As Jornadas Mundiais da Juventude – Uma desilusão

Recomendo ao Santo Padre que devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.

Por João Cerqueira

Desde o Maio de 68 que a juventude que os intelectuais admiram está empenhada em salvar o mundo, ou melhorar o mundo, ou transformar o mundo, ou então, se nada disso for possível, pegar fogo ao mundo. Para tal, vai para as ruas protestar contra alguma coisa, partir montras, incendiar carros e apedrejar a polícia. Essa alguma coisa é, na verdade, o Capitalismo e as suas ramificações: o colonialismo, o racismo, a discriminação sexual, o aquecimento global, os direitos dos animais, os bifes, e a violência policial. O protesto pacífico à moda de Gandhi há muito que passou de moda. O mais pacífico que os jovens conseguem é vandalizar obras de arte ou mostrar as mamas. Ou, então, ir para a rua culpar o Capitalismo pelas alterações climáticas, sendo eles próprios os principais consumidores que financiam esse mesmo sistema. Também o sonho de Luther King de a cor da pele desaparecer e todos os seres humanos serem iguais passou de moda. Pior ainda, tornou-se uma ideia racista. A guerra racial e o juste de contas histórico é que são modernos e recomendáveis.

Portanto, a juventude que os intelectuais admiram protesta, culpa os outros, é violenta, e, não raras vezes, faz figuras tristes.

É por isso mesmo que estas Jornadas Mundiais da Juventude foram uma profunda desilusão. O início até parecia prometedor: um grupo de jovens egípcios desatou à porrada num bar; os herdeiros de Torquemada invadiram uma missa LGBTQIA+ com zurros em latim; havia uma mistura potencialmente explosiva de religiões diferentes; e havia freiras à solta. Demais, alguns daqueles jovens tinham mesmo cara de quem gosta de se meter nos copos e armar desacatos. E algumas meninas até tinham belos seios católicos, decerto virginais, para mostrar ao mundo. Mas, infelizmente, nada disso aconteceu: nem cabeças rachadas, nem mamas ao léu, naturalmente a apontar para o céu.

 

Onde estavam os jovens de todas as religiões a lutarem entre si? Onde estavam os jovens com cartazes contra as injustiças sociais, contras as alterações climáticas, contra a falta de habitação e as rendas altas? Onde estavam os esvaziadores de pneus? Aqueles que idolatram ditaduras? As boinas Guevara e os lenços árabes? As ambulâncias e os carros da polícia? Em suma, onde estavam os jovens a protestar contra o Capitalismo, o Patriarcado e a Bruxa Má do Oeste? Nem um cocktail de água benta se viu.

 

E onde estavam os bêbedos e os drogados? Os grafitis e as borratadas? Valha-me Deus, que desilusão. Ao menos, podiam grafitar um peixinho e uma pombinha na peruca do Marquês de Pombal. 

Além disso, e a santa Greta? Porque não apareceu para tentar corrigir este desvio de uma juventude pacífica que substituiu o amor pelo ódio?

Foi por isso que os intelectuais se enfureceram tanto. Porque esta aberração dos jovens pacíficos que substituíram a religião moderna das guerras culturais pelas religiões antigas nunca deveria ter acontecido. Os intelectuais sabiam que aquele milhão de jovens que não protestou contra nada, que não partiu montras nem atirou pedras à polícia, que não deixou as ruas cheias de lixo só poderia ter sido vítima de uma lavagem ao cérebro com fins políticos. O Vaticano, a CIA, o Grande Capital e algumas tascas de bifes estão por detrás disto.

Por isso, recomendo ao Santo Padre que da próxima vez que organizar as Jornadas Mundiais da Juventude planifique a coisa como deve ser. Peça ajuda à Greta, aos mentores das guerras raciais, às feministas radicais, aos atacantes de obras de arte e, mais que tudo, aos intelectuais que admiram Cuba e a Venezuela, a Lula da Silva, assim como a todos os que consideram que foi a Ucrânia quem começou a guerra contra a Rússia. Apesar da sua extraordinária capacidade para escutar, ao Santo Padre não lhe será fácil ouvir este charivari de intolerância, ódio e charlatanice. Mas, com a ajuda do Espírito Santo e alguns ansiolíticos, lá conseguirá aguentar. 

 

Por fim, bem aconselhado, devolva aos jovens o seu natural desejo de melhorar o mundo com paus e pedras nas mãos e diga-lhes que só quer ver Seul a arder.

Os intelectuais ficarão então satisfeitos e considerá-lo-ão um Papa moderno, defensor dos oprimidos e amigo do planeta. 

Se este elogio lhe vai agradar ou envergonhar, isso só Deus sabe.