José António Saraiva – Estou Aqui!    

No palco da nossa vida onde tive o privilégio de contracenar consigo, haverá sempre lugar para as boas recordações que guardo com carinho e saudade.

Segunda-feira, dez de fevereiro de dois mil e vinte cinco. Eram quatro horas da tarde quando José António Saraiva e Isabel sua mulher entraram no meu gabinete médico tal como combinado. De semblante carregado e visivelmente apreensivo pergunta-me de imediato: «Vim aqui para saber se posso contar consigo para me acompanhar no tempo de vida que me resta». Ao mesmo tempo, apresenta-me o relatório clínico de um exame que fizera num hospital com data de 3-2-2025. Esse relatório era suficientemente claro, elucidativo e não deixava dúvidas quanto à gravidade da situação. Sem hesitar e de olhos nos olhos respondi-lhe com convicção: «É claro que pode contar comigo. Estou aqui!». Percebi na sua cara que o meu apoio solidário trouxe-lhe algum conforto e talvez tranquilidade. E continuou: «Quero ficar na minha casa com a minha mulher e os meus livros. Os seus colegas queriam que eu fizesse mais exames, que fosse para um hospital da especialidade, mas recusei tudo. É uma decisão há muito tomada». Falou-me de projetos em curso, entre os quais acabar o seu ultimo livro que eu encorajei a concluir. Delineei então a estratégia terapêutica envolvendo, com o seu acordo, a minha colega e amiga Isabel Galriça Neto dada a sua experiência em cuidados paliativos. Em boa hora. Acompanhei-o até à porta da rua, saiu sem qualquer ajuda e conduziria o seu automóvel no regresso a casa. Voltei para o gabinete e fiquei, por momentos em silêncio. Foi difícil. Desfilaram pela minha memória as varias recordações que tinha dele. O apoio que me dava nos meus artigos do SOL, dando continuidade a uma tarefa que na minha mão fazia questão de manter comigo a rever tudo o que eu escrevia, o muito que me ensinou ao dar-me noções elementares da escrita, os seus artigos semanais que me fascinavam e a sua presença amiga nos bons e maus momentos da minha vida. No refúgio do seu lar falávamos regularmente, sempre com preocupação de lhe dar força para não caísse em desanimo insistindo no mesmo tom: ESTOU AQUI!

O seu estado de saúde agravava-se dia após dia, mas continuava em sua casa como era seu desejo. A sua mulher Isabel era inexcedível, a minha colega de uma dedicação sem limites e cuidadora a cumprir o seu papel na perfeição. Carolina Silva, amiga de coração, telefonava-me para partilhar a sua dor, acompanhando o caso, sem nunca desistir. Partiu a 6 de março deixando atrás de si uma obra notável e o testemunho de um homem corajoso, integro, com uma carreira brilhante no mundo jornalístico onde se revelou um analista politico de invejável categoria.

Olhando para este caso, atrevo-me a fazer três apelos: Aos cidadãos em geral, aos nossos governantes e aos meus colegas mais novos. A todas as pessoas eu lembraria o velho pensamento: ‘A saúde é um bem importante demais para estar só nas mãos dos médicos. Cada um deve aprender a cuidar da sua.’ E como? Com o auxilio do médico assistente, a melhor ajuda possível. Aos nossos governantes insisto na necessidade de se apostar nos cuidados paliativos e nos cuidados continuados, de que muito se fala mas pouco se tem feito. Casos como este podem acontecer subitamente e na maior parte das vezes apanham-nos desprevenidos sem sabermos a quem recorrer. Finalmente aos meus colegas mais novos em especial àqueles que iniciam a sua carreira. Utilizando uma expressão de José António Saraiva, também eu vos quero dizer: «Médicos sejam médicos ! Há mais medicina para além dos exames dos medicamentos e dos blocos operatórios. Não oiçam aqueles que vos disseram ‘já não há nada a fazer». É falso. Há ainda muito a fazer. A nossa missão é estar sempre ao lado do doente e define-se com duas palavras: «Estou aqui!».

Meu querido amigo: Filipe la Féria disse um dia numa entrevista: «Os artistas só morrem quando os portugueses se esquecerem deles». Pegando nas suas palavras e seguindo o mesmo pensamento com o qual me identifico, quero assegurar-lhe que nunca o esquecerei. No palco da nossa vida onde tive o privilégio de contracenar consigo, haverá sempre lugar para as boas recordações que guardo com carinho e saudade. Na sua nova morada onde agora vive, tenho um pedido para lhe fazer. É a minha vez sei que me pode ouvir: Lembre-se de mim. «Estou aqui!»

 (À memória de José António Saraiva)

Médico