Por Francisco Gonçalves
Quando questionado sobre o conteúdo das mensagens de correio eletrónico trocadas entre o ex-secretário de Estado, Hugo Mendes, e a (ainda) CEO da TAP, Christine Ourmières-Widener, António Costa, num primeiro momento, sorriu: afirmando que o país ficará melhor depois de saber toda a verdade, «doa a quem doer». Alguns dias mais tarde, pressionado pela evolução dos acontecimentos, veio dizer que o ato era «gravíssimo e inadmissível» e que, se tivesse sabido do mesmo, teria mandado o então ministro Pedro Nuno Santos demitir o secretário de Estado.
O líder do Governo é, naturalmente, responsável pelas suas escolhas. Quando optou por renacionalizar parte da TAP, não imaginava a leviandade com que Pedro Nuno Santos e Hugo Mendes tratariam a gestão política do dossier. Muito menos lhe passaria pela cabeça que tinha no seu Governo quem se dispusesse a mudar um horário de um voo, com vista a satisfazer um possível capricho do Presidente da República – que nem existiu. Sobre esse facto, o Presidente da República disse mesmo que «só um político muito estúpido ia sacrificar 200 pessoas».
Estupidez à parte, se o que já sabemos da TAP é mau, muito pior é a parte que, não sabendo, ‘passámos a saber’: a forma como a coisa pública está a ser tratada. A leviandade com que todo o dossier foi gerido, entre trocas de emojis e emails, deixa a nu que há gente que está no Governo da República sem perfil para gerir uma tasca de bairro, muito menos para gerir a coisa pública.
Este é, muito lamentavelmente, mas cada vez mais, um tempo de política vazia e de políticos ocos, de jotinhas e ‘amigos(as)’ próximos(as), (quase) todos de ascensão meteórica. Foi criada uma geração de políticos prepotentes, que abusam dos cargos, acreditando que o que gerem é seu.
Parece que o básico tem de ser explicado: o dinheiro que gerem não é seu, é do povo. Os funcionários públicos não são seus criados. Ainda vamos descobrir que houve funcionários do Estado a serem convidados para limpar as janelas da casa dos chefes – só falta uma dessas!
António Costa não pode conhecer em detalhe a atividade de cada um dos membros do Governo, mas tem responsabilidade nas escolhas que fez, diretas ou indiretas. Nessas escolhas, o primeiro-ministro criou alguns monstros, e o criador é sempre responsável pelas suas criaturas. Mesmo que agora se diga que o primeiro-ministro considerava Hugo Mendes «inapto para funções executivas», e que tenha tentado demover Pedro Nuno Santos de levar o seu ex-adjunto para secretário de Estado, a verdade é que não o fez.
O desafio do primeiro-ministro reside em demonstrar que a doença é apenas de Hugo Mendes, e de Pedro Nuno Santos, mas não do Governo. Não obstante, convém recordar que Pedro Nuno Santos e Fernando Medina assinaram um despacho conjunto a solicitar esclarecimentos ao conselho de administração da TAP, sobre a indeminização de Alexandra Reis. Soube-se, depois de Pedro Nuno Santos consultar a ‘fita do tempo’, que afinal o ex-ministro sabia de tudo. O despacho era, então, para esclarecer o quê?
Com tudo o que hoje já sabemos sobre Pedro Nuno Santos, será que este ainda acredita ter condições mínimas para liderar o PS e querer ser primeiro-ministro? E os militantes do partido apoiam-no? Se a resposta a estas questões for afirmativa, a doença não estava apenas nos que saíram do Governo, já haverá demasiadas metástases.
Há, porque os partidos não são monolíticos, um PS que não é isto e não quer ser isto. É esse partido que está em guerra interna contra o PS dos casos, que teima em embaraçar-se a si próprio e à sua história, bem como a todos nós que vamos sentindo vergonha alheia.
Só António Costa saberá verdadeiramente as respostas àquelas questões, e é o próprio quem tem as chaves do conflito interno do seu partido. Daí o seu sorriso, e o que ele esconde.