No passado dia 5 de dezembro assisti à estreia do musical Fátima, o novo espetáculo de Filipe la Féria no teatro Politeama que aplaudi de pé e, desde já, recomendo vivamente. Ao contrário de outras peças levadas à cena por este conceituado criador artístico, em minha opinião esta é diferente. Consegue contar toda a história de Fátima numa fantástica ópera rock digna de se ver. Gostei, apreciei, emocionei-me e trouxe comigo numa mensagem. Não é fácil, para mim, abordar um tema desta natureza. Primeiro por ser médico e ter uma visão de vida à luz da ciência, depois por ser católico e procurar seguir o meu caminho segundo a lei de Deus, por fim, por trabalhar no meio artístico o que me leva a olhar com outros olhos para textos, atores e encenações. Fátima (e os acontecimentos extraordinários lá ocorridos) não é consensual. Até mesmo entre católicos. A Igreja, mesmo dando credibilidade aos testemunhos das crianças, esclarece que Fátima não é dogma de fé, deixando aos fieis inteira liberdade para agirem de acordo com a consciência de cada um. Eu entendo que Fátima, como qualquer acontecimento extraordinário que a ciência não explica, deve ser vista com respeito e seriedade. Falando como católico, não obstante ser médico, acredito que a Deus nada é impossível. No exercício da minha profissão, esta minha forma de estar na vida desperta sempre muita curiosidade. ‘Como é que um médico sendo um homem da ciência não esconde a sua fé?’ ‘Ciência e fé são conciliáveis?’, ‘Fala da sua fé aos doentes?’ São perguntas que me fazem frequentemente. Outras vezes vão mais longe querendo saber o meu parecer acerca de casos clínicos não explicáveis pela medicina.
De facto, aquilo que está para lá da Ciência inquieta o ser humano que quer encontrar sempre uma explicação para tudo o que acontece. A minha resposta é sempre a mesma:
Devemos encarar essas situações de forma serena, com isenção, respeito e algum distanciamento tentando separar a Ciência da Fé. A Ciência estuda-se, analisa-se, discute-se. Fé é qualquer coisa que não se discute. Ou se tem ou não se tem. Ninguém tem o direito de atentar contra a fé seja de quem for, nem por outro lado, de a tentar impor aos outros para os catequizar. É precisamente a este ponto que eu queria chegar transportando as minhas reflexões para a excelente peça musical. Aqui não se impõe nada a ninguém, nem se trata de uma aula de catequese; são apenas abordados factos históricos, cabendo ao espetador interpretá-los de acordo com as suas convicções e crenças religiosas, num espetáculo grandioso onde se reconhece a marca inequívoca do grande Filipe la Féria. Texto bem elaborado, encenação brilhante, cenários e meios audiovisuais de grande nível e uma magnifica interpretação de todos os intervenientes permitindo-me destacar Pedro Bargado, Paula Sá, João Friza e Teresa Zenaida que se agiganta no papel da irmã Lúcia. Ficou-me na memória aquele final sublime com toda a companhia a descer do palco em procissão a percorrer a plateia de vela na mão entoando o Salve Senhora uma doce melodia para um poema que nos toca o coração: «Senhora és nossa luz a nossa luz /A alegria de um novo dia /A nossa voz /Não estamos sós».
Na verdade Fátima ‘É esperança! É força! É união’!
Ponhamos de parte os nossos sentimentos e concentremos a nossa atenção apenas em Fátima, espetáculo que no seu conjunto, em nada fica a dever aos musicais de Londres ou da Broadway. E tem uma vantagem: É nosso! Na nossa terra também há peças de qualidade que dignificam a cultura do país e são orgulho deste povo. No momento presente, com guerras pelo mundo inteiro, mortes, ameaças, destruições e uma sociedade decadente e sem valores, Fátima mexe connosco, interroga-nos e convida-nos a refletir. Não nos dá respostas, não apresenta soluções, nem condena ninguém. Apenas deixa no ar o perfume de uma mensagem. Uma mensagem de amor.
Médico