Astrologia. “Somos uma civilização sem pernas para andar”

As civilizações antigas consultavam os astros como fonte de sabedoria. Nos dias de hoje também há quem se dedique ao estudoda astrologia, e Luís Resina é um dos mais antigos formadores nesta área. O i foi tentar perceber como é, afinal, viver à luz das estrelas

Teve uma educação cristã, mas aos 12 anos descobriu a filosofia hindu. Daí, partiu para o estudo da história das religiões. Ao i fala sobre a era em que estamos a entrar, a mesma que trouxe a independência da América e a Revolução Francesa. Filósofo, especialista em religiões do mundo, apaixonado por Fernando Pessoa e casado com a astrologia. Luís Resina é um homem de vários mundos, palavras ponderadas e tom de voz de quem pensa muito antes de falar. Quando era jovem encontrou o mestre dos Poetas e através dele descobriu o das estrelas. Embora reservado, falou ao i sobre uma sociedade que “já não tem pernas para andar”.

Encontramo-lo no seu gabinete, em São Bento, em Lisboa. Está uma manhã fresca, há luz em toda a sala. A música clássica é desligada e recebe-nos mesmo em frente a um enorme cartaz da árvore da vida. Numa prateleira, vê-se perdida uma das suas edições do “Astro Biografia de Fernando Pessoa”, livro que deu a conhecer o lado espiritual escondido do poeta português, depois de ter descoberto horóscopos e cartas trocadas entre o poeta e várias personalidades da época.

Como era o Luís em criança? Já sentia curiosidade pelo misticismo, já dava pistas de ligações a esse mundo?Bom, as minhas memórias do mundo esotérico começam por volta dos 13 anos. Tive uma educação cristã, digamos assim. Numa vertente católica e outra protestante. E bebi, portanto, dessas duas fontes do cristianismo. Por volta dos 12 anos vem-me parar às mãos, já não me lembro como, um livro de filosofia hindu: “As catorze lições de filosofia yogue”. E eu assimilei muito bem aquela filosofia e foi a minha primeira crise existencial de pôr de lado a educação cristã que tinha recebido e abraçar aquela filosofia que falava do karma, das várias reincarnações do universo. Lembro-me de em jovem ir às livrarias e os livros vinham ter comigo, ou eu ia ter com eles, não sei. Havia ali uma sincronicidade, nunca procurei deliberadamente um livro, nós encontrávamo-nos. E nesse sentido houve uma formação, primeiro literária, mais tarde experimental.

Quem eram os seus ídolos, os mestres?
A primeira imagem de mestre que tive, se é que lhe posso chamar isso, foi Krishnamurti. Tinha 17, 18 anos quando comecei a ler as palestras dele pelo mundo inteiro, que eram transcritas. Identifiquei-me muito com ele. Mais tarde, ao estudar astrologia, apercebi-me que estava num trânsito de Urano por cima do meu Sol, que corresponde a uma fase de individualização, muito semelhante ao percurso de Krishnamurti, que rompeu com escolas, fazendo o seu percurso muito sozinho mas com um diálogo e uma exposição virada para o homem e para o coletivo. E eu, naquela altura depois do 25 de abril, também me afastei completamente, porque tinha uma atividade política, revolucionária à qual estava ligado.

Estava ligado a que movimento?
Era o Grupo de estudantes do PAV que depois deu origem a vários movimentos políticos.

Que idade tinha?
Uns 16, 17, por aí. A seguir ao 25 de abril larguei a política e comecei a ler muito o Krishnamurti, a sentir que era muito por ali que eu queria ir. É nessa altura que me cruzo também com outras filosofias, li muito o “Tao Te King”, que me tocou muito com a filosofia “zen”. E depois, como sou um amante de filosofias e religiões do mundo, comecei a estudar a História das religiões. É curioso que estava orientado para seguir Economia e Gestão na universidade, mas de um momento para o outro descubro a Filosofia e a Psicologia e penso: “Não. Tenho de mudar”, e mudei de linha e segui a Filosofia.

Há alguma ligação da astrologia às religiões do mundo? Por exemplo, no cristianismo vemos o nascimento de Cristo anunciado por uma estrela.
A astrologia é muito mais antiga do que o cristianismo. Mas sim, sempre houve uma sabedoria estelar, que não era conhecida como a astrologia que conhecemos hoje. As tradições das grandes civilizações antigas, desde o Egipto aos Incas, Suméria, Astecas, Maias, todas elas tiveram um culto ligado aos astros.

Em pontos totalmente dispersos do planeta e sem comunicação entre eles, não é?
Aparentemente, pelo menos. Porque nos seus livros Zecharia Sitchin defende que houve conexões.

Telepáticas?
Não. (risos) Físicas mesmo, mas para falarmos nisso temos de integrar um outro tipo de conhecimento histórico de que não se fala na escola. Na minha época quem falava disto era o Robert Charroux, que era um historiador de mistérios e falava de civilizações antigas, das civilizações dos gigantes, conceitos que se encontram na nossa mitologia greco-romana, mas não só. Um conjunto de descrições mitológicas de seres divinos, que segundo o Zecharia Sitchin teriam sido encontros com seres extraterrestres que teriam vindo à Terra no passado e ajudado algumas civilizações a evoluir em diferentes pontos do planeta.

Como se vive com este tipo de conhecimento num mundo consumista, cético, desligado? Como é que o Luís se adaptou ao mundo convencional, alguma vez duvidou de si, da sua saúde mental?
(Risos) Por acaso não. As minhas percepções sempre foram tão fortes e claras, com tanto feedback positivo, que nunca tive essa preocupação. Também não andamos aqui sozinhos e pelo caminho vamos encontrando pessoas que sentem as mesmas coisas, que partilham das mesmas sensações. Mesmo em relação a coisas com que eu me identificava, que eu sentia, o feedback relacional não só as confirmava como me dava força. As intuições, quando vamos a verificar que em termos de nível sensorial ou de comunicação, vão ao encontro à realidade, encaixam umas nas outras, é muito curioso. E então com o tempo sempre me fui afastando cada vez mais da opinião pública, do pensamento comum. Ou seja, aqui sou eu que me marginalizo em relação à cultura vigente. O René Guénon, por exemplo, que escreveu “A Crise do Mundo Moderno” marcou-me muito na altura, por colocar em causa todo o processo de evolução da história do pensamento ocidental.

Alguém identifica, em algum momento, uma desconexão do ser humano a esse tipo de culturas ancestrais?
Há várias visões. Vários autores consideram que isto é muito mais remoto, que não estivemos sempre ligados a esse conhecimento. Esse desvio é visto, por exemplo na instituição da Igreja Ortodoxa Romana com Constantino, no século IV em relação ao Cristianismo.​

As pessoas que se dedicam ao estudo da astrologia têm alguma ideia de quando terá começado este estudo? Qual foi o ponto em que os homens começaram a tentar tirar conhecimento sobre eles próprios e o que os rodeava através das estrelas?
A contemplação estelar faz parte da natureza humana. Desde as civilizações totémicas, mais primitivas, que já deviam olhar para o céu com curiosidade. O céu estrelado faz-nos sonhar, ter uma dimensão com o todo e as religiões começaram com adorações estelares. As primeiras foram lunares, com cultos à Lua, depois surgiram as solares.

Qual era a principal diferença?
A adoração à Lua tem que ver com o culto dos antepassados, está relacionada com as então civilizações totémicas. As civilizações mais vitalistas começam a adoração ao Sol como astro-rei e doador de vida. Há realmente uma sequência que já vem lá de trás. Mas isso leva-nos a muitas questões quanto à origem do Homem e tudo o que com ele está relacionado. Há realmente teorias que nos veem como civilizações estelares, o que significaria que estamos aqui apenas de passagem. Mas isso leva-nos a outros mundos e a muitas outras questões.

Há povos indígenas que desenvolveram técnicas e medicinas cujas receitas são vistas e contadas em lendas como tendo sido oferendas de outros seres. A passagem do conhecimento de ferramentas para abrirem determinadas “portas”.
Toda a tradição antiga é baseada numa tradição oral, num relacionamento que hoje chamamos de mestre-discípulo, em que todo o conhecimento era passado para ser um conhecimento-vivência e não um conhecimento teórico. As civilizações antigas não valorizavam tanto o intelecto como hoje em dia. Então era um conhecimento vivido, que era transmitido pelos ancestrais, que também consideravam ter recebido esse conhecimento dos deuses. O poder divino encarnava na terra como passagem de testemunho, toda uma ritualização. Hoje o conhecimento é todo banalizado. Temos um mundo de acesso à informação mas com banalização. As palavras tinham poder, os alfabetos eram considerados sagrados, por isso havia uma relação muito estreita entre a palavra e a ação. Havia poder nesse sentido.

Somos uma sociedade que banaliza a palavra?
Somos porque perdemos essa relação da palavra com a alma, desenvolvemos uma civilização desalmada. Então, nesse sentido, intelectualizamos tudo, racionalizamos tudo, estamos a querer ser o espelho do Iluminismo, do século XVIII.

Era uma das minhas perguntas, se considera que estamos a reviver o Renascimento e o Iluminismo.
Sim, agora estamos maravilhados com a tecnologia, e a tecnologia como razão iluminada. É a tecnologia e o capitalismo selvagem. E estas duas ligações não respeitam a natureza essencial do homem. Nós vivemos com base nestes dois princípios.

Qual é a natureza essencial do Homem?
A natureza essencial do homem é a ligação profunda com a vida. E a vida tem múltiplos aspetos em que a racionalidade é só um de muitos.

Mas somos uma sociedade bastante cansada da vida, não somos?
Exatamente porque passámos a ser autómatos, cada vez mais aproximados das máquinas e deixámos de viver. A criatividade vai-se embora porque funcionamos muito mais com automatismos.

Várias culturas, desde os Maias aos Incas, passando pela China, viam estas tendências do Homem como cíclicas. Paralelamente estamos ou não a entrar também numa era de Iluminismo espiritual?
Percebo a pergunta e de certo modo estamos. Sem dúvida nenhuma, até porque em termos de energia, todos os astros do sistema Solar estão a ser bombardeados por aquilo a que os Maias chamavam alinhamento galático -aliás uma série de outros povos descreveram o mesmo alinhamento, que tem que ver com alinhamento com o centro da galáxia que se dá de 26 em 26 mil anos. Neste alinhamento há uma oportunidade incrível de recebermos outro tipo de energias e das pessoas acordarem e despertarem para uma outra realidade. Por isso, simultaneamente estamos a assistir a dois fenómenos. Um é o despertar espiritual das pessoas e o outro ainda é do velho paradigma, que tenta suster uma sociedade e civilização que já não tem pernas para andar. Por isso estamos numa encruzilhada.

Precisávamos de um botão para reiniciar.
Exato, um “turning point”. Mas por acaso estamos a entrar numa era de Aquário, que começou com a independência dos Estados Unidos da América e com a Revolução Francesa.

O início da História Contemporânea, portanto.
Sim, exatamente. E que foi mais desenvolvida na década de 60 do século XX e que está cada vez mais a penetrar no âmago destes grandes ciclos. Há que ter em conta que uma era de Aquário dura 2160 anos, e a época de transição são cerca de uns 360 anos…O sistema solar está a dar uma curva em relação ao movimento de translação da Via Láctea e estou até a lembrar-me de uma autora que fala da era da luz cósmica. E essa luz está em vias de entrar cada vez mais e acelera esse processo. Mas nós perdemos essa tradição de olhar para o céu.

As luzes das cidades também não ajudam.
Pois, mas os programas para a astronomia ajudam. Por exemplo, como também saio pouco da cidade, apesar de até gostar muito do campo e da natureza, dou uns passeios aqui à volta por Sintra e tal, mas quando estou na cidade olho através de uns programas. A tecnologia também pode ser utilizada como ferramenta de conexão com o Homem, não para o escravizar, mas para o expandir do ponto de vista da consciência. E se olharmos através de um programa astronómico, o que vemos neste momento se pusermos na linha do programa o horizonte do local? Olhando para o céu vemos o ponto vernal, que é o início dos anos para os antigos, à volta de 21 de março, que é o cruzamento da elíptica com o Equador, em que se vê a constelação de Aquário a começar a ascender e a constelação de Peixes a começar a cair no horizonte. Uma a afastar-se e a outra a subir, uma a dar lugar a outra, como num rio em que há águas que entram e dão lugar a outras que saem em simultâneo. E isto é uma transição de eras e claro que há fenómenos fortíssimos.

Pode dar um exemplo?
Olhe, há dois mil anos, quando o cristianismo começou, também se deu a queda de Roma, por exemplo. Houve uma revolução bastante forte e o cristianismo introduziu um novo conceito que é a importância do homem, que traria como consequência a abolição da escravatura. O homem até então não valia, naquela época o cristianismo fez pontes entre os vários seres. E nós ainda nem fizemos a síntese da era de Peixes. Estamos na última fase deconfluência da era de Peixes, com a entrada das energias de Aquário.

Li que a astrologia fala em era de trevas, nessa tal era de peixes.
Mas não foi só trevas. Teve o lado sombrio e o lado luz. Era de dois grandes avatares: Jesus e Buda. O cristianismo e o budismo fazem parte desta era como fonte de ligação entre todos os seres. Esse lado da solidariedade, do ver o outro como um irmão. Isso faz parte do melhor da era de Peixes. O lado sombrio é o lado dogmático, das crenças que as religiões trouxeram de uma forma mais sectária e criou o materialismo de hoje. O materialismo que se desenvolve depois do século XVII, XVIII, mais especialmente no século XIX, em que se desenvolve o positivismo, o materialismo histórico e dialético que se desenvolvem em contrapartida ao dogmatismo religioso. É a sua cara metade, só as expressões é que mudam. A Igreja era o ópio do povo.

Aquela época que falou dos anos 60, em que há a vaga os hippies. Houve realmente algo ligado à astrologia, ou foi só uma moda?
Há sempre uma corrente de moda. Quem estuda astrologia mundial como eu sabe que há momentos históricos fundamentais e a década de 60 foi um deles. Porquê? Porque em termos astrológicos houve logo no início da década uma lua nova com um eclipse muito forte em Aquário onde estiveram sete planetas conjuntos em aquário. Saturno, Júpiter Marte, Mercúrio Vénus, Sol, Lua e os nós lunares também, um em Aquário, outro em Leão. E isto realmente abriu aqui um novo ciclo no século XX –  foi a época mais revolucionária desse século. Não só em mudança de costumes, mas também a década em que o Homem foi à Lua, do Maio de 68, das grandes revoluções da arte, da música. Uma procura de um novo modo de estar que já tem que ver com a era de Aquário. Eu pertenço a essa geração e lembro-me que nessa década pensava “bom, a tecnologia a desenvolver a olhos vistos, o homem vai à Lua em 69, isto no final do século a sociedade vai estar tão transformada que nós já nem andamos em automóveis”. Era o que se pensava na altura, que ia haver uma revolução.

Os anos 2000 eram o futuro. Até a cultura pop era toda futurista.
Claro, já vivíamos a ficção científica. Estávamos a andar nas naves que tínhamos visto no cinema. Víamos a tecnologia como ao serviço do crescimento do Homem, a exploração espacial, era tudo fantástico.

Mas estagnou.
Começaram as guerras, do Vietname à Guerra Fria, as grandes desigualdades, muito no exterior. Vamos para Marte, vamos não sei para onde, mas sem resolver os problemas internos, sem procurar soluções para os da Terra. De que vale pensarmos nos recursos que podem estar lá fora se não resolvemos o que temos aqui na Terra? Primeiro há que apaziguar o que se passa aqui.

Somos um bocadinho como aquela tribo do filme “Os deuses devem estar loucos”? Acha que é uma metáfora atual para a nossa sociedade e o uso que damos à tecnologia?
Esse filme… Os deuses que enviaram a Coca-Cola.

Exatamente, uma garrafa de coca-cola destruiu a harmonia de uma tribo inteira, em que todos lhe viam diferentes usos e todos a queriam.
Pois a tecnologia tem de estar ao serviço da comunidade, do homem. Não pode ter vindo para desequilibrar isto tudo.

A religião e a ciência tendem a ser para sempre inimigas. Mas onde se encaixa a astrologia? É uma arte? Uma ciência?
Inimigas aparentemente. Numa era de Aquário não podem ser. Muita gente fala em astrologia sem sequer perceber do que se trata. Já por causa disso eu agora tendo a chamar tudo isto “Astrosofia”. Um termo que diferencia o que já todo o senso comum acha que conhece sem conhecer. A astrologia, tal como a conhecemos do ponto de vista público, começou com os jornalismo francês no início do século XX, que começou com o jornal francês que era o L’horoscope. Em Grego Horóscopo quer dizer signo ascendente, que está a nascer no oriente quando a pessoa nasce. Isso de uma pessoa fazer previsões solares, é uma invenção dos media.

Foi uma forma de ridicularizar?
Sim. Uma forma de tornar tudo isto entretenimento.

As pessoas têm medo de falar destas coisas? Sente que se ridicularizou a temática e as pessoas que veem o mundo com esse olhar estelar?
Claro. Funcionou bem.O que aconteceu à astrologia está acontecer também com o sistema político, científico e religioso, as pessoas estão cada vez mais a consciencializar que nos contaram uma outra história. A astrologia antigamente estava sempre presente nos homens de conhecimento. Só as pessoas cultas tinham acesso a dedicar-se à astrologia.

Como os reis que pediam conselhos das estrelas? 
Começou a dar-se esse uso da astrologia mais mundano ainda na Suméria. No Egipto estava mais ligada à astronomia e à religião estelar. O que significa que os astros serviam para canalização energética e só interessava o futuro dos Faraós, o do povo não interessava para nada. Essa individualização da astrologia é um conceito moderno, comparativamente às civilizações antigas. A astrologia individual, tal como a filosofia, começa na Grécia. A Grécia é a herdeira da tradição Suméria e Egípcia. Em Alexandria, todos os saberes herméticos se fundiram, a celebre biblioteca de Alexandria, que foi incendiada, tinha essa conjugação de  todo saber antigo. Enquanto o Alexandre o Grande, na Grécia, fez a sua expansão do império congregando os vários cultos e religiões em cada uma das regiões respeitando esses costumes, quando ele morre começam os sectarismos. Dando-se início a uma guerra de crenças.

Há alguma missão para cada ser?
Isso é uma questão semelhante à que uma vez levantaram a Einstein à qual ele respondeu “Deus não joga aos dados com o Universo”. O que é uma metáfora interessante. Dentro da minha percepção da vida, existe uma lei que se chama “Lei da Sincronicidade” que diz que nada acontece por acaso. Há sempre uma relação de sentido ou significado presente em cada acto. Logo, o acaso é apenas um esquecimento nosso de que algo deixou de ter sentido.

Mas há um destino? Nós temos em nós o livre arbítrio, não é?
Claro que há um destino, se não houvesse destino não havia existência física nem material. Se o Universo começou a expandir num determinado momento, se há um percurso, se há um ciclo cósmico, isso é um destino. Se somos filhos do universo, todos temos um destino. Podemos pensar “Ah o universo aconteceu ao acaso”. Isso é apenas uma visão materialista. Mas mesmo que tenha acontecido ao acaso, para mim é um acaso que significa tudo.
O Nietzche diz que deus está morto e Fernando Pessoa diz o que morreu foi a nossa visão de Deus. Nós vivemos em três dimensões, a astrologia estuda uma quarta, com arquétipos. E o problema é que as pessoas querem remeter tudo para as três dimensões. Mas os novos físicos têm várias teorias com a base de Eisntein em que defendem a multidimensionalidade.

Há pouco tempo vi uma palestra de um astrofísico que dizia que quanto mais estuda a astrofísica mais se encontra com a metafísica e a espiritualidade. Daí estar há pouco a referir a ciência vs religião, espiritualidade.
A matéria e o espírito estão a caminho da fusão. Eu já costumo falar disso na minha página, quando digo que na era de peixes temos de fundir a matéria com o espírito, que faz parte da síntese da era de peixes. Há mesmo essa missão de fundir o espírito com a matéria, esse é um dos aspetos que foi já trabalhado em Fernando Pessoa e no qual eu continuo a batalhar. Não faz sentido nem vivermos só no espírito, nem vivermos só na matéria. Temos de encontrar uma fusão entre essas polaridades e enquanto não encontrarmos balanço entre esses dois níveis, vamos viver num mundo desequilibrado, como ainda está. Mas há que ter consciência dessas polaridades. E qual é a importância da astrologia nisto? A astrologia ajuda a re-ligar as polaridades, serve para o auto-conhecimento. Depois até pode servir para tentar fazer previsões, porque as pessoas gostam muito disso. É que como as pessoas não estão habituadas a serem responsáveis pelos seus atos, gostam mais que o destino ou a vida sejam responsáveis.

É mais fácil “pôr tudo nas mãos de Deus”, não é?
(risos) Exatamente. Tudo. Como se os astros resolvessem os problemas. Há que ver como é que a influência astral age de forma colectiva e depois em forma individual e é nisso que estamos a trabalhar. Por isso quando eu ensino astrologia é sempre muito na perspectiva alquímica. Conhecimento para que? Para que as pessoas se conheçam a elas próprias, para melhorarem.

Há pouco falava dos seus 17 anos, agora tocou ali no Fernando Pessoa. Quando é que se deu essa comunhão?
Depois de me começar a interessar pela História das Religiões, li muito de Antropologia, Psicologia, Filosofia e História. Sempre de uma forma autodidata, embora tenha frequentado o curso superior de Filosofia. Já no final do liceu eu gostava muito de Fernando Pessoa, tinha encontrado Fernando Pessoa, o poeta. O meu heterónimo preferido era o Alberto Caeiro. Apesar de gostar muito do Álvaro de Campos e do seu lado mais revolucionário, o lado intuitivo e de mestre do Alberto Caeiro fascinava-me, porque trabalhava com o lado da intuição. E depois vim a saber que Fernando Pessoa tinha-se dedicado à parte esotérica.

Que nunca nos é falada na escola.
Não, claro que não, isso vinha apenas em livros raros, que só se encontravam em alfarrabistas. A obra que não tinha sido publicada. E eu em 1981 e 1982 tive o privilégio de fazer um programa com o Raúl Durão, que me convidou, e tive então a oportunidade de ir à Biblioteca Nacional, na secção dos reservados, e estive com os manuscritos de Fernando Pessoa na mão, antes de serem fotografados e copiados, a ver as pastas todas. Aí começo a ver numerologia, cabala, magia, astrologia e tudo aquilo que ele tinha escrito sobre isso. Fiquei boquiaberto, e descobri a astrologia graças a essa paixão por Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa era do signo gémeos, certo?
Sim, com ascendente em escorpião. Com muitos planetas na casa oito, uma enorme relação com o mistério e o oculto. E eu com a minha Lua em gémeos comecei logo a absorver essa energia toda dele. Tirei alguns apontamentos. Eu já estudava astrologia, mas aí foi um mergulho maior no Fernando Pessoa. Comecei a estuda-la por volta de 1978.

Já se estudava astrologia em Portugal?
Haver quem a estudasse havia. Mas nós tínhamos saído do 25 de abril e cuidado com alguém que falasse de astrologia até ao 25 de abril. Não podíamos falar abertamente. Logo começaram a surgir alguns movimentos que começaram a libertar conhecimentos cá para fora. Claro que deve ter havido alguma escola em termos de tradição astrológica em Portugal, porque Fernando Pessoa dedicou-se muito, o Mário Sá também se dedicou à astrologia. Mas a tradição astrológica portuguesa é muito rica e já vem dos tempos de Dom Dinis. Mas escolas que facultassem cursos de astrologia acho que a que eu entrei foi a primeira, que eu tenha conhecimento. O centro Rosa Cruz de Lisboa estava ligado a uma escola da Califórnia e dava cursos por correspondência. Mas houve duas pessoas que na altura quiseram fazer um curso aberto ao público para ensinar como se desenhava uma mapa à mão, como é que se davam os instrumentos necessários para começar o estudo da astrologia. Mas em 1978, mas por acaso, sem ser por acaso, de coincidência significativa (risos), um dia compro A Capital e vejo “curso de astrologia” dado pelo centro Rosa Cruz de Lisboa na casa do Ribatejo, na rua de Salitre de Lisboa.

Espaço Salitre, é o nome do seu espaço.
Exatamente. (risos) Fui lá parar 29 anos depois, num ciclo de Saturno, fui lá parar novamente. Onde aprendi astrologia, fui parar a essa rua novamente e fiz lá o centro, mesmo ao lado do sítio onde comecei a aprender astrologia. Aprendi tudo à mão, nessa altura, e como sempre tive jeito para números e matemática, sempre quis aprender os algoritmos todos e os mecanismos todos celestes. Eu gosto muito de astronomia e não há motivos para estarem separadas, porque sempre estiveram ligadas como irmãs gémeas. A astronomia e a astrologia nasceram as duas da mitologia e a partir do Renascimento faz-se a separação dos saberes. Claro que são duas áreas distintas, mas são complementares. Então fiquei com esse bichinho todo e especializei-me, como autodidata, a encomendar livros do mundo inteiro e a estudar tudo a fundo.