Más notícias (também) para a China

Enclausurada maritimamente com a projeção do poder militar norte-americano nos mares vizinhos, a China lançou a ideia de fazer renascer a mítica rota da seda, com vista a potenciar as vantagens do comércio internacional e da interdependência. Conseguiu, com a ideia, envolver diversos Estados.

Por Francisco Gonçalves 

No artigo anterior desta coluna (Até tu, Prigozhin?), escrevi sobre como as notícias dos problemas internos russos podem não ser tão boas quanto, superficialmente, podem parecer. Nesta semana, regresso ao tema, não do ponto de vista ocidental, mas do ponto de vista do interesse nacional chinês.

A Rússia é um país essencial no quadro da ação externa da China, particularmente para a afirmação desta última enquanto potência global. Trata-se de um país com o qual tem uma fronteira terrestre com mais de 4200 quilómetros, muitos dos quais objeto de longas disputas, apenas estabilizadas por acordo de 2004.

Para além das questões fronteiriças formais, a importância da Rússia está substancialmente relacionada com o seu papel essencial na fronteira civilizacional entre a Europa e a Ásia, materializada na estabilidade da Ásia Central. Para a maior parte de nós esta realidade é relativamente distante: não conhecemos, não acompanhamos e não está patente no arco estratégico da comunicação social. Todavia, ainda que estejam distantes do nosso quotidiano, estes países assumem um papel fundamental na mais importante iniciativa de afirmação global da China, a ‘Nova Rota da Seda’.

Enclausurada maritimamente com a projeção do poder militar norte-americano nos mares vizinhos, a China lançou a ideia de fazer renascer a mítica rota da seda, com vista a potenciar as vantagens do comércio internacional e da interdependência. Conseguiu, com a ideia, envolver diversos Estados.

 

Claro está que, ainda que a iniciativa tenha benefícios mútuos, seja a nível comercial, seja numa lógica de infraestruturação de diversos países (pois promove a criação das infraestruturas que a possibilitam), o grande benificiário será naturalmente o seu promotor, ou não fosse a China a grande potência industrial e comercial contemporânea. A ‘Nova Rota da Seda’ garantirá as rotas comerciais que lhe permitem manter-se como potência exportadora.

Todavia, para que funcione, a iniciativa tem a paz como premissa essencial. Sem paz e estabilidade não há rotas comerciais que subsistam.

A Rússia foi, e será sempre, o elemento de equilíbrio desta região e, também, do seu desequilíbrio. A China pretenderá que o vizinho russo esteja forte o suficiente para ‘irritar’ o rival norte-americano, desfocando-o do verdadeiro desafio estratégico que a China implica, mas fraco na medida de não pretender ser imperial para além do devido. Essa medida de equilíbrio é também o ponto da estabilidade da Ásia Central.

 

Ainvasão da Ucrânia entra certamente nas contas dos excessos desnecessários. As ondas de choque dos desequilíbrios internos russos, que agora se sentem na luta pelo poder (e pelos despojos), poderão fazer o país mergulhar num tipo de instabilidade que só pode ser muito preocupante para a estratégia chinesa.

As fronteiras russas incluem diversas disputas seculares, quase sempre esmagadas pela força de um poder russo imperial, particularmente violento e afirmativo. São quase todas zonas de influência comum, partilhadas com países como o Azerbaijão, o Cazaquistão, a Geórgia, o Irão, o Quirguistão, a Turquia ou o Turquemenistão. 

A ironia desta questão reside no facto de a Rússia, que vinha promovendo a instabilidade nos vizinhos, exatamente para manter predominância a longo prazo (prevendo as dificuldades futuras decorrentes da sua demografia em retração), estar ela própria a passar pela instabilidade que pretendia promover.

 

Para a China, esta questão representa um revés importante e uma forte preocupação. Os esforços para estabelecer parcerias ativas, que permitam a existência de rotas comerciais, são postos em causa pelo aliado, cuja ação deveria servir para desfocar o adversário sistémico (leia-se EUA). 

Voltaire bem avisou: «Deus é um comediante, que atua para uma plateia demasiadamente assustada para rir». Assim estamos todos, e ninguém se fica a rir!