A casa do mestre da luz

A Casa-Museu Sorolla, em Madrid, é um lugar encantado que deixa saudades.

A luz forte do nosso Verão e o reflexo do seu brilho no mar lembra-se sempre as extraordinárias pinturas de praia de Sorolla, como Chicos en la playa, que está no Museu do Prado, ou El baño del caballo, que está na Casa-Museu do pintor valenciano, ambas de 1909.

Confirmando a marcha implacável do tempo, noto que foi há uma década que percorri atentamente o seu museu, um local onde me senti em casa e pelo qual me apaixonei. Vale, por isso, a recordação de uma visita memorável.

Descobrir a Casa-Museu Sorolla entre os prédios do Paseo del General Martínez Campos, no bairro de Almagro, em Chamberí, é entrar num pedaço de paraíso que resiste à pressa e agitação do mundo contemporâneo. Temos a honra de ser convidados em casa de um dos pintores que melhor soube registar a luz. Sorolla é um talentoso mestre que se tornou intemporal e a sua obra deve ser visitada e revisitada.

Joaquín Sorolla y Bastida (1863-1923), pintor pós-impressionista, foi o mais importante do chamado luminismo valenciano e as suas obras mais conhecidas captam a luz de uma forma envolvente, que se mistura com o movimento do vento, e revelam expressões que nos prendem. No aparente realismo dos seus quadros há um mistério que nos intriga e que nos leva a olhar mais fundo, numa descoberta pessoal.

É assim um privilégio ver as suas obras naquela que foi a sua casa de família e onde pintava, construída entre 1910 e 1911 segundo o projecto do arquitecto Enrique María Repullés, a quem Sorolla deu indicações preciosas para as entradas de luz. Em 1925, a viúva do pintor, Clotilde García del Castillo, deixou em testamento os seus bens ao Estado espanhol para a criação de um museu em homenagem ao seu marido. A Casa-Museu Sorolla foi assim fundada em 1933 e teve como primeiro director o filho do pintor, Joaquín Sorolla García.

Aqui podemos encontrar uma extensa colecção de obras, que cobrem todas as fases da vida de Sorolla, bem como os seus objectos pessoais e de trabalho. No atelier podemos ver a sua secretária e o local onde pintava. As paredes estão repletas de quadros, em que se destaca o magnífico Paseo a orillas de mar (1909), a obra mais conhecida da colecção do museu, mas há ainda estantes com variados objectos. No interior da cama coberta por grossas cortinas que aí se encontra, descobrimos uma prateleira com livros e, entre os clássicos, vemos um volume do nosso Eça de Queirós. As divisões térreas têm uma fotografia antiga que mostra o seu estado original e, no irresistível exercício comparativo, confirmamos com agrado que as semelhanças ultrapassam as diferenças.

Sorolla era um homem de família, o que se sente nos vários quadros onde retrata a sua mulher e os seus filhos. A sua obra tem ainda um lado etnográfico, ao registar os trajes e os costumes da sua Valência natal. Foi também retratista e paisagista. Um pintor completo e excepcional que nos abriu portas.

A sua casa é um local encantado que deixa saudades e a proximidade da capital espanhola impõe que uma nova visita não tarde.