo fugir da areia movediça para onde insistes em me levar. Até quando.
Vejo ao longe a jangada de pedra com a qual cruzo a margem e sigo viagem. Estás longe, porque continuas a pensar que ainda estou a teu lado. É tarde. Já parti.
Ainda assim posso sempre voltar. Se dependesse só da vontade voltaria. Regressaria aos braços que não me acolhem, ao beijo que não me reconforta, aos olhos que não brilham, se eu pudesse trocava o meu destino, o destino das madrugadas escuras e frias pelo calor do amor em dia de passeio.
Guardo todos os momentos. O filme sem legendas começa a fazer sentido. A pouco e pouco decifro todas as imagens que me percorrem a mente quando fecho os olhos e tento adormecer. Amanhã vai ser outro dia. O dia em que descodifico o teu código e os teus genes não têm segredos para mim. Mas mudas tudo com sinais que me voltam a enlouquecer.
Nunca falamos. O momento toma conta de nós, amar e partir, sem saber quando voltas.
É esta a loucura que me alimenta, a demência é fruto da ponderação descontrolada de quem em consciência só te quer amar, mas o amor não tem consciência e acabamos distantes. Talvez por amar demais ou reflectir de menos.
A existência faz parte de um estranho destino dos que procuram entender o ritmo do Mundo acreditando que tudo o que olhamos e sentimos é verdadeiro. Se assim fosse não fazia sentido. Quero ser enganado ao fim. É esse o caminho da felicidade dos triviais.
Procuro a lucidez de a cada instante me apaixonar com mais intensidade com as novas falsidades que escuto e sinto.
“O maior erro do Homem é conquistar o coração de uma Mulher sem intenção de o amar”