Porque não se calam?

Augusto Santos Silva foi a única figura serena no meio de uma tempestade de excessos.

por Francisco Gonçalves

A XXVI Cimeira Ibero-americana de 2007, na Guatemala, ficou marcada pelo célebre desabafo de Juan Carlos, de Espanha, cansado das interrupções do então presidente venezuelano, Hugo Chávez: «Porque não te calas?».

Confessamos que é o mesmo que nos apetece dizer, a respeito do excesso de falatório dos políticos (e não só destes, também da Igreja), sobre os palcos das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ).

Ponto prévio: Portugal candidatou-se à organização das JMJ, ninguém nos pediu para recebermos o evento e o mesmo não nos foi imposto.

Do ponto de vista social o evento é importante. Promove o debate de questões centrais da vida da nossa comunidade, entre católicos e não católicos, mesmo os que não professam da religião católica reconhecerão o seu papel na construção da sociedade atual e o seu papel na discussão dos temas da vida.

Haverá sempre quem diga que o Estado é laico e não deve tomar parte nestas matérias, como se a religião não fizesse parte da vida das pessoas da comunidade, ou como se estas pessoas, na sua qualidade de cidadãos, se separassem dos valores que as definem. Os radicais estão e estarão sempre conta tudo, pelo que, nada a fazer.

Para além da importância social do evento, há um lado económico, associado ao mesmo, que demonstra a mais-valia que representará para o país. Em Madrid, de acordo com o que foi noticiado, o investimento representou cerca de 50 milhões de euros, e teve um impacto económico de 354 milhões de euros na economia espanhola.

Face a esta magnitude, estamos mesmo a discutir o preço de um palco? O Presidente da República envolve-se numa troca de acusações com a Igreja, sobre quem sabia o quê. O bispo auxiliar desmente o Patriarcado. O Coordenador do Grupo de Trabalho do Governo dá uma entrevista a criticar as opções da Câmara de Lisboa. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa mete os pés pelas mãos, primeiro dizendo que fará o que lhe mandarem, depois assumindo a coordenação em Lisboa e dispensando o coordenador nomeado pelo Governo.

Mas… está tudo doido?

É preciso saber quanto custa o palco? Chama-se quem o projetou e explica-se o orçamento. Era possível fazer mais barato? Se sim, porque se escolheu aquela opção? A primeira explicação é técnica, a segunda é política.

Paralelamente, é favor explicar ao Senhor Presidente da República que já não é comentador político há alguns anos. Não confundir afetos com vozearia. Os portugueses precisam de exemplos, chega de tratar de tudo na praça pública.

O coordenador do Governo tem apenas de fazer isso mesmo: coordenar e articular com diferentes ministérios e com diferentes autarquias. Dar entrevistas a criticar o presidente de Câmara de Lisboa cheira a mau hálito político de quem foi vereador do poder anterior, derrotado nas eleições, em 2021.

No meio de toda esta confusão, um agradecimento ao presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva. Foi a única figura serena no meio de uma tempestade de excessos, pronúncio das qualidades políticas certas para ser Presidente da República.

O apoio do líder do Chega tem sido muito importante na afirmação de Augusto Santos Silva como presidenciável. Tem sido o político mais inteligente na relação com o populismo de bolso do líder do Chega: responde com educação, cultura e superioridade moral e intelectual.