Um cinema pela estrada fora

Começou ontem o 1.º Festival Internacional de Cinema Etnográfico, organizado por um ilustrador que percorre o país de mota e regista costumes nacionais.

um cinema diferente, com personagens e acontecimentos reais, numa abordagem sobre a cultura nacional (mas não só) que reflicta acerca de costumes, línguas, raças, religiões – é o que propõe a primeira edição do festival internacional de cinema etnográfico, que decorreu ontem e hoje no cinema city de alvalade, em lisboa.

a ideia partiu de bruno gaspar, 34 anos, ilustrador no jornal de leiria, que se apercebeu da lacuna existente nesta área em portugal. “neste momento nem ministério da cultura temos, por isso o festival vem mostrar aos realizadores sem financiamento que esta é uma boa alternativa para continuarem a trabalhar”, diz ao sol o organizador.

para este primeiro ano, bruno gaspar fez uma parceria com o festival do filme etnográfico do recife, o laboratório de antropologia visual e a universidade federal de pernambuco, no brasil (que é o país convidado). o objectivo é dar continuação ao evento trabalhando com outros países de língua portuguesa.

nesta edição – em que serão exibidos 14 filmes – o público assiste, entre outros, a terra deu, terra come, dirigido pelo brasileiro rodrigo siqueira, premiado internacionalmente; cartas para angola, considerado o melhor documentário de 2012 brasileiro; ou depois liga para cá, do português tiago gonçalves, rodado em 2012, no momento em que se despede do avô e segue a nova vaga de emigração em portugal.

pelas terras do meu portugal

enquanto se dedicava à organização do festival de cinema etnográfico, seleccionando vários filmes, o jovem traçou um novo plano: registar ele próprio os costumes e hábitos das várias terras de portugal. assim nasceu o projecto ‘pela estrada fora’, que já levou bruno gaspar a percorrer caminhos lusos – à garupa da sua mota parada em casa, com “quase 40 anos mas ainda para as curvas”. é uma macal de 1975, oferecida por um tio.

na bagagem leva uma máquina fotográfica, bloco, aguarelas para as suas ilustrações e uma muda de roupa – porque várias são as vezes que pernoita em casa de alguém.

para financiar a viagem, o ilustrador recorre às suas duas empresas – a mediabox, de publicidade digital em rede, e a souvenirbox, que comercializa recordações culturais portuguesas, em máquinas de vending. “é onde vendo as minhas fotos e os desenhos da viagem”, explica.

já andava na estrada quando a associação de desenvolvimento da alta estremadura (adae) teve conhecimento das suas viagens. “vendi-lhes este trabalho e vão fazer um livro, um mapa e cinco episódios em dvd para promover a alta estremadura”, revela.

por enquanto, o resto do país vai ter de esperar até que bruno acabe aquela zona. já passou por cortes, por piqueiral, por sandoeira e vários outros lugares. tanto vai para junto dos pescadores, como para a casa de alguém aprender a fazer queijo – e pode dormir ali ou num hotel de luxo. tudo conta.

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