A par de grandes jogos de estratégia como o Xadrez e o Go, eis que agora a humanidade é presenteada com um novo jogo inspirado, não em batalhas militares, mas sim na estratégia política. É o Jogo do Chega.
No Jogo do Chega há dois jogadores: um juiz e um réu. Qualquer um pode ser réu. Mas só podem ser juízes pessoas com comprovada superioridade moral, como apoiar regimes ditatoriais comunistas, tolerar a opressão das mulheres nas comunidades islâmicas, ou ter votado em José Sócrates. Ou seja, é preciso ser de Esquerda. O objectivo destes jogadores é identificar e punir pessoas que dizem coisas proibidas. Parecendo confuso, é muito simples: qualquer figura pública que faça a menor crítica à emigração, à segurança, aos ciganos e aos islâmicos está, pois claro, a fazer o Jogo do Chega. Logo, o juiz identifica-o, apoda-o de racista e xenófobo, e conclui triunfalmente que ele está a fazer o Jogo do Chega. E assim termina o jogo com um ponto de virtude para o jogadore um ponto de opróbrio para o jogadoréu que foi apanhado a proferir ‘o discurso do ódio’.
Nos jornais Público e Expresso estão os grandes-mestres do Jogo do Chega, os Bobby Fischer e Kasparov’s da identificação de quem está a fazer o Jogo do Chega. A argúcia destes jogadores é tal que conseguem até descodificar jogadas do Chega no discurso do autarca socialista Ricardo Leão. Isto está ao nível da famosa abertura de Capablanca.
No entanto, o Jogo do Chega tem-se complicado nos últimos tempos. De tal forma que mesmo os grandes-mestres começam a ter dificuldades em identificar quem está a fazer o Jogo do Chega. Estão baralhados com a entrada de novas vozes que, pelas regras, não deveriam falar à moda do Chega. O primeiro a baralhar os grandes-mestres foi Pedro Nuno Santos quando afirmou que os emigrantes devem respeitar a nossa cultura. Foi um choque blasfemo: os mansos a tornarem-se bravos e os últimos a quererem ser os primeiros. Então o líder mais à Esquerda do PS começa a repetir o discurso do líder mais à Direita do Parlamento?
Os grandes-mestres hesitaram, consultaram a consciência e depois calaram-se. Porque dizer que os emigrantes devem respeitar a cultura portuguesa tem um significado diferente consoante quem o pronuncia. Se for Ventura, é racismo. Se for Santos, significa que ele percebeu que o tema da emigração preocupa os portugueses. Tal como Capablanca identificava em segundos as ratoeiras colocadas pelos outros xadrezistas, os nossos grandes-mestres do Jogo do Chega perceberam que isto dos dirigentes do PS repetirem os avisos de Ventura não era fazer o Jogo do Chega. Era, sim, uma manobra estratégica destinada a combater o populismo do Chega. Ou a ganhar eleições através do voto popular.
Porque, no que diz respeito à emigração e à segurança, barracas e okupas, bom-senso e cumprimento da lei, a maioria dos portugueses está a fazer o Jogo do Chega.
Escritor