dentro do que somos passa a existir um espaço feito de boas memórias e estilhaços, lágrimas e sorrisos tornam-se irmãos perfeitos. fora de nós não é mais fácil – muitos lugares continuam habitados por quem perdemos, a cidade é um campo minado. sítios onde fomos felizes com os que amámos, onde caminhámos com os nossos pais, avós, amigos. uma cidade de fantasmas. trágica e bela.
e como eles se acumulam. percebo agora o que antes dificilmente poderia entender; a juventude é mesmo isso, um lugar onde o futuro é maravilhosamente totalitário. com o gastar do tempo chegam as más notícias, o encolher dos dias, as despedidas, a pesada mas obrigatória ditadura do passado. e do esquecimento.
morreu maria joão beça múrias. um dia, creio que em 1990, convidou-me para estagiar no semanário o jornal – coordenava um programa juvenil de televisão e ela era fundadora da cooperativa de jornalistas liderada por silva pinto, cáceres monteiro, josé carlos de vasconcelos e assis pacheco. conhecemo-nos num debate em que explicava que os sonhos não têm explicação possível, garantiu que nunca encontrara palavras que os definissem na forma como nascem em cada um de nós, não existiam palavras nem hipóteses de pesquisar em centros de documentação, no seu centro de documentação.
maria joão revolucionara a maneira como os jornais organizavam os seus arquivos; há pouco mais de vinte anos representava o papel de revolucionária, os jornalistas sublinhavam à época que a grande mais-valia d’o jornal passava pela organização da documentação – por isso dava aulas em universidades, e espalhava sonhos em debates com jovens. se tivesse partido naquela altura, o presidente da república enviaria uma mensagem de condolências à família. os jornais caprichariam no seu obituário. as televisões dedicariam uns minutos nos seus telejornais.
quando a conheci já lhe morrera o marido. um pesado golpe, manuel beça múrias fora um grande jornalista e os dois, contava-me a maria joão, conseguiam parar o ponteiro dos segundos quando se olhavam, não precisavam de palavras, o amor necessita apenas do reconhecimento do olhar, sabemo-lo bem. uma viúva sem luto, uma viúva que oferecia vida a quem por ela passava, a quem lhe pedia documentação sobre isto e aquilo não se esquecia de dizer, sobretudo aos jovens, que aqueles papéis não substituíam o futuro – o amanhã jogava-se na próxima reportagem, opinião ou entrevista. o resto, tudo o resto, não passava de uma referência.
a maria joão foi o google antes do google. a revolução antes da revolução. e uma extraordinária mãe, a mãe do meu amigo pedro múrias a quem conheci só depois de a ter conhecido a ela – e da maria joão, rita e nuno.
adoeceu há uns anos. viu partir dois filhos em menos de um ano. morava na linha de cascais e a última vez que a vi e abracei foi na despedida do pedro, ainda há poucos dias, a propósito de uma memória, lhe escrevi: ‘o pedro partiu há uns anos, a igreja esteve cheia, o padre falou com o coração. teve um cancro e venceu-o. os últimos exames resgataram-lhe o sorriso que se ausentara nos anos de luta. combinámos festejar como nos velhos tempos, à grande. e pendente ficou um almoço com os miúdos, os meus e a dele, matilde. nunca o fizemos. não despachámos copos pela noite, não juntámos os miúdos. morreu poucos dias depois da maravilhosa notícia, um enfarte agudo. era o mais humilde de todos os meus íntimos amigos. maravilhoso, poético, sonhador. não era deste mundo, disse-lhe. digo-lhe. por isso compreendi e não o chorei. tinha mesmo de ir’.
não a voltei a ver.
sinto-me mal. devia ter-lhe telefonado mais vezes, estado presente, dito o que tão poucas vezes lhe disse, ter-lhe escrito este texto antes, não agora. mas tive medo de que não existissem notícias da sua partida, textos escritos que pudessem ser arquivados quando alcançar o misterioso lugar onde o princípio é semelhante ao do amor: o sítio onde as palavras não são suficientes para explicar ou definir o que quer que seja.
que a tua viagem, maria joão, seja rápida e sem enjoos. acredito que tenhas pensado, antes de fechar a luz, no encontro com manuel, pedro e nuno – os três homens da tua vida.
e não me esqueço do livro das cartas que o manel te enviou da guerra colonial (o salazar nunca morre, edição planeta), lembras-te da primeira? vou ler-ta, talvez ainda te apanhe em viagem: ‘vem depressa, sim? esta separação é das coisas mais tormentosas que tenho experimentado, porque é completa – há quase quinze dias que ando no mar sem saber absolutamente nada da preparação da tua vinda. o futuro que nos espera é muito incerto. por isso, vem para o pé de mim mesmo que seja longe. tens coragem? não penso noutra coisa. a viagem é monótona e nos momentos de maior solidão subo sozinho, para longe de todos, e as lágrimas vêm, em frente ao mar que me separa de ti. choro de saudades e não me envergonho de dizê-lo’.
um beijinho, maria joão. desculpa. e obrigado pelo tanto futuro que me deste. l
