Não preciso de escolher bem as palavras para falar da Tegui. Não há hesitação que me ocorra. Basta uma palavra para a definir. Essa palavra é amor. Não a escolho ao acaso. O amor de que falo é o amor inteiro, como São Paulo o descreveu aos Coríntios: paciente, que não se envaidece, que não procura o seu interesse, que tudo desculpa, tudo crê. Amor no princípio; e amor sempre.
A Tegui era amor. Vinha sempre de ajudar alguém e já ia a caminho de ajudar outro. Havia sempre alguém à sua espera: um amigo aflito, uma família em apuros, ou aquela senhora num sítio recôndito que lhe tinha escrito. Havia quem lhe telefonasse a pedir ajuda para arranjar uma cama articulada, outros para conseguir que a carrinha da junta passasse a tempo, ou até para saber a quem recorrer porque a lâmpada da rua não era mudada há meses. Como na parábola do Bom Samaritano, ela não perguntava de onde vinham, quem eram, ou se mereciam: apenas ajudava. Não conheço imagem mais fiel da sua vida.
“Ter um anjo entre nós não é cómodo”, escreveu a Maria Gabriela Llansol. E não é: confronta-nos com aquilo que deixamos por fazer, com a medida do que poderíamos dar e não damos. A Tegui, sem o saber, lembrava-nos disso.
Foi a primeira Governadora Civil a ser conhecida pelo nome — e conseguiu a proeza de transformar um dos cargos mais cinzentos do Estado num vendaval de energia e proximidade. Ia a todo o lado, com a pressa de quem não suportava ver problemas por resolver.
Como Secretária de Estado da Segurança Social, não se limitou a despachar dossiers: conhecia as instituições, os dirigentes, os trabalhadores; sabia nomes, rostos, histórias. E foi ela quem começou o cruzamento de dados entre a Segurança Social e as Finanças, que durante anos ninguém fizera avançar.
No Parlamento lutou — e conseguiu — que as mulheres tivessem acesso à vacina contra o HPV no plano nacional de vacinação. Lutou — e conseguiu — que todos pudessem comprar genéricos em vez de ficarem limitados aos medicamentos de marca. Conquistas que se devem à sua incansável persistência, feita de perguntas, recomendações e diplomas, e à sua recusa em desistir. São medidas que levam o nome da Tegui e que lhe ficarão associadas.
Vivemos tempos estranhos. Procurar consensos parece suspeito, ter amigos em vários quadrantes soa a traição, dialogar é uma fraqueza. A Tegui era o contrário de tudo isso. Fazia política sem trincheiras. Não escondia convicções, mas também não levantava muros. Tinha a rara liberdade em política de ser amiga sem pedir cartão. E por isso era respeitada por todos — da esquerda à direita, da portaria do Parlamento aos Presidentes que tão brilhantemente serviu. Poucos políticos conseguem gerar uma emoção tão transversal; menos ainda os que nunca procuraram ser consensuais. A Tegui conseguiu-o com a sua profunda humanidade. Num tempo em que a crispação é regra, ela foi a excepção luminosa do diálogo.
Com a Tegui, tanto se falava da canção da Dina na Eurovisão como de um ensaio da Anne Applebaum. Num instante discutia as sombras morais de Graham Greene e no seguinte ria-se de uma comédia banal. Num Mundo feito de rótulos, recusava viver fechada numa gaveta. “Não gosto de posturas dogmáticas. A vida não é como vem nos livros” dizia ela. Tony Judt chamou-lhes edge people: os que vivem nas margens, entre mundos, sem se deixarem prender. A Tegui era isso: viveu entre tribos sem se deixar reduzir a nenhuma, e foi isso que a fez maior.
Havia depois esta outra dimensão da Tegui: a capacidade de nos ampliar. Ninguém saía de uma conversa com ela a sentir-se menor; saíamos a acreditar que podíamos tudo. Como seu adjunto no Governo pude ver como sabia encontrar o melhor em cada um e, com isso, ergueu um gabinete extraordinário. Era para ela que remetíamos os jornalistas que queriam escrever o nosso perfil: se falassem com ela, sabíamos que o retrato nos faria mais brilhantes do que merecíamos. Elogiava-nos com a sinceridade desarmante do amor. Nunca era lisonja — e se fosse, notar-se-ia, porque a Tegui mentia mal. Um dia pediu-me músicas intelectuais para levar a uma entrevista na rádio. Mas em directo não aguentou e confessou que eram minhas. Só à Tegui ocorreria pedir a um fã da Eurovisão que lhe sugerisse músicas intelectuais…
A Tegui era a nossa amiga genial. E a genialidade não é barulho, é claridade: é ver o que outros não vêem, dizer o que falta, rir no ponto exacto. Ela nunca pareceu certa dessa genialidade. Disfarçava-a com humor, ria-se de si própria como quem tenta reduzir a grandeza a leveza. Mas cada piada, cada resposta, cada referência certeira revelava o génio. O humor era a forma mais fulgurante da sua inteligência.
Na actual política portuguesa, raros foram os que, como a Tegui, nos desconcertaram tanto, obrigaram tanto a pensar de novo. Não se refugiava em certezas; sabia que a grandeza do mundo está na multiplicidade de vidas possíveis e no direito de cada um construir a sua. Foi nessa visão que nasceu a nossa cumplicidade. E foi a mão dela que procurei no dia da votação mais difícil da minha vida parlamentar. Foi de mão dada com ela que votei.
A morte de um amigo genial deixa sempre uma marca particular: uma auréola de inacabado, como escreveu a Agustina. É assim que nos sentimos hoje: com um espaço por preencher, com o vazio que só deixam aqueles que participam da genialidade.
Texto lido na missa de corpo presente de Teresa Caeiro, na Igreja de São Roque, em Lisboa, no dia 21 de Agosto