T em sido um ano de recordes – por um lado, estamos no 15.º mês consecutivo com a temperatura média mais elevada de sempre à escala do planeta desde que há registos, tendo 2015 sido o ano mais quente e 2016 perto de o ultrapassar. Ao mesmo tempo, em Portugal bateu-se um recorde importante deste século – em maio deste ano houve quase cinco dias, mais precisamente 107 horas, em que o consumo de eletricidade do país foi continuamente assegurado por fontes renováveis. Há poucas semanas, a Costa Rica teve o mesmo registo recorde mas para 76 dias seguidos, entre junho e agosto deste ano, demonstrando que a vida sem combustíveis fósseis é possível. A eletricidade no país tem sido proveniente de um misto de energia hídrica, geotérmica, eólica e solar, com a energia hidroelétrica a fornecer cerca de 80 por cento do total da energia elétrica no mês de agosto e ficando-se o solar por 0,01 por cento.
Claro que as condições climáticas, a procura de energia e a dimensão do país são relevantes, pelo que o desafio é maior quando se muda o paradigma e se fazem apostas de longo prazo na eficiência energética e nas renováveis, marcando uma tendência futura clara. Portugal, com cerca de 72% de dependência energética do exterior tem um enorme desafio pela frente, com necessidade de aumentar a produção de eletricidade renovável no futuro, nomeadamente para alimentar a mobilidade elétrica que retirará peso ao uso dos combustíveis fósseis nos transportes. Neste contexto é necessário garantir que a energia renovável continua a ter o investimento justo que merece face à aposta noutras alternativas com consequências caras para o ambiente e a saúde, devendo haver uma clara prioridade à expansão da energia solar para diferentes usos, da água quente à produção de eletricidade. No caso desta última, é vital aumentar fortemente o seu peso durante o Verão e no total do ano, dado que no contexto da produção de eletricidade por fontes renováveis, a foto voltaica tem apenas cerca de 5% do total de potência instalada de renováveis e representa cerca de 2,5% da eletricidade renovável produzida.
O Acordo de Paris traçou uma meta clara de longo prazo que deve desde já determinar as políticas energéticas e climáticas – assegurar um balanço neutro entre as emissões de gases de efeito de estufa causadoras do aquecimento global e consequentes alterações climáticas, e a capacidade de retenção de carbono, nomeadamente pelas florestas.
A questão fundamental é mais vasta e determinante – os políticos têm de redesenhar os mercados de energia para acomodar a crescente utilização de energias renováveis e utilizar regimes de apoio para garantirem a segurança de abastecimento. Para incentivar e facilitar o uso de energias renováveis, como a solar, a eólica e a hídrica, os governos precisam garantir que os seus mercados são projetados numa filosofia de longo prazo e incluem regras claras e custos elevados, para as emissões de carbono, em linha com o seu impacte.
Ainda recentemente, um relatório do Conselho Mundial de Energia recomendava mercados com dimensão e interconexões suficientes para garantir que à capacidade energética para lidar com a variabilidade das energias renováveis. No que respeitava à União Europeia, o relatório destacava as consequências da redução no apoio ao investimento nas energias renováveis. A redução de apoios na União Europeia em diversos Estados-Membros levou a que a Europa visse reduzida a sua percentagem na energia solar foto voltaica de 75 por cento para para 41 por cento ao longo dos últimos quatro anos, tendo a quota europeia do mercado mundial de energia eólica caído de 41 por cento a 33 por cento.
As tecnologias, a capacidade de previsão meteorológica, o armazenamento e a capacidade de resposta das renováveis na produção de eletricidade são fatores importantes, mas a decisão política e o enquadramento financeiro justo de toda a produção energética com uma real tradução dos seus custos (incluindo para o ambiente) e do risco são fundamentais. O rumo aos objetivos climáticos traçados em Paris passar por um mundo com países, inevitável e felizmente, 100% abastecidos por energia renovável!
Francisco Ferreira , Presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável