Na história da arte e da botânica, há nomes que deixaram marcas duradouras, não só pelo talento, mas também pela ousadia de romper os limites do seu tempo. Marianne North (1830-1890) é um deles. Nascida numa família abastada e culta da Inglaterra vitoriana, recusou o percurso reservado às mulheres da sua classe social – o casamento e a vida doméstica – para se tornar uma viajante, observadora do mundo natural e artista autodidata que retrataria a diversidade vegetal do planeta.
O fascínio pela botânica começou na juventude, influenciado pelas caminhadas com o pai, Frederick North, um político e amante da Natureza. Após a morte deste, Marianne, já quase com quarenta anos, decidiu partir à descoberta do mundo. Ao contrário dos ilustradores botânicos que trabalhavam em estúdios ou com espécimes secos, queria ver as plantas nos seus habitats naturais. Viajando sozinha – feito quase escandaloso para a época – e enfrentando condições adversas, entre 1871 e 1885 percorreu 15 países, das florestas tropicais do Brasil às montanhas do Himalaia, passando pelo deserto australiano e pelas florestas do Ceilão (atual Sri Lanka). No Rajastão, Índia, pintou entre escorpiões e calor abrasador; em Morro Velho, Minas Gerais, escreveu sobre o desafio de pintar com os pincéis colados pela humidade; na Jamaica, registou a flora luxuriante com vista para o mar das Caraíbas. Cada pintura sua, cada caderno de viagem, testemunhava a biodiversidade do planeta.
O que torna o seu trabalho notável não é apenas a estética das composições – vibrantes, densas, exóticas –, mas o facto de serem feitas a óleo sobre tela, e não a aguarela, como era habitual nas ilustrações científicas. Além disso, muitas incluem o ambiente circundante, mostrando as plantas no seu contexto natural: junto a rios, ladeadas por montanhas, ou envoltas em neblina tropical. Tal facto sugere que terá lido o monumental Cosmos (1845-1862), de Alexander von Humboldt (1769-1859), naturalista que, ao estudar a Natureza de forma integrada, observando as inter-relações entre plantas, animais, clima e ambiente físico, foi um dos principais precursores e influenciadores do pensamento ecológico.
Marianne North não foi a primeira mulher a dedicar-se à ilustração científica. O seu nome inscreve-se numa linhagem que inclui figuras como a germano-suíça Maria Sibylla Merian (1647-1717) e a escocesa Elizabeth Blackwell (1699-1758). A primeira – já aqui referida – viajou até ao Suriname, onde estudou e retratou os ciclos de vida de vários insetos e as plantas que lhes serviam de hospedeiras. A segunda notabilizou-se pela publicação de A Curious Herbal (1737-39), cujos dois volumes reúnem 500 ilustrações de plantas medicinais, com a descrição das suas propriedades. Curiosamente, a motivação da autora foi de ordem prática: precisava de dinheiro para libertar o marido da cadeia, então preso por dívidas. Cada uma, à sua maneira, desbravou caminhos numa época em que o saber científico era ainda domínio exclusivo dos homens.
As obras de North podem ser admiradas na Marianne North Gallery, nos Royal Botanic Gardens, em Kew, Londres. A própria artista financiou a construção da galeria e organizou a disposição das mais de 800 telas, que, ao abrangerem quatro continentes, representam uma celebração visual única da riqueza biológica da Terra. O espaço mantém-se praticamente inalterado desde a sua abertura, em 1882 – uma autêntica cápsula do tempo e um dos raros locais de exposição dedicados exclusivamente a uma artista mulher do século XIX. Para além do seu valor artístico, o legado de North tem relevância científica: várias espécies foram descritas com base nas suas pinturas, e algumas nomeadas em sua homenagem, como a Nepenthes northiana, uma planta carnívora da Malásia (imagem).
Num tempo em que a biodiversidade e os equilíbrios naturais estão em risco, e o mundo parece sitiado por todo o tipo de ameaças – até simbólicas, como os recentes e decadentes festejos do casamento de Jeff Bezos em Veneza, cidade que enfrenta tanto a subsidência das estruturas em que assenta como a subida das águas do Adriático, enquanto aviões com encomendas da sua megaempresa carbonizam os céus –, revisitar o olhar de Marianne North é mais do que um mero exercício estético: é um apelo à admiração, à curiosidade e ao respeito pela Natureza.
Químico