Dar voz ao teatro

O actor Daniel Pinto começou a convidar amigos para ler peças de teatro em sua casa, num registo de tertúlia. Com a ajuda da Internet, a onda foi crescendo até desaguar no Teatro Nacional São João, no Porto

todas as terças-feiras à noite, dezenas de pessoas sentam-se em almofadas vermelhas, espalham-se pela sala e ouvem teatro. o encontro acontece no centro de documentação do teatro nacional são joão (tnsj), numa sala do rés-do-chão do mosteiro de são bento da vitória, nas traseiras da cadeia da relação/ centro português de fotografia, aos clérigos, no porto. as paredes em pedra, rebocadas mas não pintadas, poderiam sugerir um local frio. porém, as estantes recheadas de livros e o tecto abobadado tornam-na no sítio ideal para uma tertúlia informal dedicada à leitura de textos dramatúrgicos, clássicos e contemporâneos. aqui todos são incentivados a ler, mesmo os estrangeiros. pelas ‘leituras no mosteiro’ já passaram italianos e russos, profissionais, amadores e curiosos, arquitectos, engenheiros e estudantes. todos são bem-vindos.

a iniciativa começou em casa do actor daniel pinto, em junho de 2009. «sou pai solteiro e à noite tenho o hábito de me reunir com amigos, grande parte deles actores. pensámos que podíamos tornar esse tempo proveitoso e juntar o útil ao agradável – todos temos necessidade de conhecer peças e quando elas têm várias personagens é difícil lê-las sozinho», explica. começaram por ser cinco, mas o grupo alargou-se rapidamente. «começámos a gostar daquilo e os amigos trouxeram amigos, garantindo o quórum para cada peça. depois, passei a usar o facebook e a coisa cresceu. começou a aparecer gente que não conhecia, por interesse nos autores que líamos e por curiosidade». a dada altura, a sala de daniel pinto transformou-se num «salão berbere», cheio de tapetes e almofadas, despojada de móveis, para que 20 a 25 pessoas aí pudessem caber. «lemos trilogias gregas, obras completas. chegámos a terminar às seis da manhã, com o sol a nascer», recorda. o grupo, ainda que informal, ganhou o nome de novo grémio do porto.

o projecto cresceu tanto que foi necessário engendrar um sistema de financiamento das fotocópias – hoje, são distribuídas sem custo pelos participantes. em maio, o grupo deslocou-se para a sala estúdio latino, no teatro sá da bandeira, ocupando as noites de terça-feira da variação da cultura – uma associação de várias instituições artísticas independentes.

na sequência desse mês de residência, nuno m. cardoso, então assessor de direcção artística do tnsj, e paula braga, responsável pelo centro de documentação, convidaram daniel pinto para continuar o projecto, em junho, no mosteiro de são bento da vitória.

a escolha dos textos é gerida pelo trio e gira em torno da programação do tnsj e dos programas curriculares das formações em teatro na cidade, alternando autores contemporâneos e clássicos. o sucesso baseia-se, de acordo com nuno m. cardoso, na «informalidade» desta comunidade: «não há um ambiente elitista nem intelectual. as pessoas estão à vontade para errar, isto não é reservado aos profissionais do dizer».

daniel pinto pretende que as leituras continuem a crescer. para isso, planeia acolher dramaturgos que mostrem textos que têm «na gaveta». o primeiro passo foi dado com ana luísa amaral, uma das leitoras de próspero morreu, de sua autoria. estiveram presentes quase 100 pessoas, um recorde. a meio da noite faz-se um intervalo para os ‘comes e bebes’ trazidos pela assistência. no final, fica-se à conversa sobre aquilo que se leu.

leituras no mosteiro; mosteiro de são bento da vitória – r. de são bento da vitória, porto www.tnsj.pt – até 31 de maio, 3.ªs às 21h – entrada gratuita; próxima leitura: 11 jan. – o público, de federico garcía lorca