césar oiticica filho está em lisboa, juntamente com fernando cocchiarale, para instalar ‘hélio oiticica – museu é o mundo’, que está até 6 de janeiro no museu berardo. a exposição já programada há algum tempo acabou por ser incluída no ano do brasil em portugal, com o patrocínio da fundação nacional das artes.
o sobrinho do artista dá ainda um exemplo prático: a tate dedica ao brasileiro uma sala de exposição permanente «ao lado do minimalismo». «mas quando olhamos para a timeline, e ali é muito fácil de ver, percebemos que ele fez tudo antes dos outros. ele fez o penetrável, que é uma obra interactiva, ainda nos anos 50».
«o que acho muito relevante», diz o também comissário da exposição e historiador de arte, fernando cocchiarale, é que «ele antecipou o futuro da arte contemporânea. desde muito cedo tomou como ponto de partida que a relação entre pintura e quadro não é uma relação natural e necessária: é uma relação histórica. a pintura já foi nas cavernas, sobre a parede e na tela. em plenos anos 50, ele considera que a tarefa histórica do quadro tinha acabado e que a pintura deveria sair da moldura e ir para o espaço».
fernando cocchiarale explica que as telas que fez, de nome ‘meta-esquemas’, mais não são do que «aquela coisa dos miúdos, os transformers, que depois se desdobram em peças no espaço». e isto aconteceu quando ele tinha 22 anos, em 1958, sublinha.
a consequência desta ideia materializou-a no penetrável 1, uma caixa amarela com portas deslizantes onde o visitante é convidado a esconder-se e imergir na cor. daí, a pintura de hélio oiticica foi primeiro integrando o espectador e, depois, «explodiu para o mundo».
em 1964 inventou o parangolé, uma ‘pintura’ que só existe quando alguém a veste, os chamados bólides, que são objectos para manusear e, em 1967, expôs tropicália, uma das obras mais famosas, uma gigante instalação que inclui uma gaiola com papagaios, plantas tropicais, uma espécie de barracas com panos de padrões, estendidas sobre a areia, onde o visitante enterra os pés e onde se pode deitar, se quiser.
um dos pais das instalações
o éden, também exposto no museu berardo, é um conjunto de pequenas cabines em pano e estacas sobre areia para o lazer do passeante. o facto de tudo isto agora parecer déjà vu – em qualquer museu do mundo o público não é deixado em paz e tem sempre que se fundir com a obra –, não é culpa de oiticica.
«as instalações do hélio oiticica dos anos 60 são os antecessores directos de muitas das instalações que se produzem hoje», diz pedro lapa, director do museu colecção berardo. e «muitas das questões da arte minimalista ao longo da década de 60, o hélio já as tinha proposto no final dos anos 50, quando o minimalismo aparece em 1963».
embora a exposição actual seja a maior retrospectiva do artista brasileiro em portugal, houve uma outra, recorda pedro lapa, em 1992, organizada por um centro de arte contemporânea holandês e pelo jeu de paume, de paris , «que foi a muito sítios na europa e foi para uma geração mais jovem de artistas muito importante».
esta retrospectiva, que passou pelo rio de janeiro, são paulo, brasília e belém do pará, irá ainda para frankfurt e estão em curso negociações para o museu de arte moderna de dublin.
em complemento à exposição será ainda editado um livro com os textos surpreendentes do artista. é também uma hipótese de reavaliar a obra revolucionária do brasileiro, morto em 1980, aos 43 anos, de acidente vascular cerebral, e que, como diz pedro lapa, não tem um capítulo nos calhamaços porque «as histórias de arte são escritas pela cultura dominante e o facto é que o trabalho do hélio continua a ser subestimado na maioria das histórias de arte do século xx».
ele próprio reclamava para si um estatuto de herói marginal e libertário. «vivendo no jardim botânico, em 65, logo depois do golpe militar, passava os fins-de-semana na favela da mangueira, num meio marginal, para ele inspirador, mas também circulava na high society, onde a sua obra já era apreciada, sem nunca se sentir estranho em nenhum dos mundos», conta césar oiticica filho.
eléctrico para o mundo
depois da morte, diz cocchiarale, «granjeou, além do estatuto que já tinha no brasil, uma fama internacional. mas não havia mercado nacional que absorvesse nem a produção dele nem a de outros neoconcretistas. então, os amigos mais próximos reuniram-se com a família e criaram o projecto ho para preservar a sua obra».
em 2009, já quando os dois comissários planeavamuma retrospectiva, um incêndio (provavelmentena sequência de um curto-circuito nos desumidificadores) na casa do irmão, césar, deflagra na cave onde o espólio da família está guardado.
«foi uma coisa tremenda», conta césar oiticica filho, pensámos que 90% do que estava na posse da nossa família tivesse sido destruído, mas afinal não deve ter chegado a uns 30%. foi uma coincidência incrível porque era uma sexta-feira e a família ia mudar-se para uma casa ao lado na segunda seguinte». a decisão de avançar com a retrospectiva manteve-se. grande parte das obras na exposição foi salva das labaredas.
lá fora do museu um eléctrico da carris circula com a inscricão ‘delírioambulatório’, e esse eléctrico também faz parte da exposição. «toda a exposição é uma passagem do objecto da pintura mais tradicional até à apropriação do mundo», explica pedro lapa. resumindo: o museu é o mundo.
