A designer de moda Simone Rocha tinha acabado de sair do palco da Condé Nast International Luxury Conference quando se sentou frente a nós numa esplanada do Terreiro do Paço para conversarmos sobre a “poesia das conexões” e das histórias que conta com as suas roupas. O nome não engana. Ou, por outro prisma, engana bastante. Simone Rocha tem, efetivamente, ascendência portuguesa – vinda de um avô paterno macaense –, mas nasceu em Dublin, em 1986, e nunca tinha estado em Portugal até há duas semanas. É filha de pai chinês e mãe irlandesa. As suas duas lojas físicas – em Londres e, mais recentemente, em Nova Iorque – são a casa onde expõe as duas coleções que desenvolve anualmente. Simone Rocha, que mantém uma visão da moda profundamente feminina, lançou a sua própria marca em 2010 e já ganhou três British Fashion Awards. Mas contrariamente à sua geração – tem 31 anos –, nunca quis abrir uma loja online e sente-se confortável como designer independente. Prefere antes aplicar energias nos espaços físicos das lojas que vai redecorando – mobília incluída – a cada estação.
Está a usar brincos portugueses!
A sério? Eram da minha mãe, são de filigrana. Adoro toda a joalharia de filigrana.
Porque importa para si mudar a cada estação o interior das suas lojas, incluindo esculturas e outras obras de arte?
Para mim, tem a ver com proporcionar uma experiência inteira. Quando desenho originalmente as obras da loja, escolho um plano aberto e toda a mobília já com a perspetiva de ser mudada. Quero que o espaço possa evoluir da maneira que as minhas coleções evoluem. E isso implica tentarmos fazer a cada estação uma nova instalação, por exemplo uma escultura, que tenha a ver com o corpo de pesquisa da coleção.
Seria impossível para si pensar uma coleção que só fosse vendida online, sem esse cenário?
Para mim, é decerto impossível. A fisicalidade e o toque humano são muito importantes.
O que é, de certa forma, contracorrente para a sua geração.
Exatamente, é um pouco old-school, eu sei, mas eu gostaria de continuar a fazer o que faço por muito tempo e sinto que é preciso encontrar este balanço de fazer coisas com uma forte componente humana, apesar de estar muito consciente das plataformas digitais. Mas na minha visão tem de haver a parte humana, física.
Além das roupas também cria livros aliados às suas coleções, que são edições limitadas. Pode falar-nos um pouco desta ideia?
Fazemos edições de livros publicados por nós que temos nas minhas lojas e em algumas lojas de livros mais especializadas, mas a teoria por detrás disto veio do meu desejo de ter algo grátis e disponível na loja para as pessoas que entrem e não vão comprar roupas – estou aqui a pensar nos homens. (risos) Normalmente fazemos um projeto baseado na nossa campanha e depois convido diferentes fotógrafos e artistas que queiram contribuir, e assim consigo mostrar o trabalho de um monte de pessoas que me inspiram. Sabe bem ter outra fachada visual para as pessoas.
Mostrou a sua primeira coleção na Semana da Moda de Londres de 2010. Como acha que os mercados e o seu próprio trabalho evoluíram desde então?
A Semana da Moda de Londres tem uma característica espantosa: apoiava muito os jovens designers e tinha uma ótima energia – continua a ter, aliás. Mas sinto que o mundo se tornou um lugar muito mais pequeno e começamos a ser expostos internacionalmente muito mais rápido. E isso é incrível, mostra que estamos já conectados a nível mundial. mas com isso vem um ritmo muito rápido e muita pressão, e há que aprender a navegar.
E as suas escolhas vão mais ao encontro de um ritmo mais lento.
Sim, sempre quis só fazer duas coleções por ano, quis abrir lojas físicas e não online, e essa tem sido a minha trajetória.
O seu tipo de clientes mudou muito?
Tenho os mesmos clientes que tinha em 2010, o que é muito bom, mas, agora, o que é muito interessante é que recebo muitas mães e filhas na minha loja, ou seja, de todas as idades. Faço muitos acessórios como brincos, bandas de cabelo, e estes são muito populares entre os millennials, por exemplo.
A moda continua a ser uma das indústrias mais poluentes do mundo. Sente que os consumidores estão a mudar ao procurar itens mais sustentáveis, o que faz com que as marcas também procurem cada vez mais esse caminho?
Acho que é difícil falarmos só da moda a esse nível. Sinto que o mundo inteiro está a tentar, por exemplo, usar menos plástico e todos nós temos de fazer escolhas cada vez mais conscientes. De certa forma, tenho sorte porque a minha operação ainda é relativamente pequena, pelo que não estou num sítio no qual me sinta desconfortável. Mas todas as empresas, grandes ou pequenas, têm de ser conscientes [deste problema].
Mas quer que a sua marca cresça, certo?
Acho que temos sempre de crescer, mas penso que tem de ser de uma forma natural.
Acha que criar peças icónicas é um dos maiores desafios dos jovens designers?
Acho que qualquer designer que seja muito bom não vai dizer: “Isto é uma peça icónica.” Acho que deve ser uma peça que um designer diga para si próprio que criou algo fantástico, mas o que a torna icónica é conexão das pessoas à própria peça a um nível pessoal. Dito isto, ver pessoas a copiar o nosso trabalho é um elogio. Acho que quando as cópias dos nossos originais começam a surgir não podemos olhar para isso de uma forma negativa.
Já lhe aconteceu?
Já! E mesmo que no princípio tenha achado que era mesmo aborrecido, percebi que tinha de lidar com isso e pronto.
E quais são os outros desafios que sentiu enquanto jovem designer?
Há alguns que vêm com o crescimento, por exemplo com o crescimento das equipas e ter mais staff.
Vem de uma família muito criativa. Como é que crescer neste meio moldou o seu caminho?
De uma certa forma, foi totalmente natural esta escolha. A minha família, embora esteja no negócio da moda, não são pessoas muito fashion, são verdadeiros trabalhadores, e a moda para eles veio através do amor pelo craft (artesanato) misturado com a incrível obstinação do meu pai. E eu sempre trabalhei para ele no seu estúdio, para mim era normal. Portanto, moldou-me no sentido de isto ser tudo muito natural para mim, o que é bom.
Mas quando diz que eles não são pessoas da moda está a dizer que não gostam de roupas?
Não, adoram! Estava a falar no sentido de que eles não eram da chamada indústria da moda, dos supermodelos e das festas. A aproximação deles é toda focada na criatividade.
Além de uma família criativa, é multicultural. Os seus avós são de Macau, a Simone nasceu em Dublin. Estas referências também têm um reflexo no seu trabalho?
Sou metade chinesa, e desde que sou criança vou a Hong Kong todos os anos. É realmente fabuloso poder ter esta influência. Para mim, a cultura chinesa ainda é uma cultura de família, com uma beleza imensa de paisagens. O facto de todas as construções serem feitas de bambu, que pode ser usado como um têxtil… há todas essas influências diferentes.
Juntar estas visões numa coleção é certamente complicado. De onde costuma partir para se inspirar?
Posso começar a partir dos próprios tecidos, por exemplo ir a um mercado e sentir-me inspirada pelo que lá encontro, e a partir daí fazer pequenas flores de renda e um novo tecido – pode ser tão literal quanto isso. Outro exemplo: em Hong Kong, as mulheres da geração mais velha vestem-se com os casacos e trajes típicos, mais estruturados, que me podem querer fazer focar mais no corte.
Chegou a conhecer o seu avô macaense?
Sim, mas, apesar da ascendência, ele já não falava português, só cantonês. Mas sei que o meu último nome significa rocha (rock).
Já que estamos numa conferência sobre luxo… Como define o luxo numa palavra?
Liberdade é luxo. Independência também.