A Câmara de Loures, de maioria socialista, decidiu derrubar barracas sem, previamente, garantir um tecto às famílias que ali sobreviviam. Mais do que uma má decisão autárquica, este caso é um sintoma preocupante do rumo que a política portuguesa está a tomar.
Os alvos da acção do autarca Ricardo Leão são, em grande parte, famílias com trabalho, cujos salários não chegam para pagar uma renda num mercado habitacional inflamado pela especulação. São mães, pais e crianças que improvisam um lar com o pouco que têm. São migrantes que falam a nossa língua, muitos dos quais procuram em Portugal exactamente o que tantos portugueses procuraram durante décadas noutros países: a oportunidade de um futuro melhor.
Durante séculos, explorámos os recursos de terras como o Brasil, Angola, Moçambique ou Cabo Verde. Hoje, fechamos a porta a quem vem dessas mesmas geografias, tratando com frieza quem, como nós no passado, apenas tenta sobreviver com o seu trabalho honesto. Esquecemos depressa que fomos acolhidos em França, na Suíça, na Alemanha ou no Canadá. Esquecemos depressa quem fomos e quem ainda somos.
Sim, as barracas são indignas. Mas mais indigno é usar o sofrimento humano com fins políticos. Ricardo Leão e a sua equipa decidiram avançar com demolições sem qualquer solução real para quem nelas vivia. É difícil não ver nesta decisão uma manobra eleitoral: esconder os pobres para agradar ao eleitorado mais sensível à retórica da extrema-direita.
O mais grave nisto tudo não é apenas a falta de consciência social. É a rendição política. O centro democrático, ao invés de afirmar com clareza os valores da inclusão, da solidariedade e da justiça social, está a ceder à lógica da extrema-direita.
De facto, de concessão em concessão, o centro político aproxima-se perigosamente da extrema-direita. E quando o centro começa a normalizar políticas desumanas por medo de perder votos, já está a perder muito mais do que isso; está a perder o Norte.
Rui Pedro Faria
Presidente da Cooperativa Milho-Rei