é por isso que (à excepção de algumas encenações de jorge silva melo e do trabalho de maria joão luís, em ponte de sôr), tenho escrito pouco sobre o teatro que se vê em portugal e sobre os filmes que por cá se fazem. e é por isso, também, que recomendo vivamente o último filme de joão canijo, sangue do meu sangue (belíssimo título), mesmo se, para mim, não é uma surpresa. desde o seu segundo filme, filha da mãe, de 1989, que se percebia (e eu disse-o na altura) que estávamos perante alguém com essa paixão tão rara no nosso cinema (e que ele, curiosamente, partilha com silva melo), que é a paixão pelos actores. depois disso, canijo fez outros filmes onde, com maior ou menos felicidade, foi apurando o trabalho com os actores, afinando um método, ganhando confiança e arriscando mais um palmo a cada filme. ganhar a vida (outro grande filme), feito no ano 2000, aliava esse trabalho com um maior apuramento do script, preocupação que não o abandonou a partir daí.
vi o filme no domingo, ao fim da tarde. a sala estava quase cheia, o que é um sinal de que o público sabe reconhecer um bom filme, e, no caso português, vencer a resistência herdada de experiências anteriores. canijo interessa-se pelos mundos suburbanos, onde o heroísmo quotidiano, sobretudo das mulheres, lhe permite elevar as tensões e desenhar os conflitos a níveis que pedem o máximo dos actores. a estrutura dos guiões é linear e lógica, como eram os filmes de fassbinder, a progressão lenta mas inexorável, e o drama surge naturalmente da acumulação de gestos rotineiros, mas que levam a situações exacerbadas, que os personagens não previram e com que não sabem lidar. como diz canijo: «a luta pela sobrevivência leva a que as pessoas não elaborem pensamentos sobre os sentimentos que têm».
canijo dá mais uma vez aos actores, sobretudo às três extraordinárias actrizes (rita blanco, anabela moreira e cleia almeida), mas também ao enorme actor que é nuno lopes, uma oportunidade rara de levar ao extremo uma improvisação controlada pelas exigências de uma trama rigorosa. canijo optou há muito por um tipo de filmagem claustrofóbica, que acentua a inocente promiscuidade da vida daquela família (são frequentes as conversas cruzadas, onde não há espaço para o segredo nem para a intimidade), e recusa o découpage em favor do plano-sequência, por vezes ‘mal enquadrado”, porque o importante é a impressão de realidade que se consegue respeitando o tempo real do actor quando ‘representa’ em continuidade. nisso, é um discípulo de cassavetes, como, na experiência de levar os actores aos seus próprios limites, é um discípulo de chéreau.
uma última palavra para a banda sonora. sem música, a escolha e a mistura dos ruídos, entre os sons diegéticos (que vêm da tv ou da rádio) e os sons off, vindos da rua, é admirável. é isso também que faz um autor: ser capaz de nos impor o seu próprio estilo.
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