Casa onde há pouco pão

Perceber como um país passou de ‘bom aluno’ e exemplo de desenvolvimento, para ser ultrapassado, progressivamente, pelos outros membros da UE, é inenarrável. 

Por Francisco Gonçalves

Qualquer observador atento, e pouco dado a dogmas, percebe que a progressiva degradação da situação económica de Portugal está a conduzir a sociedade portuguesa para um lamaçal de tensões e divisões, muitas delas gratuitas e sem sentido. Se as tensões e as divisões já eram percetíveis, até pelo nível de conflitualidade na retórica política, agora resultam em violência nas ruas.

A manifestação do último sábado, motivada pelo direito à habitação, já deu os primeiros sinais de que o ‘país dos brandos costumes’ vai passar por um período de forte convulsão social. Se, até há algum tempo, os portugueses pareciam ter incorporado o ‘fado do não conseguimos’, agora parecem querer dizer que estão fartos do estado de coisas. 

Todavia, estão a fazê-lo motivados por populistas que nada têm para oferecer: onde a esquerda populista culpa os grandes patrões (agora até os pequenos empresários do alojamento local), a direita populista fala da corrupção. Um e outro apontam dedos, mas não indicam soluções.

O Portugal das últimas décadas será, no futuro, um caso de estudo. Perceber como um país passou de ‘bom aluno’ e exemplo de desenvolvimento, para ser ultrapassado, progressivamente, pelos outros membros da UE, é inenarrável. 
A verdade é que isso não aconteceu por acaso. Há fatores que não controlamos e outros que escolhemos não controlar.

Nos idos anos 1990, o então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva, falava das «forças de bloqueio». O que diria Cavaco Silva se fosse primeiro-ministro e governasse um país que parece estar formatado para não produzir? Um político pode cometer muitos erros de ação, isto é, por fazer, mas não pode cometer o erro da inação, de nem sequer tentar fazer.

Veja-se como o pensamento que domina as forças políticas do politicamente correto é exatamente aquele que critica o mito do ‘crescimento eterno’, usando-o como crítica a quem fala da necessidade de crescimento. Quando o atual ministro das Finanças foi questionado sobre o facto do PIB per capita português ser ultrapassado pelo romeno, Fernando Medida respondeu que «a Roménia quer crescer, nos queremos outras coisas». 

Certo, ‘nós queremos outras coisas’, mas sem crescer isso não é possível. As ‘outras coisas’ custam dinheiro!
O drama que os portugueses atualmente vivem é esse, não há dinheiro para ‘outras coisas’, entre elas médicos de família, política de defesa, educação pública de qualidade, transportes públicos decentes ou habitação digna para todos. Basta telefonar para o centro de saúde e não ser atendido, receber o vídeo do navio Mondego a arder, ver um professor deslocalizado a dormir no carro, esperar horas por um comboio ou procurar uma casa que possa pagar, para se ter consciência de tudo isto.

Quando Passos Coelho afirmou que «tínhamos de empobrecer», era sobre isto que se estava a referir. Não tínhamos PIB para o modelo de vida que queríamos. Para esse modo de vida… temos de crescer! Para que tal aconteça, temos de resolver dois problemas inicias: o primeiro reside no facto de parte da nossa elite entender não ser necessário crescer e, o segundo, decorre da nossa organização estar formatada para não crescer.

Se os portugueses conhecessem os milhares de milhões de euros que aguardam aprovação, ficariam estarrecidos. Nesses investimentos estão os postos de trabalho que garantem melhores remunerações e o crescimento que tarda chegar.

À partida, o líder da oposição deveria ficar contente ao ver a degradação política do atual governo. Porém, o próximo primeiro-ministro vai herdar um País quase impossível de governar, socialmente dividido, com instituições fragilizadas e (quase) sem esperança. 

Resolver essa equação é o nosso próximo cabo das tormentas. Resta saber, quantas vezes vamos mais naufragar até o ultrapassarmos.