Conflito russo-ucraniano, a China e a Europa agora

A atitude da China perante a invasão da Ucrânia pelas tropas russas pautou-se, primeiro, por uma espécie de neutralidade colaborante que encorajou alguns responsáveis políticos e observadores ocidentais na ideia de que Pequim podia, não só vir a exercer pressão sobre Moscovo no sentido de uma paragem das operações, como até vir a condenar tal…

por VRR

Tal ilusão desapareceu com as declarações, na Segunda-Feira 7 de Março, do Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, que qualificou a Rússia como “o mais importante parceiro da China” sublinhando também que tal percepção não é alterada nem pela invasão da Ucrânia – que Pequim justifica por razões de segurança de Moscovo – nem pelas sanções que os chineses consideram um instrumento errado, ilegal e contraproducente.

ILUSÕES

Estas afirmações não são para admirar, atendendo aos laços político-económicos crescentes que, especialmente depois de 2014-2015, os dois governos foram desenvolvendo, e que ficaram bem espelhados no encontro de 4 de Fevereiro, em Pequim, na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno.

Numa análise objectiva esta aproximação faz todo o sentido: a China é uma autocracia de partido único, que não parece disposta a integrar-se na ordem democrática e liberal patrocinada pelos Estados-Unidos e pela União Europeia. A Rússia de Vladimir Putin é uma autocracia de partido dominante – a Rússia Unida – e todos os partidos representados na Duma ou Parlamento, inclusive o oposicionista Partido Comunista da Federação Russa (PCFR) apoiaram a “operação militar especial” como é conhecida, na Rússia, a invasão da Ucrânia.

Nesse sentido o discurso oficial chinês tem sido não só considerar os Estados-Unidos e os seus dirigentes responsáveis e culpados pela situação que levou Putin a atacar, e condenar as sanções euro americanas à Rússia, como “um despejar de gasolina sobre as chamas”.

Esta atitude do governo chinês ficou agora demasiado clara que para Wang Yi, negando de vez as expectativas de alguns analistas, como Thomas Friedman que no NY Times sustentava há dias que a China, possivelmente, iria acabar por “juntar-se ao Ocidente e a grande parte do resto do mundo na oposição a Putin”.

Agora ficamos a saber que não se vai juntar. E, não só é a China, o governo chinês declara o seu apoio a Pequim, como, grandes multinacionais chinesas como a Huawei e a Alibaba, que, quando perguntadas e pressionadas a alinhar com as sanções e a parar as suas operações na Rússia e com a Rússia, se recusam sequer a responder.

 Isto não admira, dado o controle estreito e total que o governo – e o Partido Comunista Chinês – têm sobre as empresas chinesas. Assim enquanto as empresas europeias e americanas estão a cortar ou a diminuir os seus negócios com a Rússia, (a Apple parou as suas vendas na Rússia e à Rússia, e cancelou no seu App Store a RT e a Sputnik Notícias) as grandes marcas chinesas continuam, as relações com a Rússia.

A questão da Huawei nos países da UE, tem a ver com a lógica de a companhia, profundamente ligada ao governo de Pequim, usar a sua presença nas telecomunicações dos países da União para actividades de espionagem. Para além disso, dependência da Hawei 5G pode em caso de conflito político-diplomático, sirvir para Pequim pressionar os países utentes no sentido dos seus interesses.

Devido à pressão norte-americana e à percepção do crescente poder económico chinês (em 2035, a China representará 22% do PNB mundial, os Estados-Unidos 14% e a Europa 12%) os europeus tentaram algumas defesas, como a proposta, em 2012, do comissário francês Michel Barnier, de proibir o acesso aos mercados europeus de High Tech de todas as companhias cujos países não aceitassem o princípio da reciprocidade nos contratos públicos. Mas Berlim, com grandes interesses na exportação para a China, matou a proposta. Só quando os chineses fizeram o Takeover de Kuka, uma empresa pioneira no fabrico de Robots industriais, os alemães abriram os olhos e mudaram de atitude.

SEGURANÇA E INTERESSE

Usando as Rotas da Seda, a debilidade financeira e desequilibrados custos de países europeus como a Itália, a Grécia e Portugal, as empresas chinesas têm vindo a assumir posições económicas de domínio e controle em várias empresas estratégicas destes países.

Há países da UE que seguiram a rejeição pura e simples como a da Roménia e da Lituânia. Só que agora, considerando o claro alinhamento de Pequim com Moscovo, todo o problema de relação dos países europeus com a China, terá que ser revisto, já que, a presença nas telecomunicações de companhias, como a Huawei, que é privada mas que, por lei e pela realidade dos factos, deve transmitir ao governo e ao Partido informações que sejam importantes para a segurança nacional chinesa, coloca o conflito de interesses noutro patamar. Também em Portugal, onde tem havido algum relaxamento em relação aos aspectos de segurança.