1. O mundo parece ter enlouquecido. Antigamente os líderes políticos empenhavam-se na paz. Hoje, líderes políticos, comentadores e comunicação social tudo parece ansioso por guerras. A Ucrânia e Gaza já não chegam. Agora parecem desejar uma guerra nos mares da China. São irresponsáveis. A invasão de Taiwan, que começa a ser falada, faria milhões de vitimas e provocaria uma incalculável catástrofe mundial.
Mas não haverá invasão. A não ser que haja uma intervenção exterior e o homem de negócios Trump não parece felizmente querer desencadear tal horror. Ou então que a direção chinesa enlouqueça, facto ainda mais improvável.
Os chineses de um lado e de outro do Estreito, que são os mesmos, convivem bem com o modelo de relações existentes, com o compromisso estabelecido desde Mao e Nixon. O tempo dos chineses não é como o meu de extremo ocidental, impaciente e ansioso. É um tempo sem tempo, longo, paciente, sem pressa.
2. Acresce que a guerra é uma das pragas que os chineses mais temem. Compreende-se. Desde o império fundador que a história da China foi a de uma resistência recorrente a invasões. Primeiro a hordas sem um comando unificado, que o exército chinês, organizado e com armamento superior, enfrentava facilmente. Depois foi a irresistível onda mongol, invasão em que pereceu um terço da população da China, 25 milhões! Na última invasão, a Manchú, pereceram dois quintos, 75 milhões! (A China tem os mais antigos, maiores e mais fiáveis arquivos historiográficos do planeta.)
Os chineses combateram sempre nos estados limítrofes, para consolidar e proteger as fronteiras, ou dentro do seu território, designadamente com as Potências Ocidentais (Guerras do Ópio) e o Japão, que quiseram ocupar-lhes território. O Xinjiang e o Tibete são ‘prolongamentos’ naturais da Grande Muralha da China. O Xinjiang é um território enorme na fronteira com os Estados islâmicos, ameaça de um islamismo devastador . Se o Tibete, onde nascem os três maiores rios da China, as ‘Fontes da China’, assim chamado pelos chineses, fosse ocupado por uma potência inimiga os seus exércitos desceriam num ápice até ao coração da China…
3. Na China, entretanto, o estatuto de direção política centralizada outorgado a Xi Jinping com a eleição de três mandatos na Presidência está a chegar ao seu termo. O 21.º Congresso do PCC em preparação irá nesse sentido. A China voltará a um modo de decisão colegial. A prioridade deverá ser de novo dada à reforma, ao desenvolvimento do setor privado e à abertura económica, de acordo com os princípios definidos em 1979 por Deng Xiaoping para a saída do maoísmo e a modernização do país. O objetivo será relançar o pacto político e social na origem dos ‘Quarenta Anos Gloriosos’, que levaram ao enriquecimento da China e dos Chineses, à partilha do poder na cúpula dirigente do Partido e do Estado, sem abrandamento do controlo das liberdades políticas, mas com o alargamento das liberdades económicas. Com o reequilíbrio do modelo económico, voltado para o consumo interno e ligado a um empenho para restabelecer a confiança das empresas e dos investidores estrangeiros.
Com o termo dos poderes concentrados em Xi Jinping, no momento em que os EUA parecem sucumbir à tentação da autocracia e da democracia iliberal, perdendo por isso poder e influência externa, a China poderá assim ganhar vantagem na disputa pela liderança no século XXI.
4. E quanto à guerra, como é vista na Civilização chinesa, pelos pensadores chineses fundadores da estratégia (século V a.C.) ainda hoje estudados em West Point e nas melhores escolas militares do mundo? Para os chineses a guerra ganha-se mesmo antes de ser travada, quando uma diferença de potencial a torna fácil. O grande general é o que consegue vitórias fáceis e não difíceis. Por isso na literatura chinesa não há uma epopeia. Numa civilização fundada na agricultura, o que há a fazer é esperar que o fruto amadureça e colhê-lo…