Durante décadas, a Europa viveu sob a ilusão da sua própria centralidade. Com um passado glorioso e um papel fundamental na história da ciência, da indústria e da política global, habituámo-nos a olhar o mundo com sobranceria. Considerámo-nos o epicentro do progresso, esquecendo uma regra básica da história: o futuro reescreve o passado.
O mundo mudou – e acelerou. Enquanto a Europa se perdeu em debates regulatórios e burocracia, os Estados Unidos inovaram e a China copiou, melhorou e superou. Hoje, a realidade é clara: a inovação industrial e tecnológica não está na Europa. Perdemos liderança em áreas estratégicas como inteligência artificial, semicondutores, energias renováveis ou biotecnologia, para além de liderança em setores tradicionais como a indústria automóvel, indústria naval ou farmacêutica. Dependemos de terceiros para tecnologia crítica, desde componentes industriais a infraestruturas digitais. O “Velho Continente” fez jus ao nome e ficou para trás.
Se quisermos recuperar alguma relevância, temos de inverter a lógica com que olhamos para o mundo. Não lideramos? Então aprendamos com quem lidera. Precisamos de criar um modelo que permita inovar, copiar e melhorar, adotando as melhores práticas dos outros e refinando-as com a capacidade de excelência europeia. A Europa tem talento, conhecimento e algum capital. O que falta? Uma visão estratégica que impulsione a reindustrialização e a criação de ecossistemas tecnológicos competitivos. Em vez de sufocar empresas e empreendedores com regulamentação excessiva, devemos criar um ambiente onde a inovação prospere, incentivando clusters industriais e tecnológicos fortes.
A Ásia percebeu esta necessidade há muito tempo. O modelo chinês, inicialmente baseado na cópia, evoluiu para um sistema que não só replica mas aperfeiçoa. A Huawei, outrora uma seguidora da Nokia e da Ericsson, ultrapassou-as. A BYD fez o mesmo com a Tesla nos carros elétricos. A Europa, que sempre se viu como referência, tem agora de aprender a seguir – para depois tentar liderar novamente.
Para esta transformação ser possível, a Europa precisa de resolver um problema estrutural: a falta de uma liderança forte e coesa. A União Europeia continua a ser uma soma de interesses nacionais e de pequenas guerrilhas políticas que limitam a sua capacidade de ação no cenário global. Talvez esteja na altura de repensarmos o modelo europeu. Um sistema federal, ou algo similar, poderia dar a escala e a agilidade necessárias para enfrentar os desafios da nova ordem mundial. Enquanto não o fizermos, continuaremos presos à nossa fragmentação, enquanto os Estados Unidos e a China moldam o futuro.
A Europa já perdeu tempo suficiente em debates intermináveis sobre regras e normas. O desafio do século XXI não é a regulamentação – é a capacidade de fazer, testar e escalar. O mundo não espera, e a história não perdoa os que ficam para trás. Reindustrializar, copiar e melhorar não é um sinal de fraqueza. É um reconhecimento estratégico da realidade. E é, acima de tudo, a única forma de voltarmos a ter um papel central no futuro. Se não formos capazes de mudar o paradigma e adotar uma visão mais pragmática, continuaremos a assistir passivamente à ascensão de outros, enquanto nos debatemos com crises internas e divisões que apenas nos enfraquecem. O tempo para agir é agora. O futuro não espera por quem hesita.