No seu livro Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence, Vivek Ramaswamy diz que a América se tornou um país de coitadinhos.
De facto, no Ocidente a indústria do coitadinho vai de vento em popa.
Ser um coitadinho nobilita o cidadão, torna-o digno de estima, abre portas e, por vezes, dá dinheiro. Pessoas que se sentem discriminadas, ofendidas, que não são convidadas para festas, todos se podem candidatar ao título honorífico de coitadinho. Primeiro expõe-se o agravo, depois exige-se desculpas ou compensações financeiras. Entretanto, já inúmeras organizações de direitos humanos, partidos políticos e figuras ilustres ansiosas por salvar o mundo tomaram conta do coitadinho e não mais o abandonarão. Se Cecília Supico Pinto fosse viva, iria ter forte concorrência.
Dito isto, acredito reunir vários requisitos para me candidatar ao estatuto de coitadinho.
Primeiro, sendo minhoto pertenço a uma minoria étnica oprimida pelo poder lisboeta. Exprimo-me num dialecto que conserva a matriz galega onde se diz ‘bamos’ em vez ‘vamos’ e ‘pórco’ em vez de ‘porco’. Logo, sou de Biana. Além disso, alguns dos meus gostos gastronómicos podem ser considerados selvagens: adoro um prato sanguinário chamado Arroz de Sarrabulho (com pórco), além de uma cobra chamada Lampreia, cozinhada com sangue também.
Assisti, sem remorso, a várias matanças do pórco e corte de pescoços a galinhas e perus, tendo certa vez embebedado com aguardente um destes galináceos antes de a cozinheira o decepar. Pior ainda, os meus divertimentos favoritos em criança consistiam em atividades bárbaras como matar ratos à paulada, dar tiros em pássaros, afogar insetos e andar à pedrada contra grupos rivais de jovens ainda mais bárbaros – nunca ter morrido ninguém, é a prova de que os Anjos da Guarda existem.
Torna-se óbvio que tenho mais genes de Neandertal que a maioria das pessoas e que, se houver uma guerra nuclear, me torno canibal no dia seguinte. Logo, sou um espécie exótico potencialmente perigoso, mas em vias de extinção. Algo semelhante ao urso ibérico.
Além do mais, sou ignorado como escritor pelos jornais e revistas do regime – ainda que a tradução inglesa do meu romance Perestroika tenha vencido nove prémios literários em 2024. Em tempos, tentei sensibilizar alguns vultos da cultura para esta injustiça escrevendo-lhe uma carta onde me fazia de coitadinho – e ninguém me respondeu. Ora isto faz de mim duplamente coitadinho. Se eu tivesse vivido no tempo de Dickens, ele era capaz de me fazer amigo de Oliver Twist.
Resumindo, sou meio Neandertal, tive brincadeiras infantis semelhantes às de Átila, conservo hábitos alimentares próximos de O Massacre no Texas, exprimo-me num dialeto arcaico e sou discriminado pelos media. É verdade que não me enquadro bem no conceito de coitadinho atual. Falta-me o pedigree racial e sexual. Mesmo assim, pareço gerar imensa fobia, ou aversão, a muita gente.
Como tal, espero que alguém se indigne por minha causa, rasgue as vestes, pinte os lábios e se encoste à parede.
Escritor