Manuel Godinho gere empresas à distância

Um camião TIR prepara-se para abandonar o enorme edifício na zona industrial de Ovar e seguir viagem. Faltam poucos minutos para as seis da tarde e já não há qualquer actividade no gigantesco armazém do empresário de sucatas Manuel Godinho, de 56 anos.

acusado de ter construído um império de milhões graças à rede tentacular de tráfico de influências e pagamentos que lhe garantia contratos em grandes empresas controladas pelo estado e o apoio de figuras influentes do ps, manuel godinho será a principal figura do processo face oculta, que ontem começou a ser julgado no tribunal de aveiro.

o sucateiro abandonou, por ordem judicial, a administração das empresas do grupo. o mesmo sucedeu com o filho joão, igualmente arguido e apontado pelo ministério público como seu «sucessor». na liderança formal das empresas estão agora marco paulo, o outro filho de godinho, e mário baldé, guineense que já era gerente da empresa 2nd market e pc-old, igualmente controladas pelo sucateiro.

«com o julgamento, nem eu, nem o meu pai temos condições para ficar à frente das empresas», explicou joão godinho ao sol. desde a prisão preventiva do pai, em outubro de 2009, joão tinha assegurado a direcção das empresas. «criámos uma estrutura que assegura a gestão do dia a dia», explica.

joão – que é acusado um crime de associação criminosa e de corrupção activa para acto ilícito – recusa levantar o véu sobre os novos nomes por trás das empresas. «não sei quem foi escolhido para me substituir na administração da pedras deslizantes», limita-se a dizer.

desde que foi libertado da cadeia de aveiro – onde passou quase 16 meses em prisão preventiva –, manuel godinho retomou aos poucos a intervenção nas empresas. «a gestão baseava-se muito na decisão do meu pai», conta joão, acrescentando que, com o processo, perderam grandes clientes. «a publicidade fez com que perdessemos muitos contratos regulares. na petrogal nunca mais nos deram trabalho. a ren e a edp não nos renovaram os contratos», conclui.

os meses atrás das grades deixaram manuel godinho debilitado. «estava muito magro e deprimido quando saiu da cadeia», contou ao sol, um amigo que, na altura, o visitou na casa de esmoriz, onde o sucateiro nasceu.

com diabetes e problemas cardíacos, manuel godinho continua a ser medicado. aos poucos retomou a vida ‘normal’: ia diariamente ao café e começou a visitar a empresa. «é uma jóia de homem. foi pai para muitos pobres», conta um vizinho, que andou com ele na escola. «não merecia a cadeia».

‘zé godinho’ – como é conhecido em esmoriz por ter um irmão também chamado manuel – é quase idolatrado. «pode correr tudo que ninguém lhe vai dizer mal dele», diz um amigo.

a fama de «homem bom» – que, antes de ser detido, permitiu-lhe ‘dar a mão’ a outros arguidos do face oculta cedendo-lhes casas sem cobrar renda, ou dando emprego aos seus familiares – é agora ilustrada com histórias da prisão. «um moço que também estava lá dentro [da cadeia], contou-me que ele na prisão até arranjou equipamento de futebol e chuteiras para todos os presos jogarem equipados».

mas há meses que godinho não é visto por ali. a moradia branca onde vive está agora fechada, com as persianas corridas.

godinho mudou-se antes do verão para outra casa que possui no furadouro, mais próxima da sede da o2 – tratamento e limpezas ambientais, no parque industrial de ovar, e da praia. «o meu pai pediu autorização para mudar a residência para o furadouro, já que estava impedido de sair de esmoriz, para poder vir às empresas», conta joão. «mudou porque a casa de esmoriz está em obras», contrapõe artur marques, advogado do pai.

manuel godinho recusa falar à imprensa.

joana.f.costa@sol.pt