‘Ser pivô é o mesmo que oferecer um jantar em casa’

Em 1971, quando se candidatou pela primeira vez à RTP, foi passando todas as provas até que lhe disseram que precisava de cortar o cabelo. Disse que não e preferiu desistir. Chegaria à televisão do Estado em 1979. Hoje, Henrique Garcia é pivô da TVI. Nasceu a 7 de Fevereiro de 1948

sei que chegou a fazer uns cursos de teatro e de cinema. queria ser actor?

gostaria de ter tido uma experiência como actor, mas nunca se proporcionou. era ainda muito novo quando fiz esses cursos. e fi-los porque me convenceram a desistir da minha primeira tentativa de entrar na rádio. comecei a brincar à rádio no liceu, com gravações domésticas feitas com um grupo de amigos. achei piada àquilo e pensei em concorrer à rádio universidade. mas, nessa altura, uma pessoa que era da minha turma e já estava na rádio universidade desaconselhou-me de o fazer, dizendo que era uma coisa muito difícil e só para gente crescida. esse alguém é uma pessoa muito conhecida, mas não vou dizer o nome porque é chato. eu fui na conversa e, quando me chamaram para fazer as provas, encolhi-me e não fui.

como aparece o cinema e o teatro?

no sítio onde funcionava a rádio universidade havia dois estúdios, um de teatro e outro de cinema. decidi ir experimentar. depois, no curso de cinema, acabámos por fazer um pequeno filme e o fernando de sousa, que estava na rádio universidade, foi entrevistar-nos. como eu estava muito curioso em relação à rádio falei com ele, ele levou-me aos estúdios para testar a minha voz, acharam que eu tinha condições e no ano seguinte fui lá parar.

a nível académico passou pelo técnico e pela faculdade de ciências…

sim, entrei no técnico. mas rapidamente percebi que se continuasse lá seria completamente cilindrado. estava muito disperso com as coisas do cinema, do teatro e outras.

outras com saias?

com saias, claro. era a época do flower power [risos]. no técnico, em engenharia mecânica, percebi logo no primeiro ano que não conseguiria ir muito longe e no segundo pirei-me para a faculdade de ciências. ainda por cima, era um tempo em que um chumbo implicava uma farda em cima e, provavelmente, uma arma na mão e uma passagem para áfrica.

eram universidades muito diferentes?

o técnico era uma escola de grande rigor e de grande exigência e na faculdade de ciências dois e dois não eram necessariamente quatro, eram aquilo que a gente discutisse. foi uma escola que me abriu muito os horizontes, por onde passavam alunos de outros cursos que iam lá fazer umas cadeiras e onde se conversava sobre tudo e não apenas sobre rodas dentadas e parafusos. o técnico parecia um quartel muito disciplinado e em ciências havia muito mais liberdade de pensamento. depois, regressei ao técnico, mas não acabei, ficaram a faltar-me três cadeiras.

não acabou porquê?

estava a acabar o curso quando se deu o 25 de abril. tentei continuar a ir às aulas, mas nessa altura o técnico desagradou-me. eram plenários, confusões, revoluções, professores expulsos… aquilo perturbou-me, achei que devia deixar serenar os ânimos e comecei a pensar no que ia fazer. até aí eu sempre tinha conciliado com os estudos alguma actividade na rádio e resolvi ir pedir emprego à emissora nacional. a pessoa que me tinha desaconselhado a rádio universidade estava na emissora e voltou a desaconselhar-me. mas, como sou atrevido, fui bater à porta da emissora com o pretexto de que ia falar sobre questões relacionadas com a rádio universidade – nós emitíamos através da emissora. pedi para falar com o director de programas, que na altura era um major de uma comissão militar. e no final da conversa disse-lhe: ‘já agora, não há aqui nada para eu fazer?’. e, de facto, há momentos de sorte. ele disse que por acaso estavam com falta de pessoal e deu ordens para me porem a trabalhar.

começou logo a fazer jornalismo?

não imediatamente. primeiro, estive a fazer onda curta – passar música e ler noticiários que me chegavam já dactilografados. depois, um pouco antes de setembro de 1974, o zé nuno martins, que era o editor do jornal da uma da tarde, chamou-me para a equipa. aí passei para a redacção e deixei de ser um toca-discos e um lê-noticiários.

chegou à televisão em 1979.

sim. tinha começado a informação na rtp2 e o joaquim letria, que trabalhara comigo na rádio, propôs a minha entrada. disse logo que sim. a proposta era o dobro do que eu ganhava e era um meio que queria experimentar.

a televisão é mais aliciante do que a rádio?

claro que é. é um meio mais completo.

e o trabalho como pivô é aliciante?

é. muitas pessoas – isso faz-me muita confusão – quando digo que tenho de ir para a televisão perguntam-me: ‘mas você não trabalha só às nove da noite?’. as pessoas acham que chegamos aqui às oito, mascaramo-nos, sentamo-nos ali, dizemos umas coisas e vamos embora. eu costumo explicar que ser pivô é a mesma coisa que oferecer um jantar em casa. é preciso ir às compras na véspera, estudar a receita, cozinhar, pôr a mesa e só depois, às oito e meia, é que se passa à fase de receber os convidados. um telejornal é igual. é preciso começar a trabalhar de véspera. há uma aferição constante da actualidade até servir o jantar.

muitas vezes, há tendência para ver o pivô como o apresentador do jornalismo dos outros. esta visão tem algo de verdade?

poderá haver alguma razão nisso, mas não somos todos iguais.

há diferenças entre entrevistar um político e um não político?

está mais em causa a condição em que o convidado me aparece do que aquilo que ele faz. se cair uma ponte e eu tiver como convidado o engenheiro que pariu o projecto, ele não é político mas eu vou interrogá-lo sobre as causas do falhanço da estrutura. os políticos têm é uma vantagem em relação aos outros: ganham sempre. numa discussão em estúdio, em directo, o político ganha sempre. a menos que entremos numa espécie de pugilato, num confronto com um registo que o jornalista não deve atingir.

vivemos uma fase saudável no grau de liberdade do jornalismo em portugal?

não. a precariedade do emprego é muito grande e, obviamente, isso afecta a capacidade de independência. é romântico e utópico pensar que o jornalista não tem família, nem filhos, nem obrigações financeiras e que não faz autocensura. a maior parte da comunicação social vive de jornalistas – perdoem-me a expressão – tarefeiros, que trabalham à tarefa. ganham porque vão fazer uma reportagem e paga-se-lhes à peça. isso não lhes dá liberdade suficiente para não engolirem sapos.

jose.fialho@sol.pt