Os incêndios que hoje lavram no nosso país voltam a expor fragilidades antigas e bem conhecidas. É fácil apontar culpados de momento, mas a verdade é que muitos de nós, políticos, pouco fizemos para resolver este problema de fundo ou, pelo menos, para criar melhores condições para o evitar.
É preciso recuar alguns anos para perceber, por exemplo, que a extinção dos guardas florestais foi um erro grave. Esse corpo conhecia o território, prevenia, vigiava e atuava com proximidade. Mas a ânsia pelas chamadas “reformas do Estado” – que tantas vezes significaram apenas cortar na capacidade de intervenção pública – ditou o seu fim. Hoje pagamos um preço demasiado alto por essa decisão.
Não tenho dúvidas de que vários governos têm responsabilidade no ponto a que chegámos – incluindo governos do PS. Mas também não posso deixar de sublinhar que, apesar de tudo, a atitude perante os problemas não é igual.
Recordo que, quando caiu um helicóptero no Douro, o atual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, correu para lá, de zebro no rio, como se fosse um nadador-salvador em exibição. Já agora, perante os maiores incêndios da última década, manteve-se inicialmente de férias no Algarve e em comícios-festa a anunciar a Fórmula 1 em Portugal – um evento que custará pelo menos 50 milhões de euros aos cofres do Estado. Só mais tarde interrompeu as férias, pressionado pela dimensão da tragédia.
Para aqueles que falarão em retorno, deixo dois pontos claros:
Primeiro – A floresta tem muito mais retorno para a economia nacional do que qualquer corrida de carros. Dois terços do território português são floresta, sobretudo no Norte e Centro. Uma floresta que pode ser essencial para o desenvolvimento do território e para a sua coesão. Uma floresta que alimenta a fileira da madeira, do mobiliário, da construção civil e tantas outras indústrias. Um território trabalhado é um território protegido.
Segundo – Investir em meios de combate aos incêndios não é despesa. É salvar vidas, proteger casas, defender empresas e assegurar o futuro de comunidades inteiras. É valorizar o país.
Cada qual com as suas prioridades. Eu, que gosto muito de corridas – e quem me conhece sabe bem disso –, não hesito: quando está em causa a vida das pessoas, a proteção da floresta, a criação de emprego e a valorização do nosso território, que se lixem as corridas.
Presidente da Federação Distrital do PS do Porto