As saudades dos amigos avivam as melhores recordações que deles guardamos e a triste notícia da morte do Carlos Dugos trouxe-me à memória momentos marcantes que quero deixar registados como evocação.
Já no fim da adolescência, fascinado pelo tumultuoso período após o 25 de Abril, descobri um pequeno livro com uma reportagem sobre o MDLP e o ELP, movimentos pelos quais tinha tanta curiosidade como falta de informação. O opúsculo era assinado por Carlos Dugos, nome que comigo ficou, sem sonhar que anos depois conheceria o autor e dele me tornaria amigo.
Quando um dia lhe contei esta descoberta, desvalorizou-a humildemente com o seu sorriso terno. Era, então, um pintor reconhecido, mas o que nos aproximou foi a imprensa. Ainda sentia o «bichinho» dos jornais e acompanhava a trágica actualidade europeia, que sabia que inevitavelmente se reproduziria em Portugal, e propôs-me escrever sob pseudónimo para o semanário que eu então dirigia. Aceitei prontamente e foi o início de um contacto frequente, que trouxe uma troca de ideias permanente.
Tornámo-nos leitores um do outro e, por exemplo, quando escrevi sobre a minha primeira visita à cabana de Heidegger, em Todtnauberg, fez-me várias perguntas práticas sobre o local, mas notou que se tratava de uma peregrinação. Sabia, como ninguém, o valor e a importância dos símbolos.
O primeiro momento que quero recordar foi na Casa de Santa Maria, em Cascais, no lançamento das Actas do IV Ciclo de Conferências Raul Lino em Sintra, com apresentação de António Braz Teixeira e do Rodrigo Sobral Cunha, em 2015. Pese embora o formalismo desta descrição, foi um encontro de amigos. Terminado o evento, fiquei à conversa com o Carlos, no exterior. Eu tinha regressado há pouco da África do Sul e o tema sobrepôs-se a qualquer outro. A sua visão sobre África, que tão bem conhecia, nunca foi saudosista, muito menos lamechas. E isso interessava-me muito, mais ainda vindo de alguém da geração dele.
Era um homem de uma cultura tão abrangente como fascinante e, com o seu tom calmo que contrastava com a minha aceleração impaciente, conversávamos sobre temas tão díspares como a arquitectura de Pancho Guedes, em Lourenço Marques ou em Sintra, a pintura metafísica de Giorgio de Chirico, até à islamização da França contemporânea ou a mutação das direitas europeias, sem esquecer o nosso Tintin, claro!
A última vez que estive com ele foi há três anos, na Feira do Livro de Lisboa, em que me falou na sua Autópsia de um Equívoco Histórico –Portugal 2060, um livro que queria muito que eu lesse. Naturalmente, gostei desta incursão pelo que podemos classificar de modo abrangente como ficção científica, que é mais um olhar futuro sobre problemas presentes. Um género pouco habitual no nosso país, mas que o Carlos Dugos honrou com este contributo precioso.
Agora, que partiu, penso que a melhor característica para o definir é a curiosidade, que comandou toda a sua vida e o guiou na descoberta incessante de novos mundos. E recordo uma frase de Ernst Jünger, que descreve na perfeição a sua existência: «A nós, mortais, só através da multiplicidade das cores nos é dado pressentir a luz única e invisível.»