sempre que tem uns minutos livres, dedica-os à escrita. «sou um jornalista falhado», brinca mário cordeiro, 56 anos, quase 30 de pediatria. em criança lia tudo o que lhe viesse parar às mãos e aos 10 anos criou o seu próprio pasquim, o trapalhadas, que batia na máquina de escrever e distribuía pela família. assina artigos em várias publicações e esse manancial de informação, aliado à experiência clínica, permitiu-lhe publicar compêndios sobre a infância e a adolescência com mais de 400 páginas cada um.
gosta de escrever como fala, com uma pitada de humor. e de recorrer a histórias. muitas são inspiradas nas situações com que se depara diariamente no consultório.
o grande livro dos medos e das birras segue os passos dos bem-sucedidos o grande livro do bebé (7.ª edição, 20 mil exemplares vendidos) e o grande livro da criança (5.ª edição, 15 mil exemplares). além destes manuais, escreveu três romances, uma peça de teatro e poesia. coordenou a única antologia poética sobre o tema ‘nascer’ existente no mundo.
«sou um pouco como as crianças. quero descodificar o mundo. cada livro que escrevo, cada aula que dou, é uma impressão digital que vou deixando, tenha ela o valor que tiver. vou dando uns pontapés à morte, vou marcando uns golos antes que ela vença o campeonato». entre o consultório e as aulas na faculdade de ciências médicas, ainda consegue ir buscar os filhos à escola ou levar os netos a passear. «tento ganhar tempo para eles, para a minha mulher, para a música e a escrita». um puzzle nada fácil de montar.
ascendência médica
filho de pediatra, fez-se pediatra. filho de uma família numerosa, também construiu a sua. como costuma dizer, é ‘penta-pai’ em duas fornadas: tem três filhos ainda em idade escolar e dois que já lhe deram netos. «fui pai em duas alturas distintas, aos 23 e aos 46 anos, ambas muito gostosas, mas essa coisa dos pais-avôs é uma treta». como era o mais novo de oito irmãos, conviveu sempre com gente pequena e hoje soma quase 50 sobrinhos e sobrinhos-netos.
em miúdo via o pai à hora da refeição a atender telefonemas de mães alarmadas e muitas vezes acompanhou-o nas visitas domiciliárias. «era indecente deixá-lo ir sozinho à noite. eu e os meus irmãos revezávamo-nos para lhe fazermos companhia e ficávamos à espera no carro, enquanto ele via os doentes». o avô materno também foi médico e dirigiu o hospital da marinha. «na medicina há algo de artístico, de utilidade, de sentido de missão e de espírito de sherlock holmes que me fascina». descobrir as causas, traçar o diagnóstico e encontrar uma solução. no caso dos bebés, que não têm facilidade de expressão, o desafio é ainda maior.
não consegue ser médico de estetoscópio em riste nem de consultas cronometradas. «não existe apenas a doença. o bem-estar e a felicidade também têm de ser cuidados. as crianças não são só corpo e quem não percebe isso nunca chega lá», garante.
já lhe chamaram o dr. spock à portuguesa mas identifica-se mais com o mestre brazelton ou com macfarlane, com quem teve oportunidade de trabalhar desde o início da especialização. conheceu-o num congresso em lisboa, ficou fascinado e procurou-o em oxford. era para ficar um mês e meio, mas levou a família e acabou por ficar oito meses. «a minha secretária estava em frente à dele, sentia-me um privilegiado!».
uma das novidades que mário cordeiro introduziu foi o boletim de saúde, de capa rosa ou azul, onde se registam todos os dados e que contém recomendações para cada etapa. elaborou para o governo britânico um boletim semelhante, que continua a ser aplicado, e participou em vários programas de vacinação e vigilância da saúde.
conquistar dá trabalho
do pai herdou o nome, o gosto pela música e a dedicação à profissão. talvez pelas suas raízes multiétnicas – o pai e o avô eram goeses e a avó italo-croata – sempre se aplicou a aprender línguas. «aos 14 anos já ganhava uns trocos a fazer traduções de francês e inglês, a bater textos à máquina e a fazer slides». em casa as regras eram claras: para a formação tudo, para extras nada. aos 18 anos tirou a carta mas quando bateu com o renault 5 que partilhava com os irmãos não lhe restou outra opção: «passei os meses de verão a pintar paredes para pagar o arranjo do carro».
esta noção de merecer o que se tem é algo que hoje faz falta às crianças: «não se pode dar tudo, nem elas precisam de tudo! muitos pais, com um complexo de culpa que não faz sentido, escravizam-se e estão a criar filhos birrentos, narcísicos, futuros adultos detestáveis!». outros caem em excessos de projecção: «querem que os filhos sejam uma extensão deles. é um erro comum. mas não podemos comprar tempo na forma de filhos».
ao vermos a facilidade com que mário cordeiro comunica, mal conseguimos imaginar o universitário franzino, baixinho e tímido. «entrei na faculdade com 15 anos, não passava de um miúdo, tinha um metro e cinquenta e sete, nem a barba fazia». para vencer a timidez, dizia: «eu não sou eu, não passo de um actor». quando tem de apresentar os seus livros que escreve não há escapatória: «aí fico de rastos, é o que dá cabo de mim… mas emociono-me e gosto de me emocionar».

